Topo

Daniela Mercury aos 40 anos de carreira: 'Minha arte sempre foi politizada'

De Splash, no Rio

22/10/2023 04h00

Era dezembro de 1992 quando Daniela Mercury, uma jovem cantora baiana, aterrissou no Rio de Janeiro sem saber que faria um dos shows mais emblemáticos da sua carreira. Para 40 mil pessoas, na Praça da Apoteose, cantou os sucessos do recém-lançado "O Canto da Cidade", disco que ajudou a popularizar o axé nos quatro cantos do país.

Pouco mais de 30 anos depois, ela volta à Apoteose para relembrar aquela apresentação e comemorar 40 anos de carreira — na década de 1980, ela foi backing vocal da Banda Eva, um celeiro de grandes vozes do axé, gênero que Daniela entende ser uma "realização do sonho democrático" da Tropicália, como conta Daniela Mercury, em entrevista exclusiva para Splash.

Falar da trajetória de Daniela sem falar de política é quase impossível. Também não dá para falar de Daniela sem pensar nas transformações do axé ao longo desses 40 anos — e vice-versa. A artista ajudou a construir um gênero que mistura diferentes ritmos. A própria Daniela já passeou por acordes mais roqueiros, dançou sambas e reggaes, frevos e outros ritmos pop, sem esquecer da influência da música afro.

Relacionadas

O palco é o lugar da minha expressão mais importante, a minha arte sempre foi muito politizada, porque ela está conectada com as lutas pelos direitos humanos, as questões humanas do meu país, da minha cidade e do meu povo. Eu me liguei muito nos compositores dos blocos [afro, como Ilê Aiyê e Olodum], porque eles tinham temas relacionados à luta contra o racismo, contra a exclusão. Daniela Mercury

Daniela Mercury durante show no MASP, em 1992 Imagem: Arquivo

Afinal, como será o show comemorativo?

Daniela quer levar a Bahia para terras cariocas. A cantora convidou os blocos afros que sempre caminharam lado a lado com ela: Olodum, Ilê Aiyê e Didá — banda formada inteiramente por mulheres. Ela será acompanhada pelos filhos Gabriel e Giovana. Ninguém melhor que eles para cantar e a coreografar as músicas que a mãe escolheu para o repertório.

Daniela Mercury no show O Canto da Cidade (1992) Imagem: Arquivo

Fiz [o repertório] pensando em prestigiar a memória afetiva dos fãs, no sentido de buscar canções que muitos não tinham me visto cantar, como 'Vida É' (1991). Fiquei dividida entre escolher as músicas que eu mais gostava, as mais importantes, as que mais tocaram, ou as que eram mais estranhas a um público mais jovem, que é mais divertido mostrar. Daniela Mercury

Os fãs podem esperar por músicas e coreografias dos primeiros discos da artista, como "Swing da Cor" — primeiro hit solo da baiana —, "Ilha das Bananas" e "Rap Repente". Ela também vai cantar "Pega Que Oh", divulgada em 1991 com a Companhia Clic.

Vou trazer as sombrinhas [de 'O Canto da Cidade'], fui atrás desses guarda-sóis coloridos pelo país, resgatar as coreografias. Tudo vai ser surpreendente, até para mim mesma, porque tem muitos anos que eu não faço algumas dessas músicas. Fico doidinha [para não esquecer a letra]. Fui resgatar coreografias antigas de 'Rapunzel', e tem vários detalhes diferentes que fomos mudando. Daniela Mercury

O show está programado para às 17h, dentro da programação Micareta Rio, evento que faz um Carnaval fora de época na cidade maravilhosa. Daniela vai se apresentar em cima do trio. "Nos ensaios com os blocos, percebi que a gente está tocando [as músicas com] a levada e a divisão rítmica completamente diferente do que a gente tocava há 30 anos. Naquela época foi o Neguinho do Samba quem me ensinou. Será que nós nos perdemos um pouco no caminho? A gente vai mudando, nem se dá conta, a gente perde um pouco aquela estrutura."

Parece que a gente resolveu fazer um baile com o tema antigo, um regate de vida, uma coisa que a gente não se lembra mais e que vai viver de novo. É um pouco essa sensação. Daniela Mercury

Daniela Mercury durante show no Rock in Rio Lisboa 2004 Imagem: Arquivo

Parcerias

Daniela terá ainda a companhia de Ivete Sangalo em algumas músicas. "Vamos cantar uma canção do lado B dos meus álbuns, 'Rede', e uma do lado A, mais de Carnaval, porque é ali que a gente se conecta fortemente. As duas guerreiras do axé brasileiro. Sem ela, o axé não seria o que é. Sem ela e sem todos, como disse Gil, o axé virou gênero porque várias gerações foram seguindo o gênero."

A cantora ainda escolheu Luisa Sonza para completar o time, quem ela tece elogios. "Ela é super corajosa, uma cantora admirável, amei o fato de ela trazer Bossa Nova... Vamos cantar 'Chico' e 'Nobre Vagabundo' e fazermos uma homenagem juntas."

E uma parceria muito importante será celebrada ao vivo. Daniela fará uma surpresa a esposa, a jornalista Malu Verçosa. Para saber o que é, os fãs precisaram acompanhar o evento. Elas, que têm três filhas juntas — Marcia, Alice e Ana Isabel foram adotadas em 2012 —, completaram dez anos de casadas no último dia 12 de outubro.

Espero vocês com todo o amor que eu tenho no coração lá na Apoteose. Para vocês celebrarem esse dia tão mágico comigo e eu poder agradecer por esses anos todos em cima do palco. Vamos lá ver o samba-reggae e saudar os sambistas do Rio e da Bahia.
Daniela Mercury

Relembre o show "O Canto da Cidade", realizado na Apoteose em 1992, que virou especial de fim de ano na Globo.

Comunicar erro

Comunique à Redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Daniela Mercury aos 40 anos de carreira: 'Minha arte sempre foi politizada' - UOL

Obs: Link e título da página são enviados automaticamente ao UOL

Ao prosseguir você concorda com nossa Política de Privacidade