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Nasa faz leilão de poeira da Lua comida por baratas ser suspenso; entenda

Astronauta Buzz Aldrin carrega componentes na superfície da Lua durante missão do Apollo 11 Imagem: Nasa

Bruna Souza Cruz

De Tilt*, em São Paulo

26/06/2022 10h58

A Nasa, agência espacial dos Estados Unidos, pediu à empresa RR Auction, especializada em 'souvenirs' espaciais, que cancelasse o leilão de amostra de poeira da Lua coletada em 1969, durante a missão Apollo 11. Esse material de quimo —bolo alimentar parcialmente digerido— com pó lunar foi removido por uma cientista do estômago de baratas.

Na transação original, quem desse o maior lance poderia levar para casa também as carcaças de três dos insetos. O argumento da Nasa é que o material ainda pertence ao governo, segundo informações da agência de notícias AP (Associated Press).

Após o pedido, a empresa de leilões suspendeu (por enquanto) o processo na última quinta-feira (23).

"Todas as amostras da Apollo, conforme estipulado nesta coleção de itens, pertencem à Nasa e nenhuma pessoa, universidade ou outra entidade recebeu permissão para mantê-las após análise, destruição ou outro uso para qualquer finalidade, especialmente para venda ou exibição", afirmou a agência.

Como seria o leilão

O leilão do material começou no dia 26 de maio, com lance inicial de US$ 10 mil (cerca de R$ 50 mil na época).

Os lances poderiam ser dados até 23 de junho por meio de uma página disponibilizada pela RR Auction, sediada nos Estados Unidos.

Por que baratas comeram poeira da Lua?

Em 1969, a Nasa decidiu fazer um teste biológico para procurar por "insetos lunares" perigosos.

Para isso, pegaram amostras de solo recolhidas pelos astronautas da missão Apollo 11 (realizada em 20 de julho daquele ano, quando Neil Armstrong se tornou a primeira pessoa a pisar na Lua) e deram para pequenas baratas da espécie Blattella germanica comerem

Quimo com fragmentos de solo lunar retirado do estômago de baratas Imagem: RR Auction

E por que os cientistas fizeram isso? É preciso entender antes como era a tecnologia espacial da época.

Antes do primeiro pouso tripulado, cientistas não sabiam exatamente o que iríamos encontrar em nosso satélite natural.

Apesar de o terreno ter sido estudado por sondas anteriores, não dava para ter certeza se os astronautas encontrariam dificuldades, como areia movediça, radiação ou mesmo algum tipo de "inseto lunar".

Biologistas tinham certeza de que não havia vida na Lua, mas não descartavam totalmente a possibilidade de algum tipo de germe espacial que pudesse ameaçar a vida na Terra.

Após retornar ao nosso planeta, os astronautas, a nave e tudo que foi usado na Apollo 11 ficou em quarentena por 21 dias, no Lunar Receiving Laboratory, uma instalação especial que a Nasa construiu para isso.

Enquanto os homens passavam por diversos exames médicos, animais como peixes, ratos e baratas foram expostas às amostras de solo, para ver como reagiriam.

A missão trouxe cerca de 22 quilos de rochas e poeira da Lua; cerca de 10% disso foi usado em testes destrutivos. Ninguém esperava recuperar este material após ser comido pelos animais.

Análise das baratas

A entomologista Marion Brooks-Wallace foi contratada pela Nasa para fazer análises mais aprofundadas nas baratas que haviam ingerido poeira lunar.

O período de quarentena já tinha passado, sem nenhum animal (ou astronauta) morrer devido à exposição ao material extraterrestre, mas a agência espacial queria entender mais sobre possíveis efeitos danosos.

Lâminas de microscópio com tecido das baratas, usadas no estudo de Brooks Imagem: RR Auction

A amostra lunar que Brooks recebeu estava dentro de oito baratinhas preservadas — parecia um vidro de conserva.

Algumas haviam sido alimentadas com uma dieta meio a meio, de regolito lunar e alimento comum; outras ingeriram apenas poeira lunar esterilizada.

A cientista descreveu ser possível ver o material dentro dos insetos a olho nu. Ela os dissecou e preparou lâminas com tecidos, para estudá-los no microscópico. "Não encontrei nenhuma evidência de agentes infecciosos", declarou na época, garantindo que o solo da Lua não era tóxico ou perigoso para as baratas.

Lembrancinha

Em 1986, Brooks se aposentou da universidade e criou em sua casa um pequeno memorial, com o que restou de seu trabalho lunar: uma das lâminas de tecido, um recorte de jornal, uma réplica da placa que a Apollo 11 deixou na Lua, um envelope com selo comemorativo, e um cartão postal do Manned Spacecraft Center (hoje Johnson Space Center), em Houston.

Quadro com mementos passou muitos anos na parede da casa de Brooks Imagem: RR Auction

No centro, ficavam as estrelas: três carcaças de Blattella germanica e material lunar removido dos estômagos delas. As lembranças ficaram por muitos anos penduradas em uma parede, até a morte de Brooks, em 2007, aos 89 anos.

Três anos depois, o conjunto, incluindo mais duas caixas de lâminas de microscópio, totalizando 66 delas, e um pequeno vidro, com cerca de 40 mg de quimo com pedaços da Lua, foi vendido por US$ 10 mil, em um leilão na Califórnia.

É justamente isso que chegou a ser releiloado. A RR Auction estimou no mês passado que o lote poderia chegar a US$ 400 mil (quase R$ 2 milhões).

*Com informações do site Futurism e matéria de Marcella Duarte.

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