Seis segredos de Hamilton

O UOL ouviu pilotos da F-1 para entender o que faz do britânico - a caminho do hexa - o melhor da geração

Julianne Cerasoli Do UOL, em Spa (Bélgica)
Lars Baron/Getty Images/AFP

O 2º lugar na Bélgica no último final de semana fez Lewis Hamilton abrir 65 pontos de vantagem na classificação do Mundial de pilotos em relação a Valtteri Bottas, seu companheiro na Mercedes. Com 13 das 21 etapas já realizadas, tudo indica que o pentacampeão caminha com tranquilidade para seu sexto título na categoria.

A esta altura, já não há mais dúvidas: Hamilton é o melhor piloto de sua geração - e certamente já está entre os melhores da história.

Com essa premissa, o UOL percorreu os boxes da F-1 atrás dos segredos do britânico. A reportagem ouviu reverência dos competidores mais próximos e palavras de idolatria vindas dos jovens da categoria. Hamilton, com seu perfil único que não lembra nenhum campeão anterior, é a referência da vez.

Familiar ao mundo das celebridades, Lewis contradiz as receitas de Senna e Schumacher, ídolos que venceram através da obsessão sem descanso. O pentacamepão é descrito também como o gênio do treino de classificação e um especialista de performance em curvas de baixa velocidade. Pelos colegas de grid é tido como o piloto que mais pode tirar de circunstâncias limitadas ou adversas.

Abaixo, um pouco mais dos segredos do multicampeão de 34 anos.

Sinceramente, eu gostaria de saber qual é o segredo dele. Ele é realmente talentoso. Quando estreou F-1, já era incrível e quase ganhou o título [vice-campeão em 2007]. Se você conseguir decifrar o mistério, por favor me diga

Antonio Giovinazzi

Antonio Giovinazzi, piloto da Alfa Romeo, em sua primeira temporada na F-1

Dominic Ebenbichler/Reuters Dominic Ebenbichler/Reuters

1. Aprendizado dos anos de agressividade

Hamilton teve seus altos e baixos ao longo da carreira. Embora seja verdade que ele impressionou a F-1 ao subir ao pódio em suas sete primeiras corridas e lutar pelo título em seu primeiro ano, também é fato que seus erros na China e no Brasil em 2007 entregaram sua falta de experiência - e ofereceram o título para Kimi Raikkonen.

E mesmo quando o britânico finalmente conquistou o campeonato, em 2008, ainda estaria envolvido em cenas como o bizarro acidente de pitlane com Raikkonen no Canadá. Em seus primeiros cinco anos na F-1, Hamilton teve mais de 35 incidentes sendo levados aos comissários.

O jovem ainda jogou fora as chances de um segundo título, cometendo dois erros bobos e consecutivos na Itália e em Singapura, enquanto liderava o campeonato em 2010. Ou seja, ao mesmo tempo que Hamilton foi impressionante desde sua primeira largada, na Austrália em 2007, ele também pecou pelo excesso de agressividade em seus primeiros anos. Hoje, erros como aqueles são raridade.

O piloto de 34 anos cresceu dentro e fora da pista. Um relacionamento complicado com seu pai e ex-empresário, Anthony, que tinha sido uma figura extremamente proeminente em sua vida, teve muito a ver com isso. Após tomar para si o rumo de sua carreira, sua trajetória na categoria deslanchou.

Você provavelmente pode contar os erros que ele cometeu nos últimos seis anos com a Mercedes em uma mão. E isso vale para todas as sessões, desde os treinos livres. A equipe pode confiar nele. Se você der a ele uma asa dianteira novinha em folha, ele não vai quebrá-la

George Russell

George Russell, jovem piloto da Williams, em comentário sobre Hamilton

Kai Pfaffenbach/Reuters Kai Pfaffenbach/Reuters

2. Ninguém tira tanto de tão pouco

É fato que Hamilton nunca teve de sofrer com uma equipe do meio do pelotão na carreira. O pior carro que pilotou foi provavelmente o McLaren 2009, especialmente na primeira metade daquela temporada, antes de o time mudar o conceito do modelo e começar a duelar com a Ferrari para ser o terceiro melhor time do grid. Mesmo assim, o britânico conseguiu vencer por duas vezes, na Hungria e em Singapura, pistas em que o piloto pode fazer a diferença.

"Ele esteve no momento certo e no lugar certo, é claro, mas é muito talentoso", reconhece Sergio Pérez, adversário de Hamilton nas últimas nove temporadas.

"Ao longo de toda a minha carreira, o carro foi a peça central para ter um bom desempenho, mas se há um cara que pode fazer a diferença quando está em um dia bom, é ele. Ele esteve brigando na ponta com carros não tão bons, então é algo por que devemos dar-lhe crédito. Todos podem ganhar com o melhor carro, mas ele também fez isso com carros ruins", acrescentou o mexicano da Racing Point.

Definitivamente há algo especial nele. Existem razões pelas quais ele está constantemente no topo. Ele sempre rende quando precisa, quando é importante. É muito talentoso, mas também, com a Mercedes, construiu a equipe em torno dele e se tornou o conjunto mais forte dos últimos anos

Nico Hulkenberg

Nico Hulkenberg, piloto da Renault, adversário de Hamilton na F-1 desde 2009

Jan Woitas/dpa/AFP Jan Woitas/dpa/AFP

3. Ele sabe frear mais tarde

De acordo com a análise técnica de seus rivais, Hamiton tem em seu repertório de atuação um diferencial valioso: ser um piloto que sabe frear mais tarde que os outros e sabe como maximizar as curvas lentas. Essa é a visão particular do finlandês Valtteri Bottas, principal rival do britânico na briga pelo título de 2019.

"Lewis tem sido geralmente mais forte que eu principalmente nas curvas de baixa velocidade, pelo menos em algumas partes dela, e também ao conseguir otimizar de forma mais consistente o acerto do carro ao longo durante a temporada", explica o companheiro de Mercedes.

De fato, o seu estilo de pilotagem é uma mistura de frenagem muito tardia - algo que é bastante útil também para ultrapassagens - e a capacidade de modular os pedais para corrigir as saídas de traseira que ele mesmo gera ao volante. Ao fazer isso, o carro recupera o equilíbrio mais rapidamente, e ele pode acelerar antes dos outros. Acrescente a isso uma sensibilidade extrema a qualquer mudança de condição de pista e pneu e você tem um piloto muito adaptável - e rápido.

Faço isso há muito tempo e não posso dizer que há mágica nisso. Me esforço para chegar na perfeição. E se eu não conseguir isso, é doloroso e tenho que cavar bem fundo para mudar isso. Não é um jogo para mim, é a minha vida. Sou super apaixonado. Faço tudo com o coração

Lewis Hamilton

Lewis Hamilton, campeão do Mundial de pilotos em 2008, 2014, 2015, 2017 e 2018

Kai Pfaffenbach/Reuters Kai Pfaffenbach/Reuters

4. Gênio do sábado: especialista no treino de classificação

Mas, mesmo que você tenha talento, o maior desafio da F-1 hoje é juntar tudo o que foi testado durante o fim de semana em apenas uma volta na classificação. E isso inclui preparar bem pneus, aquecer os freios, certificar-se que a unidade de potência está totalmente carregada, etc.

Com 87 pole positions na carreira, Lewis Hamilton pode reivindicar o título de melhor piloto em classificações na história do esporte. "Lembro-me de vê-lo conseguindo melhores resultados do que deveria com frequência, e a maneira como ele pilota aos sábados é realmente especial", disse o mexicano Sergio Pérez.

E essa capacidade de dar conta do recado constantemente no momento que os pilotos julgam ser o mais crucial do fim de semana dá uma grande vantagem a Hamilton. A equipe trabalhará para o piloto que, como ele sempre diz, é o último elo da cadeia, e não a quebra.

A classificação é seu ponto forte: ele sempre consegue ir bem. Depois que tudo é estudado nos treinos livres, ele é capaz de colocar isso em uma volta, ao invés de frear dois metros mais cedo em uma curva ou tirar o pé cedo demais e ter uma saída de curva difícil. É capaz de acertar tudo

Lando Norris

Lando Norris, piloto da McLaren

Kenzo Triboullard/AFP Kenzo Triboullard/AFP

5. Disciplina mental: como consegue o foco extremo na pista

Mesmo para um piloto que sempre foi considerado um fora de série, nada disso acontece por acaso. "Eu não sei se as pessoas percebem quando assistem, mas eu estudo todos os aspectos da corrida", diz Hamilton. "O objetivo final é ser o melhor em tudo: a largada, as voltas de abertura, a administração dos pneus, toda a sequência do pit stop (as voltas antes de entrar, o posicionamento no box). Tudo."

E quando as coisas não saem como planejado, qualquer um consegue ver. Hamilton muitas vezes escancara suas emoções, especialmente quando erra na classificação. Sua linguagem corporal, suas respostas curtas à imprensa, tudo mostra alguém que é extremamente duro consigo mesmo.

Para muitos, esse tipo de estresse pode levar a uma espiral negativa e até a mais erros, mas para os rivais de Lewis é o momento mais perigoso. Porque significa que ele voltará mais forte, como vimos nas últimas temporadas, quando se recuperou de maus desempenhos no começo do ano.

"Eu não posso dizer: 'hoje vou ter um dia ruim, mas amanhã vou mudar isso'. Eu apenas tento cavar fundo, tento controlar minhas emoções e tento encontrar algo para canalizá-las. E então, na corrida, sou apenas agressivo. Eu sei que posso ir bem. As pessoas nem sempre percebem que, às vezes, quando estou fora do carro e estou cabisbaixo, é porque sou muito duro comigo mesmo. Sim, um segundo lugar ainda é ótimo, mas eu estou lutando por campeonatos mundiais."

Ele é capaz de julgar quanto tempo precisa dar ao negócio da moda e quanto tempo dedicará às corridas. Ele entende isso muito bem. Então, acho que um dos meus segredos foi permitir-lhe essa liberdade

Toto Wolff

Toto Wolff, chefe de Lewis na Mercedes desde 2013

Reprodução/Instagram Reprodução/Instagram

6. O "anti-Senna": sendo celebridade para desfocar

Pode ser difícil acreditar nas palavras de Lewis sobre ser tão comprometido quando alguém o vê em eventos de moda e entre amigos como Neymar, Will Smith e Justin Bieber, vivendo uma vida de celebridade. Mas isso é parte do segredo, e não é coincidência que a melhor fase do piloto tenha começado nas mãos de Toto Wolff, já que o austríaco, vindo de uma carreira completamente diferente, tem mais ferramentas para entender isso do que um chefe de equipe das antigas, como Ron Dennis na McLaren, por exemplo.

"Enquanto se desenvolve como humano, ele entende o que precisa de seu ambiente. Ele passou por várias fases em sua carreira, com mais e menos pessoas ao seu redor, e ele encontrou um grupo em que confia. E isso provou ser muito positivo", afirmou Wolff à reportagem.

Não é de surpreender que tenha demorado tanto para Hamilton se aceitar e encontrar sua maneira de fazer as coisas. Em um esporte que estava acostumado a ver homens como Ayrton Senna, Michael Schumacher e Fernando Alonso triunfarem nas últimas décadas com uma abordagem obsessiva de vencer, usando cada segundo de seu tempo para melhorar sua pilotagem ou forma física, ter alguém que se beneficia de se desconectar completamente é uma novidade.

Hamilton admite que sua abordagem ao esporte é diferente. "Eu realmente não me importo com o que as pessoas dizem. Eu realmente não me importo se as pessoas não gostam do meu cabelo ou de como eu me visto. Houve um tempo em que me importei com essas coisas, quando eu era mais jovem, e demorei um pouco para mudar essa abordagem. Mas foi a coisa mais saudável que já fiz ".

Por todos os resultados de pista, Hamilton é o modelo a ser seguido por quem está chegando na categoria. "Eu tenho um enorme respeito por Lewis. Não apenas pelo que ele faz na pista, mas também por tudo que está fora, sua vida pessoal, seu trabalho com os engenheiros", diz George Russell, piloto da Williams de 21 anos. "Do ponto de vista do piloto, você seria estúpido se não quisesse fazer as coisas de um jeito semelhante a ele."

Lisi Niesner/Reuters Lisi Niesner/Reuters

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