Vida 2.0, 3.0, 4.0...

Chefão de tecnologia da Siemens prevê remédios personalizados e sistema operacional para cidades

Gabriel Francisco Ribeiro De Tilt, em São Paulo
Arte/UOL

Nunca antes na história do mundo tivemos que conviver com tantas transformações. O desenvolvimento exponencial da tecnologia gera, a cada ano, inúmeras soluções novas que fazem a gente se readaptar diariamente e conviver com um mundo novo de possibilidades todo dia.

Se você acha que o ritmo pode diminuir, pense duas vezes. Em recente passagem pelo Brasil, Roland Busch, chefão de tecnologia, de operações e, a partir de 1º de outubro, CEO global interino da Siemens, afirmou ao Tilt que as maiores mudanças do mundo estão à nossa frente, a apenas alguns anos de se tornar realidade - isso inclui remédios personalizados, fábricas virtuais, robôs por todo lado, carros autônomos, sistema operacional para cidades e muito mais.

A era da digitalização

A Siemens pode falar com propriedade de tecnologia. A companhia tem uma história de mais de 170 anos, algo raro de se ver em um setor com tantas transformações, em que empresas abrem e fecham com rapidez. Mesmo assim, teve que se adaptar: ao fazer celulares, descobriu, por exemplo, que não é uma empresa voltada para consumidores.

O mundo atual necessita de companhias que passem tecnologias para outras empresas - e, aí sim, cheguem ao consumidor. E, ao falar de mundo moderno, estamos falando de uma nova era em que vamos realmente conseguir deixar máquinas com capacidades humanas de pensamento. Algo que dá medo, certamente, mas que é cada vez mais irreversível.

"Passaram só algumas décadas desde que o primeiro computador foi desenvolvido. O nível de inteligência que temos agora se compara a uma inteligência de um rato. Esse é o tempo que levou para chegar nisso. Como a tecnologia está se desenvolvendo tão rápido, o próximo passo para atingir a capacidade de um ser humano vem muito mais rápido. Isso é o grande indicador de que as maiores mudanças estão à nossa frente", diz Busch.

Uma palavra define este novo mundo, para Busch: a digitalização. Para ele, esta palavra será sinônimo de uma nova era, em meio a outras tendências como Big Data, o 5G, a nova indústria 4.0 e mais. Sim, a sua vida está para mudar muito.

Samuel Sanção de Moura

Do cérebro de lagarta para o humano

Tilt: Falando um pouco de soluções e produtos, o que você prevê para os próximos 20 ou 30 anos?

Roland Busch: Acho que isso é mais sobre como a digitalização está mudando nossa vida. Passaram só algumas décadas desde que o primeiro computador foi desenvolvido. Há dez anos o que está na sua mão [celular] estaria parado em uma estante ou escrivaninha. Levando em conta todas essas conquistas, o nível de inteligência que temos agora se compara a uma inteligência de um rato. Nós acabamos de passar pela inteligência de uma lagarta de borboleta e chegamos na de um rato. Esse é o tempo que levou para chegar nisso. Como a tecnologia está se desenvolvendo tão rápido, o próximo passo para atingir a capacidade de um ser humano vem muito mais rápido. Isso para mim é o grande indicador de que as maiores mudanças estão à nossa frente.

Tilt: Tem um limite para essa evolução?

Roland Busch: Um limite é sobre a questão de quão rápido pode ser um processador. A Lei de Moore, que diz que a cada 18 meses a capacidade é dobrada, ainda vale. Mas não vale como antes, como na questão de taxas de frequência maiores. isso parou há um tempo, chegamos a um limite. Nós estamos colocando mais núcleos agora e a próxima grande onda é criar estruturas ainda menores. Estamos chegando agora a uma escala de 5 nanômetros, se você for a 3 ou 2 chegará a uma nova dinâmica da física. Você não verá os eletrônicos como uma partícula mais, mas como uma onda. Essa é a era que vamos mudar para a computação quântica. A computação quântica abre um completo universo novo e a velocidade será substancialmente mais rápida. Isso vai acontecer, então a velocidade de processadores continuará aumentando e assim não vejo um fim.

Tilt: E como todas essas novas tecnologias mudam nossa vida?

Roland Busch: É difícil dizer. Tem tantas coisas diferentes. Dirigir de forma autônoma vai mudar nossa vida. Acho que a robótica vai mudar nossa vida. Pensamos em robôs como animais enjaulados fazendo funções simples muito rápidas. Estamos mudando para um mundo em que os robôs estão ao seu lado e são de alguma forma inteligentes, você não precisa nem treiná-lo. O robô recebe uma tarefa e a executa. Nós temos um exemplo: nossa equipe de tecnologia montou um robô de dois braços. Ele recebe uma tarefa de montar alguma coisa, mas não é treinado. O robô só sabe como o produto final deve ser. E esses robôs aprendem sozinhos.

Samuel Sanção de Moura

Nova indústria, novos empregos

Tilt: O que você acha que vai nos impactar primeiro?

Roland Busch: Falando de uma área diferente, o que vai ocorrer muito rapidamente é que toda a área de manufatura vai mudar. De muitas formas vai aumentar muito a produtividade. Atualmente nós começamos o desenvolvimento de um produto criando um gêmeo digital de um produto, de um carro por exemplo. E aí quando falo de um gêmeo digital não é só um modelo 3D. É como esse modelo 3D se comporta quando anda na chuva, a antecipação de fatores. Nós realmente simulamos como se fosse na vida real. É difícil, mas é de onde começamos. Depois simulamos no computador, construímos um gêmeo digital da área de manufatura onde você vai montá-lo. Então significa que você está basicamente produzindo um produto no ambiente virtual. Assim que estiver pronto, você o constrói. E você não precisa programar os seus controles na área de manufatura mais porque todo o software já está simulado no mundo virtual.

E então você tem o gêmeo de performance, significando que então você constantemente monitora se o processo faz o que você quer. Se há um erro, você pode corrigir no mundo virtual e mudar o processo no ambiente virtual para que você faça seu produto ficar correto de novo. Isso encurta o tempo de desenvolvimento de cinco anos para três anos ou dois anos e então para apenas meio ano. Dá até para combinar uma manufatura editável para que algumas partes possam ser impressas, em alguns casos até remotamente. Você não precisa fabricar aqui, pode só desenhar e mandar para algum lugar do mundo que imprima.

Tilt: Nesse novo mundo das fábricas há sempre o temor da automatização tirando empregos. Qual sua visão sobre isso?

Roland Busch: Essa é a mesma história que ocorreu repetidas vezes, como quando as pessoas pensavam quantos empregos seriam perdidos quando o motor de combustão foi construído. Então o que aconteceu? O carro foi introduzido, a sociedade continuou crescendo e tivemos mais empregos. Acredito que o único problema aqui é que muitos dos cargos que estamos criando nós não sabemos, já a maioria dos cargos que deixam de existir nós sabemos. Então é mais sobre a incerteza em torno disso.

Tilt: Mas nós teremos menos empregos mecânicos e simples...

Roland Busch: Os cargos não vão ser parecidos com o que tivemos no passado e nós vamos ter diferentes requisitos, o que significa que você precisa investir mais em educação e treinamento das pessoas. Elas precisam ter uma vida inteira de aprendizado, não podem aprender algo e dizer "é o suficiente para montar uma carreira pelos próximos 40 anos", isso não existe mais. E vamos ver novos empregos. Tem também uma estatística do McKinsey. Nos últimos 50 anos nosso PIB mundial cresceu cerca de 3%. Metade desse crescimento ocorreu simplesmente por adicionar mais mão de obra ao mercado. A população estava crescendo, tinham mais empregos e eles produziam. A outra metade foi da tecnologia.

Agora pensamos nos próximos 50 anos. Nossa população está envelhecendo, até na China. Na China ainda não atingiu o pico, mas o mercado de trabalho na China atingiu um pico, então você não consegue mais mão de obra. Então nos próximos 50 anos esse crescimento que veio de mais mão de obra vira quase zero.

Arte/UOL

Cidades com sistemas operacionais e remédios personalizados

Tilt: Falando um pouco de cidades, você deve ter visto um pouco de São Paulo já, uma cidade muito caótica, com muito trânsito. A tecnologia realmente pode resolver isso, talvez com mais semáforos inteligentes, transporte público? Que soluções você acha que são as melhores para uma cidade como São Paulo?

Roland Busch: Eu realmente acredito que cidades vão ter um sistema operacional que permita que a cidade gerencie a infraestrutura em vez de ser gerenciada por ela. O sistema operacional otimiza seu sistema de energia, suas redes, seus prédios, gerencia seu trânsito... E esse sistema é poderoso porque derruba barreiras. O setor de mobilidade e o setor de energia não conversam entre si atualmente. Eles são executados de maneira independente nas cidades. Imagine você ter 50% do tráfego sendo elétrico. Esses setores precisam se comunicar entre si, ter pontos de recarga, ter os carros armazenados alimentando de volta o sistema de energia.

Tilt: E isso pode ser ampliado para outros modais, como vemos surgir a cada dia?

Roland Busch: Precisa de um gerenciamento de tráfego entre modais. Atualmente você tem os táxis, tem Uber, tem transporte público, outros modais. Você precisa conectá-los. Precisa ter uma plataforma que saiba como tirar vantagem desses diferentes modais. E se você quer realmente gerenciar o trânsito em uma cidade como São Paulo, a primeira coisa que você precisa fazer é aumentar a capacidade do sistema público de transporte, principalmente mais linhas de metrôs, mas também linhas de ônibus.

E então você também precisa usar a infraestrutura dinamicamente. Por exemplo: tornar o uso de ruas mais caro se você quiser puxar as pessoas para o transporte público. Você pode fazer isso permanentemente ou em horários de pico. Se você tiver um grande evento em São Paulo, pode tornar o transporte público muito barato e o estacionamento muito caro, então você empurra as pessoas para o transporte público por um tempo, até o evento terminar. Isso é gerenciar uma cidade e só pode ser feito se tiver um sistema operacional. Isso faz para mim cidades como São Paulo um lugar mais agradável de se viver daqui a alguns anos.

Tilt: Quais outras soluções você aponta como impactantes para os próximos anos?

Roland Busch: Eventualmente você quer saber de onde é que essa água está vindo. Nós estamos trabalhando em uma solução que você consiga fazer o rastreamento do começo ao fim, de qual a fonte enchendo a garrafa que você tem. Seria uma personalização ou a checagem de alta integridade do que você tem. É muito importante para comidas, bebidas, mas ainda mais para remédios. Sabemos que muito dinheiro é gasto com remédios que não funcionam para seu corpo, mas podem funcionar para outro, em particular para doenças como câncer. Nós estamos caminhando para um futuro em que desenharemos um remédio para suas necessidades pessoais e isso requer o rastreamento e a conexão de todo o processo.

Tilt: Como isso é possível?

Roland Busch: É possível em primeiro lugar ao identificar seu DNA. O que tem de errado com você, se você tem câncer. Levar essa informação de volta vai gerar uma enorme quantidade de dados. Então você leva de volta para a linha de produção em 'lot size one' [N.R.: 'Lot size-one' é um termo da indústria 4.0 da personalização dos itens fabricados, em contrate à produção em massa] só para uma pessoa. Cria um remédio só para uma pessoa, mas com o mesmo custo de se fosse produzido 100 vezes. Isso é o que a digitalização pode fazer.

Tilt: Quão próximo estamos disso?

Roland Busch: Eu acho que em relação a produzir em lot size one estamos muito próximos. Encontrar como montar um remédio que funcione exatamente para uma pessoa acho que ainda tem um caminho pela frente. Ainda vai levar um tempo, mas você estará vivo.

Marcus Steinmeyer/UOL

Tecnologia x privacidade

Tilt: Já estamos vivendo na era da informação, no Big Data. Estamos quase desistindo da nossa privacidade. Você acha que essa troca vai ser benéfica para a raça humana em geral?

Roland Busch: Vou te fazer uma oferta agora. Você tem uma checagem de saúde, nós escaneamos o seu corpo em um scanner da Siemens. E te dou uma escolha: marcar uma caixinha em um formulário que diz que aceita ter seus dados compartilhados com a Siemens ou não. Se você disser sim, todos os algoritmos treinados analisariam seu exame e te dariam a melhor análise dos seus exames, melhor do que qualquer radiologista no mundo poderia fazer. Você marcaria a caixa?

Tilt: É, talvez... Mas há lados negativos, né?

Roland Busch: Claro. Você pode dizer que se eu ticar a caixa e compartilhar meus dados, talvez eu possa ter uma doença e talvez meu plano de saúde vai saber disso e pode cancelar meu seguro. Sempre temos lados negativos, mas às vezes costumamos ver mais os lados negativos do que os positivos. Dessa perspectiva eu vejo menos lados negativos e mais positivos porque eu compartilharia meus dados.

Você tem que ter uma certa confiança de que os dados seriam tratados com alguma integridade, de que eles não iriam para planos de saúde e até se fossem as seguradoras não seriam permitidas a fazer um julgamento baseado nisso. Temos que respeitar a propriedade dos dados por um lado, mas não nos impedir de receber os benefícios que podemos ter ao usar os dados. É uma linha tênue às vezes e acho que vamos encontrar soluções, mas não podemos ser muito restritivos com os dados.

Marcus Steinmeyer/UOL

Tilt: E como vocês trabalham para os lados negativos não serem muito grandes? Eu penso sobre o problema do Facebook, especialistas dizem que existe um otimismo na tecnologia, sempre pensamos que qualquer tecnologia será boa. E aí a tecnologia vem, é boa inicialmente, mas temos maus usos. Como podemos prevenir isso?

Roland Busch: Eu acho que você tem que pensar bem, tem que ter um órgão regulador que pense sobre os impactos negativos. Não é sempre uma decisão de preto ou branco. Até mesmo quando você pensa no Facebook, existe valor em ter uma plataforma de comunicações aberta, mas também existem limites. Mas quem decide onde o limite começa? Os limites em um país podem ser diferentes de outro por razões religiosas, por exemplo. Então é muito difícil fazer um julgamento genérico nisso.

Tilt: E quanto à segurança nesse processo? A digitalização leva a um problema que todo especialista em cibersegurança diz que você nunca pode ter 100% de certeza de que algo está seguro. Como podemos ficar próximos a esses 100% em mundo que tudo, até as coisas mais sensíveis como nossa vida, vai ser controlado digitalmente?

Roland Busch: Qualquer um que alegue que esteja 100% seguro está mentindo. Você pode hackear qualquer sistema, na prática. Você pode atingir um nível de cibersegurança se você colocar tecnologias que já temos, se decidir pela arquitetura correta e se tiver um sistema de monitoramento em um nível tão alto que você possa executar infraestrutura crítica nele.

Nós estamos levando por exemplo todo o sistema de sinais que atualmente trens estão usando em 50 diferentes estações de interligações em apenas um sistema de controle na nuvem. E fazemos isso com o mais alto nível de segurança, incluindo um modo de falha de segurança para que se algo acontecer o sistema continue e não faça nada de errado. Nós temos já estruturas sensíveis e críticas sendo executadas na nuvem e acredito que isso seja o futuro.

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A Siemens não tem DNA para consumidores

Tilt: Minhas primeiras memórias da Siemens são da Siemens Mobile, lembro do patrocínio para grandes clubes como o Real Madrid e tal. Como a Siemens consegue se modificar tanto e tão rapidamente?

Roland Busch: Primeiro, acho que você precisa. Se você é uma empresa de tecnologia e quer sobreviver por 170 anos você precisa mudar, se adaptar. Não pode se ater a uma coisa. Essa é uma razão. Outra razão é que em alguns casos realmente temos a necessidade de mudar, como no negócio mobile. Nós percebemos naquela época que a Siemens não é uma companhia para consumidores. Produtos do consumidor não é nosso DNA, não somos bons nisso. Sabemos ser B2B (negócios para negócios). Nós deixamos de lado totalmente o B2C (produtos para consumidores).

Tilt: Por quê?

Roland Busch: Porque nós não sabemos fazer isso. É só a verdade. Nossos engenheiros são muito bons em tecnologia. São tão bons que fazem produtos brilhantes que todos deveriam comprar porque são brilhantes. Mas não é assim que o consumo funciona. O mercado de consumidor é sobre design, usabilidade... Por exemplo: lembra da época que tínhamos os celulares flips? Nossos engenheiros diziam: 'de jeito nenhum, um dispositivo não pode ser assim porque quebra, é difícil', então se recusaram a fazer. Mas o mercado estava forçando isso. E nossos engenheiros disseram 'não, não vamos desenhar isso'. Não tem como estar no mercado de consumo com esse DNA.

Tilt: Quão importante foi essa decisão de sair do mercado B2C e focar no B2B?

Roland Busch: Eu acho que percebemos do jeito difícil. Se você acha que não é bem-sucedido, em um certo ponto tem que chegar à conclusão e sair de alguns negócios. Eu acabei de falar do mercado mobile, mas é verdade também para outros negócios.

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Tilt: Esse é o segredo para uma companhia sobreviver por 170 anos? Nós vemos companhias abrirem e fecharem... Você precisa saber no que é bom?

Roland Busch: Sim, precisa. Número um: você precisa ser sempre muito próximo dos consumidores, entender o que precisam. Segundo: tem que ser muito próximo de tecnologias e novas tendências. Você não pode perder uma tendência ou você está fora dos negócios também. E isso também aconteceu no passado e temos que trabalhar com muito cuidado para que não se repita. E então o terceiro elemento é que você precisa tomar as decisões corretas na execução certa. Se você sabe tudo e sabe onde ir, mas não executa, também é um problema.

Tilt: Que conselho você daria para uma startup?

Roland Busch: Eu diria que eles deveriam focar em um mercado e em um modelo de negócios e não quatro ou cinco deles. Não é bom dizer 'posso fazer isso, posso fazer aquilo, posso fazer aquilo outro'. Escolha um e seja bom.

Tilt: Então não deveria ser como a Siemens e fazer de tudo?

Roland Busch: (Risos) Mas somos grandes em escala. Na Siemens temos muitos negócios, mas cada um deles também foca em algo para ser o melhor. Para startups é muito importante porque têm dinheiro limitado, tempo limitado, recursos limitados e precisam ser rápidos. Então precisam focar no que são bons. Em segundo lugar, precisam focar em mercado de escala. Todo mundo pode achar um consumidor, pode ser seu colega da faculdade. Encontrar 100 deles ou milhares é o jogo. Cada negócio, cada startup tem que focar em um mercado em escala. E o último seria que é preciso ter um núcleo central que seja diverso e traga diferentes perspectivas. Não é só sobre tecnologia, é sobre o mercado, o processo de vendas.

Extra: e no Brasil?

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Tilt: O que a Siemens está fazendo agora no Brasil e o que você prevê para os próximos anos?

André Clark: O Brasil é um ambiente em mudança. O que precisamos é um número de reformas porque a população está gritando. Estamos atingindo um limite em que o cidadão comum e sua tolerância acabou. E o prefeito, os políticos, sabem disso. Eles estão sofrendo no processo eleitoral, nas redes sociais. E o dinheiro acabou. Não podemos continuar gastando dinheiro da maneira que fazemos ao não integrarmos tudo. E terceiro, tem muita tecnologia. E esta tecnologia está se tornando cada vez mais acessível. Não é mais sobre o custo das tecnologias, é sobre organizarmos, fazer planejamentos e fazer funcionar. Acredito que na próxima década no Brasil, particularmente no nível municipal e estadual, vamos ver uma grande revolução.

Tilt: Como essa revolução vai acontecer?

André Clark: Vamos ver isso acontecendo e começando talvez com a privatização de saneamento público, iluminação pública, vamos ver mudanças nos modais de mobilidade. Por quê? Porque hoje o modelo de concessão é desenhado para termos ônibus operando por três anos, então vender, comprar outro e fazer dinheiro dessa troca. Quando eletrificarmos isso esse modo acabou. Além disso você reduz o consumo de energia, não tem barulho, temos menos poluição e nós cidadãos vamos demandar isso.

E as cidades vão competir uma contra a outra. Tem cidades que estão dando dinheiro para companhias irem até lá e criarem empregos, em outras as companhias estão pagando para estar lá porque a qualidade de vida é melhor. Se o futuro é sobre talento, as cidades vão competir por esse talento, pela qualidade de vida e então vão competir. Cidades vão ter que atrair boas pessoas que realmente queiram viver lá e prosperar. De outro modo não vão gerar empregos e não vão atrair empresas, particularmente trabalhadores digitais que trabalhem de casa. Eles querem ter uma boa qualidade de vida, querem sair na cidade e ter uma vida decente.

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Tilt: E você acha que o 5G vai ser decisivo nessa mudança?

André Clark: Com certeza. O 5G não é sobre o celular. As operadoras nem estão querendo lidar com isso. 5G é sobre nova economia, sobre como dispositivos conversam com dispositivos. É sobre economia de energia, sobre a eficiência de energia. Essa semana estávamos discutindo exatamente isso. Nós, brasileiros, somos educados a sermos extremamente preocupados quando a região amazônica sofre um desflorestamento. Nós não somos ainda preocupados quando estamos simplesmente desperdiçando um monte de energia, poluindo o rio, poluindo o ar. Ou tirando o transporte público e comprando carros privados.

A próxima geração vai se preocupar com isso. Então está rolando. É uma grande mudança, uma grande pressão até para a estabilidade política do sistema porque o Brasil é a terceira maior democracia urbana do mundo, 86% das pessoas moram em cidades. Eles vão dizer o que querem. Nós estávamos conversando com pessoas daqui do Governo de São Paulo, do governo brasileiro e precisam acelerar mudanças ou vão perder seus empregos. Nós, as pessoas, vamos tirá-los.

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