Por um mundo mais verde

Maior piloto da atualidade, Lewis Hamilton fez da sustentabilidade sua bandeira e quer mudanças reais na F-1

Julianne Cerasoli Colaboração para o UOL, de Londres (ING)
Anton Vaganov/Reuters

Próximo de conquistar seu sexto título mundial e a menos de 10 vitórias de igualar o recorde de Michael Schumacher que poucos acreditavam que seria batido, Lewis Hamilton é a única estrela verdadeiramente global da Fórmula 1. O piloto faz aparições frequentes ao lado de celebridades e navega também o universo da moda, tanto como ícone de estilo, quanto como estilista — ele já desenhou três coleções para a tradicional marca norte-americana Tommy Hilfiger. Mas o inglês de 34 anos está cada vez mais ligado a um mundo bem diferente da ostentação usualmente ligada ao glamour dos ricos e famosos e à própria Fórmula 1.

O meio ambiente vem se tornando, nos últimos anos, a principal bandeira do piloto. Tudo começou com a adoção de uma dieta vegana em 2017, influenciada por sua fisiologista Angela Cullen. Depois, vieram as coleções de moda dando prioridade a produtos sustentáveis, a participação no documentário "The Game Changers" (disponível na Netflix), em que o inglês se juntou a outros atletas no filme sobre o impacto positivo que uma dieta à base de plantas tem na performance esportiva, e a inauguração do que ele espera que se torne uma cadeia de hambúrgueres veganos. Além disso, Hamilton tem utilizado suas redes sociais para divulgar casos de maus tratos a animais, a poluição das águas do mar com lixo e o fogo na floresta amazônica.

Tudo isso entre uma viagem de avião e outra, uma corrida de Fórmula 1 e outra. E, por isso, Hamilton recebeu muitas críticas. Ele sabe que a indústria que lhe deu a fama não é um grande exemplo em preocupação com o meio ambiente, mas acredita que isso não o impede de tentar fazer a diferença.

Em entrevista ao UOL Esporte, o virtual campeão da temporada criticou a inabilidade da Fórmula 1 em lidar com questões de sustentabilidade e contou como quer se tornar o instrumento de mudança de uma das maiores empresas do ramo automobilístico do mundo.

Reprodução/Instagram Reprodução/Instagram

UOL Esporte: Você está direcionando várias de suas ações fora da pista para assuntos relacionados à preservação do meio ambiente, como a cadeia de hambúrgueres veganos, a participação no "The Game Changers", a maior presença de materiais sustentáveis nas coleções da Tommy Hilfiger etc. São todos projetos com um princípio comum. Como você tem se envolvido neles?

Lewis Hamilton: Acho que tem sido muito autêntico e muito natural, pois estas questões têm feito parte de uma mudança e do que estou projetando com minhas mídias sociais - e o retorno que tenho por meio da interação com as pessoas é positivo. Tudo está começando a se encaixar. Tenho muito orgulho do Neat Burger, por exemplo: muitas pessoas estão fazendo comentários positivos e mal posso esperar para poder expandir [a rede de hambúrgueres]. Quero fazer parte de uma coisa que está crescendo. Quem sabe onde podemos chegar? Quem sabe podemos nos tornar o novo McDonald's.

Sobre o documentário, também recebi muitos comentários positivos. Sou um grande fã de Arnold Schwarzenegger [produtor do filme] e é incrível fazer parte de algo junto com ele. E há uma mensagem muito importante no documentário.

O que fez você se engajar tanto nessa área? O que você viu ou leu que te influenciou?

Acho que sempre foi algo que eu quis fazer. Fico muito frustrado porque há tantas coisas que eu queria fazer, mas não sei como. É necessário conhecer as pessoas que vão fazer as conexões e que vão ajudar você a efetivamente fazer algo. Então, comecei a ver que, se tomasse uma determinada ação, isso me ajudaria a dar um passo na direção do que eu gostaria de fazer. Então comecei com a coleção da Tommy [Hilfiger], focando em sustentabilidade, e daí pessoas ligadas a esse meio começaram a me procurar. Mas é uma preocupação antiga: sempre gostei muito de animais, tive cachorros e gatos em casa desde quando era muito novo. Mesmo sendo alérgico a cachorros e cavalos... simplesmente lido com os efeitos [da rinite].

No final das contas, foi uma questão de perceber qual é seu propósito, quem você quer ser e do que você quer fazer parte. E também você vai envelhecendo e vai entendendo mais coisas sobre o mundo e sobre quais delas você quer focalizar. Quero ajudar todas as fundações, mas não posso. Então, estou descobrindo onde estão as minhas paixões. Uma delas são as pessoas, especialmente crianças, e os animais. Quero que meus filhos - quando eu os tiver - e os filhos de vocês tenham um futuro. E a situação não parece muito boa no momento pela maneira como estamos consumindo nossos recursos. Como posso ser uma das inúmeras pessoas que estão fazendo algo?

Divulgação/Neat Burger Divulgação/Neat Burger

O quão perto você está de conseguir neutralizar sua pegada de carbono? Esta é uma tarefa e tanto para quem vive um estilo de vida como o seu.

É um projeto que comecei há seis meses, sei que não vai ser de uma hora para a outra. Mas estou focado nisso porque, se conseguir, será uma mensagem muito positiva. E daí, quando parar de correr, vou estar devolvendo mais carbono para o planeta do que consumindo.

E como isso casa com a F-1? Você viaja o tempo todo ao redor do mundo, pilota carros cuja tecnologia está indo para um caminho mais sustentável, mas que na prática ainda queima combustível fóssil. Como você equilibra isso com a sua visão sobre como o mundo deve ser?

O que me deixa muito feliz é que pelo menos estou iniciando a discussão a respeito disso. Eu nunca tinha sido perguntado sobre o assunto em toda a minha carreira e isso mudou agora, e é positivo. Eu respeito totalmente as pessoas que têm opiniões negativas porque eu sou piloto. Mas lembrem-se que, se eu não corresse e mencionasse essa questão, ninguém me ouviria. Faço o que eu faço porque amo, mas também porque acho que isso pode criar uma plataforma para eu gerar mudança.

Não vou mandar nas pessoas, mas há coisas que eu estou descobrindo, porque agora estou pesquisando mais, e é chato para mim não ter aprendido tudo isso antes. Agora quero usar minha plataforma para destacar essas áreas. Se você não quiser escutar , que seja. É muito difícil, porque, mesmo quando você está fazendo algo positivo, alguém vem questionar "ah, mas você usa aviões, você é piloto de corrida". É uma mensagem que cria conflitos no momento.

Estava no telefone outro dia com o CEO da Daimler [empresa que controla a Mercedes] para discutir o que podemos fazer. Porque a emissão de carbono pelos carros é algo conhecido há anos, mas era deixado meio de lado, e agora entrou na prioridade para todas essas empresas, o que é ótimo. Então estou tentando pressioná-los nesse sentido. E faço o mesmo na equipe: estou tentando que Toto [Wolff, chefe da Mercedes] se livre de todos os materiais plásticos da fábrica e produzir menos lixo. E agora a equipe também está estudando como eles podem neutralizar sua pegada de carbono.

Explorando essas novas ideias, há algo que você sente que pode substituir sua paixão pelas corridas no futuro?

Eu vejo gente como o Michael [Schumacher], que obviamente sentiu falta das corridas, e voltou. Vários ex-pilotos acabam voltando, mesmo se for para trabalhar na TV, porque eles sentem que têm de ficar nesse ambiente. Acho que nada vai se comparar. Imagino que não há nada como a sensação que tive na primeira vez que andei num kart - talvez ver seu filho fazer o mesmo. Mas não vejo isso dessa forma: quando eu parar, será o final de um capítulo e o início de outro. Vamos combinar que ser estilista não tem a velocidade [das pistas], mas sinto a mesma adrenalina quando estou prestes a apresentar uma coleção. Na verdade, é ainda mais intenso, porque nas corridas você tem o capacete para se fechar. Na moda, você está mais vulnerável. Então, acho que encontrei o meu caminho no futuro, mas preciso trabalhar muito duro ainda para ser bom nisso. Sei quanto tempo demora para ser bom em algo.

Jacopo Raule/Getty Images Jacopo Raule/Getty Images

Voltando à F-1, a renovação do seu contrato com a Mercedes para além de 2020 esta de alguma forma atrelada à questão ambiental e ao fato da F-1 abraçar essa causa ou não?

Do ponto de vista da pilotagem, estou mais preocupado com a direção que a categoria vai tomar. Do ponto de vista ético, estou extremamente preocupado a respeito da direção que estamos tomando. Pelo que vi, Bernie [Ecclestone, que controlou a categoria desde o início dos anos 80 até 2016] nunca fez nada a respeito e não tinha absolutamente nenhuma preocupação com o impacto que estávamos causando. A sensação que tenho é que o mesmo acontece com os que estão no poder atualmente. Não posso julgar porque não sei.

Aparentemente eles estão tentando se livrar de todo o plástico no paddock?

Isso é fácil de fazer. É só criar uma regra e fazer com que todos sigam. É o que todas as grandes companhias no mundo estão fazendo. As pessoas tentam criar um grande problema, mas não acho que eles estão tentando tanto quanto deveriam.

Mas esse é um fator importante para você renovar?

Em relação à equipe, sim. Estou trabalhando com a Mercedes há 13 anos, e quero sempre evoluir nos contratos que assino. Penso em como posso estar mais envolvido com a Mercedes daqui a 20 anos, como posso ajudar a Mercedes a ser maior e melhor. Quero fazer parte da Mercedes quando parar de correr. Se parar de correr agora, serei apenas o piloto mais vitorioso da história da Mercedes. Isso não é suficiente. Quero ter um impacto maior nessa mudança: a Mercedes tem couro e camurça em todos os seus carros. Seria fácil fabricar algo para substituir camurça e ninguém sentiria a diferença. Mas para mundo o impacto seria enorme. Eu realmente me importo e quero ter um impacto positivo no mundo. Se puder ajudar uma ou duas pessoas a pensar mais sobre as decisões que elas tomam, estarei feliz.

Anton Vaganov/Reuters Anton Vaganov/Reuters

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