Montanha-russa de moto

Embarcamos a 95 km/h na nova atração de Walt Disney World, em Orlando, inspirada na saga Tron

Eduardo Burckhardt De Orlando, Flórida, Estados Unidos Divulgação/Disney

Eu tinha 5 anos quando estreou nos cinemas "Tron — Uma Odisseia Eletrônica", em 1982. Era ficção científica na veia, com um visual tão icônico que entrou naquela seara de produções cult. O filme marcou época. Porém, confesso que o máximo que consegui buscar na memória foi uma visão no sofá de casa tentando entender aquela "Sessão da Tarde" em que um cara consegue entrar no mundo virtual.

Roda a bobina 28 anos adiante. Em 2010, é lançado "Tron: O Legado". Aí as imagens são mais vívidas. Teve frenesi no lançamento, efeitos especiais deixando Jeff Bridges com cara de garoto, cinemas cheios na estreia.

E foi isso. A saga não chegou a criar tronmaníacos, aquela legião de fãs ávidos pelo próximo capítulo.

Esse background é um desafio para o Walt Disney World, que estreia hoje (4), no parque Magic Kingdom, a TRON - Lightcycle/Run. Como atrair um público sem o apelo de devoção que "Star Wars" e "Guardiões da Galáxia" imprimiram nas últimas montanhas-russas inauguradas no parque? Será que as notícias anunciando que vem por aí o terceiro filme da franquia vão "esquentar" o universo Tron?

Era preciso surpreender para conquistar quem, como eu, teve que resgatar lembranças da saga. E mais: também entreter gente que nem idade tem para cultivar memória afetiva com "Sessão da Tarde".

Fomos ao EUA tirar a prova. A missão da Disney foi cumprida com sucesso.

Piloto por um dia

O túnel de luzes azuis. O clima de ficção científica. O trilho à frente antecipando uma curva fechada. O riso nervoso que antecede a arrancada. A imagem acima resume bem o início da aventura.

Corta. Voltemos alguns minutos. A maior tensão que senti foi antes, quando estava de cara com à lightcycle, o carrinho em forma de moto de corrida que é a grande estrela da atração.

Diferente de outras montanhas-russas, aqui você "monta" no bicho e vai quase deitado de bruços. Coloca as pernas para trás e puxa o guidão que aciona as travas: uma atrás das coxas e a outra nas costas.

Esse foi o momento "onde fui me meter" da história, porque os dispositivos não "apertam" você como as tradicionais barras ou um cintos de segurança dos brinquedos radicais. Lógico que Disney fez zilhões de testes e não tem perigo, mas eu não estava assim tão numa boa quanto os atores da demonstração a seguir:

É dada a largada!

Bobagem de motoqueiro de primeira viagem. A segurança é total e qualquer tensão se dissipa quando começa a jornada.

A posição e as travas "sem aperto" só aumentam a sensação de liberdade e são assim para intensificar a emoção de realmente parecer pilotar a moto.

Cada uma das 14 lightcycles incorpora luzes e alto-falantes individuais que potencializam a experiência sensorial do "piloto".

A Tron - Lightcycle/Run divide com sua irmã gêmea da Disneyland Shangai, inaugurada em 2016, o título de mais rápida dos parques temáticos da Disney.

A velocidade de 95 quilômetros por hora você sente logo de cara, na largada de arregalar os olhos. Fique com esse oversharing:

Depois do bom susto, é só diversão. A reta do túnel de largada leva para o trecho ao ar livre do circuito, sob uma incrível estrutura de aço em "ondas" com mais de 4.600 metros quadrados e iluminada por mais de 1.200 luzes.

É nesta parte que estão as curvas mais longas. Com o vento no rosto e a sensação de estar "cortando" as curvas como num MotoGP, você não sabe se olha para o chão a quase 30 metros abaixo ou para o teto do chamado Canopy, que acende losangos azuis e laranjas à medida que os carrinhos passam — um efeito extra para quem fizer a corrida à noite.

Dentro do videogame

Depois do passeio por fora, as motos entram em alta velocidade no túnel que leva à parte indoor — e mais longa — do percurso.

É aí que a sensação de estar dentro de um game pega de verdade. O circuito no escuro tem uma profusão de luzes, portais neon, curvas sinuosas e projeções gigantes que ajudam os "pilotos" a entrar no enredo bolado pelos Disney Imagineers, como são chamados os engenheiros criativos da empresa.

A história por trás da montanha-russa seria uma continuação do filme "Tron: O Legado", aquele lançado em 2010. O storytelling é que estamos entrando no mundo digital por meio de portais que Sam, filho de Kevin Flynn (vivido por Jeff Bridges lá no primeiro longa, de 1982), conseguiu abrir.

No Grid — a pista em si —, nossa missão é disputar, pela equipe azul, uma corrida contra o famigerado time laranja, a turma do mal. Vence quem cruzar antes os oito "portais de energia" distribuídos pelo percurso — não preciso dizer que os mocinhos sempre vencem, né?

A nova montanha-russa de Orlando é considerada — assim como a dos "Guardiões da Galáxia" e a de "Star Wars" — uma story coaster, ou seja, toda essa história acompanha os visitantes desde muitos antes de subir nos carrinhos. Confira alguns detalhes:

Divulgação/Disney

THE GRID

Na história: o mundo digital criado pelo gênio da computação Kevin Flynn no filme "Tron -- Uma Odisseia Eletrônica" -- e no qual ficou preso.

Na real: o complexo de mais de 40 mil m² que mudou a paisagem da área Tomorrowland da Disney de Orlando com esta impactante estrutura futurista.

Eduardo Burckhardt/UOL

DIGITALIZADORES

Na história: duas câmaras onde acontece o "procedimento de digitalização" dos usuários, enviando-os para o mundo virtual.

Na real: os corredores com projeções, luzes e efeitos visuais que distraem os visitantes durante a fila e ajudam a entrar no clima de Tron.

Disney

CÂMARA DE SINCRONIZAÇÃO

Na história: estação onde usuários embarcam nas lightcycles e sincronizam seus corpos aos veículos.

Na real: o ambiente de largada, que causa um impacto tremendo ao ver as motos enfileiradas e os neons azuis.

Conjunto da obra

Além da ambientação com todo esse apelo visual que dá o clima de entrada no game, a música feita exclusivamente para a atração também tem papel importante.

Criada por Joseph Trapanese, que trabalhou com Daft Punk na trilha sonora de "Tron: O Legado", ela acompanha a corrida e sincroniza com a profusão de efeitos visuais disparados especialmente durante o trajeto na área interna da montanha-russa.

O time laranja corre lado a lado às nossas lightcycles em projeções que pululam no ambiente escuro. Somadas a túneis e explosões de luzes e à própria iluminação das motos — nas rodas e na traseira dos assentos — está completo o cenário que te transporta para o mundo virtual.

A experiência na Tron - Lightcycle/Run é intensa, mas rápida: leva-se cerca de um minuto para percorrer os quase mil metros do circuito.

E se vocês, como eu, estiverem tão imersos na atração para captar todos os detalhes da história nesse tempo, a imagem a seguir é uma provinha do que a montanha-russa oferece, com direito à projeção de um "inimigo" laranja sendo deixado para trás. Perdeu!

Um gêmea chinesa

A nova atração da Disney em Orlando já passou pelo teste de fogo dos visitantes bem distante dali, na Disneyland Shanghai.

Após 10 anos desenvolvimento, foi inaugurada na China, em 2016, a primeira montanha-russa do universo Tron, praticamente idêntica à irmã caçula norte-americana que acaba de nascer.

Para cruzar continentes, algumas alterações foram feitas. "Quando pensamos em replicar uma atração, sempre reservamos um tempo para voltar à história original e entender como ela vai se relacionar com o parque para a qual está indo", disse Chris Beatty, diretor criativo do Walt Disney Imagineering à revista da Disney.

"Aqui em Orlando, a atração é bem similar à de Xangai, mas desenvolvemos pequenas alterações para adaptá-la ao espaço no parque. É o caso, por exemplo, das luzes da estrutura externa, com mais tons de azul, para combinar melhor com Tomorrowland", explica a Nossa Missy Renard, diretora criativa do Walt Disney Imagineering. Outra mudança foi a criação de músicas adicionais.

"A Tron - Lightcycle/Run traz um pouco mais de adrenalina para o Magic Kingdom. Mas, apesar de chegar a 95 km/h, ela é para a família toda, com altura mínima de 1,22 metro para entrar. Então a criançada pode curtir", diz Anna McCarthy, porta-voz de Walt Disney World para o Brasil.

Disney

Fila virtual e fura-fila

Não há fila convencional para entrar na nova montanha-russa. Como já acontece na atração de "Guardiões da Galáxia", o sistema é de fila virtual. Veja como funciona:

  • O primeiro passo é já ter a entrada para o parque Magic Kingdom.
  • Por meio do aplicativo My Disney Experience, você entra na fila virtual.
  • As vagas abrem entre as 7 e 13 horas (neste horário da uma da tarde é obrigatório já estar no parque).
  • As vagas são limitadas: uma dica é se preparar uns 5 minutos antes das 7 horas para entrar com tudo certo e garantir seu lugar.
  • Ao entrar na fila virtual, você recebe um número e uma estimativa de tempo para ser chamado.
  • O aplicativo manda um aviso quando chegar sua vez. A partir daí, há um tempo para ir à atração e entrar na fila normal.

Outra opção é comprar a entrada individual na Lightning Lane da atração, uma espécie de "fura-fila" para a montanha-russa. Esse passe é cobrado (valor varia de acordo com o dia) e a disponibilidade é limitada.

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* O jornalista viajou a Orlando a convite de Walt Disney World Resort.

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