Uma vida em 849 dias

Após sobreviver ao voo da Chape, Rafael Henzel narrou com Galvão, viajou o mundo e morreu jogando futebol

Felipe Pereira, Napoleão de Almeida e Pedro Lopes Do UOL, em São Paulo
Iwi Onodera/UOL

Em seu perfil no twitter, o jornalista Rafael Henzel apresentava duas datas de nascimento. A primeira delas, 25 de agosto de 1973, foi quando deixou o ventre da mãe, dona Lídia, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, para se aventurar no mundo, no futebol e no jornalismo. A segunda, 29 de novembro de 2016, marca o dia em que o vôo LaMia 2933 caiu em Cerro El Gordo, na Colômbia. Henzel foi um dos seis sobreviventes da tragédia que matou 71 pessoas, entre colegas de profissão, dirigentes, jogadores e funcionários da Chapecoense e tripulantes.

Dois nascimentos que ilustram duas vidas. A primeira, até o acidente, como um jornalista apaixonado por futebol e pela Chapecoense, fazendo o que gostava. A segunda, como um exemplo de superação, viajante pelo mundo e embaixador do clube. Abaixo das duas datas na rede social, Rafael oferecia um contato para palestras nas quais falava sobre o novo valor que enxergava na vida depois de quase tê-la deixado.

Nesta terça-feira, 26 de março, a segunda vida de Rafael Henzel teve um inesperado fim. Oficialmente, após 45 anos. Mas sua segunda vida teve 27 meses e 27 dias de vida. Nesse período, fez a narração da histórica estreia da Chapecoense na Libertadores em 2017. Apareceu em jogo da seleção brasileira ao lado de Galvão Bueno. Deu palestras e trabalhou muito. Henzel teve um infarto fulminante durante uma partida de futebol com amigos. Foi levado às pressas ao hospital, mas não resistiu. Se despediu vestindo chuteiras, dentro das quatro linhas, acompanhado da paixão que marcou sua vida, seu renascimento e, agora, sua morte.

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Segunda vida

Já era quase Natal de 2016 quando Rafael Henzel finalmente deixou o hospital de Chapecó em que continuou o tratamento pelo acidente. Vestia uma camisa do clube da cidade e estava numa cadeira de rodas, mas fez questão de se levantar para falar com as pessoas que acompanhavam a cena com admiração.

"Valeu, gente, obrigado por tudo. Vida nova, vamos lá!"

Desde o segundo nascimento, ele acionou o que chamava de fase do agradecimento. O jornalista prometeu esforço para ser uma pessoa melhor e valorizar a companhia de familiares, amigos e colegas de trabalho. Afirmou que sentia vontade de abraçar cada pessoa que torceu por ele.

A atitude logo na saída do hospital e o gesto de ficar em pé antecipavam o estilo da nova vida do jornalista. Ele sempre agiu para mostrar que era possível levantar mesmo quando o destino impunha uma dificuldade gigantesca. Henzel passou a viver intensamente.

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Dividindo ensinamentos

Diferente de 71 passageiros do voo da Chapecoense, Rafael Henzel teve uma segunda chance. Ele fez questão de registrar em livro o que aprendeu deste evento traumático. "Viva como se estivesse de partida" não é um relato sobre o acidente, o que seria de se esperar de um jornalista. A obra trata da superação física e psicológica depois da tragédia.

Rafael Henzel continuou viajando de avião sem problemas e levava a vida de forma positiva e bem-humorada. A identificação do público foi instantânea. A auxiliar administrativa Heydi Ramundo enfrenta síndrome do pânico. Ela fez questão de ir ao lançamento em São Paulo, ocorrido em junho de 2017. Explicou na ocasião que a história de Rafael Henzel ajudou a enfrentar a situação porque deu um novo significado de otimismo para ela.

No lançamento, os leitores elogiaram a humildade e a mensagem de esperança. E pensar que o jornalista estava com medo de fazer o livro. Em dúvida, consultou um colega que respeita e confia muito, Tino Marcos. Recebeu um empurrão com o argumento de que era dono de uma história única que deveria ser compartilhada. Rafael Henzel escreveu o livro porque entendeu que as outras pessoas deveriam ter acesso ao mesmo ensinamento que recebeu sem precisar enfrentar uma situação traumática.

Viva como se estivesse de partida

"Não me vejo como um escolhido, mas as pessoas me veem assim", escreveu em seu livro, em gratidão pelo destino, indicando o que esperava deixar como herança: "Acho que as pessoas têm de entender que eu sou um cara que se salvou graças a um milagre. Não preciso agarrar um microfone e começar a rezar para convencer a todos. Acho que isso seria um erro, afastaria muita gente. Precisamos entender que há uma coisa muito forte, há um Deus muito poderoso que abraçou essas pessoas e evitou que elas morressem".

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"Sinto a respiração dele"

Enquanto Henzel acordava cercado por corpos sem vida de outros passageiros do avião, notícias do desastre começavam a chegar ao Brasil. A milhares de quilômetros de distância, quem deu a "notícia" de que o jornalista estava entre os sobreviventes foi o filho Otávio, então com 11 anos. "Sinto a respiração dele", disse a criança à mãe.

Tavinho estava certo e, 15 dias depois, um avião pousava trazendo o pai. Com uma camiseta com o símbolo da Chape e #forçarafa às costas, o garoto entrou na aeronave e na direção de Rafael Henzel. O jornalista recebeu o filho nos braços chorando alto. A mãe completou o abraço da família.

A emoção do momento foi tão grande que nem os militares que formavam a tripulação do avião da Força Aérea Brasileira que transportou Henzel seguraram o choro. Quando chegou na porta da aeronave, Tavinho bateu na foto do pai na parte da frente da camiseta; o rosto misturava lágrimas e sorriso.

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Reverência a Messi salvou Henzel

O garoto Otávio estava certo e o pai estava vivo. Rafael Henzel sempre repetia que sobreviveu graças a Lionel Messi. Com dificuldade de dormir no voo para a Colômbia, ele foi puxar papo com um companheiro de rádio de Chapecó. Com 1,90 metro de altura, queria sentar no corredor da penúltima fileira, mas o colega Renan Agnolin proibiu de ocupar o lugar. Justificou que foi o local em que Messi viajou quando a seleção da Argentina usou a aeronave.

Henzel respeitou o dono de cinco Bolas de Ouro e escolheu o assento ao lado. Mais tarde, a iluminação do avião foi substituída pelas luzes de emergência. O jato partiu ao meio ao cair no topo de um morro próximo ao aeroporto de Medelín. Somente seis pessoas sobreviveram, incluindo o passageiro que viajava ao lado do assento que um dia foi de Messi.

Henzel machucou o pé esquerdo, ficou com cicatrizes no rosto, mas não se importou. Falava que desejava espalhar gratidão no Brasil, na Colômbia e em qualquer lugar que estivesse. Foi assim que viveu sua nova vida. E sempre mencionando que foi salvo por Messi.

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De torcedor a embaixador da Chapecoense. "Nós"

O garoto Rafael se mudou cedo para Chapecó. Lá, começou a carreira jornalística aos 15 anos de idade, mas, antes disso, já cultivava a paixão pelo time da cidade. "Sempre, desde molecote. Saía da escola e não tinha dinheiro para pagar o ingresso, então esperava no portão do estádio até os 15 minutos de jogo para poder entrar de graça. Assim eu fui criando minha paixão por um time muito pobre e que de repente foi crescendo até chegar onde chegou, na Série A do Campeonato Brasileiro e na final de um torneio internacional", contou em 2017, em entrevista ao Portal R7.

A relação evoluiu. Depois da tragédia de 2016, o jornalista se transformou em uma espécie de embaixador, símbolo indissociável da Chape, presente em eventos no Brasil e no exterior. Nas palavras do próprio clube, "tornou-se um símbolo da reconstrução do clube, nas páginas verde e brancas desta instituição". Desde a queda do avião, ao se referir à Chapecoense, usava o pronome "nós".

"É na terceira pessoa, porque eu também vivo na cidade, a Chapecoense é nosso único time. Nós iríamos para a decisão, estávamos extremamente felizes com a vaga na final da Copa Sul-Americana e nós jogaríamos a 'nossa Copa do Mundo'. Por isso que eu falo 'nós'. Não estou, de forma alguma, tendo esse pertencimento da Chapecoense, mas ela faz parte da minha vida. Hoje ela está aqui bem pertinho do meu coração. Nós nascemos juntos em novembro de 2016".

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Destino contado em palestras e em gols

Rafael Henzel tinha um perfil com 50 mil seguidores que se tornou referência a partir da tragédia. Principalmente quando ele resolveu diversificar o que fazia. Palestrante, passou a contar sua experiência sob os temas "superação", "valor da vida" e "motivação". Em 26 de novembro de 2018, a dois dias do aniversário de dois anos da tragédia, Henzel falou a uma plateia da Associação Comercial de Itajaí, SC, por pouco mais de uma hora.

"Danilo pegou quatro pênaltis do lado direito. Se ele não pegasse um desses pênaltis, não existiria final da Sul-Americana, não existiria história triste para contar", disse, entre outras coisas, ao falar do destino e de suas consequências. Ele pegou firme no comportamento relapso, em um trecho nominado "regras x exceções": "Eu queria deixar bem claro aqui que exceção é exceção. Você pousa sem combustível e pensa, 'Meu Deus, nunca mais'. O piloto pousou uma, duas, três, quatro, dez vezes. As regras de segurança são escritas com o sangue de alguém".

Além disso, Henzel se tornou embaixador da Chape pelo planeta. Poucos dias antes de sua morte, o narrador esteve na Espanha e na Alemanha falando do clube, da tragédia e do futuro. Em Berlim, no festival 11mm Futebol Film Fest, apresentou o documentário "Nossa Chape", filme que conta a reconstrução do clube após o acidente. "Estamos aqui para o lançamento dessa história de dor e recomeço", escreveu no Twitter. Dias antes fez o mesmo em Bilbao, na Espanha.

Mas Henzel gostava mesmo de narrar. Ainda no domingo, 25 de março, narrou cinco gols na vitória da Chape fora de casa sobre o Hercílio Luz. Nos gols do adversário, corneta solta. Estava escalado para transmitir Chapecoense x Criciúma pelo jogo de volta da Copa do Brasil 2019, na Arena Condá. "O clube acabou se impregnando em mim, e as pessoas já não falam 'o jornalista', mas 'o jornalista da Chapecoense'. A paixão pela Chape ficou ainda mais forte".

O último jogo de Henzel

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A narração ao lado de Galvão Bueno

Não há narrador brasileiro que não gostaria de dividir o prestígio de uma transmissão com Galvão Bueno. Foi o que Henzel viveu em 25 de janeiro de 2017, quase dois meses após a tragédia. Era o amistoso entre Brasil e Colômbia, no estádio Nilton Santos, no Rio. "Meu companheiro Rafael Henzel, dê uma força positiva. Você já está trabalhando, já está transmitindo", disse Galvão, ao chamá-lo para o jogo.

Conversaram em meio ao jogo. Henzel se disse representante de 21 colegas de imprensa que partiram na noite do acidente. A conversa seguiu com a partida como pano de fundo, com Galvão pontuando um ou outro lance. A transmissão recebeu outros sobreviventes, como o goleiro Jackson Follmann, que conversava com Galvão quando Dudu marcou um gol. Galvão parou a transmissão, chamou o replay e pediu que Henzel narrasse.

"Estava deslocado e espero não ter comprometido", respondeu a um torcedor no Twitter, no dia seguinte; "Muito diferente. No início estava descrevendo demais a jogada (rádio)", comentou com outro fã. Fazer parte da transmissão só não foi melhor que outro fato: "Caminhando meu amigo. Imagina a minha felicidade em movimentos tão simples", registrou sobre andar em um shopping carioca pela tarde. Ele ainda brincou, sobre ser contratado pela Globo, o que não ocorreu: "Tô com o telefone ligado, rsrsrs".

Marcello Zambrana/AGIF Marcello Zambrana/AGIF

Futebol foi paixão da vida toda

A segunda vida de Henzel durou 2 anos, 3 meses e 27 dias. Ela foi repleta de futebol, algo que fazia parte de sua personalidade. O esporte estava presente no trabalho e nas horas de lazer. O jornalista foi tão abençoado que a lesão no pé causada pelo acidente melhorou e permitiu que continuasse a jogar seu futebol de terça-noite.

"Prazer correr com os canelas-finas", escreveu há dez dias em sua conta, sobre um convite para uma pelada.

Foi justamente no campo que a vida teve um apito final. O homem que construiu a vida ao redor do futebol dedicou seus últimos batimentos do coração a correr atrás de uma bola. A cidade que tem um clube que simboliza o recomeçar ficou sem um porta-voz da esperança. Mas Rafael Henzel fez de sua segunda vida um testemunho do que apendeu naquela noite trágica em Medelín: as pessoas devem viver como se tivessem de partida.

Liamara Polli/AGIF Liamara Polli/AGIF

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