Micale: técnico exportação

Ouro com o Brasil, técnico levou Egito para as Olimpíadas 2024 e diz que seu mercado está longe do país

Alexandre Araújo Do UOL, no Rio de Janeiro (RJ) Divulgação Associação de Futebol do Egito

Rogério Micale se tornou um técnico sem fronteiras. E não unicamente por vontade própria. Comandante da primeira medalha de ouro olímpica do nosso futebol, ele não enxerga um retorno ao país natal a curto prazo e faz críticas aos rótulos que os profissionais brasileiros ganharam nos últimos anos.

Estou incorporado a esse novo momento de treinadores que não têm nacionalidade. Se ele tiver mercado e trabalho, ele vai trabalhar em qualquer lugar do mundo

Há três anos no exterior, Micale avalia que o mercado nacional adota pesos diferentes que variam de acordo com a nacionalidade do técnico.

O próximo desafio traçado é tentar o segundo pódio olímpico no currículo. Ele classificou o Egito aos Jogos de Paris-2024 e não esconde a vontade de contar com o astro Salah.

Antes disso, uma pausa para "ser brasileiro". De férias, quer curtir com a família, além de "comer churrasco e beber uma cerveja".

Em um bate-papo com o UOL, o técnico comentou ainda o episódio de violência envolvendo Luan, futebol na Arábia Saudita e fez elogios a Fernando Diniz na seleção brasileira.

Malas prontas para as oportunidades

Em 2020, após uma rápida passagem pelo Paraná, Micale arrumou as malas e rumou à Arábia Saudita, onde teria a primeira experiência fora do país. Chegou para comandar o sub-18 do Al-Hilal, mas logo assumiu o time principal, após demissão de Razvan Lucescu.

Teve início uma trajetória que, até aqui, contou com passagem pelo Al Dhafra, do Emirados Árabes Unidos, antes do Egito. O treinador acredita que esse, no momento, é o caminho a ser trilhado.

"Há três anos eu trabalho fora do Brasil. Tive outras propostas para sair para outros clubes e países ali da região. Então, não me considero mais um treinador brasileiro", afirma.

Micale se mostra favorável ao intercâmbio de técnicos e ressalta que integra tal modelo, mas acredita que os rótulos com os quais os treinadores brasileiros foram taxados nos últimos anos contribuíram para a atual visão em relação a esses profissionais:

"Acho que o meu mercado é fora mesmo. Vejo pelas ofertas que têm chegado, muito mais consistentes do que algo que chega do Brasil. Quando chega [do Brasil], é muito frágil. Fora, tenho segurança contratual, garantias que aqui no Brasil quem tem são os estrangeiros. Muito por essa imagem que se criou. Quando você transmite isso para o mercado, o mercado também reage dessa forma."

Divulgação Associação de Futebol do Egito

Trabalho na seleção olímpica do Egito

Micale desembarcou no Egito em agosto do ano passado para assumir o time olímpico. Ele voltava a comandar uma seleção da categoria depois de seis anos. No início do mês, o Egito chegou à final da Copa Africana de Nações Sub-23 e garantiu vaga em Paris — na decisão, o Marrocos venceu por 2 a 1.

"Foi uma campanha consistente, que trouxe muita alegria para o povo. Quando saímos à rua, vemos o comportamento dos torcedores, os agradecimentos. Tem sido muito bacana o trabalho, e com essa geração que vinha desacreditada. Isso foi muito bom, foi uma resposta fantástica", apontou.

Nem tudo é dinheiro

Criamos um vínculo grande, a torcida do Egito me abraçou de uma forma que sou muito agradecido. Aquilo que eu não tenho no Brasil, ganhando a medalha de ouro, tenho no Egito classificando para os Jogos Olímpicos. Isso a gente coloca na balança, a vida não é só a questão da grana

Rogério Micale

Nick Taylor/Liverpool FC/Liverpool FC via Getty Images

Salah nos Jogos Olímpicos?

Com a vaga na mão, Micale já começou a sentir a pressão dos egípicios pela convocação de Mohamed Salah, principal nome do futebol país, para os Jogos Olímpicos.

"Cada egípcio que me para na rua é para essa pergunta: quem são os três acima de 23 anos que eu vou levar. Já parou até carro no meio da via para isso", conta, aos risos.

O treinador não esconde a vontade de contar com o jogador, astro do Liverpool, da Inglaterra: "Eu quero e já deixei claro. Tem vários fatores que precisam dar certo: o Liverpool liberar, não ser uma data onde o Rui Vitória [técnico da seleção egípcia] vai usá-lo. Mas, se depender da mim, vai estar. É como o Neymar, seria uma chance de ouro para podermos fortalecer a equipe e brigar por pódio".

'Tem de dar tempo de trabalho para todo mundo'

Micale avalia que há um preconceito com o produto nacional e indica que o futebol brasileiro vive um momento em que "o peso e a medida não são os mesmos".

"Existe um preconceito do brasileiro com o próprio brasileiro. Estamos vivendo um momento em que se coloca todo mundo no mesmo pacote e se cria um rótulo de que o treinador nacional não serve. Não é verdade. Existe treinador bom e ruim em qualquer nacionalidade, mas dizem que os brasileiros são ultrapassados, precisam de reciclagem. O brasileiro perde três, quatro partidas e é demitido. Tem de dar tempo de trabalho para todo mundo. Sou favorável e faço parte desse processo, mas, no Brasil, vemos que o peso e a medida não são os mesmos", apontou.

O último trabalho do treinador no Brasil foi em 2020, quando esteve à frente do Paraná. A passagem durou apenas seis jogos até a demissão.

Eduardo Anizelli

Diniz na seleção é 'grande sacada'

No vácuo dos técnicos estrangeiros, a CBF diz ter um acordo com o italiano Carlo Ancelotti para que seja o técnico da seleção brasileira a partir de 2024. Fernando Diniz, do Fluminense, foi contratado para ser o treinador até lá. Micale fez elogios à escolha e acredita que o estilo de jogo de Diniz pode render bons frutos na seleção.

"Quando o Diniz aparece na seleção brasileira, eu acho que é uma grande sacada. Alguns falam de currículo, mas o Diniz tem uma característica de jogo que é o DNA do futebol brasileiro. Essa é uma discussão que a grande maioria não tem. Olham o produto do Diniz, mas qual é a ideia de jogo dele? Se aproxima do que é o futebol brasileiro? Eu acho que sim".

Férias para 'ser brasileiro'

Longe de casa ao longo da temporada, o que faz Micale quando chega ao Brasil para curtir férias? A resposta é simples:

"Quando venho ao Brasil, quero ficar com a minha família, comer churrasco, beber cerveja, comer carne de porco. Lá não podemos comer porco, não se bebe. Então, quero ser brasileiro, comer feijoada e tomar caipirinha. Tenho um mês aí para engordar uns cinco quilos, depois faço um regime e perco de novo lá. Quero matar a saudade".

"Sempre fui muito apegado à família. Sinto muita falta das minhas filhas, esposa, e, agora, tenho muitos netos também. Quando venho, o meu descanso é mais dentro de casa, recebendo as pessoas. É um momento de estar junto porque é muito tempo fora, dentro de um hotel", contou.

É um sonho construir essa carreira internacional, mas sempre fui muito apegado à minha família e sinto muita falta. É uma profissão solitária, temos de abrir mão de muita coisa, mas está caminhando bem

Rogério Micale, técnico da seleção olímpica do Egito

Alex Grimm/FIFA via Getty Images

A evolução do futebol africano

Nas últimas temporadas, o futebol do continente africano tem conseguido resultados importantes. Na Copa do Mundo do Qatar, no ano passado, por exemplo, Marrocos ficou na quarta colocação, tendo passado por seleções como Espanha e Portugal.

Mais recentemente, novos exemplos. Na Copa do Mundo feminina, Marrocos, África do Sul e Nigéria avançaram às oitavas de final, enquanto algumas gigantes, como Brasil e Alemanha, foram eliminadas ainda na fase de grupos.

"O que posso afirmar, pelas minhas andanças nos países, é que o investimento é muito alto e tem sido tratado com seriedade. Marrocos é um grande exemplo. A final [da Copa Africana de Nações sub-23] foi lá e pude observar de perto tudo que vem sendo feito. Há algumas forças, como Gana, Camarões, Argélia, África do Sul. Posso dizer que tem de oito a 10 seleções que competem em alto nível. E também estão trazendo pessoas de fora para mesclar a cultura de futebol, ideias de jogo. Os resultados são surpresa para quem não conhece esses países", apontou.

Micale fez elogios ainda aos jogadores africanos e lamentou que este mercado ainda não seja explorado em demasia pela América do Sul.

"A África tem um produto muito bom. O jogador africano é forte, obediente. É difícil vencer essas seleções, a gente vê que há componentes táticos consistentes. É um continente exportador, é uma pena que a América do Sul ainda não tenha despertado para isso", apontou.

A Europa está muito presente no continente africano e busca jogadores. É um expoente, um novo momento. Não é por acaso. Está em evolução e vai chegar forte nos próximos anos

Rogério Micale, técnico da seleção olímpica do Egito

Yasser Bakhsh/Getty Images

Arábia Saudita e o investimento ainda maior no futebol

A caminhada de Micale no exterior começou pelo Al-Hilal, da Arábia Saudita, país que vem investindo para que a Liga tenha grandes nomes do futebol mundial, em movimento "puxado" por Cristiano Ronaldo, que está no Al-Nassr.

Al-Ittihad, Al-Nassr, Al-Hilal e o Al-Ahli, quatro dos clubes mais populares, receberam uma injeção financeira de um fundo de investimentos do governo. Nomes como Benzema, Kanté, Mendy e Firmino chegaram ao país nesta janela.

"É um poder financeiro violento, buscam quem quiserem. E não é só o salário, também tem a questão da premiação. Vai depender se a pessoa vai quer viver dentro dos padrões da Arábia Saudita. Acho que a Liga já é forte e, com certeza, vai ficar ainda mais com esses nomes", opinou.

Ettore Chiereguini/Ettore Chiereguini/AGIF

Violência no futebol está 'saindo do controle'

Na conquista do ouro olímpico com o Brasil, Micale trabalhou com Luan, jogador que recentemente foi agredido em um hotel por integrantes de uma organizada do Corinthians. Pouco após o episódio, o meia deixou o Timão e acertou o retorno ao Grêmio.

"Vemos semanalmente notícias sobre algum tipo de violência dentro de estádio de futebol ou ligada à futebol. Essa questão está tomando uma proporção que está saindo do controle. Não sei se vai ter de acontecer uma tragédia para abrirem o olho", lamentou Micale, que acrescentou:

"A questão do Luan não estar jogando é porque o Brasil chegou a um momento em que estamos mudando o nosso DNA, consumindo muito o que vem de fora. Vamos formar outro tipo de jogador daqui a pouco, porque o DNA do futebol brasileiro é o Luan. O Luan é um tipo de jogador que é aposicional, ele não se enquadra no jogo posicional, que é como 90% das equipes atuam hoje no futebol brasileiro".

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