Diversidade é uma beleza

Vice-presidente de marketing da Avon, Danielle Bibas tem fama de brava, mas jura que é "durona com amor"

Talyta Vespa da Universa, em São Paulo
Fernando Moraes/UOL

Danielle Bibas gargalha antes de responder o tipo de chefe que é: "Às vezes, dura demais, mas tento equilibrar amor e exigência". Ela é vice-presidente de marketing da Avon Brasil, um dos mais famosos nomes da beleza no mundo. Seu estilo, ela atribui aos 12 anos trabalhando fora do país --nove na Europa e três no Canadá--, onde aprendeu a ser prática. "Lá, eles não têm medo de dizer que um trabalho está horroroso". Nem ela. Mas, no Brasil, com seus 70 funcionários, tem de dizer isso com mais tato.

Dentro da Avon, Danielle tem uma função essencial: garantir diversidade de pessoas dentro da companhia. "Hoje, 66% das lideranças da Avon são mulheres. Nossa meta, agora, é aumentar o número de negros em cargos de chefia." Para isso, ela montou quatro equipes que cuidam de políticas para gênero, raça, LGBTs e pessoas com deficiência.

A trajetória da executiva começou como estagiária na multinacional Procter & Gamble, de onde ela saiu como diretora, depois de 15 anos, cheia de histórias. Uma das que ela mais gosta é a de quando a companhia decidiu lançar os absorventes ultrafinos no Brasil. Danielle insistiu que os modelos deveriam ser mais estreitos do que os vendidos lá fora, pois as lingeries das brasileiras são menores. Não convenceu. Ela, então, comprou todas as calcinhas de todos os tamanhos de uma loja, colou os absorventes nelas e espalhou as 500 peças pela mesa do presidente da empresa. "Aqui está o mercado brasileiro. Me mostre uma calcinha em que o absorvente caiba perfeitamente". Nenhum coube, e assim foi criado um absorvente específico para o Brasil.

Do início da carreira até hoje, com 46 anos, ela casou, descasou, foi promovida várias vezes e encarou chefes difíceis --"aqueles que fazem da convivência um inferno, mas que ensinam um bocado". Ela é mãe da Sofia, de oito anos, que sonha em ser pintora, toca violino nas festas da mãe e fica brava quando Danielle ousa trabalhar em casa: "Mamãe, agora é minha hora." Nesta entrevista à Universa, a executiva conta como é ocupar um cargo alto em uma multinacional, relembra feitos, choradeiras, viagens e como lidou com a maternidade, que chegou de surpresa.

3 dicas para mulheres que querem ser chefes

Saiba o que você quer. Se não souber, vai sempre fazer o que é melhor para a empresa e não o que é melhor para você. Defina seus objetivos para não ficar à deriva

Danielle Bibas, vice-presidente de marketing da Avon

Comunique o que você quer para quem pode ajudar. Sempre disse aos meus chefes minhas pretensões e essas conversas moldaram minha carreira

Danielle Bibas, vice-presidente de marketing da Avon

Entregue resultados para chegar onde você quer. Achar que vai ser promovida só por ser simpática é um erro. É preciso ser boa para conseguir

Danielle Bibas, vice-presidente de marketing da Avon

É comum ouvir que estágio é o momento de testar todas as áreas que abrangem o curso escolhido na faculdade --no seu caso, administração de empresas. Você ficou 15 anos na segunda empresa em que trabalhou, onde começou como estagiária. De onde veio certeza de que queria o marketing?

Foi por exclusão. As outras opções eram finanças e recursos humanos. Eu odiava matemática financeira e um tio fez a minha cabeça para que eu não fosse para RH. Ele achava que eu não seria bem-sucedida. Decidi experimentar marketing. Meu primeiro emprego foi no Unibanco, era eu quem enviava aquelas cartinhas perguntando: "Você quer abrir uma poupança?". Marketing direto no momento analógico. Depois, passei no processo seletivo da Procter & Gamble e lá fiquei por 15 anos.

Você foi trabalhar na Europa com 26 anos, pela P&G. Como surgiu essa oportunidade?

Eu sonhava em trabalhar fora do Brasil. E, desde cedo, sabia que, para isso, eu precisava trabalhar muito e mostrar resultados. Meu diferencial sempre foi pensar em estratégia. Quando havia um problema, em vez de sair tentando de tudo, eu parava e pensava: qual o objetivo? Então vou pensar em diversos planos de ação. Quando errava, passava horas entendendo o que havia acontecido. Além disso, falava inglês, espanhol e queria ir. Estava pronta e anunciei isso.

Como anunciou?

Eu soube que haveria um evento em São Paulo e o presidente global da Procter & Gamble, o Paul Polman, que hoje é CEO global da Unilever, estaria lá. Meu chefe me disse que havia conseguido 15 minutos para que eu conversasse com ele. Fiquei supernervosa. Passei dias ensaiando o que falar para ele, em voz alta, em casa. Quando cheguei ao bar do evento, ele perguntou: "Então, Danielle, o que você quer?". E eu descarreguei todo o discurso decorado, falei por uns dez minutos, enquanto ele segurava o riso. Quando acabei, ele disse: "Na verdade, eu me referia ao que você queria beber, mas agora que você já me disse tudo o que quer para a sua vida pelos próximos dez anos, vamos tomar um drinque". Deu certo. Foram quase três anos em Bruxelas, depois fui transferida para Londres e terminei minha história na Europa em Genebra.

Você entrou na P&G como estagiária e saiu como diretora geral de beleza. Foram nove anos na Europa, mais três no Canadá. Quando surgiu a Avon na sua vida?

Há nove anos. O Brasil tinha começado a decolar, capa da "Economist", economia aqui bombando. Meus pais também já estavam ficando mais velhos, então senti vontade de voltar. Além disso, já estava há muito tempo na Procter e queria novos desafios. Entrei em contato com quatro recrutadores e um deles me apresentou a Avon, cujo mercado brasileiro é o número um da companhia; eu ia continuar no ramo da beleza, pelo qual tinha me apaixonado. Decidi que era a empresa que eu queria.

Você estava grávida no processo seletivo. Ficou com medo de não ser contratada por isso e só contou quando foi aceita na Avon. Passar por isso tornou você mais sensível com as questões das mulheres, no trabalho?

Sem dúvida. Se precisa sair para levar o filho ao médico, nem precisa me avisar. Nem sei quando meus funcionários saem mais cedo, quando trabalham em casa. O que importa é se estão fazendo o que precisam fazer. Mas nem sempre foi assim. Tive uma funcionária na Bélgica que namorava um cara que morava na Alemanha. Ela pedia para entrar na segunda às 12h e sair sexta-feira às 12h, para passar o fim de semana com ele, e eu não deixava. Eu me arrependo, fui cruel com ela. Hoje, lembro disso e penso: "Meu Deus, Danielle..."

A Avon tem se destacado por falar de diversidade de gênero e se posicionar em relação a pautas femininas como assédio [campanha "Repense o Elogio", que sugere que pais não elogiem filhos apenas pela beleza, mas pelas características de personalidade'], por exemplo. Você tem uma filha de oito anos. Esse posicionamento se reflete na educação dela?

Em casa não sou militante, sou a mãe da Sofia. Eu comecei a repensar o elogio em casa, também. É claro que digo que minha filha é linda, e ela é bastante vaidosa. Mas procuro elogiar, também, outras qualidades dela: a força, a perseverança, a inteligência, a coragem de tocar violino na frente de um monte de gente em uma festa em casa. Eu digo: "Minha filha, você pode ser o que você quiser". Aí ela diz que quer ser pintora, e entra outra Danielle, a pessoa de negócios. E eu falo: "Filha, eu acho que ser pintora é incrível. Mas você deveria pintar aos sábados e domingos, como hobby, senão você não vai ganhar muito dinheiro".

Quando a campanha foi lançada, em agosto do ano passado, o Brasil estava em polvorosa com as eleições. Houve uma preocupação com uma possível repercussão negativa?

Sim. Fizemos várias reuniões para tentar prever o que poderia acontecer. Nós sabíamos que algumas pessoas se incomodariam, mas faz parte. Sempre vai haver uma parcela da sociedade que vai discordar do que você diz. E as marcas precisam, mais do que nunca, se posicionar. O mais importante é saber quem eu quero atingir positivamente, se essas pessoas são meu público-alvo. E, no nosso caso, eram. Estamos falando de assédio, direitos das mulheres, são elas que consomem a maior parte dos nossos produtos.

Dos cursos que você fez, quais foram os três que mais impulsionaram sua carreira?

Preceitos de marketing, matemática financeira --que eu fiz mesmo odiando-- e um curso para reconhecer o mundo digital. Quanto mais você sobe em uma empresa, mais abrangente deve ser seu entendimento sobre ela. Preciso entender de contabilidade, balanço, risco corporativo... Não tem jeito. Quando estava na área de comunicação da Avon, em 2015, passei o ano fazendo um curso para voltar a entender o mundo digital, porque a forma como eu aprendi a fazer marketing há quatro anos não tem nada a ver com o jeito que se faz marketing hoje. Preciso estudar o tempo todo.

Como executiva de uma empresa de beleza, você se sente pressionada a estar sempre muito bem arrumada?

Não. Eu venho trabalhar todos os dias de calça jeans e tênis. Às vezes, coloco uma blusinha de seda, mas ainda assim é uma calça jeans e um tênis. Só escolho roupas menos casuais quando o CEO da empresa está por aqui, quando vou participar de algum evento ou dar uma entrevista. O mundo mudou. Você entra hoje nas maiores empresas do mundo e o presidente da companhia está vestido casualmente. E está tudo bem.

Quais feedbacks você já recebeu de ex-funcionários que te mostraram o tipo de chefe que você é?

Já ouvi que trabalhar comigo era ótimo e que trabalhar comigo era muito difícil, mas nunca que eu não ensinava. Eu tento, todos os dias, ser uma chefe exigente, mas não difícil. Sei que sou dura demais, mas tento equilibrar amor e exigência. Eu ficava muito brava quando o funcionário se comprometia a entregar em uma data e, além de não entregar, não avisava. Ainda me incomoda, mas hoje acontece pouco, porque eu deixo isso muito claro para a minha equipe. Não vai cumprir o prazo? Avise e a gente reprograma a data.

Na P&G havia uma política para promover mulheres a cargos de chefia que você, inclusive, disse ter sido beneficiada por ela. Na Avon, há políticas similares?

Sim. Temos de ter, no mínimo, uma mulher concorrendo para os níveis superiores de liderança. Mas já estamos muito à frente, nessa questão, já que dois terços da chefia no Brasil são mulheres. A Avon foi eleita a melhor empresa para mulheres no Brasil pelo Guia Exame de Diversidade 2019. Agora, nosso desafio é outro: queremos mais negros em cargos de chefia. Eu sou responsável pelo setor de diversidade da Avon. Aqui, temos equipes que cuidam de políticas para gênero, raça, LGBT e pessoas com deficiência --que promovem debates, eventos e campanhas de conscientização. Queremos ter todos os tipos de pessoas na Avon.

Como é a política de vendas da empresa e qual sua relação com as revendedoras?

As revendedoras Avon têm ganho mínimo de 30% sobre a revenda de cosméticos. Elas são divididas em cinco categorias: VIP, prata, ouro, diamante e super star. Quanto mais elas vendem, avançam nas categorias, e isso gera benefícios, como prêmios, facilidades de pagamento e de prazos. Minha interação com elas acontece por meio de eventos de reconhecimento e treinamentos.

Quais erros você cometeu como chefe? E o que aprendeu com eles?

Eu não entendia que cada pessoa tinha uma forma de lidar com o trabalho. Meu estilo era o de pressionar. Mas aprendi que tem gente que lida muito bem com pressão e tem gente que não. Como trabalhei na Europa por muito tempo, peguei um pouco o estilo dos europeus. Lá, é muito prático. O feedback era: "Isso aqui está ótimo" ou "isso aqui está horroroso por esses motivos. Refaça". E tudo bem. No Brasil, preciso ter mais tato.

Na sua área, quais vantagens uma chefe mulher leva?

Na área da beleza, a vantagem é que a mulher usa todos os produtos que a empresa fabrica. Por mais engajado que seja um homem, ele não se maquia, e não testar o produto que você vende é uma limitação. Quando a P&G foi lançar os absorventes ultrafinos no Brasil, eu avisei que o formato teria de ser menor do que o padrão mundial, porque as calcinhas das brasileiras são muito mais finas. Não me ouviram. Então, quando o presidente da marca veio para o Brasil, eu fui até uma loja de lingerie e comprei todas as calcinhas, uma de cada tamanho. Passei a tarde com a minha equipe colando absorvente em mais de 500 peças. Coloquei todas elas na mesa do presidente. Quando ele chegou, eu disse: "Aqui está o mercado de lingerie brasileiro. Me mostre uma calcinha em que o absorvente encaixa perfeitamente". Resultado: o projeto foi adiado por nove meses porque tiveram de recriar o produto.

Quais são os seus principais feitos como chefe?

Ver pessoas que trabalharam comigo crescendo profissionalmente. Na semana passada, descobri que a ex-diretora regional de maquiagem da Avon, que trabalhou comigo por quatro anos, se tornou presidente da Sephora Brasil. Escrevi para ela dizendo que estou sentindo um orgulho imenso. Para mim, ser chefe é como ser professor. Inclusive, tive um professor de matemática que, uma vez, me disse: "Danielle, você é autoconfiante demais. Vai se dar muito mal na vida".

Com quem uma chefe mulher normalmente pode contar dentro da empresa?

Eu conto com meus pares, mas não há regra. As relações são muito particulares, mas é sempre importante contar com alguém em quem você confie. Outro dia, pedi conselhos para o diretor financeiro; na semana passada, desabafei com o diretor de Recursos Humanos.

Na sua experiência, mostrar fraquezas ajuda ou atrapalha uma mulher?

Hoje, eu acho que ajuda. Para ter empatia, precisamos mostrar que temos fraquezas. Mas, há dez anos, eu responderia que não. Era uma época em que mulher chorar no trabalho era mal visto. E, mesmo assim, eu chorava. Quando eu estava em Genebra, muito infeliz, chamei meu ex-chefe para conversar. Disse: "Esse é o emprego dos meus sonhos, mas estou miserável". Eu tinha acabado de me separar, estava me sentindo sozinha e queria ser transferida. Durante a conversa, eu desabei de chorar. Ele estava sentado e, inconscientemente, foi virando a cadeira para trás. Depois de uma meia hora de conversa, ele estava de costas para mim, só com a cabeça virada. Ele não sabia lidar com aquilo.

Qual a sua estratégia para cuidar bem da sua filha, ter hobbies, namorar e estudar?

Ter disciplina e impor limites a mim mesma. Se eu quisesse, ficaria no escritório todos os dias até meia-noite porque trabalho não falta. É uma escolha dizer "chega" e priorizar as tarefas. A gente nunca vai conseguir fazer tudo. Quando virei vice-presidente de marketing da Avon Brasil, eu disse para a minha filha que viajaria menos, mas que chegaria mais tarde em casa. Faz três semanas que não faço lição de casa com ela, quem faz é a babá. Faz parte. Mas, quando estou com ela, não trabalho. Ela mesma diz: "Mamãe, agora é a minha hora. Desligue seu telefone". Eu já me casei, me separei, e agora tenho um namorado. Não pretendo me casar de novo. Os homens estão perdidos, ser uma mulher bem-sucedida e independente assusta. Viajamos aos fins de semana e está ótimo.

Você já enfrentou preconceito?

Sim, quando cheguei na Europa, precisei provar o tempo todo que eu era boa profissional. As pessoas demoraram a confiar em mim. Mas o preconceito não era só por eu ser mulher, mas por eu ser brasileira, porque, na época, a maioria das brasileiras na Europa eram prostitutas. Minha ex-sogra me deu de presente um livro do Paulo Coelho, "Onze Minutos", que contava a história de uma brasileira que ia morar em Genebra e virava prostituta. Eu morava em Genebra nessa época. Pensei: "Qual mensagem ela quer mandar para mim?".

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