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Botecos antigos no centro de São Paulo contam a história da região

Equipe Ponto Chic - Década de 50 - Divulgação
Equipe Ponto Chic - Década de 50 Imagem: Divulgação

Paula Ungar

Colaboração para o Urban Taste, em São Paulo

17/05/2019 19h53

Era início de 1922. Após um tremor de 5,2 graus na escala Richter atingir a cidade no dia 27 de janeiro, outro acontecimento prometia agitar a capital paulista: a realização de um festival de artes, música e literatura, no Teatro Municipal - a célebre Semana de Arte Moderna. Dias após o terremoto, os jornais noticiavam que os ingressos para a aguardada festa, marcada para os dias 13, 15 e 17 de fevereiro, já estavam quase esgotados.

O Centro, naquela época, abandonava seu ar colonial e pacato e ganhava contornos cada vez mais urbanos e cosmopolitas, com a industrialização e a chegada dos estrangeiros e de famílias ricas vindas do interior. Palacetes e edifícios elegantes, inspirados no estilo europeu, eram construídos, e um agitado circuito cultural despontava na região. Um dos locais de destaque no cenário cultural era o Largo do Paissandu, a menos de 500 metros do epicentro do modernismo brasileiro. Foi ali que, em março de 1922, dois italianos, Odilio Cecchini e Antonio Milanese, decidiram abrir juntos um estabelecimento de comes e bebes.

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O Ponto Chic, como posteriormente foi nomeado o local, por conta da sua decoração com balcão e mesas de mármore e azulejos importados, virou reduto de boêmios e intelectuais da cidade. Era a mais pura tradução de um boteco: um lugar onde tomar uma cervejinha após o trabalho ou a faculdade, petiscar alguma coisa e encontrar os amigos. "Era muito frequentado por políticos e estudantes de Direito do Largo de São Francisco, como Abreu Sodré, Jânio Quadros e o prefeito Prestes Maia", conta Antônio Alves de Souza, proprietário do bar, que hoje tem outras duas unidades, em Perdizes e no Paraíso.

O famoso bauru do Ponto Chic, inclusive, foi criação de um estudante da faculdade, Casimiro Pinto Neto, cujo apelido era Bauru, nome de sua cidade natal. Ele pediu ao chapeiro que lhe preparasse um sanduíche especial, com pão francês sem miolo, quatro tipos de queijos fundidos em banho-maria, rosbife e tomate. Desde 1937, quando nasceu na chapa do bar, até hoje, o lanche é o carro-chefe do boteco.

Seu Antônio, de 89 anos, lembra que os principais jornais e emissoras de rádio ficavam na região central, então o Ponto Chic recebia também muitos jornalistas, jogadores de futebol e locutores. "Os Diários Associados eram na 7 de abril. A Gazeta, na Quinze de Novembro. Fechava o jornal, o pessoal ia todo pra lá", diz. "Se um jogador perdesse o emprego, era só ir pro Ponto Chic que arrumava outro clube. Osvaldo Brandão, Zezé Moreira (ambos técnicos de futebol) e tantos outros estavam sempre lá. Uma vez, o Blota Júnior (apresentador de TV e jornalista esportivo) roubou uma leitoa do Parque da Água Branca e levou lá pra gente assar. São muitas histórias...", recorda o proprietário, que começou a trabalhar como garçom e tornou-se o dono em 1978.

Até meados do século XX, o Centro foi o palco dos acontecimentos da cidade de São Paulo. A degradação da região, segundo especialistas, se intensificou a partir da década de 1970, com o deslocamento de moradias, empresas, bancos, fóruns, escritórios de advocacia etc. para outros bairros nascentes. Marco Antônio Loureiro, 59 anos, neto do antigo dono do Bar do Mané, famoso pela criação do sanduíche de mortadela do Mercado Municipal, conta que sua vida era toda ali. "Eu estudava no Pari e frequentava com meu pai os cinemas da região, como o cine Ipiranga, na Avenida Ipiranga".

Marco conta que seu avô, Jeremias, trabalhava no mercado da chamada Várzea do Carmo, perto do Rio Tamanduateí. Em 1927, foi aprovada uma lei autorizando a construção de um novo mercado no local, com melhores condições de infraestrutura e instalações. As obras começaram em 1928, mas a inauguração aconteceu somente em 1933, adiada por conta da Revolução Constitucionalista de 1932. Português, o avô de Marco foi trabalhar como empregado de um italiano num bar localizado dentro do então recém-inaugurado Mercado Municipal - o Mercadão. "O italiano, no entanto, achava que aquilo ali não ia virar, era muito grande, dizia, e perguntou ao meu avô se não queria ficar com ele", conta. "Foi quando nossa família assumiu. Estamos à frente do local desde então, agora já na quarta geração, com meu filho William", orgulha-se.

O Mercadão, naquele tempo, funcionava como um grande centro de abastecimento. "Os compradores eram comerciantes que iam de madrugada, então o bar, no início, tinha como foco servir café na parte da manhã", diz Marco. "Meu avô teve a ideia de deixar lanches prontos em cima do balcão, com copa ou salame, pois tinha muito italiano e português que ia ali, e eles queriam comer alguma coisa rápida e barata". O recheio, porém, era modesto. Nada comparado com o sanduíche com 350 gramas de mortadela que tornou o bar famoso.

Esse nasceu já sob a direção do pai de Marco, Manuel Cardoso, o Mané (daí o nome do bar), que resolveu caprichar na quantidade de mortadela para agradar a clientela mais exigente. "Tinha gente reclamando do pouco recheio, então meu pai criou um super sanduíche", afirma Marco. Deu certo: além de render a fama ao boteco, tornou-se um sucesso de vendas.

Outro estabelecimento com muita história pra contar na região central é o Bar Léo. Instalado na Rua Aurora, esquina com a Rua dos Andradas, em meio à região que ficou conhecida como Boca do Lixo, desde 1940 é sinônimo de chope bem tirado. A caldereta, tradicional copo de chope que, aliás, nasceu ali, chega à mesa com um colarinho super cremoso.

O bar esteve fechado por quatro meses em 2012, após uma polêmica envolvendo venda de chope genérico como se fosse Brahma devido a problemas financeiros, e foi reaberto sob gestão dos mesmos donos do Bar Brahma. Os antigos proprietários, primeiro o alemão Leopoldo Urban e depois o ex-vice-presidente do Corinthias, Hermes da Rosa, já são falecidos. O lendário garçom Luiz de Oliveira, que aos 96 anos ainda trabalhava no bar, infelizmente também já se foi. Mas os chopeiros Edson Oliveira dos Santos, 59 anos, e Joaquim Fernando Lopes Santos, 55 anos, continuam lá. Ambos têm 30 anos de casa e se emocionam ao falar do passado. "Você não sabe quantas amizades e quantos negócios eu já vi serem fechados ali naquele pedacinho de balcão", enumera Edson, apontando para o balcão na entrada. "Essa casa é diferente de qualquer outra que tem aí. Não tem igual", orgulha-se Fernando.

Segundo eles, o boteco já chegou a vender, por dia, 21,5 barris de 50 litros cada. "Isso aqui bombava de segunda a sábado, mesmo fechando às 20h30 em ponto, uma tradição", afirma Fernando. Só não abria aos domingos, pois, como está escrito no cardápio, é dia de jogo do Corinthians. "Muitos advogados, políticos, promotores, procuradores, juízes, delegados e empresários vinham aqui", conta Fernando. "Só mulher desacompanhada que não podia", lembra Edson. "Nem homem de bermuda ou tênis", complementa. Regras do Seu Hermes. "Quantas vezes as tiras (policiais mulheres) vinham aqui e ele dizia que o chope estava quente, só pra não servir? 'Aqui é a boca do lixo, tenho que preservar a minha casa', dizia o patrão", relata Edson.

A Boca do Lixo foi um importante polo da indústria cinematográfica brasileira. A partir das décadas de 20 e 30, diversas distribuidoras e produtoras de cinema se instalaram na região, que englobava os arredores do bairro da Luz. Em meados dos anos 1950, o local passou a abrigar também casas de prostituição e a ser frequentada por bandidos e criminosos.

Hoje, apesar da relativa proximidade da cracolândia, nada impede que antigos - e novos - frequentadores tomem seu chopinho tirado com precisão. Fernando e Edson contam que toda primeira terça-feira do mês, a velha guarda de clientes, alguns com mais de 80 anos, se reúne na principal mesa, uma redonda localizada no salão de entrada (o salão maior, ao lado, existe apenas há 7 anos). Na parede, próximo à mesa, um quadro exibe fotos de todos eles, com estrelinhas no lugar dos que já se foram. "A gente diz que é a mesa do INSS", brinca Fernando. "Eles vêm e ficam relembrando os velhos tempos", conta. "Era mesmo uma boa época, bate o coração ao lembrar", comenta o chopeiro, com os olhos cheios de lágrimas. "Mas seguimos firmes e fortes".

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