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Conheça a história do Cine Bijou, que vai reabrir na Praça Roosevelt

O Cine Bijou, na praça Roosevelt, região central de São Paulo, em 1986  - Homero Sergio/Folhapress
O Cine Bijou, na praça Roosevelt, região central de São Paulo, em 1986 Imagem: Homero Sergio/Folhapress

Brunella Nunes

Colaboração para o Urban Taste, em São Paulo

17/07/2019 12h28

Stanley Kubrick, Luis Buñuel e Ingmar Bergman foram alguns dos nomes exibidos nas telonas do vanguardista Cine Bijou, na Praça Roosevelt, que se manteve em plena forma de meados de 1960 a 1996, resistindo ao período de chumbo da ditadura militar. Com uma trajetória que definitivamente daria um filme, o local será resgatado e reaberto como um autêntico cinema de rua ainda neste semestre.

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Quem passa pela movimentada Praça Roosevelt hoje entende que ali mora uma das maiores efervescências culturais da cidade. Do chão, onde deslizam skatistas, até os balcões de bar, onde descem cervejas geladas, o espaço público reúne tribos diversas ao longo de muitas gerações. Mas o que poucos sabem é que o Cine Bijou deu origem à praça e não o contrário.

O nome vem do francês e faz alusão àquilo que foi lapidado para deslumbrar: uma joia, uma obra de arte. Inaugurado em 1962, no número 172, o cinema teve bastante prestígio na época. Tinha pouco mais de 100 lugares e era ponto de encontro de artistas, jornalistas, estudantes, intelectuais e até militares de esquerda, que se reuniam para assistir filmes alternativos e independentes.

Cartaz do Cine Bijou, em 1962 - Arquivo
Cartaz do Cine Bijou, em 1962
Imagem: Arquivo

Rapidamente foi reconhecido como um "cinema de arte", driblando a censura dos opressores anos de 1964 a 1985. Nas salas que, a partir de 1972, se ampliaram para 300 lugares, foram exibidos filmes cult como "Laranja Mecânica" e "Morangos Silvestres", além de clássicos como "Blade Runner" e "Indiana Jones". Quem não entendia as películas cabeçudas voltava mais de uma vez para absorver a história.

Entre o seleto público estava a psicanalista e cineasta Miriam Chnaiderman, que passava seus sábados e domingos no Bijou, onde se recorda de ter assistido a filmes de Glauber Rocha, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Neville de Almeida, além de obras russas e japonesas.

Na época, ela tinha entre 16 e 17 anos, mas conseguia escapar de ser barrada pela classificação etária dos filmes. Mas, um belo dia, o plano não deu certo. "Um juiz de menores me tirou do cinema, eu estava assistindo a 'Vidas Privadas', com a Brigitte Bardot. Aí, com uma amiga, fui ao antigo Cine Coral, na rua 7 de abril, assistir a "Cinzas e Diamantes" do Wajda… Só de birra… De birra e de paixão", lembra.

Ao longo de sua juventude, o ator, diretor e dramaturgo Ivam Cabral vinha bastante do Paraná para São Paulo e sempre incluía uma ida ao cinema nas viagens. O Bijou era uma parada obrigatória. "É um cinema bem especial na minha vida. Minhas primeiras experiências cinematográficas foram ali", conta. Nos anos 1980, ele veio a São Paulo para assistir a "Os 120 Dias de Sodoma". "Foi uma das experiências mais estarrecedoras da minha vida, porque é um filme bem violento, especialmente para um jovenzinho do interior."

Com a ascensão da TV e dos shopping centers, o Bijou fechou as portas em 1996 e tentou uma reabertura em 1999, dessa vez abrigando também a função de teatro. Assim permaneceu até 2003, quando se encerraram as atividades novamente. Ao longo de idas e vindas, surgiu um cineclube para reviver o saudoso Bijou, em outro recinto da cidade, o Teatro Studio 184.

Miriam ainda frequenta os cinemas de rua e torce pelo retorno triunfal de mais salas ao redor de São Paulo. "É uma forma de reconquistar a rua como um espaço público. E a luta é para que a cultura volte a ocupar o lugar que merece em nosso mundo, como possibilidade de exercício de cidadania. Não é só consumindo o que está na televisão que a gente se diverte", acredita.

Retorno às origens

Ivam e Rodolfo, da Companhia Os Satyros - Divulgação
Ivam e Rodolfo, da Companhia Os Satyros
Imagem: Divulgação

Boa parte da área da Praça Roosevelt, que flertou com a decadência nos anos 1990, permaneceu viva graças à expansão cultural, patenteada pela Companhia Os Satyros, que há 30 anos cria raízes nos arredores, fazendo com que o teatro fosse o principal endereço do entorno. Criou-se uma conexão genuína, um laço familiar e coexistente entre o espaço público e o teatral. Tudo que o cerca é palco para algum espetáculo, mesmo que seja o da própria vida.

Até dezembro do ano passado, funcionava no mesmo local do Bijou o Teatro do Ator. Depois o espaço foi alugado e, com o risco de ser transformado numa igreja ou num bar, Ivam e o sócio, Rodolfo García Vázquez, lutaram para que o endereço voltasse à sua forma original. "Entramos no meio da história porque não queríamos que tivesse essa descaracterização. A negociação foi bem difícil e competitiva, mas deu certo."

A dupla de empresários também tem as mãos envolvidas no cinema. Há cerca de cinco anos, mantêm um núcleo de audiovisual e já produziram dois longa-metragens. Entre os desafios está o da distribuição, uma vez que existem poucos espaços dedicados ao cinema autoral e independente.

Ivam resolveu a questão de forma prática. "Não conseguíamos entrar em cartaz porque não éramos conhecidos. E desde a criação do nosso próprio teatro, não passamos por censuras, curadorias e etc. O intuito de trazer o Bijou de volta é também para promover um espaço democrático de cinema", acredita.

Parte da verba necessária para o projeto está sendo arrecadada por meio de financiamento coletivo, uma maneira interessante de contar com o apoio da comunidade na resistência aos variados desafios: da especulação imobiliária ao resgate da memória e a insistência no legado cultural. Agora restam apenas 21 dias de campanha, que suplica pelo mínimo de R$ 10 em contribuições.

O prazo de reabertura, que antes era junho, se esticou para setembro. As reformas já começaram e incluem a recuperação da fachada original e a instalação de 88 poltronas vermelhas na sala. Na programação, há planos de criar o projeto "O filme da minha vida", convidando pessoas conhecidas para falarem e exibirem películas que marcaram suas trajetórias. Será surpresa para os espectadores e uma forma de promover um encontro mais íntimo e presencial ao público.

"Não é mais uma sala qualquer de cinema, mas um espaço onde você vai viver uma grande experiência. Eu tenho chamado até de bunker. Um bunker de resistência para a moçada de cinema, que faz e que consome a sétima arte", argumentou Ivam, que mesmo diante das dificuldades, afirma: este é um caminho sem volta. O show tem que continuar.

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