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Cientistas apagam memória de ratos para diminuir vício em cocaína

Carreiras de cocaína; cientistas descobriram que é possível evitar que viciados tenham uma recaída ao apagar memórias relacionadas ao vício.  - Getty images
Carreiras de cocaína; cientistas descobriram que é possível evitar que viciados tenham uma recaída ao apagar memórias relacionadas ao vício. Imagem: Getty images

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

24/01/2019 17h38

Livrar-se de um vício não é fácil. Pesquisadores norte-americanos encontraram um jeito de evitar que adictos tenham uma recaída: apagar as memórias deles que estejam associadas à droga.

Foi o que fizeram psiquiatras da Universidade de Pittsburg. Só que, em vez de seres humanos, usaram ratos. Os cientistas deletaram lembranças de ratos viciados que remetiam à cocaína. Depois disso, viram que os bichos não se deixavam levar por estímulos fortemente ligados à droga.

O estudo que descreve a experiência foi publicado nesta terça-feira (22) na revista Cell Reports

Primeiro, os cientistas condicionaram ratos já viciados em cocaína a pressionar uma alavanca para receberem uma dose. Sempre que faziam isso, um som era emitido e uma luz, disparada. 

A sequência de eventos criou um hábito: assim que notavam o som e a luz, os ratos corriam para acionar a alavanca, na expectativa de que o pó surgisse.

Depois de já terem adaptado os ratos a esse gatilho, os cientistas pararam de recompensá-los com a droga. Não adiantava que os bichos pressionassem a alavanca após perceberem o som e a luz. Com o tempo, as cobaias pararam de reagir aos gatilhos e simplesmente não se importavam em pressionar a alavanca.

Só que, assim que foram movidos para um ambiente diferente, os ratos voltavam ao velho hábito, com o intuito de manter o vício ativo: era ouvir o som característico e ver o flash, que se direcionavam para a alavanca.

Em paralelo a essas observações, os cientistas analisaram também as partes dos cérebros dos ratos que associavam o som e a luz à cocaína. Descobriram que a relação entre uma coisa e outra ocorria devido à conexão entre duas regiões do cérebro, o núcleo geniculado medial e a amígdala lateral.

A amígdala é onde as memórias emocionais são formadas. Ela recebe informações sensoriais e associa essa entrada com o que sentimos quando as pistas são apresentadas a nós

Matthew Rich, pesquisador da Universidade de Pittsburg

A partir daí, os pesquisadores manipularam alguns neurônios dos ratos para apagar memórias ligadas ao uso de cocaína. Eles optaram por optogenética, uma técnica que, em resumo, usa feixes de luz para ativar ou desestimular atividades de algumas células.

Depois do procedimento, os ratos desmemoriados passaram a recorrer com bem menos frequência à alavanca ao ouvir o som e ver a luz. Ou seja, o gatilho que os lembrava da cocaína deixou de surtir efeito. Esse comportamento persistiu ainda que os bichos fossem transferidos para outro ambiente.

Os cientistas acreditam que essa linha de pesquisa pode ajudar viciados em recuperação a não terem recaídas.

A longo prazo, essas descobertas podem nos ajudar a desenvolver drogas ou abordagens como a estimulação cerebral profunda para direcionar especificamente essas memórias fortalecidas pelo uso de substâncias e melhorar o sucesso de terapias para prevenir recaídas

Mary Torregrossa, pesquisadora da Universidade de Pittsburg