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Andarilho do bem: fotógrafo viaja pelo sertão nordestino ajudando famílias

Luiz Lira viaja pelo sertão pernambucano e de estados vizinhos levando apoio e soluções para os problemas das pessoas Imagem: Arquivo pessoal

Ed Rodrigues

Colaboração para Ecoa, do Recife

17/06/2022 06h00

Viajar pelo sertão pernambucano e de estados vizinhos levando apoio e soluções para problemas de várias famílias: esse é o propósito de vida do fotógrafo Luiz Lira, 37 anos. De cestas básicas a eletrodomésticos, de brinquedos para a criançada a roupas e acessórios para os sertanejos, até reformas nas casas de quem não dispõe de recursos —ele identifica necessidades e atua para encontrar soluções que auxiliem as pessoas, sempre por meio de doações.

Natural de Olinda, na região metropolitana do Recife (PE), Luiz colocou na cabeça que o mundo só poder melhorar se pessoas comuns entenderem a importância da solidariedade. Essa é a filosofia de vida do fotógrafo, que exercita o mantra sempre que encontra uma pessoa com dificuldades ao longo de suas andanças.

Tem gente que não tem cozinha em casa? Ele busca recurso para construir. Tem idoso que precisa de um banheiro adaptado? Encontra formas de construir um. A atividade faz com que ele se considere um "andarilho do bem".

"A vontade de ajudar pessoas surgiu quando eu ainda era garoto, com as situações difíceis que antecederam a morte da minha tia Dalvinha", conta. "O fim de alguém com câncer é bem triste, e isso me fez refletir mais sobre a vida e o tipo de pessoa que eu queria ser. Mesmo ainda sendo muito jovem, aquela circunstância em que ela se encontrava, de dependência e necessidade de cuidados especiais, fez nascer em mim o desejo de ajudar pessoas. Ela foi minha primeira e grande inspiração."

Ele e a tia tiveram momentos especiais, recorda o fotógrafo. Certa vez, nos últimos dias de vida, quando já não enxergava mais, perguntou o seguinte: "Como está o dia?". Ele olhou pela janela e fez a descrição do tempo. O céu estava nublado, mas ele queria que ela se lembrasse do céu bem azul, então disse: "O dia está lindo. Bem ensolarado".

Luiz criou o projeto Habitat Multicultural, que oferece apoio a famílias Imagem: Arquivo pessoal

"Ela se alegrou muito com o que eu falei. O sorriso dela era o que me importava naquele instante. Percebi que levar esperança e alegria já nos seus últimos dias de vida me deixou mais gratificado do que eu podia imaginar."

Esse momento foi definitivo na decisão de ajudar pessoas. Depois de adulto, e já treinado em fotografia, Luiz passou a buscar uma forma de levar seu projeto adiante. Em 2010, aos 24 anos, viu a seca castigar o interior do Nordeste, e as ações severas do clima estampadas nos noticiários.

Ver a terra seca sem produzir, com os animais morrendo de sede e as famílias morrendo de fome, foi determinante para decidir aonde levaria sua força de vontade.

Peguei todo o dinheiro das minhas férias e comprei mantimentos, arrecadei donativos e busquei os lugares onde a seca do Nordeste mais se agravava. E saí pela estrada distribuindo aos menos favorecidos que encontrava pela frente. Foram as melhores férias da minha vida.

Luiz Lira, fotógrafo e criador do Habitat Multicultural

Ele chegou a alugar um espaço onde seriam oferecidos vários serviços para pessoas carentes, como atendimentos médicos, mas não deu certo. A iniciativa não teve o apoio necessário para se manter. Esse revés levou o fotógrafo à depressão. Um momento turvo na vida dele que foi curado com a chegada da filha Maria Helena, hoje com 5 anos.

Luiz viaja pelo sertão ajudando famílias: 'Vejo várias com a despensa vazia' Imagem: Arquivo pessoal

"Passei quase quatro anos parado por causa da doença. Fui impulsionado pela alegria da Maria Helena. Creio que meu melhor remédio foi o nascimento dela e poder voltar a cuidar de pessoas. Decidi então montar o Habitat Multicultural, que tem por missão oferecer apoio a famílias, fomentando educação, alimentação, esporte e cultura. Mesmo sem ter a primeira sede do Habitat, para enfim poder recepcionar e atender as famílias, não fiquei de braços cruzados, continuei executando as missões pelo sertão de Pernambuco e da Paraíba."

'Muitos não têm fogão'

O cenário que Luiz encontra em suas viagens, segundo ele, é desolador. São pessoas sem ter onde morar, sem ter o que comer, sem esperança e abandonadas pelo poder público. O profissional se depara constantemente com crianças ao relento, com fome e sem forças de ir à escola. Muitas delas, ressalta, têm de caminhar quilômetros para chegar se quiserem estudar.

"A miséria é tanta que já vi crianças exploradas sexualmente, pois foram dadas por suas famílias em troca de dinheiro e alimentos. Meninas indo morar com homens mais velhos, para serem sustentadas e não serem um peso para as famílias que passam por necessidades. Vejo várias famílias com a despensa vazia. O sertão é muito árido e a cisterna acaba secando, ou muitas pessoas nem têm dinheiro para ter uma cisterna construída. Sem falar que muitos não têm fogão, o alimento é feito em um puxado do lado de fora da moradia", descreve.

"A ausência de saneamento básico leva a uma realidade de falta de banheiros nas casas. As pessoas fazem suas necessidades no meio do mato, em uma cova. O banheiro, que para nós é essencial, chega a ser um item de luxo para algumas casas do sertão", acrescenta.

'Luiz sempre me ajuda com cestas básicas'

Quando inicia as viagens, vai parando de cidade em cidade, sempre nas áreas mais isoladas, ouvindo histórias e as necessidades específicas de cada um. Detectado o problema, angaria recursos para resolver.

Em Arcoverde (PE), por exemplo, a família Santos nunca teve banheiro em sua casa. O projeto do fotógrafo está levantando fundos para construir o cômodo. Além disso, Luiz envia alimentos e doou um fogão e gás, pois eles cozinhavam no chão.

Na Paraíba, na cidade de Imaculada, Luiz conheceu a história de um locutor de rádio chamado vaqueiro Alef, um cadeirante que mantém um programa sobre vaquejada e vem de uma família muito pobre. O projeto se prontificou a ajudar o jovem com cestas básicas.

Alef Batista Venâncio, 22 anos, mora com a mãe e três irmãos. A casa é sustentada por ele, com a ajuda da aposentadoria da mãe, mas os recursos não são suficientes porque tanto ele quanto a mãe precisam de remédios.

"Ainda tem o aluguel. Não sobra nada. Pelo contrário, a conta nunca fecha. Conheci o Luiz há dois anos, e foi uma bênção nas nossas vidas. Ele passou aqui e viu minha cadeira de rodas em frente à casa. Entrou e a gente conversou bastante sobre minha vida e as dificuldades. Desde então sempre me ajuda com cestas básicas. E não sou o único. É muita gente que ele ajuda por esses interiores", diz.

Como contribuir

O projeto aceita doações via PIX: 81997468144 (chave-celular)

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