"Burnout não é o fim"

Izabella Camargo estava no limite da saúde quando descobriu a síndrome, que atinge 30% dos brasileiros

Priscila Carvalho Do UOL VivaBem

"Eu não lembrava qual era a capital do Paraná"

Era uma transmissão ao vivo e a jornalista Izabella Camargo estava informando a previsão do tempo em todo o Brasil. Ao chegar no boletim referente à região Sul do país, mais precisamente no estado do Paraná, surge um branco: qual é mesmo o nome da capital? Ela começa a falar, mas não consegue: foram três tentativas de lembrar a palavra Curitiba.

Foi assim que a apresentadora teve um "apagão", um dos sintomas mais evidentes do burnout, durante o jornal "Em Ponto", da GloboNews, em agosto de 2018. "A minha sensação era de profundo vazio. A minha vontade era de sair correndo, vomitar e pedir socorro. Você se sente absolutamente sozinho", conta. Após o episódio, ela precisou ser afastada por 15 dias e depois por mais dois meses para tratar o problema. Mas o pior aconteceu: ao voltar para o trabalho, ela foi demitida e ouviu que não estava mais apta a apresentar. Agora, na última quinta-feira (04), a Justiça determinou sua reintegração na Rede Globo.

O caso é assustador, porém, Izabella não é exceção. Segundo dados da Isma-BR (sigla inglesa para Associação Internacional de Gerenciamento do Estresse), 30% dos trabalhadores brasileiros possuem esse tipo de estresse. Infelizmente, falar de burnout ainda é raridade. "Faltam dados e é nesse momento que precisamos colocar o assunto em pauta".

Antes do apagão, eu já tinha tido sensações muito ruins. Havia duas semanas que eu estava mal

Lucas Seixas/UOL Lucas Seixas/UOL

Sintomas ignorados por anos

Demorou quase quatro anos para a jornalista perceber que seu corpo precisava de ajuda. Os primeiros sintomas físicos apareceram em 2014, como inchaço nas pernas, desconforto abdominal, manchas na pele e aumento de varizes. Mais adiante outros sintomas foram aparecendo e ela passou bastante tempo tratando cada manifestação separadamente, achando que eram doenças isoladas.

A rotina de trabalho foi um fator que influenciou bastante. Um ano depois do aparecimento dos primeiros sinais, ela começou a trabalhar de madrugada e sua rotina mudou por completo. Para começar sua jornada de trabalho no "Hora Um", da TV Globo, ela acordava entre meia-noite e duas da manhã todos os dias. Sem contar os plantões de até doze horas aos finais de semana, por pelo menos duas vezes no mês. Além disso, com o passar do tempo, ela foi acumulando cada vez mais tarefas dentro de seus jornais, despendendo mais tempo na redação e sofrendo mais pressão.

Ao ouvir o diagnóstico de burnout de sua psiquiatra, ela começou a chorar constantemente se lembrando que já pesquisava sobre o assunto há algum tempo e mesmo assim foi incapaz de detectar o problema em si mesma. "Não imaginava que era burnout, mas eu estava esgotada. Era tudo muito estressante", conta.

No meio disso tudo, ela precisou lidar com o novo, com o julgamento das pessoas e como ela mesma diz, com as "dores invisíveis". Ela conta que no ápice do estresse chegou a ter diversos pensamentos negativos e até suicidas.

Arte UOL

Burnout vai além do estresse

A síndrome de burnout não é uma doença, e sim, um fenômeno ocupacional que tem como base três sintomas principais: exaustão e diminuição de energia, distanciamento de atribuição do trabalho e queda na eficácia profissional. Normalmente, a pessoa começa a levar o pessimismo da rotina profissional para a vida pessoal, deixando o lazer de lado e se comportando de maneira agressiva.

Em maio desse ano, a condição ganhou ainda mais destaque ao ser enquadrada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como uma síndrome resultante de estresse crônico no trabalho. Essa definição entra em vigor na Classificação Internacional de Doenças (CID) em 2022 e abre caminho para mais estudos e discussões sobre o tema.

Antes, o burnout era entendido como um problema que poderia ser provocado por diversos fatores, já que era unicamente definido como estado de exaustão vital, sem ter qualquer relação com questões laborais.

Mas não confunda burnout com um estresse "normal" de trabalho. Neste último, o problema diminui quando a pessoa sai do ambiente estressor. Ao deixar o local de trabalho, ela fica mais leve e ainda não chegou ao esgotamento profissional.

Dê uma pausa. Ouça seu corpo

"Armadilha da competência"

O acúmulo de funções e a desvalorização de trabalho são algumas causas que levam ao desenvolvimento do problema. Assim como Izabella, os trabalhadores são bombardeados com cada vez mais tarefas, e tanto eles quanto seus empregadores acham que isso não impactará na saúde.

No caso da jornalista, ela começou a receber diversas atribuições no dia a dia que iam desde cuidar da previsão do tempo em três telejornais até ancoragem aos finais de semana. De um jornal para o outro, ela tinha uma hora para montar os textos, sem contar o improviso de 15 minutos no ar.

Segundo Izabella, não havia respiro, ela sempre recebia mais trabalho porque era boa no que fazia e 'dava conta'. "Eu chamo isso de armadilha da competência. Você começa abrir mão de alguma coisa da sua vida para encaixar essas novas funções --seja alimentação, lazer, tempo com a família, horas de sono -- e quando vê, já é tarde", desabafa.

Outro fator determinante para a jornalista ficar doente foi o fato de ela trabalhar na madrugada por muitos anos. Isso é menos comum para os outros trabalhadores, mas pode acontecer: ao inverter o ritmo circadiano (relógio biológico responsável por nos dizer quando devemos dormir ou acordar), muitas doenças aparecem. A rotina da jornalista quase sempre era ir para cama por volta das cinco da tarde. Tarefa que, segundo ela, era quase impossível. "Quem dorme nesse horário? Eu tomava remédios para dormir e acordar. Usei anfetaminas, floral, indultor de sono. Tudo." conta.

De fato, alterações no ciclo circadiano são um dos fatores que mais pesam na hora de desenvolver a síndrome de burnout. Como não há uma fórmula mágica e muitas vezes a pessoa não pode parar de trabalhar, ela acaba ficando nesse ritmo por diversos anos sem perceber que está agredindo o corpo. Especialistas ressaltam que em profissões que exigem turnos na madrugada, a permanência no emprego deve ser por um curto período ou o funcionário deve intercalar esse ciclo com dias de trabalho em horários "normais", ou seja, em que trabalha de dia e dorme à noite.

Tive crises de choro antes de entrar no ar por causa do burnout

Tratamento pode ser feito em três frentes

Conversar e expor para o gestor da empresa e para a equipe de recursos humanos que você precisa de ajuda faz parte da linha de tratamento. Quando isso acontece é mais fácil mostrar para pessoas que o problema é grave e que parar por um tempo é necessário.

Depois dessas medidas, procurar ajuda de profissionais de saúde é primordial. O tratamento pode ser feito ou não com remédios receitados por um psiquiatra e, em paralelo, sessões de psicoterapia para encarar a relação trabalho --a profissão deve ser um dos aspectos da sua vida, você não deve viver em função dele ou acreditar que ele diz quem você é.

Além disso, investir em atividade física, mindfulness e espiritualidade também pode auxiliar nos cuidados com corpo e mente durante esse período. É o caso de Izabella, que tem sinais de sua fé e positividade por todos os lados: em amuletos, quadros e tatuagens.

Quando a pessoa apresenta uma melhora, o recomendado é que ela não volte para a mesma função ou horário que ela exercia anteriormente. Isso potencializa respostas no quadro de saúde e promove perspectiva de melhora em relação aos sintomas.

Vale lembrar que cada indivíduo reage de uma maneira e o tempo para ficar bem pode demorar semanas, meses e até mesmo anos. Izabella continua em tratamento e fazendo uso de remédios. Ela decide seus horários e compromissos e, quando quer, vai para a cama às dez da noite.

Yadadi Hridayam Taba quer dizer aonde quer que você esteja

Demissão foi um baque

Em meados de 2017, Izabella começou a sentir os sintomas do burnout mais fortes e tentou procurar ajuda com sua chefia pedindo para sair da madrugada. Também foi atrás do RH, mas ainda assim não foi ouvida. Todos alegaram que não havia como mudá-la de horário. Antes de ser afastada pelos médicos, segundo ela, ninguém a procurou ou acolheu, nem quis saber em que estágio estava a síndrome.

Ao sair de licença médica por dois meses, ela foi afastada pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e, quando retornou o trabalho, foi demitida. Ao questionar a decisão e se podia ser realocada em outra área, como a de reportagem, ela ouviu que não e que não servia mais para aquilo. "Foi o momento mais violento da minha vida. Eu me senti pior do que quando fui assaltada na porta de casa".

Como a apresentadora estava no período pós licença médica, sua demissão foi caracterizada como ilegal. Quando o afastamento por acidente ou doença do trabalho passa de 15 dias --e a previdência social é envolvida -- ao retornar ao local de trabalho o funcionário não pode ser demitido por um período de, no mínimo, um ano.

Quando a demissão ocorre de maneira ilegal, o trabalhador pode entrar na Justiça e pedir a reintegração ao emprego. Isso inclusive aconteceu na última quinta-feira (04) com Izabella, que comemora: "Agora, as dores invisíveis e doenças ocupacionais serão vistas por outros ângulos".

Vale ressaltar que como muitas vezes a pessoa sai debilitada emocionalmente do emprego em que estava, ela também pode receber no lugar uma compensação de todos os direitos trabalhistas que recebia anteriormente como salário, 13º e férias.

O pior dia da minha vida foi voltar e ouvir da minha chefe que eu não servia mais

Arte UOL

O burnout pode voltar?

No início do ano, Izabella aceitou trabalhar para o governo, na equipe de comunicação do Ministério de Ciência e Tecnologia. A princípio, o cargo era para fazer vídeos sobre projetos científicos. No entanto, ela começou a acumular uma carga horária muito grande e executar tarefas que ela considera equivalentes ao trabalho de duas ou três pessoas. Sendo assim, mesmo depois de ela achar que já estava bem e "curada", os sintomas voltaram.

Ela teve seis episódios de burnout durante sua permanência no ministério e, no último e mais grave, foi parar no hospital. "Meu corpo estava gelado, mas minha cabeça explodindo e quente. Tinha enjoos, taquicardia, mão gelada, boca seca e transpirava muito". Foi ali que a apresentadora percebeu que ainda não era o momento de voltar, precisava de mais uma pausa e pediu exoneração.

O burnout pode, sim, reaparecer, dependendo das condições de trabalho na qual a pessoa está inserida. Ela pode até estar melhor, mas ter um episódio com os sintomas novamente. Por isso é importante avaliar se é possível voltar a fazer determinada função ou trabalho. E não tentar repetir a mesma rotina que o deixou doente.

Hoje, a jornalista virou ativista e participa de diversas palestras para conscientizar as empresas e a população sobre a síndrome de burnout. Ela ainda pretende lançar um livro sobre o tema para ajudar outras pessoas que, assim como ela, não tiveram ajuda.

O burnout não é o fim. É apenas o freio

Izabella Camargo

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