"Você é boa na pistola"

Sou maior, passei na prova de tiro (até ouvi que atiro bem) e, agora, posso comprar uma arma. Eu quero?

Camila Brandalise Da Universa
Gabriela Cais Burdmann/UOL

Tomei um tiro na lateral direita da barriga e calculei que ali deveria ser a altura do intestino. Respondi à preocupação dos amigos dizendo que não precisava ir ao hospital. Continuei na festa em que estava. O sangue saía do buraco, que eu tapava com a mão. "Foi só um tiro", eu dizia.

Impressionável que sou, tive esse sonho dois dias depois de fazer um curso de tiro e ouvir do professor: "É só uma arma", em uma tentativa de atenuar o medo e uma leve tremedeira que eu senti quando segurei a pistola. Foi em um sábado de janeiro, na mesma semana em que o presidente Jair Bolsonaro anunciou o decreto 9.685, que flexibilizou a posse de armas de fogo. Decreto este que foi revogado recentemente, na terça-feira (7), e trocado por outro que inclui novas regras facilitando ainda mais a posse e agora, também, o porte.

O curso foi meu primeiro passo para o périplo que se seguiria pelos próximos 74 dias, até eu receber, por email, a autorização para comprar uma arma. Cumpri os requisitos para obter a posse: atestei o que se chama de "efetiva necessidade", argumentando autodefesa; passei na prova psicológica, na teórica e na de capacidade técnica; apresentei os negativos de antecedentes criminais, cinco documentos autenticados e quatro declarações com firma reconhecida.

Nesses dois meses e meio, descobri que sou uma excelente atiradora; apesar do meu desconforto com armas e de considerá-las o convite máximo à violência. Por causa desse medo, deslizei cadeira abaixo no trabalho quando ouvi minha editora falar sobre a ideia desta reportagem, chamar meu nome e perguntar. "Quer fazer?"

A curiosidade me ejetou para o universo da bala. Fiz todos os testes, treinos e trâmites para poder me armar. Spoiler: o pânico passou. E tem mais.

Gabriela Cais Burdmann/UOL Gabriela Cais Burdmann/UOL

Bala é para chupar

O curso começa com uma aula teórica de três horas sobre as partes do revólver e da pistola —esta, mais precisa, rápida e sensível —os procedimentos de segurança e a legislação. Sou a única mulher entre os seis alunos. O professor, um ex-policial aposentado, de cabelo, barba e bigode brancos, 60 anos e colete bege, pergunta: "Uma pessoa morreria se tomasse um tiro no rim? E se fosse no intestino? No fígado? Pulmão?". Respondo "sim" para todas as alternativas. Ele abre um sorrisão e me diz: " fui atingido em todos esses órgãos e estou aqui, vivo."

E a didática do mestre se estende. Ele coloca uma bala de iogurte, dessas com a embalagem rosa, em cima da mesa. Ao lado, posiciona uma munição, que nós, alunos ainda inocentes, também chamamos de bala. "Aprendam a usar o nome certo das coisas", ele diz, com o semblante bravo. "Isso é uma bala", apontando para o doce. "Isso, não. Experimenta chupar para ver". O colega ao lado bate no meu ombro e, efusivo, diz achar muito legal ver uma mulher se interessando por tiro. Repete isso duas vezes e faz um sinal de joinha. Sorrio, mostrando os dois dentes frontais.

Ouvimos do professor alguns drops de um discurso favorável ao armamento de civis. "A mídia inventa muita coisa, cria histórias. Se as pessoas tiverem arma, vai aumentar as mortes? Sim, mas de bandidos", informa ele.

Que emenda o próximo ensinamento: "Essa é só para os homens". Me irrito, lá vem. "Arma é como furadeira. Precisa saber usar para que funcione bem." Na cabeça do profe, mulher não sabe, não pode ou não quer usar furadeira. Penso, quietinha: "Que bobagem". Sou trazida de volta à aula pelas risadas dos rapazes: "Mulheres não atiram para não quebrar a unha", hahahahaha. "É bom para usar com a sogra", mais hahahahaha.

Preparadíssimos intelectualmente, partimos para a aula prática.

"Não conta para o seu namorado"

Dou um tranco para trás, fecho, apertando forte os olhos, e viro a cabeça de lado. Na primeira vez que entro no stand de tiro não é o barulho dos disparos que mais me atordoam. Mas o cheiro, o sabor e a névoa espessa da pólvora. O cheiro é gorduroso, pesado. O sabor, amargo, fica preso na minha garganta. A pólvora emana de todas as munições que saem dos tiros. Fica agarrada no ar e nas esponjas acústicas das paredes. Ela continua na minha garganta horas depois que eu saio de lá.

O professor mostra como se carrega uma pistola e pede que façamos o mesmo. O carregador tem um espaço onde vai munição; elas se encaixam uma em cima da outra. É preciso deslizá-las com o polegar para dentro e, ao mesmo tempo, forçá-las para baixo.

Há sete guichês individuais com apoios de madeira na altura do umbigo. Ouço um grito: "Atiradores, mirar e disparar". Dou os primeiros três tiros em um alvo de papel, e eles perfuram o círculo central, o mais difícil de acertar. Olho para trás e vejo dois colegas me observando. "Não quero cruzar com essa mulher brava se ela virar policial", um deles faz graça.

Preciso confessar que por essa hora eu não tinha mais nenhum medo. Depois que aprendi sobre o funcionamento e o manuseio, entendi que há vários procedimentos de segurança para evitar tragédias. A presença de um instrutor experiente, gritalhão e que obrigava os alunos a seguirem todas as suas ordens me deixou bem segura.

O professor me parabeniza porque, segundo ele "coloco os marmanjos no chinelo". Acaba o curso e recebo um conselho do prô: "Só não conta para o seu namorado que você aprendeu a atirar, hein?". Respondo: "Ih, já mandei até foto." De fato, tinha enviado uma foto em que eu estava segurando uma pistola pro cara que eu saía na época. O comentário dele: "Que sexy!".

Voltei ao stand uma semana depois para treinar para a prova técnica. Se nesse teste eu não conseguisse fazer pelo menos 60 pontos, seria desclassificada e só poderia refazê-lo 30 dias depois.

Um dos donos do lugar se ofereceu para me acompanhar e dar mais algumas dicas. "Você está muito tensa", ele disse. "Segura a arma com mais delicadeza, como se fosse um passarinho que você está tirando da gaiola."

Aprovada com estrelinhas douradas

Na prova psicológica (sim, teve isso também), preciso responder a questões sobre meu passado e minhas relações interpessoais atuais. Teve pergunta sobre o que senti falta na minha infância, algo que eu esperava que meus pais fizessem por mim mas não fizeram, minha relação com eles hoje, meus defeitos, as qualidades, em que me considero boa e como lido com a tristeza. Tá, vai, algumas respostas: papai e mamãe não me abraçaram tanto quanto eu gostaria, sou impaciente, assertiva, boa para analisar pessoas e, quanto à tristeza, bom, choro.

Passamos para testes que lembram um psicotécnico para tirar a carteira de motorista. Preciso fazer vários tracinhos, um ao lado do outro e no mesmo tamanho, durante três minutos. Depois, me dão uma folha com vários desenhos, de nuvem à bola de futebol. Na sequência, outro papel, em que preciso escrever o que vi nas ilustrações mostradas antes.

Ao final, a psicóloga me chama para conversar. Meu gênero é novamente uma questão. "Olha, não tem como não te perguntar isso, mas é raro ver mulher aqui. Por que você quer uma arma?". "Autodefesa", respondo, pensando, qual outro tipo de resposta existe para essa pergunta. A psi, muito simpática, segue a conversa explicando qual é meu perfil psicológico baseado na prova que acabei de fazer.

"Você foi muito bem, tem boa memória fotográfica, consegue fazer várias tarefas ao mesmo tempo, tem um passado bem resolvido", ela diz. Estranho e pergunto: "Você consegue saber tudo isso pelos testes que fiz?". "Sim. E dá para saber também quando a pessoa não está em um bom momento. Aí, sugiro que retorne depois de um tempo."

Ela informa que passei e ganhei "estrelinhas douradas". Mas faz um alerta: "Você é metódica. Por um lado é bom, mas, por outro, te deixa muito tensa. Sugiro que faça algo para relaxar, uma meditação."

Uma semana depois faço a prova teórica. Respondo a 20 questões sobre legislação, normas de segurança, partes da arma, conduta no stand. Preciso acertar 12; acerto 17. Sou aprovada.

Na prova prática a tensão é bem maior. Damos 20 tiros num alvo de papel com o perfil de uma pessoa. São 10 disparos com o alvo a 5 metros de distância e outros 10, com o alvo a 7. Para ser aprovada, preciso fazer 60. Cada pedaço do corpo do "alvo humanóide", como eles falam, tem uma pontuação de 0 a 5. Quanto mais próximo do centro do peito, maior é a pontuação.

Faço 89 pontos. Fico atrás apenas de um outro atirador, éramos cinco, que faz 93. "Você é boa na pistola", me diz baixinho, um cara que estava no stand ao lado.

A lei de Lula e a lei de Bolsonaro

O decreto assinado por Jair Bolsonaro mudou substancialmente o Estatuto do Desarmamento, lei assinada por Lula em 2003, que dizia que o porte era proibido para todo mundo, com exceção dos profissionais de segurança pública e privada e atiradores esportivos. Em seu decreto, Bolsonaro criou uma lista de profissionais para quem o porte de uma arma passa a ser liberado (com exceção de armas grandes, fuzis, carabinas e espingardas). Entre elas estão jornalistas policiais, advogados, vereadores, senadores, deputados, caminhoneiros, entre outros, além de moradores de áreas rurais.

O texto está na mira do STF (Supremo Tribunal Federal). Pela Constituição, um presidente pode, por meio de decreto, detalhar uma lei, mas não alterá-la —a decisão de Bolsonaro seria, portanto, inconstitucional. A ministra Rosa Weber pediu que Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro, que também assinou o decreto, lhe prestem esclarecimentos. Na quarta-feira (22), a AGU (Advocacia Geral da União) pediu que o STF arquive as ações contra a decisão presidencial já que um novo decreto, publicado na própria quarta, de manhã, corrigiu "imprecisões técnicas e jurídicas". O órgão afirma que o presidente agiu dentro da constitucionalidade.

É engano pensar que com o decreto de Bolsonaro vai ser fácil, "como nunca foi", ter uma arma. Até 1997, as únicas exigências do governo para autorizar que o cidadão tivesse uma arma era que ele tivesse mais de 21 anos e apresentasse a certidão negativa de antecedentes criminais.

Foi nessa época que meu pai comprou um revólver.38.

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Arma na gaveta do meu pai

Meu pai comprou um revólver em 1995. "Fui na loja, apontei um modelo para o rapaz e falei: 'Quero aquele ali''.

A única lembrança que tenho desse revólver é do dia que ouvi um disparo vindo da sala em que ele trabalhava, no mercado da nossa família, no interior do Paraná. Foi um PÁ!!, que ecoou na minha cabecinha de 10 anos. E depois teve um grito de mulher.

Minha mãe, que estava na sala com ele, saiu de lá, fechou a porta e passou por mim. Tenho a memória que ela sorria de nervoso. "O que aconteceu?", perguntei. "Seu pai deu um tiro sem querer." Fiquei com a boca aberta.

A recordação me veio durante a produção dessa matéria. No mês passado, aos 33 anos, falei pela primeira vez com meu pai sobre aquele dia. Ele me confessou que mal sabia mexer na arma. "Ela ficava na gaveta. Eu abri para mostrar para o seu tio. Quando fechei, meu dedo ficou preso no gatilho e disparou", contou.

Meu pai, aos 45 anos, se armou por medo. Uma família amiga havia acabado de sofrer um sequestro. "Queria proteger vocês", ele me falou. Não tive coragem de julgá-lo. Mas me assustei quando soube que ele sempre andava com a arma na capanga, uma espécie de pochete de couro. Provavelmente estava armado em vários momentos em que me levava pela mão.

Em 2000, meu pai vendeu o revólver. "Me deu um clique, comecei a achar uma bobagem." E teria outra hoje? "Não, a cabeça da gente muda com o tempo. Hoje eu acho que se aparecesse um bandido, uma arma não ia ser suficiente para proteger a família".

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Me vê uma TH380, por favor

Fui a uma loja de armas. Logo na entrada, meu olhar foi fisgado por uma carabina de chumbinho rosa.

Decidi me concentrar nas pistolas calibre .380 da marca Taurus porque, segundo os donos do stand em que treinei, esse é o modelo mais adequado para o que eu queria: deixar em casa para me defender. O gerente da loja me explica que um calibre desse porte exige menos tiros, se comparado a calibres menores, quando o objetivo é atingir e imobilizar alguém. O valor varia de R$ 5.520 a R$ R$ 7.210.

A minha escolhida seria a TH380, que custa R$ 6.480. Ela encaixou na minha mão mais confortavelmente. Eu precisaria comprar, deixá-la no cofre da loja, ir à Policia Federal para registrá-la e, só quando tivesse a autorização para transitar com a pistola até minha casa, poderia brincar de arminha.

Minha decisão foi fácil

Para atirar, usei técnica, estratégia e o conhecimento que adquiri nos treinamentos. Senti um alívio tremendo depois de dar uns tiros. Já tinha ouvido dizer que atirar é relaxante.

Contei animada para os meus amigos o dia a dia da minha preparação. Até os mais pacifistas e críticos ao chamado armamentista de Bolsonaro compartilharam do meu frenesi.

Eu me alienei momentaneamente da nossa realidade violenta porque me saí bem em uma prática vista como masculina. Dizer que homens são melhores que mulheres em atividades como dirigir, praticar determinado esporte ou fazer cálculos me dá nos nervos. Quando atesto que isso é puro machismo, eu vibro.

Ao fim dessa experiência, entendi por que alguém se encanta pelo tiro esportivo. Exige treino, inteligência, autocontrole e disciplina. E compreendo que alguém decida ter uma arma, alegando a necessidade de autodefesa. É possível mesmo atirar para imobilizar um agressor, sem matá-lo.

Mas eu não concordo com essa mentalidade. Compactuo com a cepa de pesquisas que mostra que a presença de armas aumenta o número de assassinatos. Também acredito nos especialistas que garantem serem elas ineficazes e perigosas para a ideia de autodefesa. Para mim, sobretudo, armas têm o peso da morte. E esse peso eu não vou carregar na minha cintura.

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