O projeto Didi

New Orleans Pelicans investe no brasileiro após treino secreto nos EUA e investigações em Franca

Giancarlo Giampietro Colaboração para o UOL, em São Paulo
Thiago Calil/AGIF

Dias antes da realização do Draft da NBA, o processo de recrutamento de calouros da liga, o ala Didi Louzada, 20, se dirigiu a um encontro secreto em Nova York com emissários do New Orleans Pelicans.

O clube conduziu uma bateria de exercícios para testar o físico e a capacidade atlética do brasileiro. Por telefone, ele também foi entrevistado pela diretoria. Era o tipo de atividade que, se chegasse aos ouvidos da concorrência, poderia comprometer toda uma operação.

Aquele foi o último movimento para a franquia decidir que, sim, faria de tudo para selecioná-lo em cerimônia realizada na própria metrópole americana em 20 de junho.

David Griffin, vice-presidente de basquete do Pelicans, sabia que a cotação da revelação de Franca estava em alta e que o jogador poderia escapar de suas mãos. Mas deu um jeito para assegurar que Didi fizesse parte do futuro do time.

Na noite do Draft eu estava confiante que seria selecionado. Com certeza havia vários times de olho em mim, mas acho que o Pelicans se interessou mais. Viver isso tudo foi muito gratificante. Desde pequeno sonhava com isso. Ver a felicidade da minha mãe quando fui escolhido não tem preço.

Didi, sobre o dia em que foi escolhido pelo Pelicans

Agora o Pelicans traça um novo caminho para Didi. O ala vai jogar a próxima temporada pelo Sydney Kings, da liga australiana (NBL), como se estivesse cumprindo um estágio. É uma viagem incomum para jovens jogadores brasileiros. Mas que faz parte de um projeto bem detalhado de um clube que se reinventou nos últimos meses.

"Já vimos que tem um jogador de NBA ali. Já deu para conferir como ele arremessa bem, muito bem por sinal, e que tem bom tamanho para o que se espera dele e a capacidade atlética para competir nesse nível. Assistíamos aos treinos e mal podíamos esperar para vê-lo em ação", disse David Griffin, vice-presidente de basquete do Pelicans e campeão pelo Cleveland em 2016, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Garrett Ellwood/NBAE via Getty Images) Garrett Ellwood/NBAE via Getty Images)

Marcação de perto

A curiosidade, para dizer o mínimo, do Pelicans sobre Didi já havia transparecido quando o cube enviou um olheiro para assistir a cinco partidas do jovem ala nesta temporada, num período de duas semanas.

O UOL Esporte acompanhou esse "scout" em três desses jogos, durante a fase semifinal da Liga das Américas, em Franca, de 8 a 10 de março. A longa estadia na cidade do interior paulista permitiu que o enviado conversasse com diversas fontes para entender quem era o brasileiro dentro e fora de quadra.

Como se fosse, mesmo, um serviço de espião, algo comum na liga americana. Faz sentido: as franquias precisam saber de todos os detalhes da vida de um jogador antes de decidir investir eventuais milhões de dólares nele.

Registre-se: dirigentes e treinadores de Franca foram bem receptivos, algo que nem sempre acontece na caça por talentos mundo afora. Na Europa, principalmente, são vários os relatos de treinos fechados de última hora, ou com horários alterados só para complicar a vida dos "scouts". Há clubes que até podem abrir as portas do ginásio, mas só para deixar o jogador cobiçado fora das atividades.

De todo modo, o Pelicans queria saber mais. Em abril, Didi foi convocado para o badalado Nike Hoop Summit, em Portland - evento que reúne anualmente em prospectos do mundo todo. Lá, o brasileiro foi um dos focos de observação de outros funcionários da franquia.

Quanto mais pontos de vista pudessem confrontar sobre o atleta estudado, melhor.

Garrett Ellwood/NBAE via Getty Images Garrett Ellwood/NBAE via Getty Images

Troca-troca

Em processo de reformulação geral, após a troca que mandou o ala-pivô Anthony Davis para o Los Angeles Lakers, o New Orleans Pelicans tinha direito às escolhas número um e quatro no último Draft deste ano. A primeira era barbada: o fenômeno Zion Williamson (leia mais abaixo).

Com a quarta escolha, porém, David Griffin foi criativo. Ele a repassou ao Atlanta Hawks em troca por mais três no mesmo Draft: 8ª, 17ª e 35ª. Aproveitou as primeiras com o pivô Jaxson Hayes e o ala-armador Nickeil Alexander-Walker. Ambos brilharam na Liga de Verão oficial da NBA em Las Vegas ao lado do brasileiro neste mês.

Para quem acompanhava de fora, a 35ª escolha poderia ser vista apenas como mero item complementar na negociação. Mas não era bem assim. Essa foi a via encontrada para que selecionassem Didi, com o receio de que clubes como Brooklyn Nets, Milwaukee Bucks e San Antonio Spurs também pudessem se mexer pelo brasileiro.

David Dow/NBAE via Getty Images David Dow/NBAE via Getty Images

O que aconteceu em Las Vegas

Como a negociação com o Atlanta só seria finalizada com a abertura da janela da nova temporada da NBA, Didi foi impedido de participar de treinos oficiais do Pelicans. Essa é a regra da NBA, e o brasileiro só podia se exercitar separadamente. O pouco que mostrava já deixava diretores e treinadores do time animados.

Enfim liberado, o ala deixou ótima impressão em quadra em Las Vegas, enfrentando outros aspirantes à liga, depois de apenas quatro partidas.

O jogador apenas lamentou não ter podido dividir a quadra com o atual fenômeno do basquete norte-americano. "Foi um primeiro contato muito bom com o mundo da NBA. Eu, o Nickeil e o Jaxson tivemos de treinar num grupo separado até a troca ser oficializada. Só não pude treinar ou jogar com o Zion por conta disso. Espero no futuro poder fazer uma boa dupla com ele", disse Didi.

A avaliação foi ainda mais positiva que seus números: 11,0 pontos por jogo, 3,0 rebotes, 2,0 assistências e 44% de acerto nos arremessos, em 27,0 minutos. Nos relatórios de análise interna do clube, você pode ler comentários como:

Sem dúvida uma surpresa agradável. Desde sua primeira partida, com nova equipe, novo técnico, barreira da língua, contexto todo diferente de ambiente e nível de jogo, jogou bem e com confiança.

relatório interno do Pelicans

Ele não havia treinado sequer um dia com o time. Sua defesa, que para nós sempre foi seu melhor atributo, se traduziu muito bem. Não sabíamos se ele seria capaz de mostrar isso tão rapidamente.

relatório interno do Pelicans

Mas tem muito o que aprender ainda. Jogar bem na Summer League não diz muita coisa. Estamos muito felizes com a performance e adaptação. O próximo passo é trabalhar duro em seu jogo.

relatório interno do Pelicans

Por que a Austrália?

David Griffin faz questão de elogiar o trabalho dos treinadores de Franca com Didi. Na visão do dirigente e de seu estafe, porém, dois fatores tornam Sydney uma escala importante nesse projeto de desenvolvimento.

O primeiro, essencial, é a língua inglesa. Funcionários do Pelicans, aliás, até brincam que, se o brasileiro progredir a ponto de entender o sotaque australiano, tudo ficaria mais fácil quando for hora de jogar pelo clube.

O segundo? Simplesmente tirar o ala de casa. Seria melhor encarar um primeiro ano na metrópole australiana, cosmopolita e de clima agradável, antes da chegada aos EUA. "É importante do ponto de vista humano", diz Griffin.

Pensando estritamente em basquete, o Sydney Kings oferece ao capixaba o convívio com figuras de experiência considerável na liga americana. A começar pelo pivô Andrew Bogut, escolha número no Draft de 2005 e campeão pelo Golden State Warriors ao lado de Leandrinho. O veterano é um atleta desbocado, que já viu de tudo um pouco em sua carreira. Será a chance de Didi ouvir muitas histórias sobre a liga americana mesmo do outro lado do planeta.

Além disso, Didi será orientado por Will Weaver, que foi eleito o melhor treinador da liga de desenvolvimento da NBA, pelo Long Island Nets, e foi contratado pelo Sydney recentemente. Pela filial do Brooklyn, Weaver trabalhou com o Trajan Langdon, hoje assistente de Griffin em Nova Orleans. Quer dizer: a diretoria do Pelicans vai ter pleno acesso para acompanhar sua evolução.

Mesmo o CEO do Sydney Kings, Chris Pongrass, já passou pela liga americana, tendo trabalhado por cinco anos como diretor de operações de basquete do Memphis Grizzlies.

Reprodução/Instagram Reprodução/Instagram

"É pauleira"

Em termos competitivos, Didi que se prepare. O uso de bolsas de gelo pode ser algo recorrente, já que a NBL tem fama de ser uma das ligas mais duras do basquete internacional.

"É pauleira. O jogo lá é muito físico e disputado em bom nível", disse um experiente olheiro de um clube da Divisão Sudoeste da NBA, que pediu para não ser identificado. O campeonato é escala obrigatória em seu périplo anual - diferentemente do NBB, por exemplo.

A NBL tem feito avanços mercadológicos também. Tal como o NBB, já enviou suas equipes para amistosos contra oponentes da NBA, por exemplo.

Mas sua ação mais ousada é a tentativa de captação de jovens prospectos americanos antes de seu ingresso na liga mais cobiçada do mundo. Caso não tenham interesse ou viabilidade acadêmica para passar um ano no basquete universitário americano, os garotos têm a chance de receber seu primeiro contrato profissional na Austrália. Quanto mais desses talentos atraírem, melhor para todas as partes em termos de visibilidade.

Nessa linha de trabalho, o próprio Sydney empregou na temporada passada o ala americano Brian Bowen, 20. Mesmo sem ser "draftado" em julho, Bowen acabou de assinar com o Indiana Pacers. Um dos alas titulares do Oklahoma City Thunder, Terrance Ferguson, também passou pelo programa.

É Pelicans, não Saints

Agora peguemos o avião de volta a Nova Orleans. A franquia que aposta em Didi acaba de passar por uma revolução. A começar pela saída do ala-pivô Anthony Davis, que se juntou a LeBron James no Lakers, depois de tortuosa novela.

A mudança mais significativa, de todo modo, aconteceu fora de quadra. No ano passado, o clube era visto até como piada nos bastidores da NBA por sua ligação íntima com o New Orleans Saints, da NFL.

"Eles pareciam uma filial do Saints, algo que nunca vimos antes", afirmou o gerente geral assistente de um clube da Divisão Noroeste. "Muitas decisões passavam pelo crivo principal dirigente do Saints. Mesmo o departamento médico e de preparadores físicos compartilhavam funcionários."

Elsa/Getty Images/AFP Elsa/Getty Images/AFP

O que gira ao redor de Zion

A chegada de Griffin mudou tudo. O departamento de basquete ganhou autonomia para conduzir seus negócios. Não demorou para que Davis fosse trocado por um pacote de jovens promissores. Na sequência, o dirigente investiu na contratação de veteranos - o ala JJ Redick, ex-Sixers, e o pivô Derrick Favors, ex-Jazz - ainda produtivos e vistos como influência positiva para um vestiário inexperiente.

O time de Nova Orleans tem agora uma quantia considerável de jogadores talentosos, algo que também contribuiu para que enviassem Didi a Sydney. A competição por minutos, especialmente na rotação de perímetro, seria feroz. Não faria sentido contratar o brasileiro de imediato e deixá-lo fora de quadra, atrasando seu desenvolvimento.

Agora, toda essa onda de otimismo que hoje cerca o Pelicans talvez não existisse se o clube não pudesse contar com o fenômeno Zion Williamson, primeira escolha do Draft. O ala-pivô é visto por muitos "scouts" como o mais promissor jogador a entrar na liga desde LeBron em 2003.

Gosto de dizer que foi tocado pela mão de um Deus do basquete. Com aquele tamanho, tem uma agilidade lateral que é rara de se ver. Também é um ótimo passador para alguém tão jovem. Nunca vi sua combinação de talentos antes. Acho que, se fosse para fazer uma comparação, seria o jovem Charles Barkley. Seria quem ele me lembra mais.

Griffin, sobre o fenômeno Zion

David Dow/NBAE via Getty Images David Dow/NBAE via Getty Images

Você fala português?

A transição de Didi para o Pelicans não poderia estar em melhores mãos. E isso não tem a ver com o título da NBA no currículo de Griffin (em 2016, pelo Cleveland Cavaliers) ou sua habilidade para administrar LeBron James - das tarefas mais ingratas para qualquer cartola da liga. É que Griffin já trabalhou com dois brasileiros em seus mais de 20 anos de carreira, com sucesso.

Griffin estava no Phoenix Suns quando o clube do Arizona contratou Leandrinho em 2003. Depois, em Cleveland, conviveu com Anderson Varejão. Juntos, os veteranos já ganharam mais de US$ 100 milhões só em salários nos EUA.

A experiência do dirigente com ambos contribuiu para ter confiança na seleção do ala do Franca. "Para mim, é animador poder 'draftar' outro brasileiro tantos anos depois, pensando lá atrás em Leandro", disse.

A escolha de Leandrinho foi uma das melhores das quais já participei. Ele estava tão empolgado quando assinou com a gente que realmente passou a noite em nosso vestiário, dormindo em uma das mesas reservadas para os fisioterapeutas. E ainda dormiu abraçado com uma bola. Foi muito legal acompanhar o desenvolvimento dele e de sua família, vê-los se acostumando com a vida nos EUA e na liga.

Griffin, sobre o ala-armador oficialmente escolhido pelo Spurs na 28ª posição do Draft de 2003, mas a mando do Suns

Varejão é um dos meus jogadores favoritos. É um cara que nos ensina como jogadores podem crescer a partir de sua vontade de vencer. Ele muda a cultura de um time. Nunca se importou com estatísticas. Foi uma pena que seu corpo o tenha traído justamente quando ele estava sendo bastante produtivo em termos de números. Ele ainda tinha muito o que render pela frente. Trocá-lo foi uma decisão bastante difícil.

Griffin, sobre o pivô, com o qual conviveu por cinco anos em Cleveland, tendo transferido o jogador para o Portland Trail Blazers em 2016

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