O nome dele era Enéas

A história do apogeu e da morte do craque da Portuguesa que foi roubado no acidente que o matou

Vanderlei Lima e Rubens Lisboa Do UOL, em São Paulo

A mesma Portuguesa que vive tempos difíceis, sem jogar nenhuma divisão do futebol nacional, teve momentos de glória na década de 70 com uma prata da casa. Negro, alto, habilidoso, ele se tornou o dono da camisa 8 e ajudou o clube a conquistar seu último título paulista, em 1973. Seu nome era Enéas.

Ele foi um dos maiores goleadores da história do clube paulista, classificou o futebol brasileiro para os Jogos Olímpicos de 1972, chegou a estar na pré-lista de duas Copas do Mundo, no auge de sua carreira foi negociado com o futebol italiano e ainda marcou seus gols vestindo a camisa do Palmeiras ao futebol brasileiro.

Além do grande jogador, Enéas foi um personagem emblemático do futebol. O atacante que "dormia em campo", o "oro negro" que não brilhou na Itália e ainda assim conseguiu ser ídolo. O homem que encerrou sua vida de forma trágica, acamado e agonizando por quatro meses em camas de hospitais.

'El Diablo', como gostava de ser chamado, Enéas estaria hoje com 65 anos, mas morreu com apenas 34, no dia 27 de dezembro de 1988.

O craque que dormia em campo

Terceiro dos cinco filhos de Arnaldo e Enedina, Enéas de Camargo cresceu no bairro do Canindé, a poucos metros da Portuguesa, clube no qual se tornaria um dos maiores ídolos. Ele começou a frequentar a agremiação aos 8 anos, se dividindo entre futsal, basquete, natação e até saltos ornamentais.

Não demorou para que ele despertasse o interesse de Nena, técnico da base, para o futebol de campo. Com apenas três anos no gramado, já era considerado uma promessa dentro do clube paulista. "Com 15 e 16 anos, o Enéas se apresentava como uma grande promessa da Portuguesa, já como um ídolo mesmo", lembra seu irmão Edir, 67 anos. Aos 17 anos, Enéas fez sua estreia contra o América de São José do Rio Preto e marcou dois gols para a Portuguesa na vitória por 3 a 2, em 1972.

Alto, veloz e habilidoso, Enéas se firmou no time da Portuguesa no ano seguinte, sob o comando do técnico Otto Glória. Até hoje, é o segundo maior goleador da história do clube, com 179 gols em 376 jogos, atrás apenas de Pinga, que foi artilheiro do clube entre os anos 1940 e 1950.

Com apenas 19 anos, o dono da camisa 8 levou a Portuguesa ao título paulista de 1973, que acabou dividido com o Santos após o árbitro Armando Marques errar a contagem durante a disputa de pênaltis. Mesmo com toda a história pelo clube que defendeu entre 1972 e 1980, Enéas ficou com a fama de "dormir em campo" por participar pouco das jogadas quando estava sem a bola.

"Eu preferia o Enéas dormindo do que muitos acordados", afirma Wilsinho. "Enéas era um jogador que jogava no sentido do gol, ele não ia para a linha de fundo, o sentido dele era o gol, driblava em velocidade, ele tinha a velocidade com a bola, talvez não a mesma sem a bola, mas depois que ele dominava a bola e colocava na frente aí acabou ninguém mais pegava dele, ele protegia muito bem a bola por ser grandão, muito habilidoso".

Teve um Portuguesa x São Bento em que o Enéas não estava jogando nada. Aí um português jogou um radinho de pilha no campo. O Enéas pegou esse rádio e começou a ouvir alguma coisa. De repente, a bola foi na direção dele. Ele largou o rádio, pegou a bola e fez o gol

Badeco, volante da Portuguesa que foi campeão paulista com Enéas

Os grandes jogadores, em algum momento do jogo, participavam muito pouco. Isso me levou a pensar: na realidade, eles não estavam dormindo, mas analisavam o jogo. Quando a bola caía no pé deles, no caso do Enéas, faziam a jogada que achavam melhor no momento

Badeco, defendendo Enéas no mito de que o amigo dormia em campo

Fanatismo por Pelé

"Estávamos ganhando de 2 a 0. Aí o Enéas vai ao lado do vestiário do Santos e fica tirando foto com o pessoal. O Pelé estava passando e falou para ouvirmos, eu e o Badeco: 'olha, o jogo ainda não acabou hein'. E aí no segundo tempo, 2 a 1, 2 a 2, e o Pelé fez um gol antológico e terminou 3 a 2 para o Santos. E nós ficamos putos com o Enéas. Fomos chamar a atenção. Não tinha que ficar tirando fotografia com torcedor no alambrado, tirar foto perto do vestiário do Santos. Deu uma referência maior para o negão voltar", lembra Basílio.

Preterido com Zico em Olimpíada

Antes mesmo de se tornar profissional, teve passagens pelas seleções brasileiras de base. Em 1971, foi campeão do Torneio de Cannes, na França. "Foram campeões em Cannes pela seleção brasileira e o jornal de lá dizia que, com 16 anos, o Enéas era o novo Pelé", conta Edir.

Ele também venceu o Pré-Olímpico para Munique-1972, mas acabou fora das Olimpíadas - aconteceu o mesmo com Zico. Na seleção principal, disputou apenas três jogos, com um gol. Chegou a aparecer nas listas preliminares de duas Copas do Mundo, 1974 e 1978, mas foi cortado.

A Portuguesa, porém, se recusava a vender Enéas para os rivais e, decepcionado com a seleção brasileira, o jogador aceitou partir para o futebol estrangeiro. "Sinto pelo meu irmão não ter sido vendido para algum time aqui de São Paulo na melhor fase dele. O Santos queria, o São Paulo queria. Mas o presidente Osvaldo Teixeira Duarte falou: 'só vendo o Enéas se for pra fora'. E aí ele foi para o Bologna, da Itália", conta Elias, irmão de Enéas.

Um ídolo passageiro

O futebol italiano não permitia a contratação de estrangeiros até 1980. Enéas foi um dos primeiros não-italianos contratados para jogar no Calcio. Ele foi vendido ao Bologna em 1980 e foi o primeiro negro a vestir a camisa do clube. Além de problemas com o técnico Luigi Radici, o frio atrapalhou: "Ele estava no auge, mas em Bologna era muito frio. Até começou bem, mas depois o joelho começou a dar problema e não tinha como aguentar", explica Edir.

Ao todo, foram apenas 17 jogos e três gols marcados pelo Bologna. Pouco, mas o suficiente para que ele se tornasse um jogador icônico. "O carinho do povo de Bologna por ele é tão grande que fizeram recentemente um livro sobre o meu pai por lá (Eneas, una storia di saudade tra Bologna e il Brasile/Uma história de saudade entre Bolonha e o Brasil)", conta o filho Rodrigo, de 39 anos, que tinha apenas quatro meses quando foi à Itália com o pai.

No ano seguinte, Enéas foi negociado com a Udinese e nem chegou a jogar pelo clube, se transferindo para o Palmeiras.

O retorno no Palmeiras e fim de carreira

Com um filho pequeno, dificuldades de adaptação e uma lesão no joelho, Enéas preferiu retornar ao Brasil a permanecer na Itália, onde não seria aproveitado pela Udinese. E ele retornou para ser reforço do Palmeiras, que tentava acabar com o jejum de títulos desde o Paulista-1976.

"O meu pai queria voltar para o Brasil. Tinha o lance do frio, então uniu o útil ao agradável. Foi bom porque eu virei palmeirense", diz o filho Rodrigo.

Ao todo, marcou 28 gols em 93 partidas, mas o Palmeiras não conseguiu nenhum título. Seu último jogo pelo clube foi a derrota para o Corinthians na semifinal do Paulista de 1983, quando foi reserva e entrou após o intervalo.

A saída do Palmeiras em baixa acabou fazendo de Enéas um andarilho da bola no fim de carreira, com passagens por XV de Piracicaba, Juventude, Desportiva - onde conquistou seu último título no Campeonato Capixaba de 1986, além do Ponta Grossa e da Central Brasileira de Cotia, seu último clube, na terceira divisão paulista.

Enéas era um boêmio do futebol?

A biografia italiana de Enéas cita problemas com álcool e depressão. Amigos e a família negam, mas um ex-técnico ouvido pela reportagem confirma a versão. "O Enéas bebia socialmente. Nunca o vi extrapolando. Pode ter acontecido em alguma festa, mas não para tanto. A gente tinha muita amizade aqui no bairro do Canindé e afirmo: Enéas nunca foi de manguaçar", diz Toninho das Flores, amigo de Enéas.

O filho Rodrigo também nega: "Não, nada disso. Bebia normal. Mas é aquela coisa: quando para de jogar, os caras ficam tristes. Jogador de futebol morre duas vezes. A primeira quando para, a segunda quando morre mesmo. Ele sentiu, mas nada de absurdo, nada de depressão".

Já o técnico Rubens Minelli acredita que Enéas poderia ter feito uma carreira melhor no futebol se não gostasse de festas. "Fora de campo ele era um Renato Gaúcho. Gostava de uma festa, de bebida. Mas qual jogador não gosta, né?"

"Enéas se perdeu também por isso. Ele já estava extrapolando. Às vezes, chegava do clube direto da folia para treinar. Eu chegava sempre antes, de manhã cedo, e ele estava dormindo dentro do carro. Eu pegava o motorista do clube e mandava levar pra casa como advertência. Já imaginou chegar a imprensa e ver ele dormindo dentro do carro? Era um problema muito sério", completa Minelli.

Tempo com a família

Brincalhão, Enéas gostava de cozinhar e adorava passar seu tempo com os filhos. Ele foi casado duas vezes. Primeiro com Elisabete, com quem teve uma filha, Renata, e depois com Ana Rosa, quando nasceu Rodrigo, seu segundo filho.

"Era o maior paizão comigo, me levava para tudo o que é lugar, não me largava. Era raro eu não estar com ele. No acidente era para eu estar com ele", conta Rodrigo. O filho caçula tinha apenas 8 anos quando Enéas morreu.

Formado em educação física, Rodrigo trabalha como vendedor e sofre de esclerose múltipla. Sua irmã, Renata, morreu há dois anos, com 42 anos, vítima de um agressivo câncer que atingiu intestino, estômago e pâncreas.

A casa de Peruíbe e o acidente

Um dos refúgios de Enéas durante a carreira era uma casa em Peruíbe, no litoral sul de São Paulo. Em agosto de 1988, porém, ele vendeu o imóvel para o advogado Sílvio de Jesus. Depois de receber o dinheiro, ele voltava para casa dirigindo seu carro, um Monza azul, quando bateu na traseira de um caminhão.

"Acabei comprando a casa do Enéas. Sei que paguei uma parte em um dia e a outra justamente quando ele sofreu acidente. Nesse dia, eu estava com o Manga [Ednilson, irmão mais velho de Enéas], e com o Dr. Eduardo [J.B. de Camargo, advogado]. Inclusive, nós fizemos o acerto na Liberdade e viemos para a Casa Verde, no Bar do Arlindo. O Enéas levou um saquinho com o dinheiro. Foi nessa noite que ele sofreu o acidente", conta Silvio.

Enéas morava no Tremembé. Às 21h30 do dia 22 de agosto de 1988, uma segunda-feira, ele estava sozinho no carro quando se acidentou. Segundo Silvio, o ex-jogador bebeu antes de dirigir. "Eu brinquei com ele. Tentei tomar a chave do carro porque ele estava mais ou menos para dirigir. O Manga que disse: 'Deixa, ele sabe o que faz'. Chegou a hora, não tem jeito. Agora, eu não posso dizer se teve relação o que ele bebeu naquela noite com o acidente", diz Silvio.

"Ele ligou para a mulher. Estava sem o controle do portão da garagem e, em 15 minutos, estaria em casa. Foi o que aconteceu", conta Edir. Mulher de Enéas na época do acidente, Ana Rosa não quis falar ao UOL.

Segundo a versão do ex-zagueiro Amaral, um dos primeiros amigos a chegar ao hospital, o caminhão no qual Enéas bateu estava sobre ponte Cruzeiro do Sul. "A carreta estava na esquerda e ele vinha em alta velocidade pela esquerda também. Quando foi pra direita, a carreta foi também. Ele entrou embaixo. Estava com um Monza, cortou toda a cabine e ele riscou a testa. Eu estava em casa e, quando vi pela televisão já dando a notícia, fui direto para o hospital lá em Guarulhos [Carlos Chagas]", conta Edir.

Taxista teria roubado o dinheiro

A primeira pessoa a chegar ao local não socorreu o ex-jogador. Pior: ainda ficou com o dinheiro que ele carregava, o valor recebido pela casa de Peruíbe. "Ele estava com dinheiro, cheque, tinha um colar dele... Levaram tudo embora. Ele tinha um colar de ouro grosso e só ficou o crucifixo. Arrancaram a corrente, levaram todo o dinheiro, tudo o que tinha no carro", conta Edir.

Depois de ajudar a transferir Enéas de hospital, o ex-jogador Basílio foi até uma delegacia denunciar o roubo. "Por volta das 6h da manhã, fomos na delegacia porque o taxista roubou o dinheiro da venda da casa. Alguns rapazes que estavam próximos ao acidente anotaram a placa do táxi, a polícia levantou e rapidinho chegou na casa do taxista, que se apresentou na delegacia com o dinheiro e tudo para devolver".

"Todo mundo pensou que ele fosse socorrer o Enéas e, quando ele viu onde estava o dinheiro, pegou e foi embora", completa.

Agonia no hospital

Ex-companheiros de time, Amaral, Luís Pereira e Basílio chegaram ao hospital do Mandaqui, para onde Enéas havia sido levado, antes dos familiares. Eles também agiram para transferi-lo ao hospital Samaritano.

"Vimos o Enéas no corredor do hospital, tratado como indigente, ainda na maca. Estava um frio do caramba e ele estava sentindo frio. Ligamos para o doutor Joaquim Grava e falamos lá para o pessoal do hospital: 'Esse cara deu muitas glórias para o futebol brasileiro, não é assim que se faz, não deixa ele aqui não'. Não deu cinco minutos e ele estava no quarto. Colocaram lençol, cobertor e trataram bem diferente de como ele estava quando a gente chegou", conta Amaral.

Basílio foi o responsável por avisar à família de Enéas sobre o acidente. E os jogadores notaram que o caso do companheiro era complicado. Enéas teve uma parada cardíaca e traumatismo craniano. Com a ajuda de Joaquim Grava, os médicos conseguiram ressuscitá-lo no pronto-socorro.

"Não tinha desfibrilador, não tinha nada aí. Eu fiz respiração boca a boca no Enéas e o plantonista fazendo massagem cardíaca. O Enéas saiu da parada cardíaca, o colega entubou. Era um cirurgião. Nós conseguimos uma vaga no Hospital Samaritano", explicou Grava.

Ortopedista, Grava acionou um neurologista, Walter Spinelli Júnior, para acompanhar o quadro. "Era um caso extremamente grave desde o início. Na época, com recursos muito mais limitados do que se tem hoje. O diagnóstico só foi esclarecido depois, de lesão neuronal difusa. Há 30 anos, não se falava disso. Falava-se só de uma contusão cerebral grave", explica Spinelli.

Depois de passar pelo Pronto Socorro de Santana, pelo hospital do Mandaqui e pelo o hospital Samaritano, Enéas ainda foi transferido para a Santa Casa de Misericórdia. Lá, foi tratado por um médico que era torcedor e conselheiro da Portuguesa. Tinha Enéas como ídolo.

"Evidentemente, tinha todo o meu carinho e a minha simpatia. Não éramos próximos, mas como jogador, o admirava muito, como todo mundo o admirava. Na Santa Casa, fizemos tudo o que foi possível por ele, mas a vida é assim. Chega um determinado momento em que, por mais que se faça, não tem solução", lembra o médico Carlos Alberto da Conceição Lima.

"Tudo o que foi possível fazer por ele foi feito. O problema é que era um caso grave, praticamente sem possibilidade de recuperação".

A morte ao lado do irmão

Enéas começou sua carreira no futebol com o irmão Edir, com quem passou por todos os estágios da base da Portuguesa. Depois de quatro meses hospitalizado, foi ao lado do mesmo irmão que o ex-jogador morreu. Tinha 34 anos. Aconteceu no dia 27 de dezembro de 1988.

"Nesse dia, ele passou mal. Eu fiquei com ele e, de repente, umas 4h da manhã, acordei e o vi com a mão no peito, todo embrulhado. Quando coloquei as mãos nele, estava gelado. Comecei a gritar no hospital. Falaram que ele tinha morrido meia hora antes. Foi infarto. Eu não ouvi barulho nenhum", conta Edir — oficialmente, a causa foi broncopneumonia.

Nos passos do avô

Renata, a filha de Enéas, morreu há menos de dois anos. Mas seu amor pelo pai fez com que ela se dedicasse a colocar o filho Rhaul no futebol. Atualmente com 13 anos, ele tem características semelhantes com o avô.

"Ela gostava de esporte, sempre passou isso ao nosso filho. Mas nunca usou o nome do Enéas para nada. A gente tem esse pacto para não pôr um fardo nesse moleque, mas ela sempre ovacionou o pai", conta Rogério, pai de Rhaul, hoje com 13 anos.

A gente até fala: parece que o negão encarnou nele. Até o soninho no campo ele tem"

"Ele tem passada forte, o biótipo dele, se você pegar as fotos do Enéas, é parecido. Os tios do Rodrigo e da minha esposa falam que lembra bastante. E ele é canhoto também, faz uns gols de cabeça", completa o genro de Enéas.

"Rhaul ele tem a mesma característica do avô. Jogando futebol é igualzinho", afirma Edir, irmão de Enéas.

O garoto acabou de ser aprovado em uma peneira do Sky Brasil, projeto de Edmílson, ex-zagueiro que jogou no Barcelona, no São Paulo e no Palmeiras. Ele usa vídeos e a própria biografia do avô para se inspirar.

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