"Álcool é ouro por aqui"

A assistente social Carmen Lopes se arrisca para proteger quem vive nas ruas de SP

Giuliana Bergamo Colaboração para Universa René Cardillo/UOL

16 de março de 2020. São Paulo se preparava para dar início às medidas de isolamento social impostas pelo governo do estado. Na semana anterior, comércios e escolas da capital já haviam começado a fechar as portas espontaneamente. E pessoas se recolhiam em casa, com medo de aglomerações. Foi então que, no meio de dezenas de pessoas que vivem em situação de rua na Praça General Osório, no centro da cidade, a assistente social Carmen Lopes, 49, percebeu que teria de agir. "Eu não poderia deixá-los desassistidos justo em um momento tão delicado como este", diz ela, que abriu mão da própria quarentena para realizar um trabalho voluntário.

Já no dia seguinte, passou a angariar itens para kits de higiene: sabão, sabonete, detergente, absorventes íntimos, para mulheres, lâminas de barbear, para homens e pessoas transexuais. Também tenta conseguir máscaras e álcool gel, mas tem dificuldade. "Isso é ouro por aqui. Quando consigo uns, doo em um instante", diz. Até agora, ela já distribuiu 800 kits. Além disso, tem organizado a oferta de alimentos em marmitex aos domingos e, a partir desta semana, pretende repetir a ação também às quartas.

Outra atitude da assistente social foi entrar em contato com a prefeitura, via e-mail, pedindo a instalação de torneiras nas pias comunitárias da praça Princesa Isabel. "Sabemos que lavar as mãos é uma das medidas mais eficazes contra o vírus. Mas, vivendo na rua, onde vão fazer isso?", disse à reportagem de Universa. A mensagem enviada no dia 17 de março nunca foi respondida, mas o reparo foi realizado. Desde o dia 27 daquele mês, a prefeitura vem anunciando a instalação de diversas pias na região. No total, 11 pontos já foram atendidos. Funcionários do município também têm dado orientação aos moradores e distribuído sabonetes, escovas e cremes dentais, além de comida e água.

Por que o trabalho de Carmen importa

Alimentação

Ela reúne voluntários para distribuir comida para pessoas em situação de rua na região da Luz, no centro de São Paulo. A ação, que inicialmente era semanal, agora deve acontecer às quartas e aos domingos.

Higiene

A cada semana, ela distribui centenas de kits de higiene e, quando consegue, máscaras e álcool gel para a população de rua. Também pleiteou a instalação de uma torneira na Praça Princesa Isabel.

Informação

Nos encontros para distribuir alimento e kits de higiene, a assistente social aproveita para compartilhar informações sobre como se prevenir contra o coronavírus. "É preciso lavar as mãos e se ajudar", diz.

"São pessoas e suas dores"

"Medo a gente sente todo dia, a vida é dolorida. Eu já soube o que é não ter casa. Só nunca morei na rua porque tive pessoas que me acolheram. Agora é minha vez de contribuir com outras pessoas", diz ela, que é figura conhecida na região.

Dos comerciantes aos dependentes químicos, que vivem no "fluxo" da Cracolândia, quase todo mundo a conhece. Isso porque, desde 2013, quando se mudou para lá, vem realizando trabalhos de assistência.

Nascida em São Miguel Paulista, na Grande São Paulo, Carmen passou a infância e a adolescência no interior, onde trabalhava no campo com a família. Decidiu vir para a capital "em busca de liberdade", aos 19 anos.

Aqui, passou a viver nas casas onde trabalhava como empregada doméstica. Também contou com o acolhimento de amigos, nos períodos em que esteve sem trabalho. Até que, atendendo aos desejos da mãe, decidiu se matricular em uma faculdade aos 40 anos. Fez dois anos de enfermagem, mas teve de mudar de curso porque a mensalidade era mais barata. Em 2015, se formou como assistente social.

Dois anos antes, porém, já trabalhava na área. Conseguiu emprego na prefeitura municipal de São Paulo, justamente para atuar no programa de atendimento a dependentes de crack Braços Abertos, da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT). "Eu ainda lembro da primeira vez em que pisei aqui. Eu sentia ansiedade, medo de morrer, não me aguentava sobre minhas pernas", diz.

Os sentimentos intensos ainda persistem, mas Carmen foi se acostumando com o lugar. E com as pessoas. "No início, a gente tem a imagem do senso comum, de um amontoado de gente perigosa passando por você. Mas, aos poucos, a gente vê que são pessoas e suas dores. E todo mundo tem alguma dor. Então a gente se reconhece".

O emprego na prefeitura permitiu que Carmen pudesse alugar uma quitinete para morar, pela primeira vez, sozinha, na alameda Glete, a três quarteirões do fluxo, onde ainda vive.

Hora de agir

"Eu estava realizando uma das ações do coletivo Tem Sentimento na praça Princesa Isabel e notei que as torneiras das pias comunitárias estavam todas quebradas. Como as pessoas que vivem em situação de rua poderiam se proteger? Como iam lavar as mãos? Foi então que comecei a organizar a montagem de kits de higiene para doação e entrei em contato com a prefeitura pedindo o reparo nas torneiras"

Tem sentimento

Carmen não trabalha mais na prefeitura desde a última troca de gestão, quando o prefeito Bruno Covas (PSDB) assumiu o cargo. Foi a partir da saída, então, que ela criou o coletivo Tem Sentimento, um grupo formado por dez pessoas, a maioria mulheres, que realizam ações sociais na região da Luz.

Até o início da pandemia, todos os sábados, ela coordenava, na praça General Osório, atividades voltadas principalmente ao público feminino que vive na Cracolândia, como oficinas de maquiagem e autocuidado. Também organizava doações, feiras de troca e mantinha um ateliê de costura, onde trabalhavam cinco pessoas. O pagamento de R$ 10,00 era feito por peça finalizada e quem trabalhava também recebia alimentação.

"Carmen é comprometida com o que faz e respeitada pelos moradores da região. Uma figura assim é fundamental principalmente em um momento como este", diz Helena Fonseca Rodrigues, secretária executiva da Plataforma Brasileira de Política de Drogas. "Quando essas pessoas estão realizando as atividades que ela proporciona, não estão consumindo drogas. São momentos de redução de danos, portanto".

Foi Helena quem apresentou Carmen à amiga, Natacha Lopes Barros, sócia do Pano Social, um negócio social que contrata pessoas egressas do sistema penitenciário em confecções de roupas. "Fui conhecer o trabalho dela e fiquei muito impressionada. Ela precisava de tecido e, desde então, há cerca de três anos, passamos a doar retalhos para o coletivo", diz a empresária.

No lugar do outro

Foi graças ao trabalho de Carmen que, há quatro anos, Felipa Drumont de Lima Caldas, 29, saiu da rua, onde vivia desde os 12 anos. "Fugi de casa pela primeira vez quando tinha 7 anos, porque não aguentava as agressões do meu pai. Cheguei a voltar algumas vezes, até que nunca mais voltei", diz.

Felipa conheceu a assistente social em uma das primeiras ações do coletivo, quando ela vivia na Cracolândia. "Carmen me convidou a participar de uma ação de autocuidado e eu gostei muito. Depois fui trabalhar na oficina. Nem todo mundo usa droga porque quer. Quando a gente vive na rua, a droga é o único jeito que a gente tem de suportar tanto sofrimento".

Desde março, Felipa recebe o auxílio do programa Transcidadania, do governo do estado, que oferece uma bolsa de R$ 1097,00 a pessoas LGBT para voltar a estudar. Graças a esse dinheiro, ela conseguiu se manter fora da rua mesmo sem o trabalho na oficina do Tem Sentimento.

E continua perto de Carmen. Nas ações de distribuição de alimento, Felipa atua como ajudante de cozinha. "Eu me coloco no lugar do outro. Até outro dia era eu que estava nessa situação. Eu sei bem o que é estar na rua no domingo, quando ninguém te dá um prato de comida. Eu já fui essa pessoa".

Leia também:

"Precisamos nos adaptar"

Marilda Siqueira é chefe do laboratório da Fiocruz que é referência da OMS para Covid-19

Ler mais

"Vai passar"

A geneticista Ana Tereza Vasconcelos lidera o laboratório que concentrará uma rede nacional de coronavírus

Ler mais

100 dias que mudaram o mundo

Para historiadora Lilia Schwarcz, pandemia marca fim do século 20 e indica os limites da tecnologia

Ler mais
Topo