Jovem ambientalista

Depois de ver sua fazenda pegar fogo, ele mobilizou uma cidade para salvar a natureza

Paula Rodrigues de Ecoa
Pablo Saborido/UOL

Rhenan Cauê Barbosa tinha apenas 7 anos quando, ao chegar da escola, encontrou a fazenda em que morava, em Araguatins (TO), pegando fogo. Momentos antes, um trator batera no poste de luz, causando um curto circuito que provocou o incêndio. Em seguida, tudo queimava. A mãe de Rhenan, Ana Cláudia Barbosa, 33, precisou prender o menino nos braços com força. "Ele queria correr para dentro do fogo. Chorava e gritava, pedindo que alguém fizesse algo", diz ela.

O desespero de Rhenan era por salvar a vaca que costumava ordenhar, o porco que adorava alimentar e os outros animais com os quais brincava. Enquanto o garoto chorava, os bichos corriam tentando escapar das chamas. Os baldes de água que a família de Rhenan e a vizinhança arremessaram não foram suficientes para conter a tragédia, que só cessou com a chuva que caiu no dia seguinte.

Depois do episódio, Ana Cláudia teve medo de como o filho ficaria. Mas Rhenan a surpreendeu transformando o trauma em algo bom. E não apenas para ele. O garoto passou a estudar tudo o que tinha a ver com meio ambiente e as formas de protegê-lo. Sua disposição motivou, anos depois, a criação de um projeto para revitalizar o córrego Brejinho, um afluente do rio Araguaia que corta sua cidade.

A iniciativa mobilizou cerca de 500 moradores de Araguatins e ganhou projeção internacional. O garoto acaba de voltar da Armênia. Esteve lá para apresentar o projeto de revitalização do Brejinho na conferência da "Teach For All", rede internacional que integra 53 organizações de diversos países e cujo objetivo é fortalecer e impulsionar iniciativas de educação.

Graças ao projeto, Rhenan é também um dos nove escolhidos entre 60 candidatos do Brasil todo para participar do Programa Jovens Transformadores da Ashoka, uma das cinco ONGs internacionais de maior impacto social. A organização promove a conexão entre agentes de transformação dos 92 países em que atua e realiza atividades para incrementar o trabalho deles.

"Só percebi o tamanho disso tudo esses tempos. Fiquei sabendo que, em uma escola particular de Araguatins, uma professora pediu para a classe escrever uma redação falando quem os alunos queriam ser quando crescer. Um menino de 8 anos escreveu que queria ser eu!", conta Rhenan.

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"O que fazer para revitalizar um rio?"

O plano de salvar o córrego Brejinho surgiu de uma demanda escolar. Ano passado, Rhenan e os colegas foram desafiados a criar um projeto para concorrerem à quinta edição da Conferência Nacional Infantojuvenil pelo Meio Ambiente, promovida pelo Ministério da Educação em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente. (Detalhe: a professora de ciências era Ana Cláudia, a mãe de Rhenan.)

O tema do evento era "Vamos cuidar do Brasil cuidando das águas". À procura de uma ideia, o garoto passou a pesquisar sobre os rios de sua cidade. Foi então que descobriu o Brejinho.

"Ele me chamou muita atenção, primeiro, porque passa no meio da cidade. Entrevistei, então, as pessoas que moram por perto e fiquei encantado com as histórias, mas também muito triste", conta.

O rio, que hoje é sujo e poluído, um dia já fez parte do cotidiano dos moradores. Ali eles lavavam suas roupas, tomavam banho, bebiam água, brincavam? "Enquanto ouvia aqueles relatos pertinho do córrego, eu chorava", diz.

A tristeza mobilizou o rapaz. Ao chegar em casa, Rhenan ligou o computador e digitou a seguinte pergunta em um site de buscas: "O que fazer para revitalizar um rio?". As respostas foram muitas: de instruções para limpeza das margens ao plantio de árvores ao redor do curso de água, entre outras.

O garoto colocou todas as informações no papel, juntou com os depoimentos de moradores e apresentou uma proposta de revitalização. Após uma votação, o trabalho de Rhenan foi eleito para representar o município na etapa estadual da conferência. Mesmo tendo perdido na fase seguinte, ele recebeu o convite para ir até São Paulo participar do evento como espectador.

"Você é nuvem, faça chover"

"Agora você é nuvem. Volte para sua cidade e faça chover", disse a Rhenan, durante a conferência, o arquiteto e urbanista Edgard Gouveia Jr. Ele desenvolve jogos para estimular crianças e jovens a pensarem em ações sociais coletivas. Foi durante uma das atividades com Edgard que o menino despertou para o poder que as suas ações têm.

"Até então, eu estava bem tímido. Não queria falar, até tentava me esconder. Depois das brincadeiras de Edgard, eu mudei. Nunca mais eu quero ficar calado, na sombra dos outros. Eu percebi que também tenho muito para falar! Agora eu sou cara de pau mesmo", diz.

De volta a Araguatins, Rhenan quis fazer chover, mas, sozinho, estava difícil. Descobriu que outros jovens que participaram da conferência estavam com o mesmo problema. Juntos, eles pediram ajuda para Edgard, que elaborou um novo jogo para apoiar os jovens.

O arquiteto, então, criou uma gincana com etapas práticas dos projetos. Entre elas estão a escolha de uma equipe (porque "nada se faz sozinho", como diz Edgard), a elaboração de uma campanha para conquistar colaboradores e a organização de mutirões para realizar os objetivos.

Com a recém-conquistada "cara de pau", Rhenan, então, bateu na porta de vizinhos, foi até a prefeitura, falou com o corpo de bombeiros, as polícias civil e ambiental, escolas e universidades para apresentar seu projeto. O garoto realizou também uma audiência pública na câmara de vereadores com autoridades e a população. Rhenan decidiu ainda que um bom jeito para anunciar a força-tarefa seria pedir ajuda usando um carro de som. E, assim, cruzou a cidade divulgando a limpeza do córrego.

O resultado: em dois dias, as cerca de 500 pessoa que reuniu coletaram uma tonelada de lixo das margens do Brejinho.

Pablo Saborido/UOL
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Na faculdade aos 3 anos de idade

O vínculo de Rhenan com a natureza foi plantado quando ele ainda era muito pequeno. A mãe dele, Ana, engravidou aos 20 anos, quando estava no primeiro ano do curso de biologia da UEPA (Universidade Estadual do Pará), em Conceição do Araguaia.

Ao saber da gravidez, o pai do garoto abandonou a família. A mãe, por sua vez, frequentou as aulas grávida, e, após o parto, passou a levar Rhenan para a faculdade. "Os primeiros anos da vida do meu filho foram dentro daquele campus. Ele era como um aluno ouvinte do curso de biologia", conta rindo.

Rhenan se mudou para Araguatins aos 5 anos, mas deixou um pedacinho dele no Pará.

Reza a lenda que o lugar onde é enterrado o coto umbilical de um recém-nascido determina o destino da criança. Quem quiser um filho fazendeiro e rico, deve enterrá-lo em uma fazenda. O terreno de um hospital é garantia de um médico no futuro. Já se a escolhida for uma roseira, o menino ou a menina crescerá uma beleza de adulto.

Ana Cláudia cansou de ouvir essa história quando Rhenan nasceu, mas preferiu não tomar a decisão sozinha. Guardou o umbigo por 3 anos, pois queria saber onde o menino gostaria de enterrar. "Até o incentivei falando para ele enterrar na fazenda, mas Rhenan disse que preferia a UEPA, para virar estudante. Então fizemos assim", conta a mãe.

Pablo Saborido/UOL

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