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Cientistas revelam que cérebro humano cria novos neurônios até os 90 anos

25/03/2019 16h02

Madri, 25 mar (EFE).- O cérebro humano segue produzindo novos neurônios até os 90 anos em uma região especializada, o giro dentado, é o que diz uma descoberta realizada por uma equipe de cientistas da Espanha.

O estudo, divulgado na revista especializada "Nature Medique", foi coordenado por María Llorens-Martín, do Centro de Biologia Molecular Severa Ochoa, da Universidade Autônoma de Madri/CSIC, e foi realizado em colaboração com cientistas do Centro de Pesquisa Biomédica em Rede em Doenças Neurodegenerativas, a Fundação CIEN e a Universidade Europeia de Madri.

A criação de novos neurônios durante a vida é um processo muito importante para a medicina moderna porque está relacionado com a memória, a aprendizagem e as doenças neurológicas.

Até há pouco tempo, existia um consenso praticamente generalizado de que o cérebro produzia neurônios novos durante a vida adulta e o debate girava em torno de determinar a quantidade.

No entanto, um estudo publicado na revista "Nature" no ano passado determinou que o desenvolvimento de neurônios no hipocampo sofre desaceleração com o passar dos anos e é interrompido totalmente na vida adulta.

O trabalho coordenado por María Llorens-Martín do Centro de Biologia Molecular Severa Ochoa, demonstra que os resultados contraditórios encontrados até agora por diferentes grupos se devem ao tratamento químico (fixação) aos quais as amostras de tecido são submetidas antes de um estudo para evitar sua degradação.

"O nosso trabalho mostra pela primeira vez que a maneira em que o tecido é tratado e processado condiciona profundamente a visualização de novos neurônios no hipocampo humano", explicou a pesquisadora à Agência Efe.

A investigação utilizou amostras de tecido cerebral 'post mortem' de 13 sujeitos neurologicamente saudáveis com entre 43 e 87 anos de idade e 45 pacientes com Alzheimer (nos seis estágios da doença) de 52 a 97 anos.

Para a pesquisa, os cientistas extraíram o hipocampo dos cérebros e o dividiram em vários fragmentos que foram submetidos a tempos de fixação diferentes.

"Vimos que, com tempos de fixação superiores a 12 horas (o que é bastante curto para as práticas frequentes), os mesmos pacientes que exibiam muitas células imaturas em seu hipocampo em períodos de fixação curta, pareciam não ter células; ou seja, o sinal dessas células desaparecia em consequência de fixações prolongadas", detalhou Llorens-Martín.

Porém, além de aplicar períodos de fixação muito controlados, o estudo identificou três métodos adicionais que permitem visualizar "otimamente" a presença de novos neurônios no giro dentado humano de um adulto, o que fez com que os pesquisadores pudessem conhecer, pela primeira vez, dados únicos sobre o amadurecimento dos novos neurônios criados nessa região do cérebro.

Graças à combinação de métodos, "pudemos estudar em profundidade os períodos pelos quais os novos neurônios passam antes de amadurecerem totalmente, quais proteínas eles sintetizam e como vão mudando de forma e posição dentro do giro dentado", acrescentou Llorens-Martín.

O estudo é o primeiro que analisa e compara como acontece a neurogênese em idade adulta entre indivíduos saudáveis e pessoas com a doença de Alzheimer.

Os autores descobriram que o número de novos neurônios diminui drasticamente no início da doença para continuar crescendo progressivamente na medida em que a enfermidade avança.

Além disso, as células encontram problemas em distintos períodos do processo de maturação dos neurônios e, como consequência desse bloqueio, o número de neurônios criados que finalmente chega a amadurecer totalmente é muito menor nesses pacientes.

Essas descobertas são muito importantes para o estudo das doenças neurodegenerativas, especialmente o Alzheimer, já que "a detecção precoce de uma diminuição na geração de novos neurônios poderia ser um marcador precoce da doença", afirmou Llorens-Martín.

Além disso, se fosse possível aumentar o nascimento e amadurecimento dos novos neurônios de maneira parecida com o que se faz nos ratos de laboratório, isso possibilitaria a abertura de novas possibilidades terapêuticas úteis para atenuar ou desacelerar o avanço do Alzheimer.

E estudos em ratos mostraram que novos neurônios gerados no hipocampo participam da aquisição de novas memórias.

Portanto, que o cérebro siga gerando novos neurônios aos 90 anos "representa uma reserva de plasticidade adicional com a qual nosso cérebro poderia contar para fazer frente aos processos de envelhecimento fisiológico e patológico", concluiu a cientista. EFE

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