São João do reencontro

A alegria voltou para as pessoas que vivem das festas juninas em Caruaru. Conheça a história de 6 delas

Fotos de Ricardo Labastier

Texto de Maria Júlia Vieira e Maryane Martins, colaboração para o Nossa, de Caruaru

O São João em Caruaru não acontece em um dia. É um mês inteiro. Na verdade, para muitos, uma vida inteira. Por dois anos, a cidade esteve distante da atmosfera que traz o período junino. Não viu o colorido das bandeirinhas, não sentiu o cheiro das fogueiras, nem o calor de reunir uma multidão.

Agora, seis personagens, que são parte importante desse período, falam sobre os significados dessa festa e sobre a alegria do reencontro. No palco de suas vidas, o espetáculo do São João não tem fim.

KIKA,
A BACAMARTEIRA

Os tiros de bacamarte anunciam o começo dos festejos juninos. Segundo a tradição, o estampido das armas tem a função de acordar os santos para os arraiás. Várias são as histórias sobre o início do folguedo, porém, sua continuidade remonta a uma só versão: manter acesa a chama das manifestações da cultura popular pernambucana.

Para a bacamarteira Francisca Santos Galvão Batista, 46, a brincadeira representa ainda mais. Fala da ancestralidade e da preservação da memória de sua família. O Batalhão 17 nasceu no dia do casamento dos seus pais, em 1972. Em 2004, com o falecimento do avô, seu pai e seu irmão deram continuidade. Em 2011, com a morte do pai, ela e o irmão prosseguiram a brincadeira.

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Em um folguedo com muitos homens, Kika tem papel de destaque: é a contrachefe. No bacamarte, é comum que os brincantes usem patentes do exército para designarem seus cargos. O nome dos grupos também tem essa característica. Por isso, o termo "Batalhão". Os folguezões usam trajes azuis, lenços vermelhos, chapéus e armas de cano curto e largo chamadas bacamartes.

Junho representa dedicação, organização e responsabilidade para que tudo corra bem. É a melhor festa do mundo. Dois anos sem essa festa trouxe a sensação de medo de nunca mais brincar. Esse reencontro é maravilhoso. Cada dia parece um começo de tudo."

ADRIENE,
A QUADRILHEIRA

Contrariando a vontade dos pais, Adriene Gualberto, 22, começou a dançar quadrilha aos 14 anos. "No início, era brincante, ficava na última fila. Com o decorrer dos anos, fui ganhando destaque. Esse ano, fui a noiva na Quadrilha Junina Flor do Caruá, da minha cidade Caruaru"

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Sua história com o São João começa na infância, sempre foi encantada pelo festejo. Guarda com carinho as lembranças de enfeitar a rua com bandeirinhas, das crianças soltando fogos, de ir procurar madeira para fazer a fogueira.

Sempre achei muito bonito ver a cidade toda enfeitada, muita gente, fui crescendo, conhecendo e me envolvendo."

Há 3 anos, junho ganhou ainda mais sentido para Adriene. No dia 29, quando São Pedro é celebrado, nasceu sua filha. Não por planejamento, mas porque o amor desmedido sempre resulta em belas coincidências. O sexto mês do ano acelera o ritmo do passo e da dança da sua vida. "Quando junho chega, já começa a bagunça. Acabamos vivendo só pela quadrilha."

Viver esse momento, depois de dois anos pandêmicos, trouxe tons mais coloridos aos seus dias. Pôde sentir de novo a alegria e o encanto do São João.

Esse ano está sendo muito especial. Só sinto felicidade. Estava com saudade do calor das pessoas, da receptividade, do São João. Com esse cheirinho de fogueira, o friozinho, o forrozinho que a gente escuta. É a melhor época do ano."

ONILDO ALMEIDA,
O COMPOSITOR

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"Existe uma filosofia que santo de casa não faz milagre e eu não posso dizer isso, eu sou uma exceção." Se tem algo que Onildo Almeida, 93, se orgulha é ser caruaruense. Nascido e criado na Capital do Forró, o compositor, músico e poeta, não precisou sair da cidade para fazer sucesso em todo país.

Onildo teve mais de 300 músicas gravadas por artistas brasileiros. Gil, Maysa, Marinês e seu grande amigo Luiz Gonzaga, que alargou sua relação com o São João. A partir disso, viu o festejo de forma diferente. Ele agora era parte da festa. Suas músicas são a trilha sonora que embala milhares de pessoas.

Onildo sempre foi muito musical. Cresceu em uma família grande e festiva. Piano, bandolim, violão e violino são instrumentos que deram sons a sua infância. Hoje, em sua casa, há sempre música. No São João de Caruaru também é assim. Durante junho, em cada esquina se escuta um forró.

Caruaru é o São João, em todo lugar que você andar, vai lembrar dele. Caruaru é um São João inteiro."

Onildo fala com tristeza sobre os dois anos sem festa mas, hoje, o sentimento é de felicidade. Onildo é o homenageado em um dos 24 polos do evento, o Polo Alpendre do Forró Onildo Almeida. Lá, ele recebe convidados e até canta alguns de seus sucessos, como "A Feira de Caruaru", eternizada na voz de Luiz Gonzaga.

Tenho muita história para contar, muita música. Minha vida é cheia de fatos interessantes e importantes, porque foi uma vida em que eu divulguei, mesmo sem programar, a cidade, o São João."

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VITÓRIA,
A PIFEIRA

Foram 17 anos de vida até conhecer o pífano. Depois dele, Vitória Maryellen, 22, é outra. Agora, ela é Vitória do Pife. Mais do que aprender a tocar o instrumento, a relação foi um batismo. "Queria tocar violão, mas meu pai não tinha dinheiro, então me deu um pífano. Eu nunca tinha ouvido falar do instrumento".

Um tipo de flauta transversal, o pífano é um dos elementos que compõem a sonoridade do São João em Caruaru. Ser uma mulher pifeira é de uma grandeza enorme e Vitória o faz com maestria. O fôlego dela dá som ao pife, mas é ele que dá fôlego a sua vida.

Vitória do Pife contribui para o São João de forma muito significativa. É a única mulher da região que confecciona pífanos, os toca, dá aulas e perpetua a tradição. É muito difícil encontrar jovens que estejam agarrados com a cultura popular dessa forma e que tenham nela a sua subsistência.

Durante a pandemia, o que mais lhe deu saudade foram as apresentações da Orquestra de Pífanos, a única do mundo, e da qual faz parte. Além do reencontro, estar no São João de novo lhe abriu novos caminhos: a estreia do seu projeto solo, "Vitória do Pife".

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O São João é um ponto de felicidade, onde a música esquenta a gente. É como um cobertor pra alma porque chega o tempo frio, a chuva e do nada você escuta o tum tum tum da zabumba, o lengo lengo do triângulo, o fuen fuen da sanfona e aquilo esquenta imediatamente."

MAMUSEBÁ,
O MESTRE MAMULENGUEIRO

"O artista se alimenta de arte." O São João se alimenta da cultura popular. Sebastião Alves, 66, conhecido como Sebá, contribui, com seu teatro de mamulengos, para a criação de um universo encantado que fascina as pessoas. Lá, os sonhos são vividos na prática.

Em um teatro construído sem técnicos, arquitetos ou engenheiros, parece caber a história da cidade inteira, mesmo estando em uma pequena parte dela, na Estação Ferroviária, espaço muito tradicional nos festejos juninos. Os bonecos são confeccionados e ganham vida nas mãos e vozes daqueles que contam as histórias no Teatro de Mamulengos Mamusebá.

Junho é um tempo de cheganças. Sul e Sudeste vêm ver e participar do autêntico forró, com trio pé de serra, cordel, teatro de mamulengos. O encanto da cultura popular está no São João de Caruaru, que é o encontro das almas, das cores, da vida."

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A pandemia não parou a alma inquieta de Sebá. O artista conta que usou o período de reclusão para a construção de seu novo espaço. Precisou mudar o teatro de lugar e usou os últimos anos para finalizar a obra. Mas os finais parecem impossíveis no mundo de Sebá. Sempre há algo para acabar.

Porque o teatro de mamulengos é uma enciclopédia e fala todos os idiomas. O que existe é o amor por essa cidade, pelo seu povo, sua memória. Nesse reencontro, o mais importante é ver o encantamento de toda a gente. Isso é o que fica."

DONA MARIA,
A BOLEIRA

Tudo começou com um sonho. Maria Eugênia, 76, já foi doméstica, auxiliar de serviços gerais, ambulante, e, desde 1998, é a criadora do Maior Pé de Moleque do Mundo, perpetuando a tradição das famosas comidas típicas gigantes do São João de Caruaru.

O pé de moleque surgiu como uma brincadeira da minha filha. Como eu não deixava ela ir para o principal polo do evento, ela trouxe a festa para casa. Fizemos um bolo de três metros, em formato de pé. Aqui no bairro só vinha imprensa para coisa ruim e, com o bolo, eu trouxe muita reportagem para mostrar a festa, a alegria."

Dona Maria do Bolo, como é conhecida, chegou a Caruaru muito jovem e passou por muitas dificuldades para criar, sozinha, os seis filhos. Não sabia ler, nem cozinhar. Sempre quis aprender, mas ninguém lhe ensinou. Então, ela rezava. Em um sonho, escutou uma voz que lhe guiou a primeira receita. E foi na intuição que criou outras tantas. Hoje, se vinga da fome alimentando uma multidão com o Maior Pé de Moleque do Mundo.

Para ela, que foi eleita Patrimônio Vivo de Caruaru, o São João é mais que uma alegria, é uma possibilidade.

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Além do meu bolo, a coisa que eu mais gosto é ver todo mundo ganhando seu dinheiro. Melhora as condições de todos. Nessa pandemia, senti muito pensando nos cantores, nos artistas. Não gosto nem de falar, dá vontade de chorar."

Esse ano, seu Pé de Moleque Gigante, com formato de pé e patenteado por ela, mediu 20 metros e pesou cerca de 1.600 quilos. Nesse mês de junho, Dona Maria vive a alegria do reencontro, com aqueles que têm data e local marcados para sentir o sabor da sua receita, que é única.

Publicado em 23 de junho de 2022.

Reportagem: Maria Júlia Vieira e Maryane Martins

Edição: Eduardo Burckhardt

Imagens: Ricardo Labastier/UOL

Design: Carol Malavolta