Não vi na TV

Aos 70 anos, TV no Brasil tenta seguir relevante para uma geração que faz tudo pelo celular

Felipe Pinheiro, Mari Monts e Marcela Ribeiro De Splash, em São Paulo Guilherme Zamarioli/UOL

Um mês antes de lançar a TV no Brasil, o empresário Assis Chateaubriand recebeu a visita de um engenheiro norte-americano, diretor da NBC-TV, para supervisionar as primeiras semanas de funcionamento da Tupi, canal que ele inauguraria em 18 de setembro de 1950. Ao chegar, o gringo quis saber: quantos aparelhos de TV já haviam sido vendidos ao povo de São Paulo?

A chocante resposta foi: nenhum!

A história, contada no livro "Chatô: O Rei do Brasil", de Fernando Morais, mostra que a TV brasileira quase estreou sem ter ninguém para assisti-la —a situação acabou sendo revertida por um "jeitinho" de Chateaubriand na época: ele mandou contrabandear 200 aparelhos. Setenta anos depois, há televisores espalhados por todos os cantos do país, mas os desafios agora são outros.

Com a renovação de público e a tecnologia mais acessível, como a TV pode se manter relevante para uma geração acostumada a consumir conteúdo na velocidade que deseja, quando deseja, da forma que deseja? Como manter os índices de audiência e garantir a sobrevivência da sua indústria com um público hiperconectado o tempo todo, habituado a produzir e a consumir conteúdo pelas redes sociais e que tem a tela do celular como companhia constante?

Para muitos, a TV já não faz falta. "Quando um programa específico me interessa, eu o assisto em alguma plataforma digital", afirma o economista Rodrigo Pavan, 37 anos, para quem ter o aparelho de TV em casa deixou de fazer sentido. No lugar, ele usa o notebook e o celular. Ele, como tanta gente, hoje não se chocaria ao ouvir "nenhum" para a pergunta do diretor norte-americano em 1950.

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A TV social

A televisão já nasceu como uma revolução, e quebrar paradigmas sempre fez parte de sua história. Mas o desafio cresceu com a popularização da internet. Não é raro, hoje, que, mesmo quem tem aparelho de TV em casa, acompanhe seu programa favorito pelas redes sociais. Essa tendência é chamada de "TV social" por Almir Almas, Chefe do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo).

A estudante Gaby Ataide tem 18 anos e diz que possui TV em casa, mas ainda assim prefere as redes sociais para se informar e entreter. "A televisão não é atrativa, eu quase nem ligo. Uso muito mais o celular. É mais fácil assistir e acompanhar tudo por lá."

Já Victor Guilherme, 20 anos, estudante, conta que até assiste TV, mas normalmente só canais fechados. Ele considera a programação da TV "ruim" e diz que acaba acompanhando "A Fazenda", reality da Record de que ele gosta, pelas redes sociais. "É mais prático."

A autonomia de acompanhar o conteúdo pela internet em serviços sob demanda ou mesmo por meio das redes sociais é a vantagem mais citada por quem está deixando a TV tradicional para trás —em forma e conteúdo. O economista Rodrigo Pavan, 37 anos, conta que ainda assiste à programação da TV aberta, mas que não vê mais sentido em possuir um aparelho televisor em casa.

Segundo Almas, no entanto, o ato de assistir à TV não está ligado necessariamente a ter um televisor. "Qualquer outra tela eu considero como televisão. Quando uma pessoa liga o computador e assiste Netflix, ela está vendo televisão."

Segundo ele, as novas plataformas ainda oferecem a comodidade de poder consumir conteúdo variado sem a necessidade de assinar uma TV paga. "Você pode escolher quando e onde assistir à sua programação. Além disso, as plataformas de streaming possuem uma quantidade gigantesca de opções nos seus catálogos com um valor acessível", diz.

Um "elefante" dentro do estúdio

Nos anos 1950, viajar diante da tela da TV era como assistir a uma peça de teatro, com cenas previamente ensaiadas, mas transmitidas ao vivo. Esse era o único formato possível quando a TV foi inaugurada.

Mas isso mudou com a chegada do videotape, o VT, em 1956, que significou a primeira revolução tecnológica atravessada pela TV. O novo formato permitia que imagem e som fossem gravados e editados —ainda que de maneira um tanto rudimentar, com cortes manuais.

Hoje, todos podem ser criadores e editores do próprio conteúdo. Basta ter um celular. Mas, nos tempos das imagens em preto e branco, era uma grande operação entrar no estúdio para rodar uma produção, como lembra a atriz Fernanda Montenegro.

Atualmente, temos essa tecnologia. Daqui a mil anos, será como inventar a roda de novo. Nunca se deixa de ter a tecnologia do seu tempo. Antes, a câmera tinha que ser empurrada, porque era um monstro. Precisava de um ajudante do câmera. Parecia um elefante dentro do estúdio.

As três principais revoluções enfrentadas pela TV, segundo o pesquisador Almir Almas, foram a gravação em videotape, o surgimento da TV em cores e, mais recentemente, da TV digital.

"Com a TV digital é possível enviar pacotes de dados com o que você quiser, informação, fotos, vídeos, alertas para desastres naturais. Podemos chamar isso de revolução 2.0. E agora estamos pensando na TV 3.0, a TV do futuro, que será o casamento entre a TV aberta, a TV por sinal de radiofrequência e a TV via sinais de internet. É a próxima revolução", anuncia.

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Cadê o jovem que estava aqui?

Longe da TV aberta —e pouco atendidos pela programação—, os jovens e as crianças se aproximaram dos serviços de streaming, como Netflix e Amazon Prime, e de conteúdos no YouTube, em busca de informação, dinamismo e identificação.

O grande desafio que a televisão enfrenta para conquistar esse público é conseguir engajá-lo numa programação que realmente fale a língua que ele entende e, mais do que isso, a língua que ele quer falar.

A solução não é simples. A TV já apresenta avanços nesse sentido, como alguns programas de humor mais descontraídos ou os reality shows, que são sucesso de audiência.

Elmo Francfort, consultor de TV e pesquisador, levanta uma questão importante: a ideia no imaginário de alguns adolescentes de que TV é ultrapassada. "O conteúdo tem que ser tão atrativo que o jovem não ache que a televisão é algo do passado, mas do presente."

O telespectador mais jovem também se distanciou da TV por um fator que merece atenção: a representatividade. Deisy Feitosa, professora de audiovisual no Senac e cofundadora do Obted (Observatório Brasileiro de Televisão Digital e Convergência Tecnológica), conta: "O discurso muito presente entre os meus alunos é da falta de diversidade étnica, territorial e de gênero. Eles não se sentem representados pela TV aberta".

Uma pesquisa realizada pela Netflix no começo deste ano mostra que 69% dos jovens brasileiros, entre 16 e 25 anos, buscam personagens parecidos com eles na hora de escolher uma série ou um filme. Por que seria diferente com a TV aberta?

Primeiro lugar no Ibope, mas também no Twitter

O desejo de se ver representado na TV e de assistir a conteúdos mais descontraídos são razões que explicam o sucesso dos reality shows. O formato do "Big Brother", por exemplo, chegou há quase 20 anos no Brasil, mas ainda gera discussões quentes, lembrando o frescor de quando era novidade espiar a intimidade alheia.

Eles oferecem um pacote de atrativos para capturar o interesse da audiência: desde o fato de ter uma grande parcela do programa ao vivo até a exposição da intimidade e a espontaneidade, sem roteiros. São pessoas comuns. Às vezes, nem tão comuns, mas são celebridades mostrando seus lados de pessoas comuns.

Olimpio José Franco, diretor geral da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão)

Programas como o "BBB" (Globo) e a "A Fazenda" (Record) são bons exemplos de como as emissoras se adaptaram às redes sociais, incluindo-as na conversa. "As redes sociais se transformaram em um canal de interação com a audiência, com envio de comentários, críticas, sugestões e participações."

Segundo dados da TV Globo, a 20ª edição do "BBB" teve crescimento do público jovem. Na TV aberta, o aumento da audiência entre adolescentes de 12 a 17 anos, com relação à edição anterior, foi de 36%. Já entre os jovens adultos, de 18 a 24 anos, de 38%.

Ainda de acordo com a emissora, a repercussão do "BBB 20" no Twitter foi 30 vezes maior do que a da última edição do Super Bowl —popular evento do futebol americano.

O universo dos realities se expande pelas redes sociais, fundindo o jeito tradicional de ver TV com as conversas digitais. Marcos Mion, que acaba de estrear à frente da 12ª edição de "A Fazenda", é um poliglota das redes. Ele surfa com o Tik Tok, não perde uma menção no Twitter e mostra bastidores do programa nos Stories do Instagram.

@afazendarecord

Amizade é pra isso, né? ##AFazenda12

? som original - afazendarecord

"O primeiro programa no mundo todo a colocar tuítes em tempo real na tela da TV foi o 'Descarga MTV'", lembra ele, sobre a atração que apresentava no canal musical. "Situação que rendeu a clássica história que nós descobrimos como colocar o tuíte na tela, mas só com a função já em andamento percebemos que precisaríamos de filtro", diverte-se.

A adesão às redes já é tão grande —e tão importante para emissoras de TV— que é comum ver Mion comemorando no ar o feito de ocupar posições entre os assuntos mais comentados do Twitter com "A Fazenda". O importante não é mais só vencer no Ibope, mas ser comentado, falado, repostado, retuitado.

Acabou o palco, temos que trazer o público para criar junto, porque as pessoas já estão produzindo muito conteúdo em multiplataformas. O que precisamos é gerar identificação, engajar, ouvir e dar espaço para que o público se envolva.

Bia Cioffi, Diretora de Planejamento Transmídia da Record TV

Te vi no YouTube

Já imaginou ser dono do seu próprio canal de TV? Quer falar de plantas, tenha um canal de plantas! Se o seu assunto favorito for maquiagem, por que não ensinar alguns truques básicos? O YouTube passou a ser um espaço em que é possível produzir conteúdo e, por isso mesmo, virou uma plataforma com dinamismo, individualidade e, ao mesmo tempo, pluralidade.

E, nesse sentido, as emissoras tradicionais estão cada vez mais se aproximando do site, numa tentativa de oferecer seus programas a quem não é mais seduzido pela TV aberta.

O "MasterChef" (Band) é um desses programas. Para assistir ao reality culinário basta ligar a TV às 22h45, toda terça-feira. Mas não necessariamente. O espectador pode acompanhar todos os episódios pelo YouTube e seguir as discussões que surgiram durante a transmissão pelas contas oficiais do programa nas redes sociais.

"A possibilidade da segunda tela, usada nas redes sociais, amplia a comunicação sobre o reality", explica Renato Martinez, head of content sales da Endemol Shine Brasil, a produtora que realiza o programa.

Com esse formato expandido, o reality contabiliza dois tipos de público: "Na TV, por exemplo, a audiência é majoritariamente acima de 35 anos. Já no digital, pegamos uma faixa etária mais jovem, que vai de 18 a 35 anos", diz Martinez.

A conta do programa no YouTube tem quase 4 milhões de inscritos. A estratégia adotada recentemente pela empresa foi apostar em grades especiais para outras plataformas, como lives no próprio YouTube e desafios no TikTok.

"São materiais que conversam com esse público, que, além de entretenimento, busca interação e diversão."

Quando a TV é a segunda tela

O conceito de segunda tela nasceu do hábito de assistir à TV acompanhando discussões por meio do celular. Hoje, no entanto, a programação que vem dos canais tradicionais não necessariamente é o que motiva produção de conteúdo e os debates on-line. Há formatos da TV aberta que foram adotados pela internet, deixando a televisão tradicional em segundo plano.

Ju Nogueira, por exemplo, gostava tanto de fofoca que encontrou na rede social seu mercado e, hoje, produz conteúdo para o YouTube. Com seu jeitinho de narrar um bom "baphão", ela hoje possui mais de 1 milhão de inscritos em sua página.

Ju diz que vê TV esporadicamente, mas não nega a influência daquela que por muito tempo foi a sua primeira tela. Afinal, boa parte de sua matéria-prima vem dos reality shows. "A TV sempre vai inspirar. O tradicional, o convencional, foi fundamental para termos os formatos que existem hoje em dia."

Vem para somar, não para sumir

A audiência da TV aberta, que vinha caindo ao longo dos anos, teve um aumento significativo durante a pandemia do coronavírus. Sobretudo entre os jovens. Por terem de ficar em casa, em quarentena, muitos adotaram a TV como uma opção de distração.

O que não significa que essa atenção não seja, ainda, compartilhada com o celular. Por isso, segundo Francfort, uma das tendências do mercado televisivo é produzir cada vez mais conteúdo compartilhável. Além disso, sai na frente quem pensa em produções originais, como séries.

O formato dos programas de TV também já está num processo de mudança. Os quadros estão mais curtos e diretos, a estética dos memes vem ganhando espaço. A própria qualidade da imagem em alta definição muda, porque já é admitido utilizar cenas feitas com câmeras de celular, por exemplo.

O investimento das emissoras no serviço de streaming, como o Globoplay, da Globo, e o PlayPlus, da Record, vem para acompanhar a febre das plataformas digitais. E a tendência é usar isso a favor da programação aberta.

Todas essas novas configurações fazem parte de mais uma fase da história da televisão. Ela se reinventa, muda seu formato, mas, de um jeito ou de outro, continua fazendo parte da vida de milhões de brasileiros. A TV não morrerá, mas continuará se transformando. A revolução já começou.

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