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Rodrigo Ratier

Ao "adiar sem adiar", governo de SP cede a instituições privadas

Rodrigo Ratier

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução, de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro, e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

07/08/2020 14h43

A decisão do governo do estado de São Paulo sobre a reabertura das escolas parece feita sob medida para contemplar a pressão das instituições particulares. O retorno das aulas presenciais foi oficialmente postergado para 7 de outubro. Mas escolas que estejam em região na fase amarela por 28 dias ou mais podem abrir as portas já a partir de 8 de setembro, para atividades de reforço e com público reduzido. Ou seja: adiou sem adiar.

O secretário estadual da educação Rossieli Soares justificou a decisão com a necessidade de atender os mais vulneráveis. O argumento reconhece a insuficiência do ensino remoto - o DataFolha fala em 15% de alunos da rede pública com acesso precário ou nenhum acesso à internet. Para atendê-los, será necessário primeiro identificá-los. O governo não sabe ao certo quem são, pois a promessa de um serviço de busca ativa robusto não se materializou.

A alegação é reduzir desigualdades, mas, com a medida, o estado se arrisca a gerar o efeito contrário: mais bem preparadas, as instituições privadas já estão prontas para voltar - e ansiosas, pois a pandemia tem tido impacto gigantesco nas finanças. Os alunos dessas instituições, que já contam com infraestrutura para o ensino remoto, terão a opção de voltar antes e melhor. A possibilidade de retorno em setembro agrada o lobby das particulares (em especial das instituições maiores, na mão de grandes grupos - escolas de bairro seguem em dificuldades) e retrocede na defesa da equidade - ensino ou é para todos, ou não é para ninguém.

Apresenta-se o retorno às aulas presenciais como a única forma de mitigar as defasagens de aprendizagem dos mais vulneráveis. Não é. Poderia-se pensar em formas melhorar a acessibilidade digital de quem precisa, acompanhando adequadamente a evolução de cada aluno. As ações nesse sentido foram tímidas. Na ausência de diagnósticos, não há clareza sobre quantos alunos efetivamente estão estudando online e com qual qualidade. Nada nesse sentido foi anunciado.

Também não ajuda caracterizar professores como "heróis". A coletiva chegou a incluir um vídeo de professora da cidade de São Carlos, que tem dado aulas na calçada para alunos que não podem realizar o ensino remoto, como exemplo virtuoso. Trata-se de falácia discursiva chamada de exemplar saliente - caso isolado fora da curva usado para exemplificar o comportamento de um grupo. Sindicatos e entidades de classe têm insistido que a maioria dos docentes é contra o retorno. Ambicionam serem tratados como profissionais e reivindicam valorização mais concreta e menos discursos.

Adicione-se que os responsáveis poderão decidir se os filhos voltam às aulas ou ficam em casa. Na ausência de um acordo coletivo, impera o cada um por si. Diversos levantamentos mostram o temor de pais, professores e alunos para retornar às aulas. As políticas de reabertura passam ao largo dessa inquietação porque esses atores não foram convidados a ajudar a construir as decisões. A sociedade brasileira parece ter abandonado a tarefa de construir consensos e de tomar decisões em grupo. E cada um que seja seu próprio epidemiologista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.