Trago um pouco de cor à F-1

Max Verstappen fala ao UOL sobre seu impacto na Fórmula 1 e admite: não é piloto de aceitar posição ruim

Julianne Cerasoli Colaboração para o UOL, em Londres (Inglaterra)
JOE KLAMAR / AFP
REUTERS/Kai Pfaffenbach REUTERS/Kai Pfaffenbach

Nas arquibancadas do circuito de Spa-Francorchamps nesse fim de semana, durante o GP da Bélgica da F-1, uma área foi reservada para torcedores de Max Verstappen. O espaço é exclusivo para quem comprou pacotes no site oficial do piloto holandês e é um sucesso. O local está com lotação esgotada há meses.

Atualmente, o piloto da Red Bull é o único que conta com uma área só dele nas arquibancadas em dia de corrida. O GP belga é o segundo na temporada em que isso acontece. O primeiro foi em junho, no GP da Áustria. No ano que vem, serão três corridas, já que o acanhado circuito de Zandvoort vai receber provas da categoria.

O GP da Holanda retornará ao calendário em maio de 2020. Como a data não está 100% confirmada - será em um dos dois primeiros fins de semana do mês, a depender da permanência ou não do GP da Espanha, ainda sem contrato - o www.verstappen.nl ainda não iniciou as vendas. A expectativa é que tudo se esgote em minutos - mais de 500 mil pessoas se inscreveram para ver a corrida no sistema normal de ingressos e o circuito holandês tem capacidade para apenas 250 mil espectadores para os três dias de evento.

Tudo isso é efeito do que Verstappen está mostrando dentro da pista. Ele nunca pilotou tão bem quanto agora. Aos 21 anos de idade e já em sua quinta temporada, demonstra ter dosado a agressividade excessiva do início da carreira e hoje tem a consistência necessária para lutar pelo título pela primeira vez.

E com o crescimento da parceria Red Bull-Honda, isso parece ser apenas uma questão de tempo. Mas quanto ele pode esperar para finalmente disputar títulos? Em entrevista exclusiva ao UOL, o holandês falou sobre disputa de títulos, permanência na Red Bull e como vê seu papel na F-1 atual.

Espero que tenha trazido um pouco de cor, um pouco de emoção. E tomara que tenha muito mais por vir

Max Verstappen

Max Verstappen, respondendo sobre sua contribuição para a Fórmula 1 até aqui

Robert Szaniszló/NurPhoto via Getty Images Robert Szaniszló/NurPhoto via Getty Images

"Não sou um piloto que aceita a posição. Eu luto"

Você não gosta de definir metas de tempo para lutar por campeonatos, mas aos 21 e após 5 temporadas na F-1, você acha que já esperou o suficiente ou aceita que ainda tem muito tempo para crescer com a equipe?

Eu gostaria de ter ganhado o campeonato no meu primeiro ano, mas não é possível. Na F-1, você nunca sabe: você não pode prever nada, é um mundo complicado. Você precisa ter sorte de estar no time certo também. Há tantos exemplos no esporte de pilotos que poderiam ter vencido o campeonato se estivessem no time certo em um determinado ano. Às vezes isso não acontece e às vezes você tem sorte e ganha cinco campeonatos seguidos. Algumas pessoas têm essa sorte, outras não.

Seu contrato expira no final do próximo ano. Você já está olhando em volta para ver o que outras equipes no paddock têm a oferecer e o que você pode esperar da Red Bull-Honda nos próximos anos?

Eu estou olhando principalmente dentro da equipe em relação ao futuro, para ver o que vai acontecer também com a Honda. Essa é minha principal prioridade no momento.

É importante para você, então, que a Honda permaneça e que haja muita estabilidade dentro da equipe.

Eu acho que é importante não só para a Honda, para mim, mas também para a equipe. Está tudo alinhado.

Você também rapidamente se tornou uma parte muito importante dos negócios da F-1, já que você está trazendo uma grande quantidade de fãs para as corridas.

Nunca foi minha intenção chegar e dizer "quero entreter as pessoas". Mas isso tem a ver com a maneira que eu piloto, de ir lá só para ter uma boa corrida e terminar nos pontos. Estou aqui para tentar obter o melhor resultado possível e não sou apenas um piloto que aceita a posição que está nas corridas. Eu luto, não vou desistir fácil: defendendo ou atacando, sempre estarei indo para cima. Claro, de uma maneira segura, mas vou para cima. Eu não estou lá apenas dizendo: "Eu estou feliz com o quarto lugar e eu vou ficar aqui".

Se vejo a oportunidade, eu faço isso e acho que é disso que as pessoas gostam".

JOE KLAMAR / AFP JOE KLAMAR / AFP

"Maré Laranja" já fomenta até o setor de turismo

Já não é exagero dizer - e a comparação é feita repetidamente no paddock da F-1 - que o fenômeno Verstappen nas arquibancadas é semelhante ao trazido por Michael Schumacher nos anos 1990. É uma torcida não só numerosa, mas que se comporta de maneira distinta ao público costumeiro do automobilismo, entoando cantos de futebol, fazendo coreografias, vibrando com o piloto cada vez que ele passa como se fosse um gol.

Não é por acaso que as agências de viagem especializadas em Fórmula 1 não param de surgir na Holanda. Mais experiente do ramo, a Grand Prix Tours revelou ao UOL que o número de pacotes vendidos quadruplicou desde 2016, quando Max foi para a Red Bull - o carro-chefe são as provas de Itália, Espanha e Grã-Bretanha.

Na Áustria, em um circuito com capacidade para 60 mil pessoas, calcula-se que mais de 20 mil holandeses viram a vitória de Verstappen na prova disputada em 30 de junho. Na Bélgica, esse número deve superar os 100 mil - muitos deles sem ingresso. Afinal, o circuito fica a 50km da fronteira com a Holanda. No primeiro ano de Verstappen na Red Bull, em 2016, o piloto já atraiu 25 mil torcedores.

Andrej ISAKOVIC / AFP Andrej ISAKOVIC / AFP

Fontes próximas ao clã Verstappen confirmaram à reportagem que o plano do empresário do piloto, Raymond Vermeulen, é comprar arquibancadas inteiras em diversos circuitos, A partir daí, comercializá-las apenas entre os fãs do piloto, com direito a kits com transporte e camiseta, e oferecendo versões premium - que incluem encontrar Max durante o fim de semana de corrida.

Outras duas provas que recebem um grande público vindo da "maré laranja" são Alemanha e Hungria, mas ela não para por aí. Arif Rahimov, diretor executivo do GP do Azerbaijão, revelou que os holandeses já são a quarta nacionalidade mais presente em Baku, destino que recebe prioritariamente britânicos (que tradicionalmente são a maioria dos estrangeiros em praticamente todas as etapas), russos e finlandeses (devido à proximidade e boa oferta de voos).

Neste ano, o próprio Verstappen espera ver as arquibancadas de uma prova bem longe da Holanda também coloridas com o laranja: o GP do Japão, em Suzuka. Mas não exatamente porque os holandeses vão até lá. "Espero ver os japoneses cobrindo a arquibancada com o branco e vermelho do Japão e um toque de laranja também", disse o piloto, primeiro a vencer uma prova com motor Honda desde 2006.

Lars Baron/Getty Images Lars Baron/Getty Images

"Não há nada novo para mim"

Ao mesmo tempo em que falamos sobre o futuro, você já se sente um veterano no paddock?

Sim, acho que um pouco. Para mim, parece que já estou por aqui há algum tempo. Não há nada novo para mim.

Há algo de que já se cansou?

(Provavelmente lidar com a mídia, diz a assessora de imprensa da Red Bull)

Não, isso não tem problema. Você sabe que tudo faz parte do trabalho para o qual você se propôs a fazer. Você sabia que seria assim desde que era jovem. Eu ainda sou jovem, mas quero dizer muito jovem!

Como você se vê daqui a 10 anos: uma estrela global ou um piloto 'de carreira', que já correu de com tudo um pouco?

Terei mais algumas rugas, eu acho! Espero que tenha vencido alguns títulos, mas no momento é difícil dizer. Eu definitivamente estarei na F-1 por mais 10 anos e espero ter tido alguns anos legais quando chegar lá.

Mark Thompson/Getty Images Mark Thompson/Getty Images

Parceria Red Bull-Honda compensa aposta

Há um ano, Verstappen apoiou totalmente a Red Bull quando sua equipe decidiu encerrar a parceria de anos com a Renault para assinar com a Honda. A aposta foi questionada por muitos no paddock - seu então companheiro de equipe, Daniel Ricciardo, foi um desses e decidiu se juntar aos franceses.

Agora, o holandês mostrou que a decisão foi acertada: é ele, Verstappen, com um carro impulsionado pelo motor Honda, quem dá tempero a um campeonato que caminha para coroar um hexa fácil para Lewis Hamilton.

Mesmo tendo o terceiro melhor carro do grid até a atualização do fim de junho, que colocou a Red Bull à frente da Ferrari, os piores resultados de Verstappen no ano foram dois quintos lugares. Ou seja: sempre tirou o máximo do equipamento em todas as 12 etapas disputadas até aqui. E ainda aproveitou as chances que teve para vencer, na Áustria e na Alemanha.

Srdjan SUKI / POOL / AFP Srdjan SUKI / POOL / AFP

"Não digo que são perfeitos, mas sabem onde trabalhar"

Foi há pouco mais de um ano que a Red Bull anunciou que estava se unindo à Honda. Como foram seus sentimentos naquela época e você está surpreso com a evolução deles?

Na época em que foi anunciado, eu sabia de tudo porque estava conversando muito com Christian [Horner, chefe da Red Bull] e Helmut [Marko, consultor da equipe]. Eu estava muito animado para começar e ainda estou muito animado no momento. Acho difícil responder se foi melhor do que o esperado porque não sabia o que esperar, mas estou muito feliz com a parceria que temos. Estamos trabalhando muito bem juntos visando o objetivo que queremos alcançar, que é, obviamente, vencer as corridas.

Trabalhar com a Honda fez de você um grande fã da cultura japonesa?

Eu sempre fui um grande fã do Japão, desde que fui correr lá na época de kart. Eles também são muito legais e muito respeitosos. Para mim, o maior exemplo é quando você vai aos estádios de futebol: mesmo que os fãs japoneses tenham perdido e estejam muito desapontados, eles sempre limpam a bagunça - mesmo na sala dos jogadores. Tudo está super limpo depois. É bastante impressionante em comparação com outras culturas em termos de mentalidade e também no modo como elas funcionam. Eles são muito focados e calmos - você não vai vê-los gritando ou gritando - mas ao mesmo tempo eles estão fazendo o trabalho muito bem. Acho que às vezes nós, europeus, podemos aprender com sua mentalidade e maneira de trabalhar.

Vendo a maneira como eles trabalham e usando o motor da Honda, você pode ver por que eles tiveram tantas dificuldades com a McLaren?

A McLaren estava dizendo a eles como construir o motor. E, claro, eles eram novatos no esporte e talvez tenham subestimado um pouco, por isso foi um trabalho tão grande e difícil de acertar. Mas eles colocam as pessoas certas nos lugares certos e empregaram outros, e agora estão definitivamente indo na direção certa. Eu não digo que é perfeito ainda, mas eles sabem onde eles têm que trabalhar.

Mark Thompson/Getty Images Mark Thompson/Getty Images

Curtiu? Compartilhe.

Topo