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Por que Marte está liberando gás normalmente emitido na Terra por ser vivo

Cratera Gale, de Marte, onde cientistas detectaram gás metano -
Cratera Gale, de Marte, onde cientistas detectaram gás metano

Kenneth Chang

Do NYT

07/04/2019 15h34

Resumo da notícia

  • Cientistas comprovaram a existência de gás metano em cratera de Marte
  • Como ele se deteriora depressa, sua criação ocorreu recentemente
  • Há duas hipóteses: o gás foi gerado por uma forma de vida ou geologicamente

O gás metano flutua pela atmosfera de Marte com certa periodicidade. Essa afirmação, antes considerada implausível e desconcertante, hoje é amplamente aceita pelos cientistas planetários.

Por que o metano está lá segue sendo um mistério. Pode até apontar para a existência de micróbios marcianos vivendo nas rochas sob a superfície.

Em uma recente edição da revista Nature Geoscience, cientistas que trabalham com a sonda Mars Express, da Agência Espacial Europeia, relataram que, na metade de 2013, a espaçonave detectou metano na Cratera Gale, uma depressão com 155 km de largura perto do equador marciano. O fato é notável, pois o veículo explorador Curiosity da NASA percorre a região desde 2011 e, na mesma época de 2013, também mediu um aumento acentuado de metano no ar que durou pelo menos dois meses.

Nossa descoberta constitui a primeira confirmação independente de detecção de metano

Marco Giuranna, cientista do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália

Giuranna é o principal investigador do instrumento da Mars Express que fez as medições. A presença de metano é significativa porque o gás deteriora rapidamente. Cálculos indicam que a luz do sol e reações químicas presentes na fina atmosfera de Marte quebrariam as moléculas dentro de algumas centenas de anos; portanto, qualquer metano detectado deve ter sido criado recentemente.

Pode ter sido por meio de um processo geológico conhecido como serpentinização, que requer calor e água líquida. Ou, ainda, pode ter sido causado por uma forma de vida - especificamente os micróbios metanogênicos, que liberam metano como produto residual e prosperam em locais com escassez de oxigênio, como rochas localizadas no subterrâneo profundo e no trato digestivo de animais.

Mesmo que a fonte do metano seja geológica, os sistemas hidrotermais responsáveis pelas emissões continuariam sendo os locais principais para procurar sinais de vida.

Quinze anos atrás, três equipes de cientistas relataram ter detectado metano na atmosfera marciana. Duas usaram observações a partir da Terra; a terceira, dados do Mars Express. Todas as medições foram feitas no limite da capacidade dos instrumentos. Dois anos depois, o metano parecia ter desaparecido. Se aquele achado estivesse correto, não significaria apenas que algo estava criando metano em Marte, mas que havia outra coisa destruindo o gás rapidamente.

Visão de uma região de Marte cheia de crateras fotografada pela Agência Espacial Europeia  - NYT
Visão de uma região de Marte cheia de crateras fotografada pela Agência Espacial Europeia
Imagem: NYT

A missão Curiosity, a princípio, levantou mais dúvidas sobre as alegações em relação ao metano, pois detectou uma pequena quantidade do gás, cerca de 0,7 parte por bilhão. Então, em 2013, os níveis subiram em uma razão de 10. Em janeiro seguinte, caíram e voltaram a menos de 1 parte por bilhão. O metano desapareceu tão velozmente, e a quantidade usual é tão baixa, que agora cientistas estão tentando explicar como o metano pode ter sido destruído de maneira tão acelerada.

Na nova pesquisa, estudiosos analisaram as rotas que o Mars Express fez na Cratera Gale durante os primeiros 20 meses da missão Curiosity. Apenas em uma observação do orbitador foi detectado metano. Porém, em 16 de junho de 2013, o instrumento mediu aproximadamente 15 partes por bilhão do gás. Um dia antes, a Curiosity também tinha aferido elevados níveis de metano.

Isso reafirma a hipótese de que Marte está ativo no momento presente

Sushil Atreya, cientista planetário da Universidade de Michigan e membro da equipe científica da Curiosity

As descobertas do Mars Express também apontam na direção de uma possível fonte de metano cerca de 480 km a leste de Gale. Nessa região, deve existir gelo imediatamente abaixo da superfície.

O metano poderia ser expelido episodicamente por meio de falhas geológicas que causam a quebra do permafrost em consequência do derretimento parcial de gelo

Marco Giuranna

Se for verdade, pode ser um local tentador para uma próxima espaçonave tentar desvendar o mistério do metano.

Atreya não está tão seguro dessa conclusão, que envolve suposições sobre o clima de Marte. Para os cientistas da Curiosity, o metano originou-se dentro da Cratera Gale, ao norte do veículo explorador.

A Trace Gas Orbiter, uma nova espaçonave europeia que contém um detector de metano mais sofisticado, está em órbita desde 2017, mas nenhum resultado foi relatado ainda.

Acredito que o jogo ainda não acabou

Michael Mumma, cientista do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, em Greenbelt, Maryland

Ele liderou observações no solo que identificaram plumas de metano na atmosfera de Marte em 2013. "A história continua evoluindo e, agora, evoluindo rápido."

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