Duzão foi ao campo

Como um engenheiro agrônomo largou a fazenda para ganhar R$ 800 mensais e hoje sonhar com a NFL

Lucas Tieppo Colaboração para o UOL, em São Paulo Divulgação/NFL

Durval Queiroz, o Duzão, é o brasileiro que está mais perto de jogar na NFL. Agora imaginem o quão improvável é sua jornada: o cuiabano teve sua formação como atleta principalmente como judoca, com vários títulos na adolescência.

E aí considerem que, na verdade, nem viver de esporte ele imaginava, seja no tatame, muito menos nos gramados da liga de futebol americano. De campo, mesmo, só fosse em fazendas do Mato Grosso, já que ele é engenheiro agrônomo formado. Hoje, tem contrato com o Miami Dolphins.

Todo mundo tem a parte fácil e difícil na vida. Tudo na vida é especial. Eu estou tendo uma missão diferente."

A NFL sempre pareceu um pouco distante para o fã brasileiro. Ainda sem planos reais de um jogo no país, quem curte o esporte se acostumou a acompanhar tudo de longe, pela televisão ou internet. Nos últimos anos, é verdade, essa distância tem diminuído um pouco com a presença, mesmo que ainda tímida, de atletas nascidos no país. O kicker Cairo Santos atuou por seis temporadas na liga. Foi o primeiro a disputar uma partida oficial, inclusive, em 2014. Mas está sem contrato desde o ano passado.

Então cabem agora a Duzão as esperanças de ver mais um brasileiro em ação por lá. O jogador de 27 anos, 1,94m e 150kg está confiante na (duríssima) disputa por uma no elenco principal. Ajuda, para isso, a experiência viver esse competitivo ambiente há um ano, mesmo que não tenha feito sua estreia.

O UOL Esporte conta aqui como foi longo o caminho para que o cuiabano ser contratado por uma das 32 franquias da liga mais rentável dos Estados Unidos, saindo ao amadorismo praticado em terras brasileiras para o profissionalismo no mais alto nível.

Divulgação/NFL

Assista à entrevista com Duzão

Dos campos da fazenda para os do futebol americano

Não é que se tornar um jogador da NFL fosse uma obsessão para Duzão, a despeito de seu físico imponente desde muito jovem. Longe disso. Ele tinha tudo para trilhar uma carreira bem menos emocionante que a atual, a de engenheiro agrônomo. Ainda assim, quando entendeu que o futebol americano pudesse ser um caminho, foi em frente, mesmo que o aspecto financeiro pudesse por sua decisão em dúvida.

"Nunca tive esse negócio de decidir ter a carreira de jogador. Não tinha como largar a faculdade de engenharia e virar jogador de um time e não ganhar nada, meu pai ter que me bancar. Não existia esse sonho e virar jogador da NFL, então", afirmou. "Meu plano era voltar para a fazenda e ajudar meu pai, ser agrônomo, constituir família."

Mas não é que os pais se opusessem à ideia de ele virar atleta. "Tive muito apoio deles. Mas eles disseram que primeiro era para me formar, e só depois tentar."

O curioso é que, quando Duzão começou a praticar futebol americano no início da década, de forma totalmente amadora, ainda surgiu uma possibilidade de ir para os Estados Unidos e tentar conciliar o esporte com a vida acadêmica. Mas era uma rota bem incerta para o cuiabano. "Se tivesse coisa garantida na faculdade para já começar a jogar, tudo bem, mas não tinha. Eles disseram que primeiro era para me formar e depois tentar. Em 2011 veio um técnico dos EUA e chamou para ir para lá e fazer o último ano no high school [colegial] e tentar uma universidade. E não quis fazer isso com meus pais."

Reprodução/Instagram

Uma reviravolta

Duzão jogou por muito tempo e por alguns clubes recebendo apenas uma ajuda de custo —ou nem isso—, mesmo depois de defender até a seleção brasileira da modalidade em 2017. Ao trocar a estabilidade de um emprego comum, mas promissor, para apostar no esporte, sabia que precisava se destacar para ter sucesso.

Pensem que ele só começou a receber mensalmente quando defendeu o Galo FA, pelo qual foi campeão em 2018. E sabe quanto ele ganhava? Cerca de R$ 800.

"Só em 2015 que eu fui para um time de futebol americano de verdade. O Tangara Taurus [do Mato Grosso] não tinha nem equipamento, era muito amador. Em 2015 que comecei no Cuiabá Arsenal, que tinha mais estrutura. Em 2018 joguei quatro meses pelo Galo FA", disse. "E em 2019 eu cheguei no Miami Dolphins."

Em seu primeiro ano de NFL, mesmo sem disputar um jogo oficial, ele recebeu um salário bruto de 10 mil dólares por semana durante a temporada (no câmbio de hoje, R$ 52 mil), o que dá 160 mil dólares para se manter durante todo o ano (R$ 800 mil).

Dá para guardar um pouco de dinheiro, mas tem o imposto que já tira uma parte e você precisa dividir pelos 12 meses. O custo de vida é alto, tem aluguel, carro, não dá para fazer muita coisa, não."

Acervo pessoal

Não tem mais ippon

Com seu porte físico imponente, Duzão aguarda a chance para tentar frear e trombar com astros da NFL. Se tivesse decidido seguir carreira de atleta de elite no esporte que o projetou em nível nacional durante a adolescência, porém, será que hoje ele poderia desafiar gigantes como Rafael "Baby" Silva ou David Moura, de kimono?

"Fui dez vezes campeão brasileiro, campeão sul-americano, vice-campeão paulista. Lutei judô até os 18 anos. Quando passei na faculdade eu deixei o esporte e foquei nisso. Nunca foi um plano meu ser atleta profissional de judô", assegura.

Divulgação/NFL Divulgação/NFL

Voo Cuiabá-Miami

Duzão sempre se destacou como um jogador de defesa, responsável por pressionar o quarterback (o criador de jogadas) do time adversário. Depois da passagem pelo Tangará Taurus, sua vida mudou de fato quando conheceu Kenneth "K.J." Joshen Jr, técnico que o levou para o Cuiabá Arsenal. Hoje K.J. é agente do atleta e porta de entrada para outros brasileiros que sonham em jogar na NFL.

Em 2017, os dois viajaram para os Estados Unidos e descobriram o "NFL Undiscovered", programa que seleciona estrangeiros para a liga. Olheiros vieram de Londres para observar o defensor, gostaram, e Duzão passou a fazer parte do "International Player Pathway Program", um programa de direcionamento de jogadores internacionais para a liga.

No fim, ele foi escolhido pelo Miami Dolphins para fazer parte de seu time de treinos. Assinou contrato por três anos e passou a encarar a realidade da maior liga dos Estados Unidos.

Antes eu não tinha como competir, mas no meio da temporada eu já conseguia competir, tinha conhecimento e hoje eu tenho basicamente plena competição."

Duzão sentiu logo de cara que teria que trabalhar mais que os companheiros para seguir na franquia. "De todos os esportes não tem nenhum que compara. Muitos não entendem o que um jogador de futebol americano precisa passar. O que o corpo tem que aguentar, a pressão psicológica, a parte mental é fora de série. Ainda mais eu que vim de uma situação atípica, era amador no Brasil, cai de paraquedas, até me adaptar foi difícil", analisou.

Eu acho que o futebol americano é o esporte mais completo. É onde está o mais rápido, o mais forte, o mais ágil, o que pulam mais alto. Se imaginar os gladiadores de antigamente, com toda a glória, a inteligência, todos ovacionando. São os gladiadores modernos. 

Duzão

Divulgação/NFL Divulgação/NFL

Só o tédio salva

A concorrência para conquistar uma vaga no elenco de uma franquia da NFL é gigante. São 32 times e cada um só pode inscrever 53 atletas para a temporada regular, sendo que 46 são ativados a cada rodada.

No total, são 1.696 escolhidos em meio a outros milhares que ficam pelo caminho. Na temporada passada, Duzão acabou deslocado para o "practice squad" dos Dolphins —grupo de jogadores sob contrato que podem ser chamados para completar o elenco durante a temporada.

Recém-chegado à liga e ainda sem a mentalidade pronta para entrar em campo, o brasileiro só participou de uma jogada no último jogo da pré-temporada dos Dolphins. Depois disso, foram muitos treinos, reuniões e vídeos para chegar ao nível dos concorrentes. O conselho para conquistar o seu espaço no elenco veio do técnico Brian Flores. E pode parecer exagerado, para quem está distante da realidade da liga.

O segredo é a rotina e ter uma vida 'boring', uma vida sem graça fora de campo, isso o que o técnico fala para mim. Muitos pensam que jogador de NFL é festa, mas não tem nada disso."

Com o campeonato em andamento, para constar, as folgas são escassas, até mesmo para quem não faz parte do elenco. "No futebol americano você só tem folga, na terça, durante a temporada. No training camp, você tem folga uma vez a cada dez dias, e tem que ficar em um hotel, tem toque de recolher 22h, não consegue fazer outras coisas."

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Rotina solitária para evoluir

A pandemia causada pelo novo coronavírus mudou a rotina dos atletas da NFL. Duzão, por exemplo, realiza seus treinos sozinho em um campo próximo a sua casa e é acompanhado pelos treinadores por meio de aplicativos e vídeos gravados por ele mesmo. Se a rotina fosse a normal, os treinos seriam nas dependências dos Dolphins, mas ainda sem contato físico.

Além dos treinos em campo, Duzão passa horas em reuniões virtuais com treinadores e companheiros para o debate sobre o novos sistemas de jogos e para a apresentação do livro de jogadas, o famoso "playbook".

"São pelo menos quatro horas em contato direto. Fora isso eu preciso estudar todo o 'playbook' [caderno de jogadas do time]: isso é responsabilidade minha. O que faço em campo é minha parte técnica, de movimentação. Isso pode ser corrigido à distância", afirmou.

O brasileiro também usou parte das férias para aprimorar física e tecnicamente para chegar nos treinos no mesmo nível dos concorrentes. "Eu tenho que chegar um passo na frente. Se eu chegar no mesmo condicionamento, eles estarão na minha frente pela experiência que já têm."

O dia do corte... Eles vão chamando os jogadores com todos em uma sala. Eu sabia que ia continuar, mas vi 30 caras chorando, mandando mensagem para família. Não pode nem voltar para o vestiário. A hora que acaba o último jogo da pré-temporada parece um velório

Duzão, sobre a tensa data para definição dos elencos da NFL

A melhor coisa da NFL é a competição. E meu técnico não se importa se trouxeram um jogador com contrato de US$ 30 milhões. Se você não chegar e competir? Esse jogador de 30 milhões vai ter mais chance de ter mais repetição, mas meu técnico dá para quem merece

Duzão, que se vê pronto por uma vaga no elenco dos Dolphins

Mudança para sobreviver na NFL

Duzão chegou à NFL como jogador da linha defensiva na função de defensive tackle, e tinha como principal atribuição derrubar o quarterback adversário. Com a mudança, ele passou a atuar como guard, na linha ofensiva, dessa vez para proteger seu "QB" e também abri espaço para o avanço de outros companheiros.

A mudança daria mais oportunidades para o brasileiro, mas significava mais problemas, já que ele teria que aprender todos os movimentos e técnicas de um jogador da posição, além de estudar todas as novas jogadas. O atleta decidiu encarar e hoje comemora.

"Falam muito que a NFL é 'not for long', ou seja, sua carreira não dura muito. A mudança era a minha chance. Apresentaram um plano para mim e eu embarquei. Eles viram potencial em mim", afirmou.

A troca também obrigou Duzão, aos 27 anos, a mudar sua mentalidade sobre o jogo e entender que precisava atuar em equipe e não buscando um lance para aparecer.

Eu falava que nasci para dar porrada nos outros. No começo eu achava sem graça, mas você deixa de ser egoísta. Começa a trabalhar pelo time. Muitas vezes ninguém vai ver o que você fez, só você e o seu técnico depois vão ver. Se o quarterback não tem chance de jogar a bola, já era

Duzão

Adam Glanzman/Getty Images

Brady à distância, e os Dolphins empolgados

O Miami Dolphins participa de uma divisão dominada pelo New England Patriots nas últimas 11 temporadas. Com a saída de Tom Brady, a expectativa é por mais equilíbrio. "Eu acho que os Dolphins sofreram muito nos últimos anos. Os Dolphins têm elenco muito novo, só um jogador acima de 30 anos. Está todo mundo animado", disse o brasileiro.

Agora, por acaso Duzão já teve algum contato com o superastro Brady, marido da modelo Gisele Bündchen? Ainda não foi o caso

"Eu já o vi a uns 20 metros de mim. Foi o mais perto que cheguei. Eu estava no aquecimento de um jogo", recorda. "Em dia de jogo quem não joga faz o que? O time tá lá 4 horas jogando, e os outros ficam em casa? Não. Vocês vão correr 15 tiros de 60 jardas antes de os caras entrarem. Os jogadores que não vão jogar têm que dar o sangue tbm. Eu estava no aquecimento, e aí o vi meio de longe. Aqui tem que tratar como profissional. Já pensou e pede uma foto? Não dá."

Streeter Lecka/Getty Images/AFP

Os caminhos até a NFL

Existem basicamente dois caminhos para chegar a NFL. O primeiro é o tradicional. Estudar em uma universidade norte-americana, se destacar nas competições e tornar-se elegível para o draft. Caso não seja escolhido por nenhuma franquia, o jogador ainda pode ser contratado como um "agente livre" e passar a fazer parte do elenco.

Foi dessa forma que Cairo Santos chegou à liga. O kicker estudou na Universidade de Tulane e foi contratado pelo Kansas City Chiefs em 2014 sem ter seu nome anunciado no dia de recrutamento de calouros. O brasileiro competiu pela vaga durante a pré-temporada e conquistou o contrato.

O outro caminho é por meio dos programas de inclusão de estrangeiros na liga norte-americana. Foi assim que Duzão conquistou seu espaço. Para isso, você precisa jogar em um time da liga brasileira de futebol americano.

Olheiros da NFL estão em busca de novos talentos, e Kenneth Joshen Jr, agente de Duzão, é um dos auxilia a liga na avaliação dos atletas com potencial. O trabalho dele é fornecer relatórios dos prospectos brasileiros que possam despertar o interesse das franquias.

A empresa do norte-americano também agencia a carreira de outros atletas brasileiros, como Otávio Amorim, Luis Polastri e Klaus Pais. Otávio participou do NFL Undiscovered deste ano, mas não foi selecionado por nenhuma franquia. Já Luis e Klaus participarão do draft da liga canadense de futebol americano.

Divulgação/NFL Divulgação/NFL

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