Reconstruído

Zagueiro Iago Maidana conta como se recuperou de depressão e síndrome do pânico quando defendia o São Paulo

Eder Traskini Do UOL, em Santos (SP) Alexandre Schneider/Getty Images

Era setembro de 2015. O zagueiro Iago Maidana, então com 19 anos, chegava ao São Paulo como promessa para o futuro. O Tricolor tinha acertado o pagamento de R$ 2 milhões ao Monte Cristo, clube da terceira divisão de Goiás. O mesmo Monte Cristo, dois dias antes, havia contratado o atleta junto ao Criciúma —onde ele vinha se destacando— por R$ 800 mil intermediados pela empresa Itaquerão Soccer.

O negócio levantou suspeitas. Acordos assim culminariam, depois, na renúncia do então presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar. O movimento foi forçado pelo vice-presidente Ataíde Gil Guerreiro, que gravou Aidar confessando desvios de dinheiro no clube. Maidana foi o estopim que desencadeou uma crise política no clube do Morumbi. Mesmo sem culpa alguma nela, o zagueiro sofreu as consequências: foi rebaixado para o time sub-20 e nunca atuou profissionalmente pelo Tricolor.

Mais que atrapalhar o desenvolvimento da carreira do atleta, o caso acarretou problemas sérios para a vida do jovem. Em corajoso depoimento exclusivo ao UOL Esporte, o zagueiro confessou que teve depressão e crise do pânico enquanto era jogador do São Paulo. E conta como reconstruiu sua carreira.

Foram dois anos lutando contra os problemas até conseguir retomar a carreira no Paraná. No novo clube, ajudou o time a subir para a Série A em 2017. Hoje, Maidana afirma ter deixado isso no passado. Recuperado, ele conta como amadureceu até se tornar um dos destaques do Sport na última temporada.

Alexandre Schneider/Getty Images

"Eu era muito novo, 18 ou 19 anos, para lidar com aquilo"

Marcello Zambrana/AGIF Marcello Zambrana/AGIF

Luz acesa

No São Paulo, por causa da polêmica, Maidana foi quase que imediatamente mandado ao time sub-20. Ali, comandado por André Jardine, empilhou taças: foi campeão Paulista, da Copa do Brasil e da Libertadores da categoria. Mas nenhuma conquista foi capaz de apagar a imagem que ganhou no ambiente Tricolor. Ainda era o zagueiro da contratação que gerou o escândalo que resultou na renúncia do presidente.

"Me senti perdido. Era muito novo e foi uma situação nova para mim. Sou um cara que nunca se envolveu em polêmica. Chego em um clube gigante como o São Paulo e começa uma metralhadora de informação, de pressão, e eu... Posso dizer que entrei em depressão, porque eu não sabia o que fazer. Tive que ter muita força mental e amadurecer muito rápido para entender a situação", confessou Maidana.

Após um ano cheio de conquistas no sub-20, o zagueiro foi emprestado ao São Bernardo para a disputa do Paulistão de 2017, mas entrou em campo por apenas um minuto. Ali, Maidana ainda não havia superado os problemas desenvolvidos no São Paulo —algo que só foi ocorrer no meio daquele ano, com o empréstimo ao Paraná.

Hoje agradeço muito. Não tenho rancor pelo São Paulo. Foi uma etapa que tive que passar para amadurecer e ter uma certa experiência mais rápida. Foi fundamental essa passagem. [Foi fundamental] ter vivido isso para o meu amadurecimento como atleta e como homem."

Pedro H. Tesch/AGIF Pedro H. Tesch/AGIF

Eu superei [o trauma desenvolvido no São Paulo] só no Paraná. Tive crise do pânico no São Paulo. São momentos que o jogador de futebol vive, mas ninguém entende. Todo mundo acha que a vida do jogador de futebol é puro glamour, mas não é."

Iago Maidana

Eu tinha que dormir de luz acessa quase todo dia porque tinha medo. Tinha crise de ansiedade, de pânico... Consegui perder isso no Paraná, quando comecei a jogar e retomar minha carreira, tendo sequência. Essa mentalidade mudou no Paraná, depois que a gente subiu."

Iago Maidana

Heuler Andrey/Dia Esportivo/Estadão Conteúdo

Dois anos até a retomada

Os problemas da transferência que tinha tudo para ser o salto de sua carreira em setembro de 2015 só começaram a se dissipar dois anos mais tarde. Em julho de 2017, Maidana estreava pelo Paraná para nunca mais sair do time. Da 15ª até a 38ª rodada do Brasileirão da Série B, o zagueiro foi titular e ajudou na campanha que fez o clube paranaense retornar à Série A. E ainda marcou cinco gols.

A promessa que havia despertado o interesse do São Paulo finalmente começava a mostrar que tinha, sim, potencial. Hoje, Maidana acredita que o rótulo que ganhou ao se tornar vítima de corrupção dentro do futebol já passou. Ficou o aprendizado e o jogador que ele teve que virar para superar a situação.

"Acho que já passou. Não tenho rancor nenhum, sou grato ao São Paulo por todos os ensinamentos, me acolheram muito bem quando fui para a base, foi só esse problema... Nem vou chamar de problema, acho que foi um aprendizado. Não me atrapalhou. Naquele momento, eu era muito novo para entender a situação e acho que me prejudicou mentalmente. Hoje, eu entendo que foi um processo que precisei passar para ter maturidade e passar por outras situações muito mais difíceis."

Reprodução/Instagram

Apoio na família

Por mais que por vezes esqueçam, jogadores de futebol também são seres humanos e funcionam como a maioria deles no momento de buscar refúgio dos problemas: se fecham com suas famílias. Para Maidana, a força para passar por todos os problemas atende pelo nome de Darielle Espíndola, a esposa.

Morando com Maidana em São Paulo, foi ela quem passou por tudo ao lado do zagueiro. Foi a responsável pelo suporte de força mental do jogador para se reerguer no futebol.

"Procurei estar sempre com a minha esposa. Morávamos juntos em São Paulo. Vivo a pressão no clube e nos jogos, mas quando chego em casa, com minha esposa e minha filha, parece que sou um cara normal, que não tem pressão nenhuma. Posso demonstrar minha felicidade normal e ser quem eu sou. Acho que me agarrei na questão familiar, na minha esposa principalmente, que estava lá e sofreu comigo, para passar por essa situação. Ela foi fundamental para que eu tivesse força mental para passar por essa maré ruim que a gente viveu."

A virada da "maré" no Paraná Clube teve outro elemento: um mês depois da estreia pelo novo time, Maidana e Darielle ganharam Antonella, a filha a quem o zagueiro se refere e para quem se transforma em um "cara normal" dentro de casa.

Paulo Paiva/AGIF

Jogadores costumam sofrer calados

A atitude de buscar apoio na família é comum no meio do futebol. São poucos os jogadores que sofrem de problemas de caráter emocional e procuram ajuda profissional. Juliane Fechio, doutora em ciências da saúde e psicóloga do esporte, explica que tal resistência não ocorre só no esporte. É comum em atletas de elite em geral.

"Não sabemos se eles têm maior predisposição a problemas, mas sabemos que eles tendem a não buscar ajuda e tratamento. Eles sofrem calados, muitas vezes não entendem direito o que está acontecendo. Essa resistência é muito comum em atletas de elite em geral, justamente por causa do estigma que envolve as questões de saúde mental, com receio de prejudicar a carreira. Percebem que não está legal, veem o rendimento cair, começam a ter lesões de repetição e não conseguem entender", explica a psicóloga, que trabalhou no Santos FC por sete anos, até 2018.

Segundo a psicóloga, quando há acompanhamento psicológico desde as categorias de base, ele tem mais chance de desenvolver habilidades de enfrentamento e se tornar emocionalmente mais resistente. "Apesar de todas as dificuldades que enfrentam em relação ao futebol, os momentos em que eles se sentem mais suscetíveis são aqueles em que eles vivenciam dificuldades na vida pessoal", conta Fechio, que fez sua tese de doutorado sobre o tema.

Pessoas tendem a buscar tratamento quando não suportam mais, quando começam a ter complicações. Os jogadores não são diferentes. Eles têm preconceito, sim, porque não entendem direito o nosso trabalho e associam a intervenção psicológica com a questão da loucura, da fraqueza, o que é um grande equívoco. Isso já melhorou muito."

Juliane Fechio, psicóloga da seleção brasileira de skate

Quando comecei a trabalhar com futebol, em 2011, era bem pior. Observo que jogadores, quando passam por experiências bem sucedidas com psicólogos, incluem esse trabalho em sua rotina de treino. Atendo jogadores que jogam no Brasil e no exterior que não ficam uma semana sem [o atendimento psicológico]. Acredito que, no futuro, a intervenção psicológica será algo natural dentro dos clubes."

Juliane Fechio, Ex-psicóloga do Santos

  • Psicologia dentro dos clubes

    Com exceção de Juventude e Cuiabá, todos os times da Série A possuem psicólogos. Alguns, até um departamento inteiro dedicado a isso nas categorias de base. Porém, somente Palmeiras, São Paulo, Fluminense, Fortaleza e Ceará têm um profissional dedicado exclusivamente ao elenco profissional. Nas demais equipes, quando um atleta precisa de atendimento, precisa se consultar com o psicólogo da base --o que inibe ainda mais a procura por ajuda.

A questão é que só é possível um trabalho preventivo e um diagnóstico adequado quando o psicólogo faz parte do dia a dia do jogador. Quando ele está desenvolvendo o trabalho nas categorias de base, ele não consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo. Quando o psicólogo é visto como um membro da comissão técnica, os jogadores se sentem mais confortáveis em procurar. E, independentemente de procurar ou não, o psicólogo está lá acompanhando as demandas e construindo uma relação de confiança, fundamental para o sucesso do trabalho."

Juliane Fechio, sobre a diferença de ter um psicólogo exclusivo para o time profissional

Paulo Paiva/AGIF

Goleador de origem

Um desavisado que olhar a lista de artilheiros do Sport pode pensar que o jogador Iago Maidana é um dos atacantes do Sport. Com sete gols na temporada 2020/21, foi ele quem mais balançou as redes, ao lado de Hernane Brocador. Maidana atua, hoje, bem longe do ataque, mas nem sempre foi assim.

No começo da carreira, aos 11 anos, Iago Maidana era centroavante da base do Grêmio. Natural de Cruz Alta, interior do Rio Grande do Sul, o jogador viu sua família se mudar para Porto Alegre para apoiá-lo no sonho de ser profissional. Mal os familiares se instalaram na capital, porém, o Tricolor gaúcho dispensou o atleta. Maidana, então, rodou por clubes menores da grande Porto Alegre. Em um deles, descobriu que precisava mudar o lado de campo: deixou o posto de atacante para assumir a zaga.

"Fui para o Cerâmica e ali eu entendi que, se não virasse zagueiro, ia morrer de fome no ataque. Apesar de estar vivendo uma fase goleadora agora (2020), foi melhor ter ido para a zaga. Ali, comecei a ir para campeonatos e fui descoberto por um coordenador do Criciúma", lembra o jogador de 1,96 m de altura que atribui ao futsal sua velocidade e agilidade acima da média para alguém tão alto.

Dois personagens do sucesso do Sport

Marcello Zambrana/AGIF

Jair Ventura

"Ele foi fundamental pra gente, Foi complicado porque saíram jogadores, pessoas da diretoria, da comissão... Todo mundo ficou meio perdido e para ele foi cem vezes mais [difícil]. Ele conseguiu trabalhar bem isso no vestiário, nos bastidores, para que a gente focasse no objetivo. É um cara extremamente estrategista, admiro muito isso nele e é com certeza um dos melhores treinadores com quem já trabalhei."

Paulo Paiva/AGIF

Thiago Neves

"O auxiliar Thiago Neves, né? (risos) O Thiago precisava ser abraçado por algum grupo e foi o que a gente fez: abraçamos ele, trouxemos para perto e ele fez a diferença pra gente. O que as pessoas veem de fora é totalmente contrário ao que vemos de dentro. Um cara extremamente de grupo, que foge de confusão. Gosta de jogar ?uma letrinha? assim como muitos, mas é muito querido pelo grupo."

Alexandre Schneider/Getty Images

Metas bem definidas

Desde que conseguiu retomar a carreira, Iago Maidana gosta de colocar metas para cada temporada. No começo de cada ano, o defensor já estipula quantos gols, quantas aparições nas seleções da rodada, além de outras estatísticas defensivas e ofensivas, precisa atingir. Naturalmente, a prioridade é atingir o objetivo proposto pelo clube para aquele ciclo, mas o defensor acredita ser também positivo estabelecer metas individuais.

"Se não [colocar metas], vai à deriva. Coloco meta de números, estatísticas defensivas e ofensivas. Eu não me surpreendi com a temporada que fiz porque trabalhei para isso. Abdiquei de situações para conseguir. Deixei de ficar com minha família na pandemia para me adaptar ao clima quente de Recife. Quando virou o ano, tinha atingido o mesmo número de gols da temporada no Paraná e aí estipulei uma nova meta".

No Sport, Maidana superou sua melhor temporada tanto em gols quanto em número de jogos. Foram sete gols em 39 jogos pelo Sport, entre Campeonato Pernambucano, Copa do Nordeste e Brasileirão —ele disputou a Copa do Brasil pelo Atlético-MG.

Desde 2017, quando cumpriu o objetivo do Paraná ao ajudar no acesso à Série A, Maidana só não teve sequência de jogos em 2019, quando ficou na reserva do Atlético-MG —na temporada anterior, havia atuado em 27 partidas e ajudado a equipe a se classificar para a Libertadores. Na última temporada, voltou a conseguir cumprir a meta do clube e foi destaque para evitar o rebaixamento do Sport.

Aos 25 anos, o zagueiro acertou com o Sport e seguirá no clube até o fim desta temporada. Com certeza, novas e mais ambiciosas metas já estão sendo traçadas...

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