Precisamos menstruar?

Muitas mulheres estão decidindo parar de menstruar. Quais os benefícios disso? Há riscos para o organismo?

Gabriela Ingrid e Priscila Carvalho
Lorena Dini/UOL

Remover o estigma em torno do corpo da mulher é algo a ser celebrado. Na última década, muitas optaram por parar de tomar a pílula anticoncepcional —antes quase uma obrigação desde o início da vida sexual ativa —, para conhecerem melhor seu corpo e fugir dos possíveis males que o combo hormonal faz ao organismo. Junto com esse levante contra os hormônios vieram à tona o coletor menstrual e até rituais com o sangue menstrual.

É fato que "queimamos sutiãs" constantemente, mas sempre existe o outro lado da moeda. Por mais que a menstruação seja cada vez menos um tabu, é inegável que, para muitas mulheres, junto com o sangue podem vir dores, inchaço, problemas de pele e alterações severas de humor. Aceitar o que é natural pode ser um fardo para elas, que veem a descamação do endométrio como algo incômodo, inconveniente e imprevisível.

A decisão de interromper a menstruação, entretanto, gera dúvidas. Afinal, o que aconteceria com aquele sangue que desce todo mês? É saudável ele não ser "eliminado" e "continuar" no organismo? O uso contínuo de hormônios eleva risco de câncer ou trombose? Para esclarecer essas dúvidas, o VivaBem conversou com especialistas e com mulheres que decidiram parar ou fazem questão de menstruar.

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De um lado, pode não fazer mal...

A menstruação faz parte do ciclo reprodutivo da mulher, ou melhor, é o fim desse ciclo. Todos os meses, o útero prepara um revestimento interno, chamado endométrio, para aninhar o embrião (óvulo fecundado). Quando a fecundação não ocorre, esse tecido é descartado. Aí vem a menstruação, que nada mais é do que uma descamação do endométrio, que era para ser uma "casinha" para a gravidez, segundo Fernando Sansone, ginecologista da Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo) e professor da Faculdade de Medicina do ABC.

A menstruação é só o 'choro' do útero que não engravidou

Como a menstruação é apenas o descarte de um tecido que não será utilizado, interrompê-la não faz mal à saúde. "Na maioria das vezes, não há nenhum prejuízo ou benefício ao organismo em menstruar", Mariane Nunes de Nadai, ginecologista e professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo).

Segundo ela, a mulher que opta por usar algum método contraceptivo para interromper a menstruação não tem mal algum, e pode até ser benéfico para pessoas que vão deixar de sofrer com desconfortos como inchaço abdominal, retenção de líquidos, mudanças de humor, indisposição, dor de cabeça e cólicas, que em alguns casos chegam a atrapalhar atividades do dia a dia.

A menstruação é um sinal vital. É uma maneira de entendermos como vai a saúde da mulher. Eu consigo imaginar muitas questões de saúde relacionadas ao ciclo

Halana Faria, ginecologista e obstetra do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde

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...De outro, pode fazer mal

Nem todos os especialistas estão do mesmo lado e muitos defendem que, se a descamação do endométrio acontece naturalmente, ela não é algo inútil.

Halana Faria, médica pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), mestra em saúde pública pela USP e ginecologista e obstetra do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, explica que a observação da menstruação ajuda a diagnosticar doenças como a SOP (síndrome do ovário policístico), a endometriose e problemas hormonais. "Ignoramos muitas coisas relativas à menstruação, justamente por conta dessa maneira de tratar o nosso ciclo como algo defeituoso em vez de olhar para isso como poder."

A médica reforça que interromper a menstruação é uma questão de escolha. Mas que essa mulher precisa estar ciente de todos os prós e contras dessa decisão. Mesmo que ainda não existam estudos científicos de grande relevância comprovando se parar de menstruar faz bem ou mal, para Faria o maior problema estaria nos métodos usados para este fim.

A pílula pode, sim, proteger a mulher de câncer de ovário e de câncer de endométrio, além de trazer um conforto para quem sofre com a menstruação. Mas a pessoa precisa saber que o uso contínuo de hormônios também está associado à depressão, trombose e câncer de mama.

Eduardo Zlotnick, vice-presidente e ginecologista da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, diz que geralmente o "não menstruar" é optado como um método de tratamento para algum problema, como cólica, endometriose ou SOP. "Algumas mulheres vão se sentir muito melhor se não menstruarem, porque reduz a TPM (tensão pré-menstrual), o que pode ter um impacto importante na qualidade de vida delas", diz. "Mas se a menstruação em si não a incomoda, não vejo motivo para interrompê-la".

Segundo ele, como a menstruação ainda é um mistério para a medicina, o importante é o médico e a paciente terem uma comunicação sincera, para esclarecer dúvidas e respeitar a vontade da mulher.

Quando não menstruar é sinal de problema

No meio da discussão se interromper a menstruação faz mal ou não, há quem não teve escolha e parou de menstruar devido a algum problema de saúde.

"Na maioria das vezes, se a mulher não menstrua mensalmente, algo está errado", diz Nadai. Os motivos para isso podem ser diversos: vão desde o uso de alguma medicação que esteja alterando o eixo hormonal até doenças (na maioria das vezes simples e não graves), como SOP ou hipotireoidismo.

Se já se passaram dois anos da menarca (primeira menstruação da mulher) e há ausência de menstruação, o ideal é procurar um ginecologista para investigar o que há de errado.

5 fatores que podem fazer a mulher não menstruar

A "falsa" menstruação

Algo que faz muitas mulheres pensarem em parar de menstruar é o fato de a menstruação de quem usa pílula anticoncepcional ser de mentirinha, ou seja, não é como o processo natural do organismo.

"O sangramento que se tem quando se utiliza algum anticoncepcional não pode nem ser chamado de menstruação", defende Nadai. Segundo a médica, ele é denominado sangramento por privação, pois é artificial e ocorre por mecanismos diferentes dos naturais. Já Sansone considera o sangramento uma menstruação. "Ela só não induzida pelo ovário e, sim, por privação do hormônio", diz.

Acontece que a pílula anticoncepcional faz com que o organismo bloqueia a produção de hormônios nos ovários, pois o medicamento oferece ao corpo as substâncias que seriam liberadas por essa glândula. "Você recebe o hormônio que o ovário produziria e imita para o útero o processo natural do ciclo", conta Sansone. Assim, o útero se prepara para receber o embrião do mesmo jeito.

No fim da cartelinha, a pausa no medicamento faz com que o nível hormonal caia e o corpo imite o ciclo normal quando a mulher não é fecundada: ela menstrua, mas, diferentemente do funcionamento normal do organismo, com a pílula, os níveis hormonais não são tão variáveis. No ciclo natural, os hormônios estão sempre ascendentes até a fecundação e depois se mantêm para o embrião se fixar. Se ele não se fixou, o endométrio cai.

"No ciclo de pílula os níveis hormonais são constantes e bem mais baixos, por isso o endométrio não cresce tanto, fica mais fino, e por isso o fluxo dela é menor", explica o ginecologista.

Lorena Dini/UOL Lorena Dini/UOL

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Quando parar de menstruar é natural?

Só existem dois momentos em que parar de menstruar é normal: quando a mulher engravida ou quando ela entra no climatério, logo após a menopausa.

O ciclo de uma pessoa não é exato, mas variável entre 28 e 30 dias. Se a mulher teve relação sexual sem método contraceptivo e apresenta um atraso menstrual que varia de cinco dias ou mais, pode considerar a gravidez como primeira hipótese. Isso, claro, durante todo o tempo que ela está fértil.

Os ovários da mulher são formados na vida fetal, quando o corpo ainda está em formação. Durante todo o período de vida reprodutiva, esses ovários vão amadurecer. Até a última menstruação, ela tem todo esse período de vida reprodutiva. "Quando ela estiver perto dos 50 anos, essa reserva folicular, germinativa, se esgota, ou seja, esses ovários param de fabricar hormônios e de produzir o estímulo do útero. Então, a mulher para de menstruar", explica o ginecologista.

O nome dado à última menstruação na vida reprodutiva da mulher é a menopausa. O período que ela vive sem menstruação é chamado de climatério.

Um pouco antes de chegar ao climatério, a mulher também pode ter irregularidades no ciclo, o que pode gerar atrasos na menstruação e, consequentemente, dúvidas sobre gravidez. Por esse motivo, se não quer ter filhos, ela deve se proteger para não engravidar pois, mesmo próxima aos 50 anos, ainda pode estar fértil.

"No geral, é fácil saber a diferença dos fins naturais da menstruação: durante o período em que ela está ovulando, é gravidez. Se estiver perto do fim reprodutivo, entre 48 e 53 anos, em média, o atraso menstrual pode ser climatério", explica ele.

Elas amam ou odeiam menstruar

  • "Cheguei a desmaiar no banheiro de tanta dor"

    "Sempre dois dias antes de menstruar eu passava muito mal, ficava enjoada e vomitava. Durante o ciclo menstrual, sentia bastante cólica e cheguei até a desmaiar no banheiro de tanta dor. Fiquei nessa situação dos 15 aos 23 anos. Quando descobri um cisto no ovário, fui aconselhada pelo médico a emendar a cartela de anticoncepcional. Foi a melhor decisão que tomei. Estou há um ano e meio sem menstruar e, se antes eu ficava mal-humorada e sofria com o processo todo, hoje me sinto mais tranquila, quase não sinto dor nem outros efeitos colaterais", Andrezza Pugliesi, 24 anos.

    Imagem: Reprodução
  • "Descia tanto sangue que uma vez sujei a roupa ao espirrar"

    "Depois de uns anos, meu ciclo menstrual ficou estranho e cheguei a ter sangramento por três meses seguidos. Como sou técnica de enfermagem, precisava vestir roupa branca e levava mais de um uniforme para o trabalho, para trocar caso o sangue vazasse. Vinha tanto sangue que uma vez, ao espirrar, sujei toda a minha calça. Desde então, passei a usar um absorvente interno e um externo para conter o fluxo. Para investigar por que tinha tanto sangue, fiz alguns exames que mostraram que sofria com um pólipo e tive de operar. Depois da cirurgia, os sintomas melhoraram, mas eu ainda menstruava por pelo menos sete dias. Foi aí que decidi colocar o Diu Mirena, que diminui muito o fluxo e, hoje, só tenho alguns escapes, parecido com borra de café. Prefiro não menstruar, me sinto bem melhor", Monique Nogueira, 32 anos.

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  • "Não menstruar melhorou meu desempenho nos treinos"

    "Sempre tive um descontentamento em relação à menstruação e pensava: se não quero engravidar, por que tenho que preparar meu útero? Como sou triatleta amadora, menstruar sempre me deixava insegura em relação às competições. Sem falar que tinha uma TPM horrível. As dores de cabeça e a indisposição pioravam meu rendimento nos treinos. Resolvi procurar um médico e comecei a tomar anticoncepcional continuamente. Desde então, não sofro mais com oscilações de humor. Foi ótimo. A minha decisão contribuiu para a melhora no meu humor e para diminuir a poluição ambiental, já que não uso mais absorventes", Gisele Trento, 40 anos.

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  • 'Menstruar é um processo de limpeza, vejo como algo essencial"

    "Faz quatro anos que fui diagnosticada com uma ferida no útero e esse problema de saúde fez com que eu olhasse para o meu corpo de forma diferente. Eu ressignifiquei algumas coisas na minha vida, parei de usar anticoncepcional e deixei o período menstrual acontecer de forma natural. O hormônio te deixa em um senso comum e menstruar no meu tempo proporciona uma conexão comigo. Considero que essa mudança foi muito positiva. Hoje, encaro como necessária a menstruação, como uma potência, sabedoria e limpeza", Rafaela Raggi, 27 anos.

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5 perguntas e respostas sobre sexo e menstruação

  1. 1

    A mulher tem mais vontade de transar e estar menstruada facilita o orgasmo?

    Não há explicação fisiológica, mas talvez isso ocorra pois a menor probabilidade de engravidar neste período pode permitir uma maior entrega no ato sexual. Ou então apenas por preferência pessoal mesmo.

  2. 2

    Posso engravidar se transar menstruada?

    Em mulheres com ciclos regulares, provavelmente a ovulação não acontece perto do período menstrual. Mas não é indicado confiar apenas neste método (tabelinha) como contracepção, na maioria dos casos.

  3. 3

    Facilita a transmissão de doenças?

    Sim. O sangue é uma via de contágio para algumas IST (infecções sexualmente transmissíveis), como HIV, hepatite C e B. Por isso, o uso de preservativos continua sendo fundamental, como em qualquer situação.

  4. 4

    Posso usar absorvente interno durante o sexo?

    Os absorventes internos são produzidos com um material rígido, que causa desconforto na hora da penetração e pode machucar, então é melhor tirar.

  5. 5

    A mulher pode receber sexo oral menstruada?

    Sim, desde que com proteção, como em qualquer situação. O risco de contaminação é grande, já que a possibilidade de ingestão do sangue durante o sexo oral é alta. Nesse caso, se preferir, use camisinha feminina ou absorvente interno para conter o fluxo.

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