Caraca, sou atleta olímpica

Campeã mundial de surfe, Silvana Lima passou infância em barraca de praia. Classificada, sonha com Olimpíada

Silvana Lima Em depoimento para o UOL, no Rio de Janeiro Ricardo Borges/UOL

Vou te falar. Todos os dias eu fico imaginando: 'Caraca, sou uma atleta olímpica'. E aí lembro de todas aquelas histórias que passam na televisão. Agora, estarei entre elas. Acho que a ficha vai cair mesmo quando eu estiver lá, no Japão, em Tóquio. Lá que vou ver: 'Nossa, realmente estou nas Olimpíadas'.

Só fui ganhar minha primeira prancha com 13 anos. Sou a filha caçula. Eu via meus irmãos surfando e ia pegar um pedacinho de madeira para fazer sonrisal na praia. Quando enjoava, pegava as ondas com ele. E assim foi.

Eu nasci em Paracuru, no interior do Ceará. Cresci na beira da praia com a minha mãe e mais quatro irmãos. Ninguém tinha quarto, a gente dormia na rede. Era como se fosse um quiosque, minha mãe vendia comida, cerveja, água...

Ainda não tinha turismo na cidade e minha mãe dependia das pessoas irem até a barraca para comer. Só que não vendia nada porque não tinha gente. Aí, nossa família acabava consumindo as coisas que seriam para os clientes. As dívidas iam crescendo e daqui a pouco não tinha mais nada. Era aquela correria.

Eu não cheguei a passar fome. Se eu falar que passei é mentira. A gente dava um jeito a cada dia. Eu batia na casa de um amigo e almoçava ou jantava por lá. Como morava na beira da praia, ajudava os pescadores a colocar o barco para cima. Em troca, ganhava um peixe... Tinham também uns pés de fruta atrás da barraca da minha mãe: caju, manga, essas coisas.

Aquilo ali era o dia a dia. Mas eu acabava enjoando. Queria comer outra coisa. Em casa, não tinha nada. Era pão ou farinha para comer com café, sabe...

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Coisa de vagabundo

Falam muito que agora as coisas vão mudar, que os surfistas não vão poder mais usar maconha. Mas esse processo de profissionalização começou muito antes. Desde os circuitos mundiais, o surfista está vendo que realmente é um atleta.

Temos um foco: treinar todos os dias, dormir cedo, surfar... Droga não combina com isso. Na World Surf League já não pode. É doping. E isso é bom. Mostra pra geral o que a gente realmente é: atleta de alto rendimento. Fazemos exames antidoping e somos punidos se alguma substância proibida é detectada.

Mesmo assim, nunca imaginei o surfe olímpico pela forma que as pessoas viam a modalidade: "coisa de vagabundo, de pessoa que fica sem fazer nada..." Cresci ouvindo isso, sabe. Era muito criança e nem rebatia. Mas depois que eu vim para o Rio de Janeiro eu vi o quanto o surfe mudou na minha vida. Comecei a pensar que é um esporte como qualquer outro.

A minha cidade é pequena e todo mundo sabia o que acontecia. No Rio, não é qualquer um que vai surfar. São pessoas que tem a vida financeira boa, que levam mais como um hobby. No Ceará, a molecada queria ter um talento, tinham o sonho de vencer com o surfe.

Todos os esportes sofrem um pouco de preconceito. No surfe, isso acaba sendo mais forte. Quem realmente não conhece vê o surfista como vagabundo, maconheiro. Antigamente era pior.

Meus amigos não podiam surfar porque os pais não gostavam. Quebravam a prancha se chegassem com ela em casa. Queriam mais que o filho fosse jogar bola, fazer qualquer outro esporte, menos o surfe. Pensavam que se fosse pro mar iria virar vagabundo.

Meus irmãos chegavam em casa tristes. As namoradas eram proibidas pelos pais de se relacionarem com eles porque eram surfistas. Isso que me marcou muito. Era muito triste viver tudo aquilo. Acreditava que ser surfista era um sinônimo de não ser respeitado.

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O surfe como alternativa

Quando eu comecei, com um pedaço de madeira, foi para me divertir. Nem pensava em viver disso. Meus irmãos já surfavam, tinham prancha. Eu sou filha caçula e, quando eles iam para a escola, eu pegava escondida e surfava. Os clientes da minha mãe também me emprestavam, às vezes.

A primeira prancha chegou quando eu tinha 13 anos. Foi um momento incrível. Meu irmão me deu no dia do meu aniversário. Lembro até hoje... Era meio laranja com vermelho. Essa prancha até dormiu comigo na rede. Eu podia surfar a hora que eu queria. Foi demais.

Era o primeiro passo até chegar ao Rio de Janeiro.

A oportunidade da mudança surgiu em 2002. Tudo começou com alguns amigos cearenses que surfavam comigo e estavam morando e trabalhando em uma oficina de pranchas lá no Rio. Eles falaram para o dono dessa oficina, o Udo Bastos, e com o Thiago Cunha: "Pô, tem uma garota no Ceará... Se ela tivesse a oportunidade de vir para cá, ia ajudar muito a vida dela".

O Udo acreditou na minha história, ligou para a minha mãe e disse que ia pagar passagem e tudo. Minha mãe não queria me deixar ir para a cidade grande sozinha. Eu era de menor e tudo. Ao mesmo tempo, percebeu que poderia ser uma oportunidade grande. E foi. "Mãe, é uma chance que eu vou ter, não posso deixar passar". Assim que ela topou, aproveitei o embalo. Tinham outros amigos que estavam indo para lá, minha mãe assinou os documentos e fui.

Assim que cheguei no Rio, já fui observando as meninas que eram profissionais: Andrea Lopes, Tita Tavares... Elas mandavam muito bem. Cheguei como amadora, mas queria estar lá, com elas. Corri por todas as categorias e acompanhava essas mulheres no mar.

Quando eu estava no Ceará, só via aquelas meninas pelas revistas. Depois, no Rio, podia observar melhor, ainda que de longe. Ver como competiam, paravam para dar entrevista. Na minha adolescência, eu era muito bicho do mato, meio muda, não queria falar e travava na hora de dar entrevista. No Rio, fui saindo da caverna. Observava essas garotas e via que o profissionalismo se estendia para fora da água.

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Altos e baixos

Mas no começo sempre é difícil. O patrocínio não vem assim de prima, sabe? Ninguém me conhecia nas competições. Tinha de ganhar muitos campeonatos até alguém acreditar em mim. Fiquei um ano e meio assim, sem patrocínio.

Desde a minha chegada ao Rio, o Udo pagava tudo: alimentação, viagens para as competições. Mas anotava cada gasto: "Silvana, estou pagando, mas quando você for ganhando campeonato, você vai me pagando de volta". Era mais para dar o "start".

Eu morava numa espécie de alojamento com mais oito meninos. Era um quartinho, nada demais. E essa casa também era a própria fábrica de pranchas. Fizeram dois quartinhos para a gente não pagar aluguel.

Foi meio estranho no começo. Eu estava acostumada a dormir em rede e lá só tinha cama. Mas deu para levar. Acho que é mais difícil quando é o contrário: quem é acostumado com cama e passa a dormir em rede.

Ainda assim, meu primeiro ano no Rio de Janeiro acabou sendo abençoado. Rolaram duas etapas de uma competição de surfistas amadores em São Paulo. O prêmio era um carro, um Celta. As profissionais não podiam competir e eu já estava em um nível acima das amadoras. Venci as duas etapas. Levei o prêmio e, com o dinheiro do carro, consegui a minha primeira grande conquista: uma casa para a minha família. Tirei meus irmãos e minha mãe da beira da praia e coloquei dentro de uma casa de verdade. A primeira.

Aí, conforme fui vencendo as competições, o cenário começou a mudar. As pessoas passaram a acreditar em mim e acompanhar meu trabalho. O primeiro patrocínio foi do Freesurf, de Floripa, no final de 2003, e aí veio a Mormaii e a coisa embalou. Em 2003 para 2004, eu já conseguia me manter sozinha.

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Então, depois dos altos, vieram os baixos.

Todos eles por lesões. Rompi o ligamento cruzado anterior dos dois joelhos, fazendo a manobra floater, que você corre em cima da crista da onda e volta no ar, flutuando.

A primeira cirurgia foi em 2006. Nessa época, eu estava pagando uma cobertura no Rio de Janeiro... Em 2011, machuquei de novo. No mesmo ano, tive outra lesão e perdi o patrocínio da Billabong. A solução para poder continuar no circuito foi vender a cobertura e um carro.

Fiquei quase quatro anos até conseguir um bom patrocínio de novo. Eu ia me mantendo com as premiações das competições e com o rendimento do dinheiro da cobertura. Foi com essa grana que viajei para a Nova Zelândia e consegui voltar para a elite do surfe.

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Vontade de vencer

Tive que recomeçar do zero várias vezes. Sempre lidei com o tempo afastada como se fossem férias forçadas. O que fez diferença mesmo foi a paixão pelo surfe. Eu não queria largar a minha prancha e deixar de participar dos campeonatos. Foi preciso muita força de vontade para voltar a competir em alto nível.

Quando achei que as coisas tinham se encaixado e tudo acontecia como devia, tive mais uma lesão, em 2018. Voltei a competir em abril do ano passado, mas até hoje falo que estou me recuperando. Só agora comecei a ficar 100%.

Eu sabia que 2019 ia ser de classificação para as Olimpíadas. Tive que correr contra o tempo, porque a recuperação levaria de oito meses a um ano, e não tinha esse tempo todo. Pulei duas etapas, fui para Bali mesmo não estando totalmente recuperada. Eu tinha de me manter no páreo para as Olimpíadas.

Trabalhei bastante. Tive medo de me machucar. Mas o que eu mais tinha era vontade de ser uma atleta olímpica. E assim está sendo.

Desde 2002 estou aqui. Só tenho a agradecer por ter chegado tão longe. Por ter vencido na cidade grande que minha mãe tanto temia. Sou duas vezes vice-campeã mundial, quatro vezes campeã brasileira e oito vezes melhor surfista do Brasil.

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