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'Música é história, não 15s': Rennan da Penha quer inovar funk sem TikTok

Rennan da Penha Imagem: Divulgação

Luiza Souto

Colaboração para Splash, do Rio

31/10/2023 04h00

Em seus 14 anos dedicados ao funk, Rennan Santos da Silva, conhecido como DJ Rennan da Penha, 30 anos, criou o famoso Baile da Gaiola, um marco no cenário carioca, e foi um dos pioneiros do acelerado Funk 150 BPM (batidas por minuto), a partir de 2015. Apesar disso, recebeu críticas dos amantes do funk melody.

Os tempos são outros e não foram só as batidas que ficaram mais rápidas, mas os ponteiros também: com a ascensão do Tik Tok, usuários daquela rede têm feito sucesso com 15 segundos de música — cantando ou dançando. E desta vez, quem está puto é o Rennan.

"Em 2017 e 2018 tivemos a ascensão do funk porque a gente fazia música, e não montagem. Hoje, o câncer do Rio de Janeiro é o MC cantar uma música de ponta a ponta no estúdio para outro cara pegar só alguns segundos, um trecho tipo "senta, senta, rebola, rebola". Não posso comercializar isso", ele justifica em conversa com Splash.

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Em julho último, Rennan virou notícia após viralizarem imagens do símbolo do TikTok com um sinal de proibido por cima, exibidas em telões durante seu Baile da Selva — antigo Baile da Gaiola: ele não gosta que toquem hits daquela plataforma.

Para a reportagem, o DJ diz não ter problema com a plataforma em si, mas acha que sua música não deve ficar limitada a passinhos. Reclama ainda que muitos artistas estouraram hits durante a pandemia, mas não tiveram visibilidade por conta desse mecanismo de divulgação.

Reconhece, todavia, que o aplicativo mudou a vida de muitas pessoas, embora, para ele, a música tenha perdido sua qualidade:

"Eu não proibi nenhum DJ de tocar absolutamente nada. O problema é que as pessoas hoje só enxergam aquilo ali como uma luz no fim do túnel. Cadê a música que você faz a pessoa pensar? Podem me chamar de maluco, conservador, o que for, mas eu acho que a música está se perdendo em troca de um aplicativo que imita o som."

O dono da Hitzada, produtora de músicos como Puterrier, MC Rogê e Savanah, estende sua crítica à debandada de artistas do funk para o trap, uma vertente do rap muito presente em São Paulo. Para ele, se artistas pensassem mais na música do que na fama, o funk carioca estaria novamente no topo, sem precisar de 15 segundos:

"O funk do Rio tem um tempero diferente, porque começou aqui. Quando a gente inova, contagia o mundo todo. As pessoas têm que agradecer ao Complexo da Penha porque as músicas chegaram lá fora por causa de uma comunidade. Se a gente parar de produzir, dá merda para eles. A música marca uma história, não só 15 segundos."

"Tirei cadeia à toa"

Os dois períodos de seis meses que passou na cadeia também contribuíram para a queda de produção do funk carioca, na visão do artista.

Em 2015, ele foi condenado a 6 anos e 8 meses de reclusão por associação ao tráfico de drogas, mas as únicas "provas" eram mensagens de WhatsApp avisando da subida de um blindado da polícia — comuns na comunidade —, uma foto em que segurava uma réplica de um fuzil de madeira, tirada no Carnaval, e outra apertando a mãe de um criminoso.

Foi preso em dois momentos: de janeiro a julho de 2016, e de maio a novembro de 2019. Chegou a ficar em cela com 100 pessoas, mas recorreu e foi absolvido pelo STJ em junho passado. Alega nunca ter envolvimento com atividades ilegais, e que ter seu trabalho associado a crimes o levou à depressão.

"Tirei cadeia à toa. Queriam me prender. Tanto que o tal bandido [da foto] está solto. E nem torço pelo contrário. Ele é conhecido meu e escolheu aquilo para ele, como escolhi viver de arte."

Hoje, não faz terapia, mas usa a maconha para relaxar. "Não pode faltar meu baseado. É a minha terapia, assim como ouvir música dos anos 70", diz ele, expulso de casa aos 16 porque o pai achou que o filho havia fumado a erva. "Pior que naquele momento nem estava."

"As pessoas só olham o lado negativo da coisa"

Hoje, Rennan e dois amigos lideram o Baile da Selva todos os sábados. O nome antigo, que era uma homenagem a um bar cercado por grades, foi proibido pelo Estado, mas o atual segue da mesma forma.

Ainda não alcançou a mesma popularidade de outrora devido a intervenções negativas das autoridades, na avaliação dele. O artista acredita que se o governo apoiasse mais a música, eventos como o seu poderiam prosperar ainda mais, beneficiando ambulantes e a comunidade local.

"A gente reúne, a cada baile, cerca de 80 ambulantes. No auge de 2018, tinha vendedor levando R$ 17 mil por noite. Fora o comércio da comunidade como salão de beleza, para onde as meninas correm antes de ir para o baile", ele enumera.

"Mas as pessoas só olham o lado negativo da coisa. Se a gente tivesse um governo que realmente abraçasse a música, poderia ter tudo padronizado, com os trabalhadores com CNPJ para registrar cada barraca."

"A gente furou essa bolha há muito tempo"

Muitos dos ataques contra o estilo musical nascido no Rio de Janeiro deve-se a letras com conteúdo sexual e que citam crimes. Recentemente, o alvo foi a MC Pipokinha, conhecida como "rainha da putaria".

Amigo da cantora, Rennan diz que as críticas contra ela e outras mulheres que interpretam letras de cunho sexual partem de pessoas com mente fechada.

"Ela veio aqui em casa gravar e puxou uma oração. Mandou todo mundo fechar o olho, dar as mãos. Depois, rasgou o verbo cantando um montão de putaria. É uma coisa que tá no artista. Eu posso não gostar, mas não posso ficar dando hate."

Rennan acredita, no entanto, que o preconceito contra funkeiras têm reduzido, talvez porque as pessoas aprenderam a respeitar mais as diferenças. Ele aponta, por exemplo, que o funk andou abraçando a comunidade LGBTQIA+. Tanto que no próximo 11 de novembro, ele fará a segunda edição da Parada LGBTQIA+, no Complexo da Penha.

Para ele, a primeira foi das melhores recepções que recebeu do público: "Até o chefe do tráfico mandou todo mundo ficar de boa, e avisou que se tivesse agressão contra algum gay haveria consequências", lembra.

Rennan, que foi indicado ao Grammy Latino 2019 com "Me Solta", com Nego do Borel, e venceu duas estatuetas no Prêmio Multishow daquele ano, nas categorias Canção do Ano e Melhor Produtor com "Hoje Eu Vou Parar na Gaiola", com Mc Livinho, agora espera quebrar novas barreiras.

"Olha quanto prêmio ganhamos. Vou ficar me importando com essas pessoas que olham a gente como uma minoria? Pelo amor de Deus. A gente furou essa bolha há muito tempo", finaliza.

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