Noiva do Cordeiro

Como uma fake news transformou uma pequena e especial vila em um falso paraíso das "mulheres solteiras"

Marcos Candido Da Universa, em Belo Vale (MG)

O distrito de Noiva do Cordeiro, que pertence ao município de Belo Vale, se esconde entre morros e plantações, em uma área isolada que seus moradores costumam chamar de “pedacinho do céu”. Lá vivem cerca de 300 pessoas, que dividem entre si aquilo que colhem - pimenta, mexerica, café, maracujá - e aquilo que sentem. Para chegar em Noiva, a partir de Belo Horizonte, é preciso percorrer 120 quilômetros por estrada de terra, entre riachos e cidadezinhas. Sem dúvida, um lugar isolado.

O que a paisagem não conta é que a maioria dos moradores da lá é mulher. E isso não faz muita diferença no que diz respeito ao trabalho: elas são estimuladas a serem professoras, agricultoras, artistas e líderes políticas -- e mães, esposas e donas de casa também, se quiserem. Parece moderno, mas nem sempre foi assim.

O lugar ganhou fama recente quando, em 2014, um repórter inglês tomou um avião às pressas até Noiva. O que mais lhe chamou a atenção foi o boato de que lá havia um grande grupo de mulheres desacompanhadas. E foi assim, a partir de um grande mal-entendido, que o local isolado se tornou conhecido no mundo inteiro.

Assista: "O dia em que o gringo entendeu tudo errado"

Desesperadas para casar?

O repórter Harry Wallop, do tabloide inglês “The Telegraph”, produziu uma reportagem sobre a vila, narrando e aparecendo em um vídeo com pouco mais de três minutos de duração.

Andando por uma plantação de mexerica rodeado por mulheres, ele anuncia que elas estavam “desesperadas para casar”, à espera de “um cara como ele” para suprir a suposta falta de homens do lugar.

“Aqui, todos os moradores são mulheres. Ao menos durante a semana”, diz para a câmera. O título da matéria foi ainda mais agressivo: “Por dentro da vila só de mulheres desesperadas por homens”. Nas entrevistas, ele pergunta se ele seria um “bom partido”. Educadamente, uma delas sorri e diz que, bem, sim.

“Eu conversei bastante com ele, tinha um intérprete. Achava lindo aquele idioma, né?”, relembra Márcia Fernandes, agricultora e cantora famosa na região. Ela integra a dupla sertaneja Márcia e Maciel.

Assim que foi ao ar, a reportagem se tornou um sucesso absoluto - e ganhou contornos cada vez mais exagerados. Além da Inglaterra, foi publicada em jornais e sites da China, Japão, Singapura, Israel, Quênia, Alemanha, Polônia, Bolívia, Argentina, Chile, Paquistão e ficou muito popular entre os indianos. 

O mundo quer falar com elas

Dias depois da veiculação da matéria na gringa, o agricultor Aroldi “Canela” Fernandes correu assustado para atender ao único orelhão de Noiva do Cordeiro logo pela manhã. “Uai! Eu me lembro de ter atendido três ligações. Uma eu sei que era em inglês. As outras, nem sei descrever, uma língua muito estranha”, relembra.

A professora, bailarina e agricultura Karol Fernandes, hoje com 20, levantou cedo com smartphone vibrando sem parar. “Entrei no ‘Face’ e tinha muito, muito pedido de amizade. Quando fui conversar com as meninas, estava todo mundo comentando o mesmo. Depois, a gente descobriu que foi por conta de uma matéria dizendo que as mulheres daqui estavam procurando marido”, diz, meio surpresa.

O mesmo aconteceu com a artista Keila Fernandes, famosa pelo cover de Lady Gaga. “A maioria [das mensagens] dizia que as mulheres da comunidade são muito bonitas. E que, se eu não quisesse casar, poderia ser alguma outra menina daqui”.

Peregrinação por uma noiva em Noiva

Além das mensagens, nos meses (e até anos!) após a reportagem, começaram a chegar pretendentes. “Vieram pessoas de todos os países que eu pudesse um dia imaginar”, relembra a cantora Márcia.

Um “moço da Arábia”, com um intérprete a tiracolo. Um israelense curioso, querendo checar se a história era verdadeira -- e se dizia soldado do Exército. “Mas quando viu a primeira onça que apareceu no meio do mato, saiu num pinote...”, riem os moradores. Respeitosos, eles foram bem recebidos, mas voltaram solteiros para casa.  

Os moradores jamais imaginariam que o distrito, que por décadas sofreu com o preconceito e o isolamento, seria admirado e procurado por visitantes de culturas tão distantes e idiomas tão diversos.

Os pretendentes já estavam fazendo as malas...

Olá, eu sou um indiano e amo Noiva do Cordeiro. Sou solteiro, tenho 27 anos e quero casar. Me adicione no Facebook.

Sidarta, da Índia

Sou da Colômbia e nunca tive uma namorada. Gostaria de ter uma mulher de casa e amorosa, para ela ser quem é. Segue meu WhatsApp.

Guilherme, da Colômbia

Que história é essa que Noiva do Cordeiro só tem solteira? É tipo a terra da Mulher-Maravilha? Já estou fazendo as malas.

Daniel, do Brasil

Olá, eu sou homem solteiro e tenho 30 anos e nunca me casei. Sou garoto do Paquistão. Procuro uma esposa. Por favor, que tenha entre 18 e 50 anos de idade, solteira ou viúva. Ou mulheres divorciadas, com ou sem filhos. Sou muçulmano.

Niti, do Paquistão

Mulheres fortes desde o começo

Noiva do Cordeiro surgiu de um amor e de um divórcio. No fim do século 19, Maria Senhorinha de Lima se casou com o francês Arthur Pierre, por imposição da família. Apaixonada por outro, ela era corajosa para sua época: se separou e foi viver com o amante, Chico Fernandes.

"Nisso de separar e amigar, ela sofreu uma discriminação grande, inclusive da Igreja Católica, que não aceitou os dois", conta Canela, que reproduz o que é passado há gerações - ele é descendente de Chico. Dizem que o padre da região excomungou até a quarta geração da família de Senhorinha.

'Amigada', Senhorinha saiu de Roças Novas, onde morava, e se mudou com Chico para o vilarejo que, na época, nem nome tinha. Fundado por uma divorciada, aquelas que ali nasceram nos anos seguintes - Senhorinha teve nove filhos - foram chamadas de prostitutas e adúlteras.

Um pastor que queria botar ordem

Nos anos 50, por lá chegou um pastor chamado Anísio Pereira. Ele tinha 43 anos, e se casou com dona Delina, umas das netas de Senhorinha, ainda muito jovem, e eles tiveram mais de dez filhos. Anísio escolheu a terra da esposa para fundar a igreja Noiva do Cordeiro e a fama do templo acabou dando nome ao povoado.

Sem muitas referências de como uma religião deveria ser, criou a própria, meio inspirado nos evangélicos, religião incomum na época. “Nesse período, ninguém trabalhava direito. Era só rezar, orar e e pregar”, relembra Canela.

A música foi proibida. As mulheres foram obrigadas a usar roupas que não mostrassem o corpo. Outrora com má fama, o pastor dizia que só os moradores iriam para o céu. Católicos -- aqueles que não perdoaram o romance de Senhorinha por gerações -- já achavam o contrário, e seguiram discriminando os evangélicos.

Noiva queria dançar e trabalhar

No começo dos anos 90, os moradores fizeram uma assembleia. Impedidos de dançar e trabalhar por décadas, havia o desejo de dar um fim na igreja. Em viagens a Belo Horizonte e a vilas vizinhas, as mulheres ouviram canções que nunca tinham sido permitidas. Ali surgiu um desejo de mudar.

“O pessoal começou a se conscientizar aqui: tinha muita coisa boa da igreja, mas o fanatismo precisava acabar. Por que acreditar que só aqui estávamos certos e o resto do mundo errado? Como que só umas famílias aqui do interior estariam salvas e o resto não?”, questiona Canela. Surpreendentemente, o pastor aceitou a decisão de seu povo. A igreja foi fechada, e até hoje Noiva do Cordeiro crê em Deus, mas vive sem religião.

Uma sociedade do jeito que a mulher acreditava

Com a morte do pastor nos anos 90, a viúva Dona Delina pegou mandamentos deixados aqui e ali durante os anos evangélicos. Com algumas referências de como uma sociedade deveria ser, fundou a própria, do jeito que acreditava.

Assim, eles criaram um distrito sem religião, uma associação de moradores e um profundo zelo e amor ao próximo. Tudo que é produzido na lavoura é consumido de maneira igualitária entre todos e a quem chegar. Há liberdade para se dançar, vestir e ser quem se deseja e sonha.

Mulheres se tornaram candidatas a vereadoras de Belo Vale, e reivindicaram respeito e o que realmente acreditam. Elas se casam, se quiserem, e ‘descasam’, se quiserem. “Povoados simples como o nosso são mais radicais sobre quem tem que se casar, ser dona de casa, só mãe ou cozinheira. Aqui não: a mulher é muito evoluída e livre”, contou Márcia, a cantora sertaneja.

Internet, arte e liberdade

Em 2006, Noiva ganhou o primeiro sinal de internet e abriu a porteira para ideias ainda mais inéditas.

Inspiradas, as mulheres se tornaram cantoras, musicistas, artistas, dançarinas. Keila Fernandes, filha do pastor, faz cover de Lady Gaga. “Comecei a pesquisar na internet e me encantei com o trabalho da Lady Gaga. Ela não tem preconceito... Tem liberdade... Aqui, a gente é livre... Livre de tudo”, diz. Conquistou um fã clube que a apoia e encara viagens até São Paulo e Belo Horizonte para apoiá-la.

Onde a música era proibida, agora há o tradicional “Sábado da Viola”, em que os artistas de Noiva se apresentam. Se antes eram obrigadas a abotoar as blusas até o pescoço, hoje dançam em maiôs reluzentes, bordados por elas mesmas.

Debates, jantares e aflições são discutidos na 'Casa Mãe', um espaço comunitário com quartos, uma grande cozinha e uma longa mesa em que todos comem o que é cultivado em Noiva, do café, sempre borbulhante a cada meia-hora, ao arroz e feijão. Assuntos não muito bem resolvidos são estimulados ao diálogo, ao perdão.

Em 2008, o documentarista Alfredo Alves fez um filme falando sobre o local e ritos, voltando um pouco as atenções do Brasil para lá. 

Sem preconceitos: eles ajudam os gays a se entenderem

Pedro Fernandes, 21, professor de ciências, ator, stand-up comedy, bailarino e gay, escolheu um daqueles dias permanentes de comunhão de Noiva para se abrir sobre sua sexualidade. Ele tinha 13 anos.

“Eu não entendi isso de não ser bem aceito, até que fiz 16 anos e fui estudar em Belo Horizonte para terminar o ensino médio”, relembra. “Lá, percebi que muitos faziam um teatro 24 horas sobre quem são de verdade, por medo da reação das pessoas", diz.

Percebi que quando um gay assume homossexualidade lá fora, tem de explicar para as pessoas o que ele é. Aqui, não. As pessoas me ajudaram a entender quem eu era”.

Casar ou não é detalhe: é o amor que motiva a fama

Se a fama falsa de um paraíso de mulheres solteiras a busca de homens incomoda? Nem um pouco. “A gente buscou o lado bom da situação”, diz Pedro. “Claro, nós não estávamos loucas para casar, mas a matéria foi uma coisa positiva. As pessoas que vieram procurando casamento e conheceram a nossa história, nossa forma de vida”, diz Keila “Gaga”.

Rosalee Fernandes, uma das filhas de dona Delina e Anísio, não gosta de dizer que uma notícia falsa tornou famoso o lugar onde mora. “Ficamos conhecidos pelo nosso modo de viver e pelo amor. Isso aqui é uma família”, diz. “E a família Noiva é muito grata à mídia pelo apoio em uma época muito difícil de exclusão em que vivíamos”.  Sem ressentimentos.

Mulheres de fato trabalham nos enormes campos de mexerica e pimenta que cortam a área de lavoura de Noiva, como mostrou o vídeo do jornalista inglês. Mas, procurar homem não parece estar entre suas principais preocupações. Quando o sol cai por entre as árvores, o horizonte se torna uma mescla de laranja, verde e vermelho, sob um silêncio interrompido apenas pelos pássaros. Elas parecem estar bem sossegadas nesse cenário, distantes da descrição de desespero, repassada por aí.

Por ora, nenhum gringo se casou em Noiva, mas mais de trinta reportagens chegaram por lá desde a notícia, com pessoas da América a Ásia. Dizem que muitos correspondentes esquecem da ideia original de registrar a “vila das mulheres solteiras”. Preferem passar para frente a verdadeira notícia: isolado entre morros e décadas de histórias mentirosas, existe um lugar onde moradores dividem tudo o que colhem e tudo o que sentem.

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