De passo em passo

Há 50 anos, Neil Armstrong dava um "gigantesco salto para a humanidade" e era o 1° homem a pisar na Lua

Cristiane Capuchinho Colaboração para o UOL, em São Paulo

Era 1969. O mundo vivia a Guerra Fria, um período de tensões entre a União Soviética comunista e os Estados Unidos capitalistas. No Vietnã, mais de 500 mil soldados norte-americanos lutavam para conter o avanço do bloco comunista. Nas ruas dos EUA, os protestos contra o presidente Richard Nixon se avolumavam. No Brasil, a ditadura civil-militar vivia seus dias mais escuros.

No meio disso tudo, o mundo parou entre 16 e 24 de julho para seguir a epopeia dos primeiros astronautas a pisarem na lua. Era também parte da Guerra Fria. A revolução representada pela Apollo 11 começara anos antes, e foi televisionada.

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Em maio de 1961, o presidente John F. Kennedy anunciou no Congresso dos Estados Unidos os seus planos para a nação: "antes do final da década, colocar um homem sobre a lua e voltar à Terra". A decisão era parte da acirrada corrida espacial entre EUA e União Soviética.

Os soviéticos tinham saído na frente com o projeto Sputnik, que colocou satélites em órbita em 1957, e quatro anos depois seguiam em vantagem ao colocar o primeiro homem no espaço.

A resolução de Kennedy significava grandes injeções de dinheiro público para que o programa espacial norte-americano conquistasse a lua e, assim, superasse a URSS. O programa Apollo consumiu US$ 25 bilhões (cerca de US$ 100 bilhões, em valor atualizado).

Corrida de revezamento

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URSS - Homem no espaço

12 de abril de 1961 - A 300 km de altitude, dentro da nave Vostok 1, o cosmonauta russo Yuri Gagarin anunciou ao mundo que "a Terra é azul". O primeiro voo orbital durou uma hora e 48 minutos.

Divulgação/John F. Kennedy Museum Divulgação/John F. Kennedy Museum

EUA - Três voltas pelo planeta

20 de fevereiro de 1962 - John Glenn torna-se o primeiro norte-americano a orbitar a Terra na cápsula Friendship 7. O astronauta deu três voltas em torno do "Planeta Azul" ao longo de quatro horas.

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EUA - Três mortos em solo

27 de janeiro de 1967 - A equipe da Apollo 1 fazia um treinamento para a missão que decolaria rumo ao espaço em fevereiro. Um curto-circuito causou um incêndio que matou os astronautas Gus Grissom, Ed White e Roger Chaffee.

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URSS - Tragédia no céu

23 de abril de 1967 - Vladimir Komarov foi lançado ao espaço a bordo do foguete soviético Soyuz 1, que teve problemas durante o voo. O cosmonauta morreu durante a queda da espaço-nave na Terra.

Rumo à Lua

A corrida pela conquista da lua não foi interrompida pelas tragédias de 1967. Após perder a chance de ter o primeiro homem no espaço, os EUA queriam a todo custo chegar ao satélite terrestre antes dos soviéticos.

1968 tinha sido um ano difícil para os EUA, marcado pelos assassinatos de Martin Luther King e do senador Robert Kennedy e por protestos em todo o país contra a Guerra do Vietnã. O objetivo do governo era terminar o ano com uma vitória norte-americana.

Na noite de 24 de dezembro, os astronautas Frank Borman, James A. Lovell, Jr. e William A. Anders leram os primeiros versículos bíblicos do Gênesis em uma transmissão televisiva feita diretamente da órbita lunar, mostrando imagens das crateras lunares para o mundo.

A Apollo 8 foi a primeira missão tripulada a chegar à Lua. A 112 km do solo, os astronautas fizeram imagens da superfície lunar para que fosse escolhido o lugar ideal para o pouso dos primeiros homens a pisarem na lua, o que ocorreu sete meses mais tarde.

O lançamento da Apollo 11

Então, em 1969, a Lua não era mais um completo mistério. O satélite já havia sido medido, fotografado, escrutinado pelas missões espaciais anteriores.

Quando caminhavam em direção ao foguete Saturno V que os esperava na base de lançamento do Cabo Canaveral, Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins conheciam as crateras e as montanhas lunares em detalhes suficientes para seu pouso.

Cerca de 1 milhão de pessoas foram até a ponta da Flórida para assistir ao lançamento do foguete naquela bonita manhã de verão. No meio da multidão, o ex-presidente Lyndon Johnson e o vice-presidente Spiro Agnew acompanharam o lançamento da Apollo 11 às 9h32. Doze minutos mais tarde, a equipe estava em órbita terrestre.

Revolução televisionada

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Imagens do espaço

Após um teste na Apollo 10, as câmeras coloridas foram usadas no módulo de comando da Apollo 11. A primeira transmissão para a Terra foi feita no dia 17 de julho. No vídeo que passou na televisão norte-americana, Collins falou sobre o que os astronautas comiam durante o voo.

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Teste da águia

No dia 18 de julho, Armstrong e Aldrin colocam seus trajes espaciais e vão até o módulo lunar Eagle, onde entrariam para chegar à superfície da Lua. Dentro do módulo de sete metros de altura por nove metros de largura, os astronautas fazem a segunda transmissão televisiva da missão Apollo 11.

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O lado escuro da Lua

A Apollo 11 entra em órbita lunar no dia 19 de julho. Algumas horas depois, ao sobrevoar o lado oculto da Lua, a espaço-nave desaparece e perde contato com a Terra. Ali, sem a ajuda dos engenheiros da Nasa, começaram as manobras necessárias para aterrissar o módulo Eagle em solo lunar no dia seguinte.

Mar da Tranquilidade

No domingo 20 de julho, o módulo lunar Eagle aterrissou no Mar da Tranquilidade às 15h17 (horário de Houston), em um local a pouco mais de seis quilômetros do lugar desejado. Estava prevista uma pausa de quatro horas para o descanso dos astronautas, no entanto, Armstrong decide começar o mais rápido possível os preparativos para a caminhada em solo lunar que fará ao lado do colega Buzz Aldrin.

Às 21h56, os engenheiros da Nasa comemoravam o salto de Neil Armstrong da escada do módulo lunar para a superfície da lua.

A estimativa é de que 530 milhões de pessoas tenham assistido às imagens televisionadas de Armstrong sobre o nosso satélite e ouvido sua voz descrevendo seu pequeno gigante passo.

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Este é um pequeno passo para um homem, um gigantesco salto para a humanidade

Estas foram as primeiras palavras do astronauta de 38 anos ao descer do módulo lunar, ouvidas aqui da Terra em uma transmissão entrecortada. A frase que ficou para a história não foi planejada com antecedência mas pensada em solo lunar, ainda dentro do módulo, entre tantas outras preocupações da missão.

Não achava que seria tão importante. Não queria parecer bobo, mas era um pouco forçada, e a culpa foi minha
Neil Armstrong, em entrevista à Nasa em 2001

Vinte minutos mais tarde, desceu do módulo lunar o segundo astronauta, Buzz Aldrin. A primeira missão dos dois era instalar uma câmara de TV que pudesse filmar a nave e as caminhadas dos norte-americanos sobre a lua.

Meia hora mais tarde, o presidente norte-americano, Richard Nixon, falou com os astronautas por meio de uma conexão telefônica.

Não sou capaz de dizer o quão orgulhosos estamos do que vocês fizeram. Para cada norte-americano, este deve ser o dia de maior orgulho de nossas vidas
Richard Nixon, em ligação para Aldrin e Armstrong televisionada

Sob a influência da gravidade lunar, as roupas de 81 quilos pesavam apenas um sexto (13,6 kg). A roupa tinha 25 camadas para proteger dos perigos do espaço, como os micrometeoritos, e eram capaz de suportar temperaturas entre -150°C e 120°C. No peito de cada astronauta, uma câmera fotográfica foi instalada para registrar aquele passeio lunar.

Armstrong era o responsável pelas imagens, e a maior parte das fotos mostra apenas Aldrin, o segundo homem a andar sobre a lua.

Passos para a eternidade

Em uma caminhada que durou duas horas e 31 minutos, Aldrin e Armstrong percorreram cerca de 250 metros em solo lunar.

Neste período, fizeram experimentos científicos, documentaram o terreno, recolheram material e ainda instalaram algumas peças que foram deixadas na Lua: a bandeira dos EUA e medalhões comemorativos com o nome dos três astronautas da Apollo 1 e dois cosmonautas soviéticos que perderam a vida durante a conquista do espaço. Foi deixado ainda um disco de silício com mensagens de paz de líderes de 73 países (incluído o Brasil).

Os astronautas recolheram 21,7 quilos de pedras lunares e poeira, que foram trazidos para Terra para estudo.

"Fiquei surpreso pela aparente proximidade do horizonte", disse Armstrong, que também se surpreendeu pela falta de poeira. "Nunca houve uma nuvem de poeira ali. [A poeira] seria o produto de ter uma atmosfera, e quando você não tem atmosfera, não há nuvem de poeira."

Com o aumento do brilho do nascer do sol lunar, os astronautas voltaram ao Eagle para preparar o retorno ao módulo Columbia, onde os esperava Mike Collins. No total, o módulo lunar ficou na superfície da Lua por 21 horas, 38 minutos e 28 segundos.

Arte UOL/Nasa Arte UOL/Nasa

Bandeira da discórdia

A imagem da bandeira dos EUA cravada em terreno lunar foi usada inúmeras vezes como argumento para as teorias de que o homem nunca pisou em seu satélite. "Se a Lua não tem atmosfera, como a bandeira pode tremular ao vento", dizem os incrédulos.

A resposta está no detalhe. Para ficar esticada, a bandeira usada pelos astronautas tem duas hastes. A primeira é o mastro, como o de qualquer bandeira; a segunda mantém a bandeira desenrolada mesmo sem o vento para estendê-la.

E os vídeos que mostram o movimento na bandeira? Em todos os casos, os astronautas estavam fazendo movimentos com a haste, e consequentemente, com a bandeira, ou eram o resultado da inércia do movimento começado ainda pelos astronautas.

Retorno glorioso

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Pouso no Pacífico

A viagem de volta à Terra foi tranquila. No dia 24 de julho, oito dias, três horas e 18 minutos após partirem da Flórida, o módulo com os três astronautas estava no oceano Pacífico. Dali, Aldrin, Armstrong e Collins foram levados diretamente a um espaço de quarentena, para evitar qualquer contaminação que pudessem trazer para a Terra.

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Festa em Nova York

Em 13 de agosto de 1969, dois dias após deixarem a quarentena, os três astronautas eram recebidos como heróis por uma multidão em Nova York. À época, o New York Times disse que havia tanto confete "que os astronautas mal podiam ver". Dali, os três seguiram por uma turnê que passou por 24 países.

Voltaremos à Lua?

Outros dez astronautas norte-americanos caminharam em superfície lunar. A última missão que pousou no satélite terrestre, a Apollo 17, aconteceu em 1972.

Com gastos na casa dos bilhões de dólares, os países que entraram na corrida espacial deixaram a Lua fora de seus projetos espaciais desde então, e passaram a investir em viagens tripuladas na órbita terrestre ou fizeram missões não tripuladas para a Lua ou mesmo para diferentes lugares do espaço.

50 anos depois, o satélite volta a ser alvo de interesse (ao menos no discurso). No final de março, a Nasa anunciou que colocará um homem na Lua até 2024. Dessa vez, o objetivo é outro. A agência espacial quer aprender a extrair e explorar as toneladas de gelo que existem no polo sul da Lua.

"O gelo de água representa ar para respirar, água para beber, combustível", disse Jim Bridenstine, da Nasa. "O objetivo não é apenas levar humanos à superfície lunar, mas provar que podemos viver e trabalhar em outro mundo".

Depois da Lua, o próximo passo é Marte.

Odisseia espacial

No mês em que o homem pisou na Lua, David Bowie lançou a música "Space Oddity". O sucesso foi cantado em 2013 pelo astronauta Chris Hadfield na ISS

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