Chama o Tio Mário

As histórias de Mário Américo, massagista que ganhou Copas, carregou craques e descobriu sonambulismo de Pelé

Roberto Salim Colaboração para o UOL, em São Paulo Wolfgang Weihs/picture alliance via Getty Images

A história deste personagem pode ser escrita de várias maneiras. Começando com o menino que fugiu de uma vida de semiescravidão para engraxar sapatos na cidade grande. Ou com o lutador de boxe que foi treinado pelo grande Kid Jofre. Ou você pode preferir saber dos tempos de gafieira em que ele era o baterista Mario Charleston. Talvez o melhor, mesmo, seja ir direto para a profissão que o lançou ao mundo e a uma viagem infinda por 77 países. Trata-se de Mário Américo, o massagista.

Reparem que em todas as atividades citadas, nosso personagem tem como força de trabalho as mãos. "Com essas mãos", enfatizava ele sempre que ia contar uma história de qualquer das fases de sua vida multifacetada.

A verdade é que nesta época do ano — entre junho e julho — são comemoradas muitas conquistas importantes da seleção brasileira de futebol. Então, esse é um período em que o coração de dona Yara fica apertado e se enche de saudade. Ela tem 88 anos e vê, nas fotos dos times de camisa amarela, um parceiro que lhe encheu de presentes, alegria, paixão e massagens.

Uma figura que não some nos registros fotográficos. Os jogadores mudam de anos em anos. Pode ser o goleiro Barbosa, Ademir de Menezes, Julinho Botelho, Tostão, Rivelino e até o Rei Pelé. Mas Mário Américo está lá, firme, sempre na ponta, sempre agachado: o querido e competente massagista titular do Brasil durante 24 anos.

Agora, você vai conhecer um pouquinho da história de um dos personagens mais populares, e menos conhecido, do período mais vitorioso da seleção brasileira de futebol.

Wolfgang Weihs/picture alliance via Getty Images

Não era só em mim ou nos jogadores. O Mário fazia massagem em todo mundo que tinha uma dorzinha. Aqui no bairro todo mundo o procurava: dos vizinhos aos parentes

Dona Yara, a segunda esposa do massagista dos campeões do mundo e dos times do Madureira, do Vasco da Gama e da Portuguesa

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O cheque de Pelé

Para se ter uma ideia de seu carinho pelo povo do Bairro do Imirim, em São Paulo, ao lado de um padre da paróquia local, Mário Américo se empenhou tanto na construção do Hospital São José que até o amigo Pelé fez uma doação para a obra.

"Nesta foto, em um jogo do Santos no Pacaembu, meu avô foi com o padre pegar o cheque do Pelé. Eles eram muito amigos", conta Mário Américo Neto, que conviveu até os três anos com o vovô já adoentado, mas herdou o tal dom para a cura com as mãos. "Meu avô tinha muitos segredos, era um visionário. Tinha suas pomadas, suas anotações".

Não à toa, Mário Neto é fisioterapeuta e torcedor fanático da Portuguesa. "Minha avó conta que ele me pegava no colo e dizia: 'este aqui vai ser torcedor da Lusa'. E eu sou. Fanático".

Mário Neto é, por assim dizer, um estudioso da história de seu avô. "Sou infuenciado totalmente por sua história. Não teve jeito. Na verdade, toda a história da família é do bairro do Imirim. Fui me interessando pela memória dele. Era um personagem diferente: não era jogador, mas um massagista que fez história no futebol".

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"Vou comprar um tanque de ouro para ela", revelou em seu livro, de autoria de Henrique Mateucci: "Memórias de Mário Américo — O massagista dos reis". Depois se corrigiu e prometeu que sua mãe nunca mais passaria o dia lavando roupas para os outros. E cumpriu sua promessa!

Ajudou a família e conheceu o mundo, foi apresentado a reis, foi político, protagonizou cenas históricas do esporte nacional, cuidou de Pelé como se fosse um filho, brincou com Garrincha, fugiu com a bola da final da Copa de 58, bordou distintivos no uniforme improvisado na Suécia, fez sanduíches antes da semifinal com o Chile em 1962 por medo de sabotagem, brigou na Copa da Suíça, inventou pomadas, estudou anatomia e separou brigas no ambiente de ciúme da Copa de 50. Tocou bateria e lutou boxe.

"De cada viagem ele trazia um presente diferente: de jóias a casaco de pele", comenta com orgulho dona Yara, que se casou com Mário em abril de 1972. O irmão dela era massagista do São Paulo e foi aí o início. "Mas começo mesmo foi em um baile do Aristocrata Clube".

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Bateria, boxe e massagens

Mário Américo gostava de música. Era baterista. Tinha muito ritmo e sonhava ter sua própria orquestra. Por isso, sempre que artistas estrangeiros vinham ao Brasil, ele e dona Yara estavam presentes. "Não perdia um show".

Muito forte, o baterista Mário Charleston passava sempre ao lado de uma academia de boxe, que era onde dois irmãos argentinos treinavam seus campeões. Década de 30: Mário passava e ficava olhando os boxers no centro antigo de São Paulo. Um dia, um dos treinadores brincou com ele e no dia seguinte Mário do Charleston mudava de sonhos: não teria mais uma orquestra animando os palcos de todo o planeta. Seria campeão do mundo dos pesos leves sob a orientação do lendário Kid Jofre, pai do Galo de Ouro Eder, que nem era nascido na época.

Tenho esta foto aqui dele. Meu avô era muito forte. E sei que ele chegou até a enfrentar o Ralph Zumbano, que era um dos bambas da época. A luta foi quando ele já estava no Rio de Janeiro".

Em seu livro, Mário conta que acertou um hook no adversário e o levou à lona. Mas o juiz achou que tinha sido um golpe baixo, desclassificou Mário e deu a vitória a Zumbano, numa noitada realizada em São Januário.

Ficou decepcionado, mas esse gosto pelos desafios, lutas e música ele carregou pelo resto de sua existência. E ele só deixou o boxe após uma outra derrota em que ouviu o conselho do médico do Madureira, o doutor Almir do Amaral — naquela época, o futuro massagista já tinha trocado a academia de Kid Jofre no centro de São Paulo pelo clube do subúrbio do Rio de Janeiro.

"Ele falou para o meu avô que no boxe ele não daria muito certo. Que seria melhor trabalhar como massagista no próprio clube. E assim foi. O doutor Almir do Amaral dava aulas na Escola Nacional de Educação Física e convidou meu avô para acompanhar o curso como aluno ouvinte. Ele não tinha estudo, mas começou a conhecer os músculos, tendões e ligamentos, enfim a anatomia do corpo humano. Foi se especializando. E isso foi fazendo a diferença em seu trabalho".

Começava a nascer uma lenda chamada Mário Américo.

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Garoto propaganda de Gelol

"Como disse, ele foi um visionário. Tinha seus métodos, criava suas pomadas com parafina, arnica e cânfora. Estalava as costas dos jogadores com seus exercícios e ajeitava as colunas dos craques, com métodos de quiropraxia, que ele não se sabia o que era. Ele estava à frente de seu tempo. Não tinha os recursos como os da eletroterapia, trabalhava com as técnicas manuais. E eu sei disso tudo porque peguei o livro de suas anotações com técnicas de massagem, que estava com minha avó", diz Mário Neto.

Além deste dom, Mário Américo era incansável em seu trabalho. "Muito jogador quando me encontra, me fala que ele nem dormia para tratar dos craques mesmo de madrugada. O Gerson sempre fala isso", completa.

Sua fama era tanta que acabou sendo garoto propaganda da pomada Gelol e também lançou, junto com um fisioterapeuta alemão chamado Dietter, um preparado para dores em terras germânicas após a Copa do Mundo de 1974: o Amazonas Balm.

"Meu avó era figura carimbada nas fotos da seleção, pode conferir", assegura o neto, que tinha três anos quando o avô partiu, mas que sabe mais do que ninguém a história do massagista ligeiro e competente que marcou época no esporte nacional. Mário cresceu escutando histórias sobre o avô, em casa e no bairro. "Não teve jeito, fiz fisioterapia, torço pela Portuguesa e fui me interessando pela memória de um personagem que não era jogador, mas que fez parte da seleção e esteve em sete copas do mundo. Um personagem diferente, um massagista que entrou para a história".

Acervo UH/Folhapress Acervo UH/Folhapress

Chama o Tio Mário!

Jogadores da seleção, antes de fotos no vestiário. Tio Mário era tão querido que, no momento das fotos, os jogadores só formavam o grupo quando ele estava junto. A frase era a senha para que o incansável massagista se juntasse àquela turma boa de bola

Acervo Folhapress

O pombo-correio da seleção

Mário Américo não marcou gol, não chutou uma bola, não criou táticas ou esquemas. Mas seus conhecimentos (e suas mãos) com certeza ajudaram a seleção brasileira. Ele é o responsável, por exemplo, pela presença do menino Pelé na Copa de 1958. E por ter convencido o mesmo Rei que aquela derrota para Portugal, em 1966, não seria a sua despedida de mundiais.

Com sua corrida de velocista, tornou-se o pombo-correio da seleção: o homem responsável por transmitir as instruções dos técnicos diretamente aos jogadores. Atrás dos gols ou quando eles caíam em campo, lesionados mesmo ou fingindo contusão. Ordens táticas ditadas por Flávio Costa, Zezé Moreira, Vicente Feola, Aymoré Moreira, Oswaldo Brandão, João Saldanha ou Zagallo.

Meu avô não era só um massagista. Era um conselheiro, um psicólogo, um amigo. O Zé Maria, lateral reserva em 1970 no México, sempre me disse que o meu avô era um pai para ele".

O massagista entrava em ação nas horas difíceis. No momento solitário do tratamento das contusões. Nas intervenções de emergência dentro de campo. Na hora de ouvir os lamentos de jogadores submetidos às toalhas quentes e massagens regenerativas nas madrugadas das concentrações. E até na hora de separar brigas em ambientes aparentemente tranquilos e amigáveis.

Em sua longa carreira de 24 anos na seleção, coleciona também histórias hilariantes e denúncias. São alguns desses casos que vamos elencar aqui, com o auxílio de seu neto, de sua esposa, do livro "O Massagista dos Reis" e de entrevistas que fizemos com ele para a TV Record antes da Copa de 1986 e para a novela sobre a História das Copas do Mundo, apresentada em rádios de todo o país pela Gessy Lever.

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Copa de 50: os jogadores brigaram por vitrola

Eram dois os massagistas da seleção na Copa de 1950: o veterano Johnson e o novato Mário Américo, que já trabalhava no Vasco da Gama e criava fama com as conquistas do grande time da década de 40, o Expresso da Vitória. Em seu livro, Mário conta detalhes dos bastidores daquela disputa memorável, que não acabou bem para os brasileiros.

Até às vésperas do jogo com o Uruguai, uma festa só. Um ambiente alegre até demais na concentração, mudada para São Januário para atender a compromissos políticos. Muitas visitas e ofertas de presentes.

E em seu livro, ele narra até que teve de separar uma briga entre três craques do time para ver quem ficava com uma rádio vitrola que tinha chegado: Jair da Rosa Pinto, Zizinho e Ademir. Mas melhor que esse caso foi o que ele e Johnson fizeram um dia antes do jogo contra Obdulio Varella & Cia. Havia muita oferta de presentes: de liquidificador a joias (e vitrolas, é claro). Um dia antes da final, os dois arrumaram um tempinho e uma caminhonete e foram buscar os presentes nas lojas. Foram os únicos do grupo que ganharam com a final de 50, em que o Brasil perdeu do Uruguai.

Folhapress

Copa de 1954: "Perdemos no pau e na bola"

Antes de viajar para a Suíça com a seleção, Mário Américo trocou de clube. Em um amistoso entre Vasco da Gama e Portuguesa, no Rio de Janeiro, o vascaíno Eli deu uma entrada forte em Pinga. O presidente da equipe paulista, Mário Augusto Isaias, tinha sido lutador de boxe, invadiu o campo e foi para a briga. "Quando viu aquilo, meu avô não se conteve e deu um soco na cara do presidente da Portuguesa, que foi a nocaute. E o Djalma Santos, que conhecia meu avô, falou: 'rapaz, olha o que você fez, derrubou o presidente do clube'. E então meu avô saiu correndo para o vestiário e escapou de ser preso", lembra Mário Neto.

Passado um tempo, o Vasco da Gama veio jogar com a Portuguesa em São Paulo e, de repente, no alojamento do Vasco chegou o doutor Mário Augusto, levado por Djalma Santos. "O meu avô não lembrava de mais nada daquela briga, mas o Djalma, que era um tremendo gozador, refrescou a memória. E disse que o presidente queria falar com ele. Mas não era vingança, nem nada, o doutor Mário Augusto queria convidá-lo para trabalhar na Portuguesa. E ele aceitou".

E veio a Copa de 54. Após a derrota para a Hungria, por 4 a 2, o tempo fechou. "Pouco antes do final, o Nilton Santos foi expulso. Ficamos com dez em campo. E o Pinheiro abriu o supercílio e nem via mais a bola", resumiu Mário Américo, em seu depoimento no livro. "Quando o jogo terminou, o ponta-esquerda húngaro veio dar a mão para o Maurinho, que interpretou mal o gesto e deu uma bofetada no adversário".

E aí o pau quebrou. Teve até garrafadas sem a interferência da polícia suíça. "Saímos do vestiário e jogamos também nossas garrafinhas. Mas perdemos no pau e na bola".

Arquivo pessoal Arquivo pessoal

Copa de 1958: Mário Américo levou Pelé à Suécia

Houve um amistoso no Pacaembu entre a seleção brasileira e o Corinthians. A torcida do Corinthians queria Luizinho na Copa de 1958, mas a comissão técnica bancava o menino Edson Arantes do Nascimento. E Pelé levou uma entrada pesada de Ari Clemente. Machucou-se e teve gente que garantiu que o jovenzinho não se recuperaria até o embarque para a Copa da Suécia. Mas Mário Américo garantiu a Vicente Feola que Pelé estaria sim recuperado.

Pode ficar sossegado. Eu recupero o menino".

E nasceu aí uma amizade que durou a vida toda do massagista. "Para o meu avô, o Pelé era um Deus. Ele dizia que podiam bater dez craques da seleção em um liquidificador que não daria um copo de Pelé". Provavelmente dessa época é esta foto de Mário Américo dando uma injeção no braço do jovem Pelé.

Folhapress

Garrincha e o rádio que só falava sueco

"O Garrincha, em um dia de folga, comprou um rádio. E a gente ganhava apenas 20 dólares, cerca de 100 coroas. Ele veio fazer um tratamento comigo no dia seguinte e colocou o rádio comprado em cima da geladeira. Que beleza e tal! E eu pensei: 'esse sacana comprou o rádio...'

Quanto você pagou nesse rádio? E ele respondeu: 'Cento e sessenta (160 coroas)'. E eu falei: Puxa, você joga dinheiro fora mesmo, não tem jeito. Vão te gozar pra cachorro, hein. E ele perguntou: 'Por que me gozar?' E eu disse: Olha aí, burro. Você não está vendo que esse rádio só fala sueco? Só sueco. Não fala mais nada não. E eu te compro o rádio só pra ninguém te gozar. Você já é gozado demais. E na hora de sair, ele virou para mim e disse: 'Quanto você me dá pelo rádio?' Aí eu pensei: esse aí já tá pego.

Aí falei: olha aí Garrincha, eu não posso te oferecer 160, porque eu só tenho 20 dólares (que equivaliam a 100 coroas). E aí ele pensou, pensou, pensou e disse: 'Me dá 20 dólares'. E eu fiquei com o rádio quase pela metade do preço".

Depoimento de Mário Américo para uma pesquisa feita para uma novela radiofônica da Gessy Lever, levada ao ar em 1986, com a história das Copas do Mundo.

AP photo

O roubo da bola na final da Copa

A bola da final da Copa do Mundo de 1958, dos memoráveis 5 a 2 contra a Suécia, veio para o Brasil nas mãos do chefe da delegação, Paulo Machado de Carvalho. Antes da partida, ele falou para Mário Américo que queria a bola do jogo. E o massagista foi se socorrer do dentista Mário Trigo. "O doutor Paulo quer a bola. E agora?"

Do alto de seu bom humor, o dentista Mário Trigo, o piadista da delegação nacional, tratou de tranquilizar. "Quando o jogo acabar e o juiz pegar a bola, eu vou por traz dele e dou um soco na bola. Ela cai no chão, você pega e sai correndo", escreveu o doutor Mário em seu livro "O eterno Futebol". E assim foi feito: dentista e massagista em ação.

Quando o juiz Maurice Guigue apitou e pegou a bola, o doutor Mário Trigo foi por trás e socou a bola. E o massagista pegou e saiu em disparada. Mário Américo entrou esbaforido no vestiário, escondeu a bola no saco de roupas e deixou que os dirigentes explicassem aos policiais suecos que a bola do título não estava em posse de mãos brasileiras.

Acervo UH/Folhapress

Copa de 1962: Mário e o sonambulismo de Pelé

Na Copa do Mundo do Chile, o destino colocou Mário Américo e o amigo Pelé na mesma batalha: o Rei se machucou contra a Tchecoslováquia, na segunda partida da seleção no torneio, e a distensão muscular passou a ser um drama na concentração nacional. Mário Américo dormia no mesmo local que o seu amigo e passava a noite aplicando toalhas quentes na perna de Pelé.

Havia esperança de que ele se recuperasse, afinal, a Copa estava apenas começando. Mas havia também molecagem. E Djalma Santos era um moleque com "M" maiúsculo. Certa ocasião, quando já morava em Minas Gerais, o lateral direito da seleção me contou que chegou perto de Mário Américo e aconselhou que ele tomasse cuidado com Pelé.

Eu não sei se você sabe, mas o Pelé é sonâmbulo. E sonâmbulo é perigoso, se ele acordar de madrugada, pode te atacar. E eu sei que entre uma aplicação de toalhas e outra você dá uma cochilada. Cuidado!"
Djalma Santos, para Mário Américo

O zagueiro contava que, daquele dia em diante, Mário Américo fez uma corrente com latinhas amarradas e pendurou entre as duas camas. Assim, se Pelé acordasse e tentasse atacá-lo, ele acordaria com o barulho. "Não sei se essa história do Djalma Santos é verdadeira, mas o meu avô sempre deu entrevistas contando que foi ele quem descobriu que o Pelé era sonâmbulo", conta Mário Neto.

Nem todo o empenho de Mário Américo foi suficiente para recuperar Pelé. Mesmo assim, o Brasil chegou à semifinal contra o Chile. Como os chilenos jogavam em casa e os dirigentes nacionais ficaram cismados de que o cozinheiro da concentração poderia aprontar alguma coisa, novamente a dupla dos Mários entrou em ação.

Mário Américo e Mário Trigo foram incumbidos de comprar pão, presunto, queijo e água mineral. "Fizemos os sanduíches, escondemos na mala onde normalmente colocávamos as chuteiras e viajamos no trem de Quilpué para Santiago. E essa foi a refeição antes da semifinal contra os chilenos".

Empics

Copa de 1966: Mário convenceu Pelé a voltar em 70

Mais uma vez, a Copa do Mundo tem muito da ligação entre Pelé e Mário Américo. Em seu livro, ele conta que, para sair nas ruas em dias de folga, o Rei precisava se disfarçar. Até de peruca. "Mas o pessoal acabava reconhecendo o Pelé".

Na estréia contra a Bulgária, a violência correu livre. O zagueiro búlgaro Zechev conseguiu fazer nove faltas sobre o Rei até receber uma advertência. Pelé saiu com dores no joelho e foi poupado contra a Hungria. Aceitou jogar contra Portugal, mas levou duas pancadas aos 30 minutos do primeiro tempo. Tomou uma infiltração no intervalo e voltou a campo em Liverpool com quatro minutos do segundo tempo. Passou o resto do tempo mancando. Numa das cenas marcantes daquela Copa, saiu carregado por Mário Américo.

Pelé deixou o hotel em Kings Lynn disposto a não jogar mais qualquer Copa do Mundo. "E foi o meu avô que o convenceu a não desistir. Meu avô dizia que Pelé não poderia deixar o futebol com uma imagem daquelas". E assim veio 1970!

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Copa de 1970: Mário resistiu à pressão da comissão técnica

Essa foto de bastidores, com Mário Américo, Pelé e Nocaute Jack, é uma preciosidade. Eles estão com a Copa e com um sorriso de verdadeiros campeões do mundo. Mário Américo é tricampeão do mundo em seis Copas em que esteve presente.

Ele ainda era o massagista dos reis e, forte como sempre, carregava seus sobrinhos, como a foto dele com Rivellino, que abre essa matéria, mostra. Mas em 1970 não era mais um menino, já não corria tanto. E não se dava tão bem com os membros da comissão técnica. Ficou porque ainda tinha os jogadores nas mãos — era um guru para Pelé. Em seu livro, lembra que, ainda na fase de treinamentos, o zagueiro Fontana estava com uma contusão. O doutor Lídio Toledo mandou que Mário Américo tratasse da distensão do jogador.

"Eu sabia que não era distensão e depois de três dias falei ao doutor que não era. E ele me perguntou se eu queria ensinar a profissão a ele. Não sei o motivo, mas descobri depois que o médico queria tirá-lo do grupo. Ele me disse: 'Vou colocá-lo para jogar um amistoso duro, o músculo estoura e ele vai embora'.

Mas Fontana aguentou o tranco. "Eu sabia que o Fontana ia aguentar e o doutor Lídio teve que engolir".

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Copa de 1974: o adeus

Aos 62 anos, Mário Américo sabia que a Copa da Alemanha seria sua última competição mundial. A sétima. Os que eram contra a sua presença diziam que ele tinha problemas de visão. "Mas eu faço massagens com as mãos", sempre disse Mário. A gota d'água para sua decisão de deixar a seleção foi o que ele viu acontecer com o jovem Clodoaldo.

Mário Américo Recebeu ordens para cuidar do volante santista. Ele se dedicava muito ao tratamento dos "sobrinhos" Clodoaldo e Zé Maria na concentração da Floresta Negra. E garantia, ao jornal Correio da Manhã, que Clodoaldo teria condições de chegar em forma à Copa. Mas o jogador foi testado antes da hora em um amistoso contra a seleção de Basel, sentiu a contusão ao fim do primeiro tempo e acabou cortado.

Ainda assim, ficou com a delegação e uma semana depois acabou com o treino, segundo depoimento do zagueiro Luís Pereira. Havia o interesse — sabe-se lá de quem — em dispensar o jogador. E Clodoaldo não jogou mesmo aquela Copa.

Mário presenciou também desavenças nos bastidores, sentiu-se magoado pelo que viu acontecer com Ademir da Guia, que só jogou meio-tempo contra a Polônia, e escreveu em seu livro que o time da Holanda só eliminou o Brasil porque o time de Zagallo desperdiçou chances no primeiro tempo. "Aquele time holandês era um time com tática de basquete".

Quando a delegação voltou ao Brasil, e os homens da CBF começaram a falar em homenagear o velho massagista, ele se antecipou e se despediu. O massagista dos reis não ia fazer média com dirigentes. Ainda mais com aqueles cartolas que não mereciam o respeito do Mário Américo das sete copas. "O pombo-correio agora vai voar em outros campos".

E foi!

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