Diversão em tempo integral

Marcio Canuto chegou ao jornalismo por causa do futebol e mantém "dedo na tomada" mesmo aposentado

Gabriel Carneiro e Vanderlei Lima Do UOL
Diego Padgurschi

Ele é daquele jeito fora do ar também?"

A pergunta foi feita por um monte de gente depois de saber que conversamos por 2h30min com o Marcio Canuto. E ela tem uma resposta simples: é.

Achou estranho ler uma longa entrevista com o histórico e extrovertido repórter da TV Globo sendo publicada no UOL Esporte? É que se não fosse o esporte — e mais especificamente o futebol —, Canuto não seria Canuto. No máximo Luiz Marcio. Lá em Alagoas, o amor pelo futebol chegou antes da vocação pelo jornalismo. E pautou toda sua história profissional até 2019, o ano em que decidiu pendurar o microfone depois de mais de 20 anos no ar como fiscal do povo.

Aqui, Marcio Canuto revisita sua história. Sorri, chora e grita. Ah, como grita... E explica como consegue ser tão agitado aos 73 anos, as razões da aposentadoria, o que tem feito hoje em dia, o estilo único na TV, a chegada à Globo perto da terceira idade, sua história de amor que daria uma novela, o sonho não realizado de apresentar um programa de auditório, a nova vida na publicidade e os memes.

"Que é isso, rapaz?". É um homem exatamente igual ao que você pensa que ele é.

Você pode assistir à entrevista completa com Marcio Canuto no canal do UOL Esporte no YouTube e ouvir a íntegra da conversa com o jornalista no Podcast UOL - Entrevistas: Canuto.

"Aproveite o restinho da vida"

A aposentadoria de Marcio Canuto foi uma surpresa. Não só para o público, como para os próprios diretores da TV Globo, onde ele trabalhava há 21 anos. Em meio às conversas pela renovação do contrato que venceria neste ano, o repórter diz que teve uma sensação diferente de tantas outras renovações. Era o fim.

Me veio esse estalo: meu amigo, aproveite o restinho da vida. Você está com 73 anos, só fez trabalhar, passou 30 anos sem um único dia de folga, só Natal e Ano Novo. É hora de acalmar o espírito".

A redação da Globo em São Paulo parou para ouvir e aplaudir o experiente repórter no dia 15 de julho, o último de trabalho. Ele ganhou uma carta de Ali Kamel, diretor geral de jornalismo, e diz que não se incomodou pela ausência de executivos na despedida. Foi uma tarde de "choros convulsivos", vídeos, fotos e homenagens. A Globo ainda deu bonificação e dois anos de seguro saúde ao ex-funcionário.

É uma das coisas mais emocionantes que um sujeito pode passar. Esse carinho, esse reconhecimento, essa troca de energia. Segundo os mais antigos, poucos momentos como esse aconteceram na história da Rede Globo. Se eu fosse um milionário e quisesse produzir uma festa de despedida, com todo o dinheiro, eu não teria conseguido

Marcio Canuto

Marcio Canuto, sobre a despedida da TV Globo

Não vou procurar pelo em ovo. Eu não tenho um pingo de reclamação a fazer. Primeiro, eu não esperava jamais que um diretor fosse. Depois, eu descobri que ele (Ali Kamel) queria ir, mas passou por uma operação e mandou uma crônica me exaltando como pessoa e profissional. Eu só tive carinho, só tive afeto. Foi a coisa dos meus sonhos e sou grato

Canuto, falando sobre a ausência de diretores no dia do adeus

Diego Padgurschi Diego Padgurschi

Acordava às 5h. Agora, às 7h

Canuto continua morando em São Paulo mesmo depois de aposentado. É que ele curte o agito cultural da capital. Diz que tem fins de semana em que vai ao teatro às 21h e emenda uma apresentação de comédia stand-up à meia-noite. Também frequenta shows, confere as novidades do cinema e viaja sem comprar passagem de volta. Em dia de semana! Para Alagoas só quer voltar quando não aguentar (fisicamente, mesmo) mais nada disso. "Tenho 73 anos e uma disposição da gota", ele justifica.

As noites agitadas contribuíram para uma mudança de hábito: "Eu descobri que acordar às 7h da manhã é uma maravilha." Antes, o horário de sair da cama e partir para o trabalho era 5h. Seja às 5h ou 7h, empregado ou aposentado, a disposição é a mesma: "É uma energia que eu não sei da onde vem. Diz minha mulher que eu acordo, boto o dedo na tomada 220 Volts e saio virado no danado, porque realmente é uma conquista."

Tamanha agitação cobrou seu preço no passado. Canuto já passou por um infarto e tem quatro stents no coração. Foi num dia em que trabalhou manhã e tarde inteiras: "Sabe aquele dia que você arrebenta? Pega um assunto que não era nada e entrega uma matéria maravilhosa?". Ao chegar em casa empolgado começou a sentir algo que "não era uma dor, era um incômodo", que se sentisse cem vezes não iria ao hospital em 98. Naquele dia foi. E quase não saiu.

Se eu estou em casa talvez não tivesse tempo. Como estava no hospital em 45 minutos estava a salvo".

Passado o susto, o jornalista hoje toma alguns cuidados, como visitas frequentes ao cardiologista, check-ups e exercícios físicos. O que não muda é a tal "disposição da gota". Líbia Mafra, a esposa, é quem aguenta o marido que dorme e acorda feliz. "Virou meu mantra, entendeu? Agora é diversão em tempo integral."

"Cachorro?"

Casos inusitados ao vivo marcaram a trajetória de Marcio Canuto na TV

Reprodução/TV Globo Reprodução/TV Globo

Tapa na cara

Canuto entrou ao vivo para numa aglomeração de fãs na porta do hotel da Madonna. Encontrou um casal do Ceará e descobriu que o homem tinha viajado à revelia do patrão. "Emprego ou show da Madonna?". "Show da Madonna". "E o emprego?". "O emprego que se foda". A frase foi sucedida por um tapa na cara. "Que é isso, rapaz? Tenha calma". Canuto diz que foi reflexo e temeu demissão.

Reprodução/TV Globo Reprodução/TV Globo

Fratura ao vivo

Canuto comentou o desfile das campeãs do Carnaval de 2015 no estúdio do G1, ao vivo. A Rosas de Ouro estava na avenida e o repórter quis presentear Veruska Donato com um ramalhete de flores. Ele foi buscar e na volta tropeçou no tapete, rodopiou e caiu no chão sem apoio. Eram 2h. Ele seguiu no ar até 7h, quando foi de ambulância para o hospital e soube que rompeu todos os tendões do ombro.

Reprodução/TV Globo Reprodução/TV Globo

Quê que achou?

Durante uma reportagem no museu de zoologia da USP, Canuto estava ao vivo e se dirigiu a um grupo de crianças de até 5 anos. O repórter perguntou a uma delas: "E você, pequenininho, quando viu esse dinossauro tão grande, quê que achou?". Só que Mateus, 3, não entendeu: "Cachorro? Que cachorro o quê! Eu não sou cachorro, não". Mesmo em tempos de internet incipiente, viralizou.

Reprodução/TV Globo Reprodução/TV Globo

Dia de banho

A pauta do dia no SP1 era a reinauguração de piscinas públicas na capital. Canuto foi ao Parque Ceret, na Zona Leste, e simplesmente entrou numa piscina de camisa pólo e shorts. Ao vivo, entrevistou o pessoal que estava curtindo a folga, empurrou gente na água (inclusive um salva-vidas) e depois estimulou que jogassem água nele, o que obviamente molhou seu microfone.

Diego Padgurschi Diego Padgurschi

"Posso confiar?"

"Tenho esse lado de ser amigo das pessoas. Um dia estava fazendo uma matéria na rua e ouvindo o povo. Eis que me aparece um cidadão humilde, mas esperto, que me dá a definição perfeita para o assunto. Sabe quando é exatamente o que você queria ouvir? Era a minha salvação, porque a gravação era 10h30 e ia ao ar 12h. Aí eu pergunto: 'Amigo, qual seu nome?'. Ele olhava para um lado, olhava para o outro. Eu desesperado: 'Amigo, me dá um nome pra botar ali embaixo, fulano de tal'. Ele falou: 'José Francisco'. 'E sua profissão?'. Ele desconcertado. 'Gerente, estocador, cobrador, motorista, o que você é?'. Ele negava tudo até que chegou assim junto de mim, no meu ouvido: 'Canuto, eu posso confiar em você?'. 'Eu sou ladrão'. Olha que sincero. Foi sensacional."

Divulgação Divulgação

De fiscal do povo a garoto-propaganda

Marcio Canuto deixou o jornalismo em julho. Dois meses depois, estreou no mundo da publicidade como garoto-propaganda do McDonald's. A rede de lanchonetes apostou em episódios marcantes da carreira em um comercial bem humorado na TV e na internet: a ideia da campanha era aproveitar o "exagero" de Canuto para anunciar o lançamento de um sanduíche com dois hambúrgueres.

Pouco depois, o fiscal do povo fez reportagens para o "Feirão Serasa Limpa Nome", da empresa de informações de crédito, em locais de grande aglomeração da capital paulista, com direito até a cobertura ao vivo. Ele agora está de "portas escancaradas" para o mercado publicitário.

"É uma nova experiência, eu não esperava quando me aposentei. Eu nunca tinha ido a um set com tanta gente, até maquiador para maquiar minha careca (risos). Já tenho várias propostas, deixei meu filho Pedro para cuidar dessa parte."

Futebol, jornal, rádio e TV

A vocação para a comunicação estampada em Marcio Canuto veio depois da paixão pelo futebol.

Com 1,94 m, o rapaz tentou antes de tudo ser goleiro e até frequentou categorias menores, mas não vingou. Na mesma época, começou a visitar o prédio da FAF (Federação Alagoana de Futebol), em frente ao colégio onde estudava. Ele queria saber os jogadores que estavam sendo contratados pelos times do Estado, os novos uniformes, essas coisas de apaixonados pelo esporte: "Aos 16 anos, eu era um cara totalmente inteirado sobre o futebol alagoano."

As visitas fizeram Canuto ganhar a amizade da Dona Ester, secretária da FAF. "Um dia ela disse: 'ô, seu Marcio, você não quer uma permanente, não?'. É o que hoje chamam de credencial. 'Tem uma permanente aqui de um cidadão que nunca veio buscar, do jornal semanal da arquidiocese de Maceió'. Rapaz, era tudo que eu sonhava. Você ia de graça para dentro do campo, para a fofoca do futebol."

"Fui estrear a permanente, chego no estádio e encontro um cidadão na portaria: 'Tu é jornalista mesmo? Com 16 anos?'. Eu falei que era só para entrar, mas me senti muito mal e me veio uma ideia na cabeça. Eu saí, fui na mercearia da esquina, comprei um lápis e um papel e voltei para o campo. Anotei as escalações, os gols, os detalhes todinhos e na segunda-feira montei um texto, uma reportagem sobre aquele jogo, para o jornal da arquidiocese. O padre gostou."

O resto da história é exatamente o que você imagina.

Diego Padgurschi Diego Padgurschi

Não recebia nada, depois comecei a receber o dinheiro do ônibus. E olha que eu escrevia página inteira! Um dia o editor do Diário de Alagoas, um jornal muito importante, me procurou: 'Li sua matéria, soube que você não ganha nada. Não quer vir trabalhar com a gente, não?'. Eu fui. Com oito meses já era editor. Depois fui para o Jornal de Alagoas, ainda maior, e comecei a ganhar prêmios. Com isso fui chamado para trabalhar em rádio

Marcio Canuto

Marcio Canuto, sobre a vida nos jornais impressos

Naquela época, só tinha nego da voz bonita. A minha voz não tinha a menor chance, eu rouco desse jeito, não tinha jeito. Mas aí o que aconteceu: eu vi que tinha que superar esse empecilho e comecei a saber ainda mais, apurar mais as informações, fazer perguntas inquietantes, e desenvolvi um ritmo que era mais rápido, entendeu? Era uma maneira de você ter uma característica diferente. Trabalhei anos em jornal e rádio

E a transição para outros meios

"Quem bater primeiro não vai ter tempo de comemorar"

O estilo de "perguntas inquietantes" cobrou seu preço na trajetória de Marcio Canuto como jornalista no rádio: "Foi um impacto tão grande na época que eu cheguei a ser ameaçado nos clubes. Estavam acostumados com quem pajeava, mas eu não ia puxar o saco. Eu era profissional. Uma vez o CRB me proibiu de entrar no estádio por causa de uma matéria, a torcida descobriu e mandou recado: 'não vem, senão vai apanhar'. Eu fiquei naquela dúvida, mas tinha que trabalhar", relembra o repórter.

"Resolvi ir. Aí o que ocorre: estou esperando o carro da rádio me pegar em casa quando vejo meu pai arrumado do lado. 'Para onde você vai, pai?'. Ele falou: 'É que me deu uma vontade muito grande de ir no jogo'. 'Mas pai, logo hoje?'. 'Sim, meu filho. Uma vontade danada'. Na verdade, alguém devia ter dito a ele sobre essas ameaças. E não teve jeito, papai foi."

A uns cem metros do estádio da Pajuçara, papai bate na minha perna e diz: 'Meu filho, se alguém bater em você serão muitos, mas quem bater primeiro não vai ter tempo de comemorar'. Isso é pai, viu."

Canuto dá esse relato às lágrimas. E lembra que nesse dia não houve qualquer importunação. Era forte o santo do doutor Luiz Canuto.

Diego Padgurschi Diego Padgurschi

Jacozinho mudou a vida de Canuto: "A história é ele!"

O estilo irreverente no rádio levou Canuto à TV em Alagoas. Mas nem toda celebridade local chega ao estrelato em rede nacional, como aconteceu com o repórter. Nesta história, foi de novo o futebol que deu o empurrão que faltava. "Eu sempre fui fascinado por pessoas, por gente. Talvez porque cresci entre nove irmãos. Levei isso para o trabalho, de encontrar personagens e extrair histórias. Um deles acabou sendo fundamental para sedimentar minha carreira na televisão", conta.

Jacozinho é o nome da fera.

Nos anos 80, Canuto fazia reportagens de TV bem-humoradas em Maceió, especialmente sobre futebol. O programa "Globo Esporte", então, encomendou matérias locais para abrir a cobertura da Copa do Mundo de 86. "Imagine você em Maceió ter essa responsabilidade! Fiquei sem dormir esperando uma luz, até que meu anjo da guarda salvou."

O técnico da seleção naquela época era Evaristo de Macedo, que foi questionado pela imprensa sobre as razões de não convocar o meia Pita, que tinha feito um golaço e estava em grande fase pelo São Paulo. "Se fosse por golaço eu convocava o Jacozinho, do CSA", respondeu o treinador, citando um jogador desconhecido do grande público para ironizar a cobrança por Pita.

"Nego, quando eu olhei quem era o Jacozinho, eu dei um salto tão grande que quase arrebento o joelho. É ele! É ele! É o Jacozinho. A história é ele!", relembra Canuto. No dia seguinte o repórter já estava fazendo matéria na casa do jogador do CSA.

Jacozinho era ídolo, mas não dava nenhum valor à vida pessoal. Extremamente humilde, morava numa casa de taipa. A sala dele não cabiam duas cadeiras para a gente conversar. Eu contei minha ideia de fazer matérias com ele, uma campanha para que ele fosse para a seleção. Ele falou: 'Pô, legal, mas tem duas coisas: ou a gente se consagra ou é ridicularizado'. Eu achei que valia a pena, ele também

Marcio Canuto

Marcio Canuto, sobre a relação com Jacozinho

Gravei uma passagem que era ele pedindo uma chance na seleção. De primeira ele manda: 'Me chama, seu Avaísto'. Aquilo foi uma explosão pelo humor, pela simplicidade, pelo futebol brasileiro na sua essência. Jacozinho era extremamente criativo. A partir dali, fiquei com a responsabilidade de fazer um ou dois encerramentos do Globo Esporte por semana, era uma coisa louca. Ele ficou famoso!

E como seu personagem "conquistou" o país

Jacozinho foi vendido do CSA para o Santa Cruz e ganhou de presente quatro pneus para colocar no carro e viajar de Alagoas a Pernambuco. Fui fazer a reportagem e ele falou: 'Vou no meu carro, o maestro'. Maestro? 'Porque com esse carro é um concerto (sic) a cada esquina (risos). Jacozinho era safado, uma figura extraordinária. O primeiro rei do marketing

Mais uma das histórias de Jacozinho

Reprodução/TV Globo Reprodução/TV Globo

Canuto fez Zico romper com a Globo

É lógico que Jacozinho não tinha a menor chance de ser chamado para a seleção brasileira. Mas isso não impediu que ele virasse um ídolo nacional por causa da presença quase diária na TV Globo. E Canuto foi no embalo.

Até que pintou oportunidade de matéria boa no Rio de Janeiro: o Flamengo havia tirado Zico da Udinese-ITA e realizaria um jogo festivo no Maracanã entre os amigos do Galinho e uma seleção de jogadores do mundo inteiro para apresentar o ídolo. O repórter embarcou de Alagoas para o Rio de Janeiro às 5h e deu um jeito de enfiar Jacozinho no jogo do Zico. "Na entrada de Jacozinho, o povo já bate palma."

O jogador do CSA foi escalado na seleção do mundo, dirigida pelo técnico Telê Santana. Começou no banco, mas conviveu com Falcão e Maradona no vestiário. "Eu obriguei Maradona a cumprimentar Jacozinho dentro do vestiário. 'Cumprimenta el ídolo brasileiro', aí Maradona cumprimentou. Não ligou muito, mas cumprimentou", conta Canuto. Jacozinho acabou entrando e fez um gol com direito a drible da vaca e assistência do próprio ídolo argentino. Era a consagração.

"O Jacozinho roubou a cena. Depois do jogo os microfones foram todos em cima dele, a torcida gritando o nome dele. O Zico ficou um pouco aborrecido."

Um pouco? Zico ficou dois anos sem falar com a TV Globo. Ainda mais quando leu a manchete sobre seu jogo festivo nos jornais: "Zico e Jacozinho brilham no Maracanã". No estádio, ele chegou a falar que a presença de Jacozinho era "forçação de barra". Tanto tempo depois, Canuto releva: "Eu entendo, rapaz. Imagine no aniversário de 15 anos da sua filha aparece um outro cara com a filha mais bonita que a sua, mais engraçada, mais charmosa (risos). Apareceu um penetra rebelde, baixinho, safadinho para atrapalhar a festa dele. Mas depois eles ficaram amigos. Zico, um cheiro para você!".

Diego Padgurschi Diego Padgurschi

De 1998 a 2019

Canuto ficou em evidência nacionalmente com a série de reportagens sobre Jacozinho. Depois, ainda produziu muito para o "Globo Esporte" quando o atacante japonês Kazu jogou no CRB. Deu um binóculo para o jogador olhar as meninas de biquíni fio-dental nas praias de Maceió. Aos poucos, começou a ser cobiçado.

"Um dia, eu recebo uma ligação: 'Oi, Canuto. Você admite a possibilidade de sair de Alagoas?'. Eu tinha 52 anos, já era diretor de jornalismo, 30 anos de empresa, estabilidade absoluta. Mas é uma altura da vida em que você admite todas as possibilidades", relembra. Depois de alguma enrolação, finalmente descobriu o que pensavam para este repórter extrovertido: "Era 1998, disseram que fariam uma revolução no telejornalismo local em São Paulo. Criariam um programa com outra linguagem, o SPTV, e teria um quadro chamado 'Fiscal do Povo' dentro."

É o cara que não ia só mostrar o problema na TV, 'ó o buraco aqui'. Ele ia cobrar das autoridades, intermediar o problema e a solução, até resolver. E assim foi pensado no meu nome como titular de uma coisa inovadora".

Canuto chegou a São Paulo em fevereiro de 1998 e já trabalhou no Carnaval como um teste. "Eu não sabia nem onde era o sambódromo e daqui uma hora estava no ar." As únicas ordens eram que não mudasse seu estilo ou jeito de falar. Assim foram 21 anos no ar.

Diego Padgurschi Diego Padgurschi

"Eu fiz praticamente tudo"

Reparou no "praticamente"? Canuto começou em jornal impresso, passou pelo rádio e terminou na TV, como um dos repórteres mais reconhecidos do país. Então o que faltou?

"Uma coisa que eu achei que podia ter feito, e tive até perto de ter a oportunidade, foi um programa de auditório. Mais ou menos no molde do Bolinha, porque eu gosto do ao vivo, eu gosto do povo, eu gosto do abraço, dessa troca de energia. Eu ia me dar bem, viu? Essa coisa do inesperado faz parte do meu espírito. Acho que eu já nasci treinado para essa esculhambação", conta o repórter.

Canuto quase teve seu programa de auditório em 2004. Era a aposta de Marlene Mattos, ex-empresária de Xuxa, que trocou a Globo pela direção artística da Band naquele ano. A diretora deu programas para Preta Gil e Kelly Key e negociou para ter Canuto em um formato diferente de tudo o que ele já tinha feito. O jornalista quis ser animador. O problema é que a falta de liberdade na Band fez Marlene rescindir o contrato ainda em 2004. "A coisa morreu", diz o repórter que seguiu repórter.

No ano anterior, outra possibilidade tinha balançado Canuto: a Record tentou tirá-lo da Globo para substituir José Luiz Datena no "Cidade Alerta" — o então titular da atração policial tinha migrado para a Rede TV!. No fim, não houve acordo, Canuto seguiu global e Milton Neves foi escalado pela Record.

Mas e agora que Canuto está livre? Um programa de auditório pode causar sedução? Ele responde: "A princípio não tenho nenhum interesse. Estou experimentando a aposentadoria."

O gerúndio é a forma nominal do verbo que indica continuidade.

A vida de Canuto hoje é férias — o que ele não teve por mais de 50 anos. Ele frequenta a vida cultural de São Paulo, dá entrevistas, recebe homenagens, viaja sem data para voltar e curte os filhos Pedro Luís e Mariana — a mulher, de 34 anos, tem Síndrome de Down e vive com a mãe, Teresa, em Alagoas.

Marcio está no segundo casamento. É a Dona Líbia que, segundo ele, "aguenta o sabugo da história". Ou seja, é sua companhia nos dias de bom humor e também nos dias de bom humor.

Curiosamente, é uma história de amor que quase não aconteceu: eles se conheceram em Maceió, no início da vida adulta, mas a família da moça não permitiu o romance. "Eu trabalhava no rádio e tinha aquele papo: 'ah, radialista, futuro zero'. Tiraram ela de Alagoas, nunca tive o telefone e seguimos a vida. Os dois casaram, tiveram filhos, viveram e se encontraram depois de separados. Assim estamos juntos há 21 anos".

Até que o Canuto tinha futuro, né?

Diego Padgurschi/UOL Diego Padgurschi/UOL

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