Pode cultivar o ócio, sim!

Por mais que pareça contraditório, esse tempo para fazer nada te torna mais produtivo e saudável

Priscilla Auilo Haikal Colaboração para o VivaBem Bruno Miranda/UOL

Quando foi a última vez que você fez algo porque realmente gostava? Que não envolvia nenhuma obrigação ou vantagem? Pois é, isso é um dos sintomas que estamos inseridos numa realidade baseada no desempenho, onde só o que interessa é o quanto produzimos. Não à toa também estamos nos transformando numa sociedade cansada, que funciona num esquema 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Uma saída apontada por muitos filósofos e estudiosos pode parecer bastante simples, mas é um desafio e tanto em tempos tão ocupados: o ócio. Classificado como criativo, criador, construtivo ou valioso, nada mais é do que reservar um tempo para defender as próprias necessidades. Entenda mais sobre o conceito e conheça os benefícios de incorporar essa prática no dia a dia.

Bruno Miranda/UOL
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Só pare

Um novo ano acabou de começar e com ele vem a sensação boa de renovação, de novas oportunidades e de muito tempo para realizar as atividades que tanto planejamos. Aproveitar os mais de 300 dias e tirar do papel o que ansiamos para ter mais bem-estar e qualidade de vida. Já iniciamos o período com a mente cheia de metas de como fazer para deixá-la mais vazia e tranquila.

Mas parece que em um passe de mágica, após todo o brilho e glitter do Carnaval passar, essa disposição se esvai. De repente somos tomados pelas tarefas diárias e nos deparamos com velhos conhecidos nossos: cansaço, estresse, ansiedade, falta de tempo e frustração. Passamos uma média de 9 horas e 20 minutos por dia conectados (conforme pesquisa da Hoopsuite com a We Are Social), checando e respondendo e-mails fora do expediente, conversando com os colegas de equipe e com os chefes, atualizando relatórios, ou então mantendo ativa a vida dentro das redes sociais.

Nas palavras de Ariano Suassuana, "a praga do celular" e a possibilidade de acessar a internet a qualquer hora e na maior parte dos lugares, facilitou com que estejamos sempre disponíveis para responder obrigações de trabalho e também da esfera pessoal. Permanecemos sempre ligados, empenhados em produzir mais e melhor e muitas vezes deixamos de lado algo fundamental para efetivamente ficarmos bem: parar.

O tempo livre, aquele com nada para fazer, é parte de um processo humano indispensável a fim de evitar o esgotamento mental. Mais que isso, é uma experiência subjetiva e emocional, que é oposta ao modelo corporativo de competitividade, onde desfrutar a vida, a autonomia e a liberdade é visto como brecha para ser ultrapassado pelos concorrentes.

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Conectar-se com os próprios desejos: melhor remédio

O impacto de viver num mundo hiperacelerado, de demandas incessantes e numa rotina totalmente ocupada atinge o corpo em cheio. Nosso organismo se estressa quando é mais exigido do que é capaz de suportar. A sensação de não dar conta dos inúmeros acontecimentos que nos cercam gera sintomas ou quadros psicossomáticos —quando o corpo manifesta "dores" psíquicas.

Daí a importância das escolhas conscientes sobre o que fazer com seu tempo e no tempo livre. Muitos processos mentais importantes precisam de inatividade, devaneio e outras formas de descanso durante o dia para renovar os reservatórios de energia física e mental e permitir que sejam ativadas ou estimuladas. Veja os benefícios desses momentos de ócios:

  • Memória turbinada

    Melhora na formação de memórias estáveis na vida cotidiana, com a consolidação de dados recentemente acumulados

  • Atenção consolidada

    Aumento da capacidade de atenção e motivação do cérebro, o que facilita alcançar níveis melhores de desempenho

  • Criatividade garantida

    Desenvolvimento da elaboração e da criatividade, já que ao ficar tenso e estressado, o cérebro permanece focado na sobrevivência

  • Raciocínio estimulado

    Melhora o desempenho das funções cognitivas, melhorando o raciocínio lógico, a atenção, o foco e a memorização

  • Bom-humor renovado

    Renovação do bom humor, que deixa a pessoa mais disposta e relaxada (por estar menos ansiosa, não libera cortisol, substância que provoca desconforto)

  • Compreensão ativada

    Criação de momentos de introspecção que facilitam a compreensão do comportamento humano e de afirmação das nossas identidades

  • Proximidade estabelecida

    Cultivo das experiências de pacificação, que nos devolvem a proximidade do nosso lugar no mundo

  • Consciência cultivada

    Desenvolvimento de consciência e plena atenção, que trazem mais qualidade e congruência com nossas intenções genuínas

  • Saúde potencializada

    Potencialização da saúde e do bem-estar, por meio do aumento da capacidade de ponderação e da aproximação de valores ligados com a liberdade individual e o sentido de justiça

  • Aprendizados novos

    Afastamento da vida para vê-la como um todo, para fazer conexões inesperadas e aprender coisas que têm a ver com o próprio interesse

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Vamos nos permitir

Todas essas experiências de liberdade e autonomia, que envolvem o uso de habilidades ou levam a descobertas pessoais, são possíveis a partir do ócio criativo. Na atual sociedade do consumismo exacerbado, onde tudo é monetizado e vira produto, o ócio foi convertido em lazer (tempo socialmente convencionado como livre), e o lazer se converteu em consumo. Com isso, perdeu-se a noção de um momento destinado ao desfrute e ao desenvolvimento humano.

Assim, fomos cooptados por um modelo de organização do mundo corporativo que nos cobra e exige uma dedicação plena e total. O medo da inatividade e da chamada "enfermidade do tempo", quando a pessoa tem dificuldade em lidar com períodos livres, é caracterizada por sintomas como culpa diante de instantes sem obrigações, vazios na agenda, e ansiedade elevada em finais de semana, feriados e férias. É quando a pessoa cria táticas para preencher todas as horas e não permanece sozinha com os próprios pensamentos —como checar constantemente o celular ou fazer algo considerado socialmente produtivo.

Vale destacar que a proposta do conceito de ócio criativo não está relacionada necessariamente a não fazer nada. Mas se permitir investir em objetos de satisfação, como estudo, meditação, arte, poesia, esporte ou outro hobby, numa forma de fazer circular o desejo e a capacidade de criação. Na medida em que os indivíduos são privados de sua capacidade criativa, do próprio querer em nome da produção, temos sujeitos cada vez mais alienados quanto ao próprio desejo, o que colabora para a manutenção do mal-estar e do sofrimento psíquico.

A recusa em parar alimenta e resulta na aceleração do tempo, personificada pela incapacidade de permanecer em algo que perdure. A opção por viver num ativismo desenfreado, de fazer diversas coisas simultaneamente ou sucessivamente, num constante saltitar, evita uma consciência mais profunda da realidade e traz consequências que repercutem nas práticas sociais. Não se trata de irresponsabilidade, ao contrário, mas de uma posição ética que permite a construção de novos elementos. É preciso se conhecer para perceber os sinais da dissonância, diferenciar o que realmente pode contribuir com a realização do seu propósito. O ócio é uma excelente oportunidade de se escutar.

Diante tamanha aceleração do tempo, que conduz à falta da introspecção e do convívio consigo mesmo, não sabemos mais praticar o ócio. O desejo de ter se sobrepõe e esvazia o centramento no próprio ser, e a realização do humano desemboca numa inquietude e coisificação de tudo e todos. O bem-viver, sem estar atrelado à condição material, precisa ser reaprendido. Isso é possível a partir de pequenos esforços diários para resgatar ações que nos propiciam prazer, dão sentido humano e revigoram as próprias forças, e não como uma máquina de potencial produtivo.

Um ócio para chamar de meu

Um ócio para chamar de meu

Separamos algumas dicas práticas (outras nem tanto) de como internalizar o ócio como um hábito.

O ócio só é possível com a consciência efetiva de seu valor, sentido e propósito

Comece acreditando que você merece, que é um direito e que trará mais benefícios que prejuízos

Escolha horários sagrados e intocáveis, de uso livre e pessoal para a prática

Opte por preenchê-los com atividades que são prazerosas e que podem acrescentar na qualidade de vida (aqui entra o autoconhecimento)

Sugestões: ler, nadar, meditar, fazer ioga, contemplar o pôr do sol, tocar um instrumento, cozinhar... O importante é que você tire um prazer daquilo

Imagine que é um momento para investir em si mesmo, em seus pensamentos, em sua a vida e na reorientação da própria existência

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Meu ócio, minhas regras

Vivemos numa sociedade ainda centrada no trabalho e nas obrigações, onde as agendas se organizam em torno dos horários de serviço e dos afazeres familiares. Não por acaso os adultos têm grande dificuldade de desfrutarem de momentos livres e de contemplação, pois a maioria não foi ensinada a valorizar o que não é tarefa remunerada.

No início, pode ser preciso usar a disciplina para incorporar o ócio na própria rotina. É literalmente bloquear a agenda para ter um tempo dedicado ao autocuidado, de estar na própria presença e de se "apropriar de si mesmo". Só assim temos a condição necessária para interrogar o sentido e a representatividade de nossas escolhas.

É uma experiência subjetiva e pessoal, indispensável para a manutenção da saúde mental. Ela parte do rompimento com a noção de mundo baseada na dimensão de atividade produtiva, por meio duma autoestima suficiente para dizer não às demandas excessivas e de se importar menos com os padrões estabelecidos socialmente e com as expectativas dos outros.

Uma boa é fazer as seguintes perguntas:

  • O que realmente importa para mim?
  • O que me deixa mais feliz?
  • Como tenho usado meu tempo? (Todos temos as mesmas 24 horas diárias!)
  • Tenho sido coerente em minhas escolhas sobre o que fazer em cada hora do dia?
  • Priorizo o que pode me deixar mais feliz ou realizado?

Esteja atento aos sentimentos, pensamentos e também aos sinais corporais, pois nosso organismo é sábio e nos avisa quando algo não vai bem.

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Família ociosa unida, permanece unida

Em meio a tantos afazeres cotidianos, os filhos podem representar mais obrigações nos momentos fora do trabalho. Mas é possível que sejam também fontes de desfrute. Muitos pais enchem as agendas das crianças com cursos e atividades extracurriculares que demandam bom desempenho e avaliações positivas. Nada mais é que a repetição de valores de produtividade que nos foram ensinados como única via para ser bem-sucedido, com princípios visando ao mercado de trabalho e não para o bem-estar dos pequenos.

Nem que comecemos com pouco, precisamos exercitar o ócio e podemos envolver toda a família nisso. Buscar atividades multigeracionais, que permitam a participação ativa de todas as gerações envolvidas (avós, pais e filhos), como visitação de parques, praças, festas populares, que permitam intercalar vivências mais lúdicas, com experiências mais culturais ou desafios físicos (caminhadas, bicicletas e práticas esportivas).

Nosso encontro da autonomia e da liberdade precisa ser reaprendido e ensinado desde cedo. É pensar em educar os sujeitos para os mais diversos e possíveis ócios, fora de uma esfera voltada apenas para a qualificação profissional. Por isso, é importante ensinar as crianças e adolescentes a experimentarem esses tempos livres de forma prazerosa e sem culpa, onde é permitido explorar desejos e pensamentos individuais. Se existe horário para estudar e para fazer as tarefas escolares, também pode haver horários para brincar e relaxar.

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