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Mauro Cezar Pereira entrevista personagens de destaque do universo esportivo


Futebol brasileiro virou refém do Ministério Público, diz autor de Forasteiros

Do UOL, em São Paulo

12/08/2021 14h45

Autor do livro Forasteiros, que relata a saga de torcedores visitantes em estádios de futebol no Brasil e no exterior, o jornalista Rodrigo Barneschi afirma em entrevista a Mauro Cezar Pereira, no programa Dividida, do Canal UOL, que o futebol brasileiro se tornou refém do Ministério Público nos últimos anos, com medidas que dificultam a presença de torcedores acompanhando seus clubes fora de casa. Ele vê as restrições como pouco efetivas no controle da violência no futebol e lamenta que elas não sejam devidamente questionadas.

O jornalista afirma que as decisões que em um primeiro momento faziam sentido durante a década de 1990, quando havia um grande número de brigas entre torcedores nos estádios, mas não vê sentido hoje em medidas como a torcida única, citando que ela não tem servido para coibir a violência, já que os problemas ocorrem longe das arenas esportivas, em bairros distantes e mesmo em outras cidades.

"Essa agenda foi sendo imposta ao longo das últimas décadas. Eu costumo dizer que o futebol brasileiro virou refém do Ministério Público. O Ministério Público lá em 1995, para dar uma resposta à sociedade para a batalha campal do Pacaembu, proibiu as torcidas, tomou uma série de medidas restritivas que faziam sentido até em certo aspecto, mas aí foi endurecendo e aí contou com a complacência da polícia, da imprensa e foi ganhando peso não só em São Paulo, mas também em outros estados", cita Barneschi.

Ele cita a forma como o Ministério Público agiu para que não houvesse público visitante no jogo entre Palmeiras e Flamengo, no Allianz Parque, em 2019, com o mesmo ocorrendo na partida entre Cruzeiro e Palmeiras, no Mineirão, que marcou o rebaixamento do clube de Belo Horizonte, além de citar o confinamento dos torcedores visitantes a espaços cada vez menores, o que muitas vezes transforma o cenário de forma mais bélica para os que se arriscam a ver seu clube em outras arenas.

"Essa agenda foi se impondo pouco a pouco e o que me preocupa é o seguinte, São Paulo infelizmente vai sendo sempre o estado que cria as demandas de repressão a torcedores e essas iniciativas vão se espalhando pelo país, porque houve um tempo em que os clássicos em São Paulo tinham essa dinâmica de os clubes tendo casas próprias, Palmeiras, São Paulo, Corinthians e Santos, você confinar o visitante a um pequeno setor no estádio, mas no Rio, por exemplo, os clássicos até poucos anos atrás eram divididos, em Minas também, na Bahia, em outros estados", afirma Barneschi.

"Aos poucos, essa tendência de colocar o torcedor visitante em um confinamento, quase uma jaula, e realmente tem um caráter bélico ali, porque quando você se vê acuado, com 1.500, 2 mil torcedores contra 40 mil, naturalmente você cria um espírito bélico para aquilo, você se sente um representante de um pequeno grupo escolhido para representar a sua coletividade e isso, é o que me preocupa mais, foi se espalhando para todo o Brasil", completa.

O autor cita que a medida de torcida única vigente em São Paulo e adotada também em outros estados acaba com a sociabilidade, além de criar um cenário estranho no futebol, como a comemoração de um gol em silêncio devido à ausência dos torcedores do time visitante.

"Aos poucos você vai perdendo isso, até que um dia um dirigente resolve cumprir o regulamento e falar 'não, só 10% para o visitante'. E aí quando você quebra essa cláusula, essa coisa estabelecida de que tem que ter o espaço para o visitante, você vai ter uma reciprocidade do outro clube, com toda a razão. Aí você perde totalmente a chance de retomar essa sociabilidade, essa busca por espaços divididos", conclui.

O Dividida vai ao ar às quintas-feiras, às 14h, sempre com transmissão em vídeo pela home do UOL e no canal do UOL Esporte no Youtube. Você também pode ouvir o Dividida no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e Amazon Music.