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Inteligência artificial? Na verdade, pessoas têm feito o trabalho dos PCs

Moda em torno da inteligência artificial faz empresas usarem humanos como se fossem máquinas - Andrea Comas/Reuters
Moda em torno da inteligência artificial faz empresas usarem humanos como se fossem máquinas Imagem: Andrea Comas/Reuters

Rodrigo Lara

Colaboração para o UOL Tecnologia

23/09/2018 04h00

Normalmente escutamos a previsão de que as máquinas irão tomar o trabalho dos humanos. E, de fato, isso ocorre em diversas situações, com robôs assumindo o lugar de pessoas em fábricas, por exemplo.

A busca incessante por novas aplicações para inteligência artificial, no entanto, está gerando um movimento curioso: empresas estão empregando pessoas para fazer o trabalho que, ao menos em tese, deveria ser feito por algoritmos de inteligência artificial.

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O assunto veio à tona após uma reportagem do "The Wall Street  Journal", que alertava que mesmo depois do Google ter anunciado que não permitiria mais que seus computadores lessem os emails dos usuário do Gmail para fins de marketing - o que ocorreu há um ano -, diversos aplicativos de terceiros ainda continuavam tendo esse tipo de acesso.

E, pior: em vez dessa "leitura" ser feita por um algoritmo de computador, várias startups fizeram com que seus empregados lessem milhares de emails de terceiros para aprimorar ferramentas de inteligência artificial. Esse é o caso da Edison Software, uma startup de San Jose, na Califórnia, que colocou seus funcionários para lerem centenas de emails com o intuito de aprimorar um sistema de respostas inteligentes do Edison Mail, seu aplicativo que gerencia emails.

No ano passado, a Expensify, criadora de um um app de finanças pessoais homônimo, admitiu que pagava - pouco, por sinal - para pessoas transcreverem notas de compras, naquilo que a empresa chamava de "smart  scan  technology", ou "tecnologia de escaneamento inteligente". 

Para Ricardo Gudwin, Professor de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp e pesquisador da área de inteligência artificial, isso é um dos resultados da tecnologia ser algo "da moda".

Há uma pressão para que todo mundo tenha a sua inteligência artificial. O problema é que ainda há uma grande limitação técnica desse tipo de tecnologia, em especial quando envolve a compreensão de linguagem natural

Ricardo Gudwin, Professor de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp

Já o professor Renato Giacomini, coordenador do departamento de Engenharia Elétrica da FEI, acrescenta que há uma percepção positiva quando uma empresa diz usar inteligência artificial. "O que ocorre é que, no senso comum, o uso da tecnologia sempre significa incremento de qualidade. Na maior parte das vezes, isso é mesmo verdade, então as empresas buscam uma imagem ligada à alta tecnologia para incrementar suas vendas".

Custa caro e é difícil

Alguns dos principais entraves para o desenvolvimento e aplicação de uma inteligência artificial são o custo e a já citada dificuldade técnica.

"Implantar uma inteligência artificial pode depender, inclusive, de transformações culturais na empresa. Muitos serviços da parte computacional são oferecidos via plataformas multiusuários, kits de desenvolvimento com interfaces de alto nível e até aplicações prontas. No entanto, o próprio uso e manutenção dos recursos de inteligência artificial não é óbvia e exige pessoal especializado, além adaptações específicas para muitos setores da empresa", diz Giacomini.

Já Gudwin aponta que, muitas vezes, temos a percepção de que o desenvolvimento de recursos como inteligência artificial e aprendizado de máquina está em um estágio muito mais avançado do que a realidade. "A verdade é que muitas empresas querem parecer mais do que realmente são. Há uma grande limitação no atual estágio de desenvolvimento de inteligências artificiais, especialmente quando falamos da compreensão de palavras e sentenças", diz.

Marketing pouco honesto

Dizer que utiliza inteligência artificial enquanto, na verdade, é um humano que realiza tarefas que seriam dos PCs ou, ainda, interage com o público, acaba sendo uma forma - nada honesta - de marketing.

Isso pode ser mais problemático se considerarmos um estudo realizado pelo Instituto de Tecnologias Criativas da Universidade da Carolina do Sul (EUA), que mostrou que veteranos de guerra estavam mais dispostos a tratar dos sintomas de estresse pós-traumático quando conversavam com um interlocutor virtual, como um robô de conversa - e esse tipo de situação acabaria se repetindo em outros tipos de tratamento psicológico.

Se essas pessoas estivessem, na verdade, falando com um humano que fingia ser uma máquina, haveria um caso que poderia ser classificado como uma atitude antiética em termos de psicologia.

A convivência entre humanos e máquinas está ainda no começo e situações polêmicas como essas tendem a se repetir pelos próximos anos. De qualquer maneira, a lógica para que esse tipo de relação prospere parece passar por algo básico até mesmo para relacionamentos humanos: ser claro e não mentir.

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