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Múmia de criança pode ser prova mais antiga de infecção por hepatite B

Restos mumificados de criança que foi enterrada na Basílica de São Domingos Maior, em Nápoles, Itália - Gino Fornaciari/University of Pisa via The New York Time
Restos mumificados de criança que foi enterrada na Basílica de São Domingos Maior, em Nápoles, Itália Imagem: Gino Fornaciari/University of Pisa via The New York Time

Nicholas St. Fleur

02/02/2018 15h12

Marcada com lesões na face seca e lúgubre, a múmia infantil de quase 500 anos enterrada em uma igreja em Nápoles, Itália, era tida como uma das provas mais antigas de varíola durante o período do Renascimento italiano.

Contudo, após décadas do primeiro exame conduzido por pesquisadores, um grupo de cientistas tentou outro viés nos restos mortais da criança e descobriu que ela muito provavelmente sofria de um flagelo muito diferente: o vírus da hepatite B.

Divulgada pelo periódico "PLOS Pathogens", a descoberta fornece novas provas de que o vírus da hepatite B aflige os humanos há séculos. Hoje em dia, mais de 250 milhões de pessoas vivem com o vírus no mundo inteiro, que matou quase 900 mil pessoas em 2015, principalmente de doenças no fígado, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

"Esse bichinho comum e perverso está conosco há pelo menos 500 anos, e suspeito que esteja aqui há milhares de anos", afirma Edward Holmes, biólogo evolutivo da Universidade de Sydney, Austrália, e um dos autores do documento.

A criança mumificada, que morreu com dois anos de idade, foi enterrada na Basílica de São Domingos Maior, em Nápoles, no século XVI. Os pesquisadores que trabalharam lá reconhecem alguns dos desafios emocionais ao estudar os restos mortais da criança.

"Existe um vazio como se essa dor fantasma ainda estivesse ali, o que é fascinante de uma perspectiva científica, mas horrorosa se pensarmos como pais", diz Hendrik Poinar, geneticista evolutivo da Universidade McMaster, em Ontário, Canadá, e um dos autores do documento recente.

Na cripta, o caixão da criança jaz ao lado de dezenas de outros caixões de madeira, alguns dos quais continham os corpos de príncipes aragoneses e nobres napolitanos. Seus cadáveres foram vestidos com tecidos decorados e seda preciosa. Muitos foram embalsamados, mas alguns se mumificaram naturalmente em função do ambiente seco da basílica.

"As múmias de São Domingos Maior são únicas na Itália não apenas pela antiguidade e excelente estado de preservação dos corpos, como também pela fama dos personagens, cuja vida e causa de morte eram bem conhecidas", diz Gino Fornaciari, paleopatologista da Universidade de Pisa e um dos autores do estudo.

Fornaciari estudou a múmia infantil pela primeira vez na década de 1980. Usando microscópio eletrônico, encontrou o que achava serem traços de varíola em seus restos mortais. Desde então a criança tem servido de exemplo dos primeiros casos da doença na Europa. Isso a tornou um alvo cobiçado para Holmes e colegas que tentavam mapear a cronologia e a diversidade do vírus da varíola.

Em 2016, Holmes e equipe encontraram traços de varíola em uma múmia lituana do século XVII. Ao reexaminar a múmia napolitana com ferramentas moleculares, esperavam fazer recuar em cem anos a cronologia da enfermidade na Europa.

"Essa era a esperança, que seria um gol de placa. Só que nunca é um gol de placa quando essa é a expectativa", afirma Poinar.

Pelo contrário, quando sequenciaram o genoma da múmia infantil e realizaram a análise molecular, não foi encontrado nenhum traço do vírus da varíola. Entretanto, foram descobertas provas do vírus da hepatite B.

A princípio, não prestaram muita atenção à descoberta. Então, os cientistas perceberam que um sintoma da infecção da hepatite B em crianças é uma reação cutânea na face chamada de síndrome de Gianotti-Crosti. Eles pensaram que o vírus da hepatite B poderia ter causado as marcas no rosto mumificado.

Lesões em múmia de criança que foi enterrada na Basílica de São Domingos Maior - Gino Fornaciari/University of Pisa via The New York Times
Lesões em múmia de criança que foi enterrada na Basílica de São Domingos Maior
Imagem: Gino Fornaciari/University of Pisa via The New York Times

Após realizar outra análise molecular, constatou-se que a informação genética extraída do vírus antigo da hepatite B se parecia com o genoma moderno da doença. Para os pesquisadores, era um claro indício de contaminação.

Eles passaram um ano e meio tentando descobrir se o vírus encontrado era realmente da hepatite B antiga ou se, pelo contrário, haviam achado uma contaminação causada por um dos pesquisadores que analisaram a múmia nos anos 1980. Como as infecções por hepatite B eram comuns na Itália daquela época, Poinar diz que seria possível que o vírus encontrado sinalizasse uma contaminação.

Análises posteriores demonstraram que o material genético do vírus da hepatite B encontrado na múmia estava danificado da mesma forma que a informação genética da própria múmia. Isso indicava que ele era igualmente antigo. Todavia, para corroborar o palpite, a equipe realizou uma análise evolutiva utilizando diversas outras cepas antigas do vírus, e constatou que o vírus evolui muito lentamente. Isso sugere que, em um período de 500 anos, o vírus da hepatite B pouco mudou.

Poinar e Holmes dizem ter confiança de talvez terem encontrado a prova mais antiga de uma infecção por hepatite B na Itália, mas sem excluir por completo a possibilidade de contaminação.

"Tenho entre 80 por cento e, talvez, 90 por cento de certeza de que não é contaminação", afirma Poinar.