Menos carros, mais caronas

Para Noam Bardin, do Waze, quanto menos pessoas usarem seu aplicativo, melhor

Bruna Souza Cruz De Tilt, em São Paulo
Simon Plestenjak/UOL

Anda. Para. Anda por alguns segundos. Para por outros tantos minutos. Com vocês, o culpado: o trânsito. A vida em uma cidade (grande e em muitas das pequenas também) requer mais do que paciência para enfrentar o problema diário do excesso de veículos.

Para ajudar a conter o estrago, algumas tecnologias começaram a ser usadas. Uma das mais populares no momento é o Waze, aplicativo que tem como trunfo oferecer rotas alternativas em tempo real para fugir do trânsito. Tudo criado com a contribuição dos próprios usuários, os wazers.

Mas quem vê o sucesso da plataforma não imagina que o presidente-executivo da empresa, o israelense Noam Bardin, tem um plano bem diferente para o futuro. Seu sonho é ver o número de usuários do aplicativo diminuindo enquanto o seu sistema de caronas compartilhadas, o Carpool, cresce no gosto popular.

Em passagem rápida pelo Brasil em novembro, Bardin conversou com Tilt e revelou detalhes sobre a sua trajetória e a visão de futuro para o Waze.

O começo de tudo

Noam Bardin pode ser considerado um patrimônio do Waze. A plataforma surgiu em 2009, e no mesmo ano o economista e cientista político assumiu o cargo de presidente-executivo. A empresa foi comprada pelo Google em 2013 e Bardin se manteve no cargo até hoje.

Hoje, dez anos depois de ver a companhia dar os primeiros passos, o executivo mira em uma mudança radical de posicionamento: quanto menos pessoas usarem o Waze, melhor. Mas, claro, isso não será em vão.

Os esforços do executivo atualmente se concentram em encontrar formas de estimular as pessoas a usar o aplicativo de caronas Waze Carpool, um sistema que liga motoristas com assentos sobrando no carro a usuários com destinos próximos do trajeto dos condutores.

O executivo está tão empenhado nisso que nem mesmo o fato de o Waze estar perdendo dinheiro com o Carpool é motivo para desistir do objetivo. Para ele, vai valer a pena.

"Não gostava de tecnologia"

Tilt: Como foi o seu começo no Waze? Pode dar um panorama geral da evolução do app?

Noam Bardin: Entrei no Waze em 2009 e era um pequeno projeto em Israel que estava apenas começando. Na verdade, o Waze foi o primeiro aplicativo que eu já instalei no meu telefone [antes mesmo de virar executivo-chefe]. A primeira decisão que tive que tomar na empresa foi criar uma versão do Waze para o Blackberry [celular que foi muito popular, mas foi descontinuado] ou iPhone. Felizmente, eu escolhi o iPhone. É por isso que estou aqui. Se fosse o Blackberry, eu não estaria aqui.

Mas era um mundo diferente. Aí, as lojas de aplicativos começaram e tudo começou. Na época, os mapas [de navegação] não eram gratuitos. Então, estivemos entre as primeiras empresas a oferecê-los gratuitamente. A única razão pela qual conseguimos fazer isso é porque tivemos essa comunidade maravilhosa que ajudou a construir o mapa. Isso faz com que seja muito pessoal. É alguém local que decide, e não alguém em uma parte diferente do mundo olhando para uma imagem de satélite.

Tilt: E como a tecnologia apareceu na sua vida?

NB: Isso é também engraçado. Meu pai é um cientista da computação. Ele era engenheiro. Mas eu odiava tecnologia. Quando éramos crianças, meu irmão costumava trabalhar no computador e eu brincava lá fora [de casa]. Na universidade, estudei economia e ciência política. Queria salvar o mundo. Lá, conheci algumas pessoas que estavam iniciando uma startup. E foi a primeira vez que conheci esse conceito. Isso era 1995, em Israel.

As startups eram novas e o capital de risco era novo. Todo esse espaço da internet estava apenas começando, ninguém sabia o que fazer. Então, começamos a construir coisas. Construímos uma empresa que fazia chamadas telefônicas na internet. Acabei dirigindo o lado tecnológico e consegui uma rede que chegava a vários países. Foi a minha introdução na tecnologia. Desde então, eu fui fisgado.

O Brasil, o queridinho

Quando o assunto é Waze, os brasileiros estão em alta. Segundo Bardin, 14 milhões de usuários usam mensalmente o app por aqui. São Paulo e o Rio de Janeiro são os estados campeões de uso. Além disso, mais de 850 brasileiros ajudam por mês a editar os mapas online da plataforma.

Tilt: Voltando um pouco ao Waze, o que o Brasil representa para a empresa hoje? Existe alguma característica única do mercado nacional?

NB: O Brasil é o nosso segundo maior mercado depois dos Estados Unidos. A comunidade é muito, muito ativa. Testamos muitos dos nossos novos recursos aqui. E temos muitas ideias para novos recursos aqui.

Lançamos o Carpool e o Brasil é nosso segundo país depois dos EUA. É, de longe, a adoção mais rápida que já vimos. O Brasil lidera nossas decisões em relação ao transporte compartilhado. Perguntamos o que o mercado brasileiro precisa. Depois, perguntamos o que é que o mercado americano e o que outros mercados precisam. Isso significa que existe muita motivação. As pessoas querem achar outras soluções [para o congestionamento]. Em São Paulo, se passa um mês por ano no trânsito. Pense no custo disso.

Os brasileiros são um dos primeiros a adotar novas tecnologias. O Google vê isso. O Facebook vê isso. A abertura dos brasileiros para experimentar coisas novas é anos à frente de outros países. Eles têm ideias, eles nos pressionam. Por isso, venho ao Brasil pelo menos uma vez por ano. Temos muitos brasileiros trabalhando para nós. São pessoas muito, muito abertas e criativas.

Dominado pelo Google ou parceiro?

Tilt: Como funciona a relação do Waze com o Google? As empresas dividem os dados dos usuários?

NB: Mantemos muito separados, temos a nossa própria marca. Meu email é Waze, nós somos a nossa própria entidade. Mas fazemos parte do Google. Não compartilhamos dados do usuário, mas compartilhamos dados sobre o tráfego em torno de mapas. O Google compartilha com a gente os dados de pesquisa, certo? Então, se você fizer pesquisas no Waze, usaremos a pesquisa do Google para ajudar a encontrar os lugares e coisas assim. Há muita cooperação entre as duas. Mas temos autonomia.

Fazer parte do Google também significa que podemos planejar muito mais do que uma startup poderia. E acho que o Carpool é um ótimo exemplo, é algo que estamos trabalhando e requer uma mudança de comportamento. Vai demorar muito tempo para que isso aconteça. Mas, sendo parte do Google, podemos pensar nesta situação em algo de anos e não de meses.

O que o Waze sabe sobre você

Tilt: Que tipo de dados o Waze coleta e armazena dos usuários?

NB: Primeiro, há dados pessoais sobre quem você é. E depende de você decidir se deseja nos dar. Assim, você pode ser completamente anônimo ou você pode nos fornecer o seu email, seu nome. Segundo, coletamos os rastros do seu GPS, onde você está e qual velocidade está indo. É assim que o sistema do Waze funciona. Quando você se depara com o trânsito, basicamente diz às pessoas atrás de você: 'Ei, estou diminuindo a velocidade'. Então, direcionamos as pessoas para direções diferentes.

Mas as regras do jogo são: se você usa o Waze, você precisa contribuir. Então, assim como você deseja aproveitar os dados de outras pessoas, sabendo o quão rápido elas estão indo, você tem que compartilhar o quão rápido você está indo. Se você não estiver disposto a fazer isso, não fará parte da comunidade.

Tilt: E quanto à privacidade? O que a empresa faz para proteger nossos dados? E o que faz em relação à segurança dos usuários que compartilham o serviço de caronas?

NB: As duas coisas estão conectadas. Precisamos mostrar informações para você tomar uma decisão. Por isso, não vamos dizer com qual motorista você deve se sentir à vontade. Mas mostraremos todos os condutores que partem ao mesmo tempo e que moram perto de você. Vamos mostrar onde eles trabalham, se eles possuem perfis no Facebook, se vocês têm amigos em comum.

Só que, para isso, você precisa compartilhar esses dados conosco, para que também possamos mostrá-los para outros usuários. Funciona como uma comunidade de pessoas que estão compartilhando dados, mas cada indivíduo toma a decisão de como deseja seguir. Quando se trata de privacidade, essas coisas funcionam juntas. Protegemos com criptografia. E os dados devem ser reais. Verificamos o seu telefone para garantir que você seja real.

O futuro com inteligência artificial

Tilt: Como o Waze trabalha com inteligência artificial? E como imagina o futuro?

NB: Muito da nossa plataforma realmente aprende com o que as pessoas estão fazendo. Sabemos em tempo real o quão rápido elas estão. O aprendizado de máquina é realmente uma área que investimos.

Vou dar um exemplo: conhecemos os limites legais de velocidade em todo o mundo. Como poderíamos conhecer os limites legais em todo o mundo? Então, olhamos para as velocidades médias que as pessoas estão dirigindo e pedimos à comunidade que nos envie qual é o limite real de velocidade. Em seguida, o sistema começa a aprender e podemos prever então qual é realmente o limite de velocidade. É um espaço fascinante.

Tilt: As assistentes de voz estão ficando populares por aqui. O que o Waze pensa sobre? Elas podem ser implantadas no app aqui no Brasil?

NB: Acabamos de anunciar há algumas semanas que estamos integrados ao assistente [de voz] do Google. Quando for dirigir, você pode dizer 'Ei, Google. Me fale sobre trânsito?'. Você pode dizer 'Ei, Google. Me leve para casa' e ele saberá o seu endereço residencial. Ser capaz de se comunicar com a voz é crucial quando se está dirigindo. Isso obviamente é grande. Você pode conversar, digitar, procurar fazer gestos, o que é outra coisa que o Android está lançando. Mas, quando estou dirigindo, eu quero conversar.

Tilt: E existe alguma data para que o Google Assistente no Waze chegue ao Brasil?

NB: Está disponível em inglês no Brasil, mas ainda não está em português. Estamos trabalhando nisso. É um dos primeiros idiomas que vamos lançar depois do inglês. Temos ideias divertidas sobre para onde podemos levar as coisas quando tivermos voz. Mas primeiro precisamos que funcione em português. Esse é o nosso primeiro passo.

O Waze piora o trânsito?

Tilt: Alguns estudos sugerem que aplicativos como o Waze, que oferecem rotas alternativas, podem acabar piorando o trânsito. Como você vê essa questão?

NB: Tentamos compartilhar o tráfego em todas as estradas. Você pode culpar o Waze, você pode dizer que ele é um problema. Mas, no final do dia, o problema é que há carros demais e não há muitas opções por aí. Todos somos culpados. Todos precisamos assumir a responsabilidade por isso.

Você pode culpar o Waze se isso deixar alguém feliz, mas estamos tentando fazer o melhor possível com as ruas que já existem. Quando você voltar para casa hoje, observe os carros ao seu redor. Veja quantas pessoas estão sentadas sozinhas no veículo.

Caronas, caronas e mais caronas

Tilt: O Carpool começou a funcionar no Brasil há cerca de um ano. Por que investir em um sistema de carona? A solução de vocês já teve algum impacto no resultado financeiro do Waze?

NB: A carona é realmente sobre tirar os carros das ruas. Hoje, estamos tentando superar o trânsito e encontrar maneiras de contorná-lo, mas estamos sem opções. Está tudo cheio e, por isso, temos que tirar os carros da rua. Quando você dirige da sua casa para o trabalho, está levando quatro lugares vazios com você. Os assentos estão indo de qualquer maneira, certo? Se pudermos colocar um vizinho em um dos lugares, ele poderá deixar o carro na casa dele. E esta é a essência do Carpool.

O que vimos acontecer aqui é que as pessoas que experimentam a carona economizam tempo, economizam dinheiro.

Atualmente, estamos perdendo dinheiro com o Carpool. Pagamos muito mais ao motorista do que o passageiro paga. Isso é porque estamos montando o serviço e precisamos mudar o comportamento e as percepções que as pessoas têm. Estamos pensando nisso como uma solução a longo prazo.

E, não! Não precisamos esperar pelos carros autônomos [que dirigem sozinhos]. Podemos tirar os carros da rua hoje. Se ainda estivermos sentados sozinhos, o trânsito não vai desaparecer. Podemos jogar em nossos telefones enquanto eles dirigem, mas levaremos duas horas para chegar ao trabalho. E isso faz parte da missão no Brasil.

Nós somos o problema

Tilt: O que você espera para os próximos dez anos de Waze?

NB: Digamos, 50 anos. Dez anos é difícil. Construímos as nossas cidades em torno de nossos carros. E se os construíssemos em torno das pessoas? Para chegar lá, porém, temos que mudar um pouco como vivemos.

Muitas mudanças precisam acontecer nas próximas décadas. Pense em todos os estacionamentos, garagens, todas as estradas. O que aconteceria se pudéssemos transformá-los em parques ou transformá-los em negócios, casas ou em algo mais?

O que estamos fazendo hoje não é sustentável. Nós estamos sofrendo com o trânsito. É algo que afeta todos. Por isso que todos temos que assumir a responsabilidade. Nós somos o problema. O que é o trânsito? Não são algumas pessoas loucas, somos nós. O que você faria se tivesse mais duas horas por dia para si mesmo?

Tilt: Você acredita que reduzir o número de carros nas ruas é uma solução. Mas as pessoas usariam menos o Waze, certo?

NB: Meu sonho é que menos pessoas usem o Waze porque todos estarão sentados juntos em um mesmo carro. Não conseguimos encontrar outra alternativa. São carros demais, estradas insuficientes. Ninguém está construindo mais estradas e todo mundo está comprando mais carros. Este é realmente a próxima fase da nossa missão.

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