50 tons de pele

Ingrid Silva usa o balé na luta contra o racismo e aponta a urgência de se contemplar a diversidade negra

Lia Hama Colaboração para Ecoa, em São Paulo Steven Vandervelden

Primeira-bailarina da renomada companhia Dance Theatre of Harlem, Ingrid Silva ficou conhecida por tingir as tradicionais sapatilhas cor-de-rosa para que ficassem mais próximas do tom da sua pele. "ELAS CHEGARAM!!!! Pelos últimos 11 anos, eu pintei a minha sapatilha. E finalmente não vou ter mais que fazer isso!", comemorou em seu perfil do Instagram em outubro do ano passado a chegada de sapatilhas marrons. "Uma sensação de dever cumprido, de revolução feita, viva a diversidade no mundo da dança. E que avanço. Demorou, mas chegou! A vitória não é somente minha e sim de muitas futuras bailarinas que virão por aí", escreveu.

Aos 31 anos, a carioca criada em Benfica, zona norte do Rio, é uma ativista engajada em promover a diversidade no mundo do balé e o empoderamento das mulheres. Filha de uma empregada doméstica e de um funcionário da Força Aérea, Ingrid deu os primeiros passos na arte aos 8 anos, participando do projeto social Dançando para Não Dançar, na Vila Olímpica da Mangueira. Passou pelo Centro de Movimento Deborah Colker e pelo Grupo Corpo antes de se mudar para Nova York, onde ganhou uma bolsa para estudar na Dance Theatre of Harlem School, em 2008. Desde então, vive na cidade e tornou-se parte da companhia fundada por Arthur Mitchell - primeiro bailarino negro do New York City Ballet - e formada em sua maioria por negros.

Em meio à pandemia do coronavírus, Ingrid fez questão de sair às ruas para se juntar aos protestos contra o racismo e a violência policial desencadeados pelo assassinato de um homem negro - George Floyd - por um policial branco no mês passado. A bailarina reclama da falta de empatia na sociedade: "Precisou três pessoas morrerem brutalmente em uma mesma semana [no Brasil, foram assassinados no Rio os adolescentes João Pedro Mattos, 14, e João Vitor da Rocha, 18], as pessoas quebrarem lojas, o mundo virar de cabeça para baixo, para que o resto da população perceba que são questões básicas que estão em jogo: o direito do negro de ir e vir e se manter vivo".

Do bairro do Harlem, onde mora com o marido e a buldogue francesa Frida, Ingrid falou a Ecoa sobre a quarentena, o movimento Black Lives Matter, as maquiagens de Rihanna e as formas efetivas de se combater o racismo. Tendo crescido sem modelos de pessoas negras no balé, ela lançou uma biblioteca digital com referências: a Blacks in Ballet. "Quero que crianças de origem parecida com a minha tenham em quem se inspirar", diz ela.

Steven Vandervelden
Angela Zaremba

Como está a sua quarentena?

Meu tour com a companhia de dança acabou no dia 13 de março e estou em casa desde então. Infelizmente todas as nossas apresentações foram canceladas por causa do coronavírus. Eu tinha vários planos, várias viagens marcadas: ia participar de um TED Talk no final de março; ia para o Brasil receber o Prêmio Faz Diferença, do jornal Globo; ia dar aulas numa escola de dança americana; ia viajar de férias para Grécia e Itália. Mas foi tudo suspenso.

Como é sua rotina hoje?

Sou privilegiada de estar em uma companhia que continua nos pagando, independentemente da pandemia. Eles mandaram o piso e montei um estúdio de dança na sala para me manter ativa. Tenho aulas pelo Zoom todos os dias. Alguns ensaios são em grupo e outros, individuais. Mas, sinceramente, agora todo dia parece domingo. Não tenho mais aquela rotina de sair para trabalhar das 10h às 19h e então chegar em casa para fazer minhas coisas.

Você enxerga algum lado bom da quarentena?

Apesar de tudo o que está acontecendo no mundo, que é muito triste, estou feliz de estar em casa. Eu viajava muito com a companhia, praticamente não parava aqui. Agora tenho tempo para curtir meu marido e minha cachorra. Tenho conversado muito com minha mãe e minha avó e retomado o contato com as amigas. Cozinho, ouço música, vou passear no parque. Compramos uma máquina de fazer macarrão e a usamos pela primeira vez. São momentos especiais. Em tempos normais, estou sempre fazendo coisas para fora, para os outros. Agora faço coisas para mim.

Você é uma bailarina engajada, com um ativismo forte ligado ao movimento negro. Com quem aprendeu a ter essa consciência?

Minha vida adolescente e adulta na América contribuiu muito para ter essa voz e essa responsabilidade. No Brasil, eu não tive essa representatividade crescendo nos círculos em que frequentei. Tinha a Ana Botafogo no balé, mas ela é branca e a bailarina brasileira mais conhecida do mundo. É a madrinha do projeto onde eu comecei, o Dançando Para Não Dançar, na Mangueira. Desde os 8 anos de idade, tenho admiração muito grande por ela, mas não tive uma mulher negra no balé para me inspirar. Foi só depois, mais velha, que ouvi falar da Mercedes Baptista [primeira negra a fazer parte do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro]. Fora do balé, nomes de ativistas como Martin Luther King eram distantes da minha realidade. Angela Davis passava longe do meu radar.

Por trás de histórias de superação como a sua, muitas vezes existe a figura de uma mãe forte e incentivadora. Como é a sua mãe?

Minha mãe, Maureny, é empregada doméstica aposentada e sempre foi a pessoa que mais me apoiou. Meu pai ajudou, mas minha mãe ajudou mais. Ela sempre soube que eu seria bailarina, desde pequena. Me via dançando na pontinha do pé e já sabia. Quando eu e meu irmão, Bruno, começamos a fazer balé, ela largou o trabalho para levar a gente às escolas de dança, aos testes. Sempre foi muito caxias na nossa educação: o correto é o correto e você não tem que ser só bom, tem que ser o melhor. Cresci com isso. Que mãe que deixa a filha ir para Nova York com 18 anos sem falar inglês? Quando surgiu a oportunidade, ela me disse: "Vai, minha filha, vai, que o sonho é teu".

Você foi para Nova York sozinha?

No primeiro mês, tive a companhia da minha professora do projeto Dançando Para Não Dançar, mas depois ela foi embora. Era a minha primeira vez fora do Brasil. Eu chorava muito, não me sentia confortável. Minha mãe me dizia: 'Não vai voltar para cá, não. Não tem nada para você aqui'. Sempre achei isso muito forte porque, se fosse eu, talvez eu falasse para a minha filha voltar. Mas foi uma das melhores coisas que a minha mãe fez. Se eu tivesse voltado, não seria quem sou hoje.

Angela Zaremba

Até pouco tempo atrás, você tingia suas sapatilhas de balé com a cor da sua pele. Era um ato de ativismo?

Não. A Dance Theatre of Harlem já usa a sapatilha da cor da pele há 51 anos. Foi um look criado pelo fundador da companhia, Arthur Mitchell, e, quando entrei lá em 2008, tive que aprender a usar. Porque o balé é colonizado pelo europeu e as pessoas associam a meia-calça rosa e a sapatilha rosa ao tom da pele europeia. Só tinha sapatilha rosa. Por muito tempo, tive que pintar minha sapatilha com a minha cor. Mas nunca foi um movimento ativista, era mais por causa do look da companhia.

As marcas começaram a produzir modelos de sapatilha com as cores marrom e bronze. Existe uma maior preocupação com a diversidade hoje?

Agora, que a dança está mais inclusiva, essas marcas foram questionadas e resolveram fazer essas sapatilhas. Só que eu ainda tenho um questionamento muito grande, porque só criam três cores para o público negro. E nós não temos só três cores, nós temos muitos tons de pele, temos 50 tons de pele. Durante mais de um ano, eu fiquei pressionando e cobrando a marca que eu uso. Aí eles fizeram as sapatilhas para mim, mas elas não estão disponíveis no mercado. As marcas, em geral, não valorizam e não acreditam na diversidade. Elas usam a desculpa: "Ah, mas não tem muitos negros que fazem balé".

Seu novo projeto, Blacks in Ballet, surgiu com o objetivo de dar visibilidade a outros bailarinos negros?

Exatamente. Eu, o Ruan Galdino e o Fabio Mariano criamos o Blacks in Ballet como uma biblioteca digital nas redes sociais voltada para trazer histórias de bailarinos negros do mundo todo. Para não ter essa desculpa de que não existem bailarinos negros. Eles existem sim, e são muitos. As marcas é que são preguiçosas em fazer as suas pesquisas e serem inclusivas. E o que estamos vendo agora? Por causa do movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam, que combate a violência policial contra os negros e a divisão racial nos EUA], elas estão falando: nós estamos te ouvindo. Tenho 31 anos e só agora encontro um Band Aid com a cor da minha pele.

De que outros produtos você sente falta?

Maquiagem. Por isso que a Rihanna é a imperadora da maquiagem hoje: ela pensou fora da bolha. A marca dela tem mais de 30 tons de base para a pele negra. Se ela conseguiu fazer essa pesquisa, porque as outras marcas não estão fazendo? Porque elas não valorizam o black money? Temos que continuar deixando as marcas desconfortáveis para que elas saiam de suas bolhas e façam uma pesquisa abrangente do público como um todo.

Como foi fazer a campanha da Nike com sua trajetória sendo narrada pela Serena Williams?

Essa campanha foi muito especial. É um comercial de quase 4 minutos contando a minha história. Na gravação do vídeo, eles me perguntaram: "Aonde você acha que a dança te levou?". Eu respondo: "Aqui". Jamais imaginei ser a primeira negra brasileira embaixadora da Nike. Eles nunca tiveram uma bailarina, acho que nem viam o balé como esporte. E olha como eles estão abrindo a mente. Então, para mim, é muito gratificante fazer parte dessa revolução.

Não tive uma mulher negra no balé para me inspirar. Foi só mais velha que ouvi falar da Mercedes Baptista [primeira negra a fazer parte do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro]. Quantas outras meninas vão querer dançar como eu? Elas vão ter o que eu não tive quando pequena: uma referência

Ingrid Silva, bailarina

Angela Zaremba Angela Zaremba

Você é bem ativa na sua conta no Instagram. Como é a sua interação com seus mais de 200 mil seguidores?

Comecei a compartilhar coisas do tour, da gente viajando, e as pessoas queriam saber mais sobre mim e sobre a dança. Percebi que, a partir do momento em que criei uma plataforma com a minha própria opinião, sem a preocupação em agradar os seguidores, mais as pessoas se identificavam. Elas se sentiam mais próximas. Há três anos criei a EmpowHerNY, uma plataforma global que vem dando voz a várias mulheres do mundo todo para compartilharem suas experiências através dos nossos eventos.

Qual foi a sensação de participar dos protestos contra o racismo desencadeados pelo assassinato de George Floyd por um policial branco?

Fui em quatro deles, o último no dia em que o George Floyd foi enterrado. Marchamos do coração do Harlem, onde eu moro, até o Central Park. Foi um protesto poderoso, cheio de respeito. Os manifestantes se vestiram de terno e gravata. Senti que as pessoas estão realmente indignadas e querem mudança. Em pleno século 21, ainda temos que ir às ruas pedir direitos iguais para todos e, para piorar, no meio de uma pandemia. As pessoas me perguntavam: "Mas você vai ao protesto com o coronavírus por aí?". Eu respondia: "Cara, como mulher negra, habitando um corpo negro, ou eu morro de corona ou eu morro por ser uma mulher negra. Não tenho opção". A pessoa negra sofre racismo a vida inteira e ainda tem que educar o outro.

Foi a maior onda de protestos contra o racismo nos EUA desde os anos 60 e obrigou o governo americano a se mexer para reformar a polícia. Dá para ter alguma esperança?

Vi muita esperança nas ruas. Encontrei muitas crianças com suas mães nos protestos e também muitas pessoas mais velhas. Houve momentos especiais, em que todos se ajoelharam. Você olhava para trás e via um mar de gente, mais de mil pessoas ajoelhadas. Esses momentos de união me dão a esperança de que as coisas vão começar a mudar. Pela primeira vez, vejo interesse em mudar o sistema.

Sei que tem muita gente ignorante que não quer mudar, mas espero que seja uma minoria. O racismo está entranhado e você tem que reeducar as pessoas

Ingrid Silva, bailarina

Angela Zaremba Angela Zaremba

Como cada indivíduo deve agir para combater o racismo?

Se você é dona de uma empresa ou de uma loja, invista na diversidade, contratando funcionários negros. Ofereça treinamento a seus empregados para combater os estereótipos. Isso é um problema muito grande: assumir que uma pessoa é de um determinado jeito só pela cor da pele, sem ao menos conversar com ela. Nós, como consumidores, temos que parar de comprar produtos de marcas que não apoiam a comunidade negra. As marcas precisam assumir seu papel. Não adianta grandes empresas doarem dinheiro para campanhas de diversidade, se dentro dessas mesmas empresas só a tia do cafezinho e o cara da limpeza forem negros. É importante ter diversidade no andar de cima também. É preciso dar oportunidades para que os negros ocupem esses espaços. Se você tem amigos negros e sabe que eles são capacitados, use o seu lugar de fala e indique essas pessoas para essas vagas. Questione a falta de diversidade no seu ambiente de trabalho.

Como educar as crianças?

Se você é pai ou mãe, deve ensinar a seu filho que ele não pode julgar o amiguinho pelo tom da pele. Porque rola esse julgamento desde pequenos, as crianças são o espelho do que elas veem em casa. Se você é dono ou trabalha numa escola, tem que dar uma educação voltada para essa pauta. Os negros não nasceram escravos, eles foram escravizados pelos europeus. Os europeus foram até a África, escravizaram os negros e os levaram à força para outros lugares. As histórias que a gente aprende, muitas vezes aprende errado na escola. Houve muitos reis e rainhas negros. Temos toda uma história que foi apagada e precisa ser resgatada. E uma dica que vale para todos: procure ler mais, assistir palestras e documentários sobre o assunto.

Que livros e documentários você indica?

Gosto do livro da Djamila Ribeiro, "Lugar de fala". Documentário tem o "Eu não sou seu negro", dirigido por Raul Peck, que é maravilhoso. Outro filme importante é sobre a Rosa Parks ["A História de Rosa Parks", de Julie Dash], ativista negra que se recusou a ceder o lugar no ônibus para um branco nos anos 50 e se tornou símbolo da luta pelos direitos civis nos EUA.

Não adianta grandes empresas doarem dinheiro para campanhas de diversidade, se dentro dessas mesmas empresas só a tia do cafezinho e o cara da limpeza forem negros. É importante ter diversidade no andar de cima também

Ingrid Silva, bailarina

Angela Zaremba Angela Zaremba

Redes sociais são um instrumento eficaz para combater o racismo?

Acho que sim. Estou gostando muito de iniciativas que têm rolado no Instagram. Inclusive, participo de uma. Dei uma entrevista ao programa "Saia Justa", do GNT, e a Astrid Fontenelle me convidou para toda segunda-feira ocupar as redes sociais dela, trazendo debates sobre a diversidade. Tem sido muito legal, as pessoas me receberam super bem. Estou empolgada de estar numa rede que não é a minha, conversando com pessoas que talvez não pensassem nesses temas antes. Às vezes a gente não vê a luta do outro como a nossa. É importante fazer esse exercício de empatia e, ocupando esse espaço, ofereço a minha visão.

Você tem alguma previsão de quando volta aos palcos?

Infelizmente ainda não sabemos. Nós, da arte, somos um grupo de aglomeração então o futuro é muito incerto. Aqui em Nova York estão reabrindo o comércio e retomando as atividades, mas ainda não me sinto segura de estar perto de muita gente. Enquanto não criarem a vacina, não vou me sentir segura.

Tem alguma viagem marcada para o Brasil?

Não posso nem pensar em sair dos Estados Unidos nesse momento. Quem sai depois não entra. Estou esperando a poeira baixar.

Qual o seu sonho não realizado?

Escrever um livro infantil contando a minha história. Quero que crianças de origem parecida com a minha tenham um personagem para se inspirar.

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