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Parque Minhocão sairá do papel, mas ainda há dúvidas de como vai acontecer

O prefeito Bruno Covas (PSDB), anunciou que o Minhocão será desativado e transformado em parque. - Prefeitura de São Paulo
O prefeito Bruno Covas (PSDB), anunciou que o Minhocão será desativado e transformado em parque. Imagem: Prefeitura de São Paulo

Peu Araújo

Colaboração para o Urban Taste, em São Paulo

28/02/2019 16h00

Não é preciso muito esforço para escolher entre o Viaduto João Goulart numa quarta-feira de trânsito e o Minhocão com bikes, cachorros e até piscinas infláveis de um domingo ensolarado. O espaço público fica imensamente mais humano quando é habitado por pessoas sem seus carros, sem a pressa, sem o caos do trânsito da capital paulista. 

O caminho que liga a Zona Oeste ao Centro de São Paulo foi inaugurado em 25 de janeiro de 1971 pelo então prefeito Paulo Maluf e era anunciado como um presente. A capa da Folha de S. Paulo, publicada na data, tinha uma foto aérea e grande celebração. O texto à época profetizava. "Um dos pontos de maior atração e divertimento do paulistano no dia quente de ontem [24 de janeiro] foi a Via Elevada Artur da Costa e Silva". A reportagem celebrava as milhares de pessoas que "percorreram de ponta a ponta a grande obra urbanística".

Mas na ação implacável do tempo este cenário mudou. O número de carros e pessoas aumentou e a modernidade dos anos 1970 virou um elefante branco de 3,4 quilômetros de extensão e algumas curvas. As discussões sobre os rumos do Minhocão são antigas. É um tal de derruba e amplia embaixo, faz parque, não faz nada. Sem esquecer das discussões da engenharia de tráfego sobre se vai melhorar ou piorar o trânsito. 

Desde sua inauguração, o uso do elevado se alterou ao longo dos anos. Cinco anos após sua abertura a Prefeitura restringiu o movimento de veículos entre a meia-noite e às 5h da manhã. Em 1989, a prefeita Luiza Erundina estendeu o horário de fechamento, que passou a não permitir carros de 21h30 às 6h30. Há 23 anos, os domingos e feriados também se tornaram só dos pedestres. Em 2015, surge o projeto do parque e no ano seguinte os primeiros jardins verticais. Em 2016, ele deixou para trás o nome de Costa e Silva para receber o nome de Elevado João Goulart, presidente do Brasil de 1961 a 1964.

Há mais de 20 anos, o Minhocão fica liberado para os pedestres no fim de semana - Marcelo D. Sants / Folhapress
Há mais de 20 anos, o Minhocão fica liberado para os pedestres no fim de semana
Imagem: Marcelo D. Sants / Folhapress

A necessidade de se desativar o Minhocão foi determinada pelo Plano Diretor da cidade de 2016, criado na gestão de Fernando Haddad (PT). Mas o ex-prefeito deixou em aberto como isso seria feito. No dia 21 de fevereiro de 2019, o prefeito Bruno Covas anunciou que o pessoal do "faz parque" levou a melhor nesta queda de braço. Este talvez seja o grande projeto do tucano, o seu legado, por isso a pressa em sua execução, que está programada para a inauguração já no ano que vem. 

A pressa, como o ditado antigo avisa, tem seus inimigos. Felipe Morozini, morador do arredor do Elevado há 20 anos e diretor da Associação Parque Minhocão, criada em 2013 com a intenção de oficializar a área de lazer, fala sobre a acelerada no processo. "O risco que eu vejo nessa pressa é que a população local e os frequentadores não sejam ouvidos. O uso já está sendo definido ao longo desses oito anos e ele tem que ser garantido".

Projeto com inspiração gringa

O projeto divulgado contempla a transformação de 900 metros do elevado (entre o Largo do Arouche e a Praça Roosevelt), com a implantação de áreas verdes, ciclovias, além da construção de rampas e elevadores de acesso. O custo estimado é de R$ 38 milhões, com entrega prevista para o fim de 2020, último ano do atual mandato do prefeito Bruno Covas.

High Line Park, em Nova York - Reprodução/HighLine
High Line Park, em Nova York
Imagem: Reprodução/HighLine
 Uma das grandes inspirações para o projeto do Parque Minhocão é o High Line Park em Nova York, que proporcionou uma alteração paisagística de uma linha de trem degradada. O impacto na região do parque na cidade americana foi sentido principalmente nos preços dos imóveis da região que subiram vertiginosamente nos últimos anos.

Mas o High Line Park têm algumas regras que se diferem bastante do uso dado ao Minhocão nos fins de semana paulistanos. Por lá, não é permitido o acesso com bicicletas, skates e patins, nem com animais domésticos. Performances, apresentações e som alto também só podem ocorrer com autorização prévia.

O Minhocão se tornou um local de lazer muito bem aceito pelos paulistanos nos fins de semana -  Luiz Claudio Barbosa/Folhapress
O Minhocão se tornou um local de lazer muito bem aceito pelos paulistanos nos fins de semana
Imagem: Luiz Claudio Barbosa/Folhapress
O diálogo da prefeitura com os moradores e a comunidade que utiliza o Minhocão como uma área de lazer é necessário para saber se o espaço continuará a oferecer aquilo que os próprios paulistanos definiram como uso ideal para o espaço nos últimos tempos. Quem clama pelo diálogo é o arquiteto e urbanista Guido Otero, diretor do Instituto Arquitetos do Brasil (IABsp). "Acredito que o Projeto deva passar por um rito de participação popular pelo qual os cidadãos sejam ouvidos a respeito dessa transformação (principalmente aqueles mais atingidos que moram imediatamente próximos ao mesmo). A prefeitura não divulgou nenhum diagnóstico sobre a área e nem detalhou a forma que vai financiar essa obra."

O morador Felipe Morozini segue o mesmo pensamento do arquiteto. "Estou sentindo falta do diálogo, da Prefeitura, de quem está fazendo o projeto com os moradores, que são a favor do parque, mas talvez não seja este parque que está sendo proposto. Ele tem que ser a soma de várias soluções positivas de vários projetos que existiram."

Em declaração ao Urban Taste, o secretário municipal de urbanismo e licenciamento, Fernando Chucre, falou que será promovido um diálogo com a comunidade para ainda definir o projeto de readequação do viaduto, pois neste momento o que há é apenas a definição de que o parque sairá do papel. "O projeto vai ser discutido com a sociedade ao longo deste ano. As pessoas estão achando que a gente vai começar a obra na semana que vem, que existe um projeto e que tem um conjunto de definições que não estão neste ponto ainda. A nossa previsão é discutir ao longo de todo este ano e começar a implementação da obra no ano que vem."

O secretário acrescenta que neste primeiro momento serão feitas algumas obras emergenciais, como a instalação de elevadores, escadas, gradis e proteção contra quedas. "Isto está sendo feito para que no dia a dia não caia uma criança, não tenha nenhum tipo de acidente". Chucre pontua ainda que "a grande notícia não é o projeto, é a decisão pelo parque. A partir disso, nós vamos discutir como, quando, qual o projeto, a melhor forma."

A dúvida da gentrificação

Assim como é de se esperar em quase tudo o que envolve o Minhocão, Morozini e Otero divergem no quesito "vai ficar caro de se morar". O arquiteto argumenta que "a especulação imobiliária resulta justamente desses anúncios de transformação realizados pela prefeitura que especulam sobre um futuro que podemos dizer que é incerto. Por um lado podemos ver, só de passear pela região, uma série de novos lançamentos sendo realizados no entorno imediato, portanto podemos afirmar que já há um interesse do mercado imobiliário, por outro o mercado se apropria desses anúncios e os transforma em capital que valoriza o seu produto imobiliário."

Morozini afirma que a gentrificação já existe na região. "Eu não temo a especulação imobiliária, porque há oito anos o bairro já está passando por isso. Já se construiu muito prédio, e está se construindo muito na região. Eu não acho que este parque é o motivo. Tem vários bairros que não tem um parque na iminência de acontecer e já estão neste mesmo processo."

Projeto da Prefeitura prevê integração com prédios ao redor do Minhocão, mas ainda não se sabe como e quando isso acontecerá - Prefeitura de São Paulo
Projeto da Prefeitura prevê integração com prédios ao redor do Minhocão, mas ainda não se sabe como e quando isso acontecerá
Imagem: Prefeitura de São Paulo

Ele ainda faz uma observação histórica. "Caso suba o preço dos imóveis, que são lindeiros do Minhocão, ele só está retornando o valor dos imóveis. Três meses depois de sua abertura, 70% do valor de todos os imóveis caiu e passados 40 anos continua a mesma coisa. É quase devolver o valor". Morozini ratifica. "Por que as pessoas na frente do Minhocão pagam tão pouco? Porque é um lugar horroroso de se morar."

Segundo o secretário Fernando Chucre, a prefeitura também está atenta para evitar o aumento no preço dos imóveis. "Tem mecanismos para tomarmos medidas protetivas através de notificações e outras intervenções. Elas serão feitas para a tentativa de garantia à famílias de baixa renda, porque há ali, de fato, imóveis com valor muito atrativo se comparado com o mercado da região. A prefeitura está extremamente atenta à questão da valorização imobiliária e a gente vai propor as medidas durante este ano. Queremos nos antecipar a qualquer movimento desse."

Ainda não há um consenso sobre o Parque Minhocão. Não se sabe se o prefeito Bruno Covas vai apertar o passo para entregar uma grande obra em seu meio mandato e se ele vai agradar a gregos e troianos, mas uma coisa é fato: O elefante branco do Centro de São Paulo vai ganhar novos ares, novos rumos e que devem valorizar as pessoas e não os automóveis.

Com uma análise de copo meio cheio, Felipe Morozini afirma. "O projeto do parque pode ser questionável, mas qualquer projeto de parque é melhor do que uma estrada na janela". E sem medo de parecer megalomaníaco, conclui: "Não existe no mundo inteiro hoje um assunto tão relevante no urbanismo como esse."

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