Saúde nas grandes cidades

Quem mora nas metrópoles se expõe mais à poluição, é mais solitário e nem sempre come bem

Camila Brunelli Colaboração para o VivaBem

A cidade grande pode me adoecer?

Atualmente, mais de 50% da população do planeta vive em cidades e aglomerados urbanos, expostos a níveis de poluição cada vez maiores. Há quem diga que migrantes buscam a cidade não somente em busca de oportunidades de trabalho, e sim por uma maior chance de encontrar pessoas para conviver. Isso porque a atividade social é como um antídoto que protege nossa mente contra a tristeza. Mas será que em cidades super habitadas, como São Paulo e Rio de Janeiro, a máxima do "é impossível ser feliz sozinho" continua valendo?

Nas capitais brasileiras, por exemplo, vivemos em constante alerta por causa da violência urbana e não conseguimos ver nosso familiares e amigos o tanto que gostaríamos por causa da correria —e acabamos ficando mais ansiosos e tristes por isso. Esse cotidiano corrido também faz com que não priorizemos uma alimentação saudável, muitas vezes por falta de tempo, outras por causa de dinheiro. Em nome dessa pressa, acabamos nos rendendo à alimentação de ultraprocessados, cheios de gordura ou sódio. Sem tempo para nada, além de comermos mal, não conseguimos praticar atividades físicas —assim como nossas crianças não jogam mais bola ou correm na rua como antes. E assim, ajudamos a obesidade a se instalar.

Aspiramos ar poluído todos os dias, sabidamente relacionado ao risco de câncer de pulmão e bexiga, além do agravamento de doenças respiratórias, como a asma.

Além disso, o local da cidade em que se vive influencia demais na saúde e na qualidade de vida desses habitantes. O que se vê é que territórios mais carentes de moradia e infraestrutura —como água, energia, saneamento, transporte, equipamentos, serviços e espaços públicos— são aqueles com maior tendência à vulnerabilidade social e também de saúde. Essas pessoas demoram mais tempo no trânsito expostas à poluição porque moram longe, e tem menos recursos para uma alimentação adequada. Ou seja, é um ciclo.

A desvantagem da aglomeração

No período da Revolução Industrial (1760-1840) houve um grande aumento da população urbana. A expansão das cidades fez com que as pessoas vivessem amontoadas em habitações muitas vezes precárias.

Esse fenômeno fez com que a contagiosidade das doenças transmitidas por contato interpessoal crescessem, porque, além da proximidade, não havia condições sanitárias satisfatórias —as casas eram feitas sem latrinas e dejetos eram jogados pelas ruas das cidades.

Por volta do ano 600 a.C., o rei Tarquínio, de Roma, construiu a Cloaca Máxima, uma rede de esgoto que desaguava no rio Tibre. "No Brasil, essa tecnologia de dois milênios atrás ainda é utilizada em muitas cidades, até mesmo capitais —como é o caso do rio Pinheiros, em São Paulo", afirma o patologista Paulo Saldiva, que pesquisa o assunto.

O lançamento de esgoto no Tibre e a eutrofização do rio causaram a proliferação de mosquitos vetores da malária. Pouco depois da queda do império romano, durante a idade Média —entre os séculos 5 e 15— foi o auge das febres urbanas: a peste negra, ou bubônica, assolou o continente europeu, dizimando um quarto da população.

Um estudo do Instituto Trata Brasil divulgado em 2019, mostra que desde 2014 o investimento público em saneamento básico só diminui. O país ainda apresenta quase 35 milhões de brasileiros sem acesso à água tratada, quase 100 milhões de brasileiros sem coleta de esgoto (47,6% da população) e apenas 46% do esgoto gerado no país é tratado. Isso significa poluição e doenças ininterruptas em todo o território.

Doenças transmitidas por insetos continuam assolando a população urbana. Ainda nos dias de hoje, moléstias como febre amarela, dengue e chikungunya indicam um padrão sanitário antigo e obsoleto. As águas urbanas contaminadas também facilitaram o alastramento de doenças como a cólera.

Além da proximidade, outras características da vida urbana favorecem a contagiosidade. O ritmo de vida, de trabalho e a cultura da produtividade nos ceifaram o direito de adoecer. O repouso por causa de uma gripe não é bem visto nos ambientes de trabalho.

Doenças infecciosas fazem com que nosso organismo libere proteínas que são uma resposta inflamatória de defesa: febre, prostração e dores articulares nos alertam para a necessidade de repouso e de poupar energia para o combate do agente infeccioso. Ao ignorarmos essas mensagens, ficamos mais tempo doente e contaminamos os outros com mais eficiência.

Poluição, o "tabagismo urbano compulsório"

Um estudo do Ministério da Saúde divulgado no primeiro semestre de 2019 aponta que o número de mortes classificadas como decorrentes da poluição do ar aumentou 14% em dez anos. Foram 38.782 em 2006 para 44.228 mortes em 2016.

A principal causa da poluição atmosférica nas cidades é a imensa frota de veículos, ainda muito utilizados em detrimento do transporte público. A pesquisadora e professora da USP, Maria de Fátima de Andrade, concluiu isso em um trabalho em que fez um estudo mais completo da poluição nas cidades brasileiras: ela e sua equipe avaliaram seis regiões metropolitanas brasileiras —Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre—, e perceberam que os veículos emitem mais de 60% dos poluentes (partículas e gases) respirados nas cidades.

O trânsito moroso, que já é motivo de reclamação de quem vive em metrópoles como São Paulo ou Rio de Janeiro, por exemplo, faz com que inalemos ainda mais poluentes, na medida em que passamos mais tempo nas vias, expostos a essas partículas.

A poluição do ar, inclusive, possui uma enorme identidade química com os compostos produzidos pela queima do tabaco e, a cada duas horas que passamos no tráfego, é como se tivéssemos fumado um cigarro.

Isso significa que todo mundo que mora em uma cidade grande e poluída é fumante involuntário.

De acordo com artigo publicado em 2012 por pesquisadores do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP, "podem ser creditados aos poluentes particulados e gasosos, emitidos por diferentes fontes, aumentos nos sintomas de doenças, na procura por atendimentos em serviços de emergência e no número de internações e de óbitos."

De acordo com a Organização Pan-americana de Saúde, em 2016, as principais causas de morte no mundo foram: cardiopatia isquêmica, acidente vascular cerebral, doença pulmonar obstrutiva crônica, infecções das vias respiratórias inferiores, Alzheimer e outras demências, e câncer de pulmão, traqueia e brônquios —ou seja, a maioria doenças respiratórias.

Os pesquisadores também concluíram que a exposição de mulheres durante a gestação pode comprometer o desenvolvimento fetal. Os riscos vão de retardo de crescimento intrauterino, prematuridade, baixo peso ao nascer, anomalias congênitas e até óbito uterino ou perinatal (entre a 28ª semana de gestação e a primeira semana de vida do bebê).

A poluição atmosférica causa, só no Brasil, cerca de 20 mil mortes/ano, valor cinco vezes superior ao número de mortes estimado pelo tabagismo ambiental/passivo.

Estimativa da OMS

Como cada parte do organismo sofre com a poluição?

  • Pulmões

    As células do sistema imunológico entendem que a partícula do poluente é uma bactéria, perseguem-na e tentam matá-la usando enzimas e ácidos --que acabam caindo nas células saudáveis ao redor, causando inflamação local. Assim, as partículas nocivas que o organismo produziu caem na corrente sanguínea, agredindo outros órgãos.

    Imagem: Mayra Martins/UOL
  • Fígado

    Partículas ultrafinas atravessam os pulmões e podem cair direto na circulação sanguínea, sendo depositadas no fígado. Essas partículas podem estar associadas a câncer de fígado com pior sobrevida.

    Imagem: Mayra Martins/UOL
  • Cérebro

    Nanopartículas tóxicas da poluição estão ligadas ao desenvolvimento de Alzheimer.

    Imagem: Mayra Martins/UOL
  • Vias aéreas

    Os poluentes causam a inflamação das vias aéreas provocando asma.

    Imagem: Mayra Martins/UOL
  • Placenta

    Partículas de poluição no sangue materno são filtradas e se alojam na placenta, podendo estar associadas a parto prematuro.

    Imagem: Mayra Martins/UOL
  • Coração

    As partículas vão parar nas mitocôndrias, organelas dentro da célula que produzem energia. Esse processo causa insuficiência das células, refletindo em cansaço físico.

    Imagem: Mayra Martins/UOL

Cidade "facilita" obesidade

Em alguns períodos da história da Humanidade —grandes fomes, guerras, tragédias naturais ou pragas— houve carência de alimentos. Os sobreviventes a essas épocas foram os indivíduos que melhor absorveram os nutrientes dos poucos alimentos disponíveis. Essa característica pode ter significado alguma vantagem no passado, mas é um problema em épocas como a atual: com grande oferta de alimentos de alto teor de açúcar e carboidratos.

Esse tipo de alimento é, de uma forma geral, bem barato e mais fácil de encontrar, o que os torna mais acessíveis às populações de baixa renda. Não é de se estranhar que, em muitas cidades do Brasil, a população mais carente de recursos tenha passado de um quadro de desnutrição para sobrepeso e obesidade. Embora não seja de fácil associação, é bom que se diga que, mesmo uma pessoa que está acima do peso, pode estar subnutrida.

Além de barato, esse tipo de alimento rico em gordura e pobre em nutrientes, é mais prático: é menos trabalho e menos tempo até ficar pronto —o que pode ser bem tentador a alguém cansado física e/ou mentalmente, depois de horas trabalhando, ou no caminho para casa.

Essa rotina atribulada das cidades somada à grande carga de trabalho, especialmente da mulher —seja remunerado ou doméstico— tem feito com que elas optem por engravidar cada vez mais tarde, quando o aparelho reprodutivo já não está com toda sua capacidade.

A gravidez a partir dos 29 anos, já considerada tardia, pode levar a uma menor adesão da face materna da placenta, o que aumenta o risco de nascimento de bebês menores que o ideal —e com maior risco de sobrepeso ou doenças metabólicas. Isso porque esses fetos registram como se tivessem "passado fome" no útero e entendem que têm de absorver todo nutriente a que tiverem acesso.

A violência urbana e o sedentarismo

Centros urbanos também padecem do problema da violência, e a possibilidade de um filho ser vítima de um acidente de trânsito ou um assalto fez com que os pais restringissem brincadeiras na rua, como jogar bola. O tempo livre dos pequenos passou a ser na frente de telas —televisão, computador ou celular— , estimulando o sedentarismo.

Já se fala em epidemia de sobrepeso infantil no país —cerca de 30% das crianças são afetadas— e crianças acima do peso têm risco aumentado de tornarem-se adultos obesos. Fatores culturais também são entrave ao estímulo da alimentação saudável: nos supermercados, os doces, salgadinhos, refrigerantes e outras guloseimas com alto teor de sódio e gordura ficam expostos nas gôndolas na altura dos olhos das crianças. Alguns deles oferecem até brinquedinhos —que agem na mente dos pequenos como uma recompensa pela ingestão do doce.

Quem usa o transporte público está mais adiantado do que quem utiliza seus carros —pelo menos no aspecto saúde. Isso porque tem que andar até o ponto de ônibus ou estação de metrô, o que resulta em cerca de 5.000 a 6.000 passos a mais do que os motoristas —o equivalente a 300 calorias por adulto e a perda de um quilo por mês. Essa é a proposta mais modesta, porque ir pedalando faz com que os ganhos para a saúde sejam ainda maiores, assim como a perda de peso.

A obesidade, por sua vez, é fator de risco para uma série de doenças. O obeso tem mais propensão a desenvolver problemas como hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2. O sobrepeso também estimula a artrose, pedra na vesícula, artrite, cansaço, refluxo esofágico, tumores de intestino e de vesícula. Além disso, a obesidade pode, também, mexer com fatores psicológicos, acarretando diminuição da autoestima e depressão.

É sabido que a obesidade é uma doença multifatorial, ou seja, não depende só de dieta. De acordo com a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), as causas da obesidade podem estar ligadas à predisposição genética, maus hábitos alimentares e sedentarismo ou disfunção de algumas glândulas endócrinas.

Doenças mentais: como e por quê?

E, falando em transtornos mentais, o Instituto de Psiquiatria da USP providenciou uma pesquisa que contemplasse os 39 municípios que compõem a Região Metropolitana de São Paulo. Foram 5.037 participantes com 18 anos ou mais. Todos os entrevistados foram avaliados quanto a transtornos do humor, de ansiedade, do controle de impulsos, transtornos decorrentes do uso de substâncias psicoativas e comportamento suicida.

O estudo epidemiológico, chamado de São Paulo Megacity Mental Health Survey, concluiu que 29,6% dos indivíduos apresentaram transtornos mentais nos 12 meses anteriores à entrevista. Os transtornos de ansiedade foram os mais comuns, afetando 19,9% dos entrevistados. Em seguida, aparecem transtornos de comportamento (11%), transtornos de controle de impulso (4,3%) e abuso de substâncias (3,6%).

Outros estudos epidemiológicos de diferentes países têm mostrado que os transtornos mentais tendem a ser mais frequentes em ambientes urbanos. De um modo geral, o tamanho e o desenvolvimento econômico da cidade interferem no risco de desenvolvimento de doenças mentais.

Embora muitos desses transtornos tenham base genética, já foi reconhecido que a segurança emocional, especialmente na primeira infância, reduz o risco de transtornos mentais nas fases seguintes da vida. Isso significa dizer que uma criança que tem contato prolongado com os pais e ambiente familiar harmonioso, tem menos risco de desenvolver doenças mentais na fase adulta do que uma criança que experimenta violência familiar, se encontra em lugares inseguros ou tem pouco tempo de convívio com os pais —o que é comum nos dias de hoje, devido ao intenso ritmo de trabalho na cidade.

Os aspectos sociais também influenciam de maneira importante. Ainda há regiões urbanas em que é possível formar redes de afeto e de apoio que atuam como protetoras de nossa saúde psíquica. Por outro lado, o desamparo e a solidão são sentimentos frequentes entre os moradores das grandes metrópoles. Na falta de alguém com quem dividir os medos e as dúvidas e em sofrimento mental, nos tornamos predispostos ao consumo de álcool e drogas.

Dormir bem é outra condição para uma boa saúde mental, já que é durante o sono mais profundo que são secretados hormônios como a melatonina, que protege as nossas funções cognitivas e comportamentais. O ambiente urbano, no entanto, tem características que podem prejudicar a quantidade e a qualidade do sono. Além de a cidade não ser muito silenciosa, em geral as pessoas têm de acordar muito cedo, seja pelo excesso de trabalho, seja pelo tempo que vão demorar para chegar ao destino por causa da morosidade urbana.

A secreção da melatonina, que induz o sono e protege a nossa saúde mental, começa depois de duas horas do escurecimento —só que os ambientes urbanos estão cada vez mais mais claros, seja pelas luzes externas ou pelas telas dos computadores e dos celulares. Jovens passam horas e horas em redes sociais que expõem alegria de outras pessoas e se sentem menos felizes do que as pessoas que veem na tela. Os finais de semana depois de uma semana exaustiva são tradicionalmente os dias de curtição e consumo de álcool e drogas recreativas, que também colaboram para um estado depressivo quando o efeito passa.

A cidade já não dorme mais. São academias, supermercados, restaurantes que não fecham e os funcionários que trabalham nos turnos alternados têm maior risco de desenvolver transtornos mentais, já que o ciclo de luz de seus dias é variável. Isso resulta em uma maior fragilidade dos mecanismos de controle de saúde mental.

Quando aumenta nossas capacidades física e mental, que nos ajuda a vencer desafios, o estresse pode ser um aliado. A trinca cortisol, adrenalina e serotonina nos ajuda a resolver os problemas, mas idealmente deveria ser desligada quando terminada a tarefa árdua —o que não acontece. Isso porque estamos constantemente preocupados com a violência, com a crise financeira, e com a competitividade no trabalho e os mediadores químicos que agem no funcionamento da nossa mente vão se reduzindo por excesso de uso.

Essa mudança neuroquímica cerebral causada pelo estresse contínuo da vida urbana também é fator de risco para o desenvolvimento de doenças mentais.

Câncer na cidade

"Já é possível dizer que a exposição à poluição pode causar câncer", diz o professor da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva. Atual diretor do Instituto de Estudos Avançados da universidade, ele conta que revisou uma série de estudos, pesquisas e artigos durante um ano, e já se pode falar que a poluição é "sabidamente reconhecida como carcinogênico para pulmão", e "provável carcinogênico para bexiga."

No site do Inca (Instituto Nacional do Câncer), a informação é que "há evidência suficiente de associação entre poluição ambiental e câncer de pulmão e de bexiga."

Em 2013, a Iarc (Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer), vinculada à OMS, divulgou que, em 2010, 223 mil pessoas morreram por câncer de pulmão causado pela poluição atmosférica e por um conjunto de poluentes, como poeira e fumaça, conhecido como material particulado.

A OMS estima que o câncer que mais mata no mundo é o de pulmão, com 1,76 milhão de mortes. O segundo lugar fica para o câncer colorretal, com 862 mil óbitos.

Pesquisa realizada em 50 dos 54 estados norte-americanos e envolvendo 500 mil adultos, mostrou um aumento de 14% na incidência de câncer de pulmão associado à ação direta dos cancerígenos presentes na poluição atmosférica. Outro estudo, em países europeus, atribuiu que entre 5% e 7% dos diversos tipos de câncer de pulmão, respectivamente em não fumantes e em ex-fumantes, são causados pelos efeitos da poluição.

Em um artigo publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia depois da análise de diversos estudos "foi sugerido que, em média, a exposição crônica à poluição do ar aumenta de 20-30% o risco de incidência de câncer de pulmão."

Conforme já explicado, a vida moderna na cidade grande faz com que cada vez mais as pessoas consumam alimentos mais práticos, que sustentam e ofereçam algum conforto emocional —já que não temos mais tempo para estar perto das pessoas que nos são queridas— nos tornando cada vez mais gordos.

A obesidade também é um fator que aumenta o risco do desenvolvimento de tumores. De acordo com a OPAS, em média um terço das mortes por câncer se devem "aos cinco principais riscos comportamentais e alimentares: alto índice de massa corporal, baixo consumo de frutas e vegetais, falta de atividade física e uso de álcool e tabaco." E é bom lembrar que a poluição atmosférica tem características químicas parecidas à do cigarro convencional.

Como seu CEP afeta a qualidade de vida?

Um dos principais redutores da qualidade de vida é a falta de mobilidade e o tempo gasto no trânsito. São os mais pobres que geralmente levam mais tempo para chegar ao trabalho e depois voltar para casa —já que, em geral, residem em zonas periféricas e inalam mais poluentes devido à superexposição. Outro ponto é que, em transportes públicos superlotados, os cidadãos ficam mais suscetíveis a vírus que se espalham mais facilmente em ambientes de aglomeração.

Além disso, eles têm menos horas de sono e é provável que não haja tempo —ou forças— para cozinhar um alimento saudável. O jeito é comer um congelado ou outra coisa cheia de substâncias químicas que fazem mal à beça ao organismo. E se não há tempo nem para dormir, o que dizer do lazer, ou da atividade física, elementos essenciais de combate às doenças mentais?

E falando em transtornos psíquicos, parece óbvio que os filhos desses trabalhadores aproveitarão pouco tempo com a família, o que aumenta o risco dessas crianças desenvolverem problemas como ansiedade ou depressão na idade adulta.

"Uma pessoa que mora nas franjas da cidade perde até cinco horas diárias em deslocamento para trabalhar no centro. Quer dizer, ela perde a cidade: não é mais um lugar de encantamento e cultura, passa a ser um obstáculo entre o seu trabalho e sua casa", resume Saldiva, pesquisador do assunto.

Além de trabalhar longas horas, essa pessoa perde muito tempo no trajeto. Que horas ela vai cuidar de si própria, praticar um esporte? É um sedentarismo obrigatório.

Segundo o médico, tudo isso tem influência sobre a saúde mental, a taxa de obesidade, osteoporose e doenças cardiovasculares.

A minoria dos bairros periféricos de São Paulo tem variedade de áreas verdes, como praças e parques, onde seria possível, inclusive, encontrar algum lazer e praticar atividade física segura. Diversos estudos europeus mostram que morar próximo a um parque reduz em até 30% o risco de infarto do miocárdio.

"Sofre muito mais quem não tem condições de se alimentar direito e ir ao médico. Pessoas de diferentes condições socioeconômicas respondem diferentemente à mesma agressão", diz o pesquisador Alfésio Luís Ferreira Braga, do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP.

Segundo o "Mapa da Desigualdade", da Rede Nossa São Paulo, a expectativa média de vida na capital paulista é de 70 anos. Mas enquanto um morador do Jardim Paulista (zona nobre da cidade) vive em média 81 anos, um morador da Cidade Tiradentes (extremo da zona leste) vive 58. Já em grande parte dos distritos mais afastados do centro, a expectativa de vida fica entre 58 e 63 anos.

Que falta faz a consciência coletiva!

A conclusão é que estamos falando de um problema que extravasa a esfera da saúde. O conceito de que o automóvel não é público é um equívoco para Saldiva. A justificativa é que qualquer obra viária —como aumento de uma faixa de rolamento em alguma das marginais, no caso de São Paulo, por exemplo—, é executada com dinheiro público, usando ou não o carro.

Um estudo da Universidade de Oxford mostrou que a criação de uma faixa de rolamento gera aumento de 10% no trânsito no curto prazo e 20% no longo prazo. Esses números chegam a dobrar no horário de pico.

O cigarro já é entendido como um problema de saúde pública, mas a poluição ainda não é encarada dessa forma, embora todos os anos 14 mil paulistanos morram precocemente por causa da inalação desses poluentes.

Segundo outro estudo, realizado pela USP a fim de projetar a mortalidade e internações na rede pública do estado paulista de 2012 a 2030, os padrões brasileiros de qualidade do ar são defasados com relação aos internacionais, já que ainda são da década de 1990. Isso dificulta um controle eficaz dos níveis de poluição e contribui para a continuidade de mortes e internações.

Considerando que os níveis de poluição continuassem os mesmos de 2011, a análise mostra que serão mais de 246 mil mortes por todas as causas entre 2012 e 2030, cerca de 953 mil internações hospitalares públicas e um gasto estimado em internações de mais de R$ 1,6 bilhão por parte do governo do estado. "A magnitude dos resultados aponta para a necessidade de implementação de medidas mais rigorosas para o controle da poluição do ar, formas alternativas de energia limpa de transporte, entre outras ações, como forma de reduzir os danos à saúde da população e os gastos governamentais", diz o relatório.

Analisando, no entanto, o histórico de investimento público em projetos de mobilidade nas grandes cidades do país, de meados dos anos 80 até o fim dos anos 2000, fica claro que foi privilegiado o transporte individual.

Para citar alguns exemplos de solução aos problema mais gritantes: ações como estímulos à mobilidade ativa e políticas de mudança de hábitos alimentares já foram aplicados em outros países e reduziram as taxas de obesidade; aumento de áreas de convivência, lazer e equipamentos culturais resgataram jovens da criminalidade e reduziram muito as taxas de doenças mentais em algumas comunidades carentes do Brasil. A inexistência de um sistema de corredores de ônibus eficiente, além de transporte sobre trilhos de alta cobertura territorial também contribui para a imobilidade urbana.

Em Paraisópolis, comunidade carente na zona sul da capital paulista, a adoção de práticas de permeabilidade do solo, separação das redes de esgoto, água de reuso e de distribuição da água servida para consumo humano foi positiva para reduzir as inundações e doenças infecciosas. "Sabemos o que tem de ser feito, mas não tomamos o rumo adequado", diz o médico.

A Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, mostrou que quanto maior a proporção de transporte individual, maior também a taxa de obesidade de uma cidade.

Segundo a Engenharia de Tráfego de São Paulo, a capital comportava, em 2018, mais de 8,6 milhões de carros, motos, ônibus ou caminhões. "Nós comparamos os moradores que usam transporte público e os que usam o transporte individual e descobrimos que o primeiro grupo anda em média 4,5 km a mais que os outros, sem perceber. Isso tem influência sobre a saúde mental, taxa de obesidade, osteoporose e doenças cardiovasculares", explicou o professor Saldiva.

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