O dia em que chorei

Washington relembra "coração valente" e o momento em que não conseguiu segurar as lágrimas

Brunno Carvalho e Vanderlei Lima Do UOL, em Brasília (DF)
Antonio Costa/Gazeta do Povo/Folha Imagem

Na época em que eu estava lutando para voltar a jogar, não me emocionei, eu estava muito forte. Não sei nem de onde eu consegui essa força toda. Nada me atingia.

O povo brasileiro começou a torcer por mim, pela minha recuperação. Não se falava nada de coração de jogador, naquela época...

Mas na minha volta eu não aguentei. Foi a única vez em que eu desabei. O primeiro jogo, da minha volta, foi contra o meu ex-time, o Paraná Clube. Marquei um gol logo no começo do segundo tempo. A torcida do Paraná tomou gol e me aplaudiu. As duas torcidas me aplaudiram. Acho que foi uma das poucas vezes que isso aconteceu num jogo de futebol.

Quando eu saí do jogo, cheguei em casa e comecei a chorar. "Consegui! Realizei meu sonho!".

Foi apelidado até de "O Jogo da Vida". Foi um jogo memorável. Eu fiquei uns quatro, cinco dias com dores musculares, tamanha era a minha tensão e o que estava ao redor naquele jogo.

Assista à entrevista no canal do UOL Esporte no YouTube.

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Não era azia

O jogo da vida de Washington Stecanela Cerqueira aconteceu depois de mais de um ano de batalha e incertezas.

"Eu senti um sintoma, parecia uma azia, uma queimação. Isso foi numa quarta. Só que era assim: dava queimação forte, depois quando parava para alongar, passava e eu jogava normal. Joguei assim no sábado. Na segunda, eu treinei, e a queimação ficou muito mais forte, com uma leve dor no braço. Na terça, mais forte ainda", lembra Washington.

Essa queimação não tinha nada de azia, era 90% das artérias do coração entupidas.

"Fiz um teste na esteira, com os eletrodos. Eu não corri um minuto. O médico falou: 'Para. Está tudo alterado. Sala de cirurgia'. Eu falei: 'Como assim?'. 'Sala de cirurgia agora, direto'".

Durante a operação, Washington recebeu um stent - um tubinho que abre a artéria e permite a passagem do sangue. Mais tarde, ele voltou à mesa de cirurgia para implantar outro stent, este mais indicado a quem pratica esporte de alto nível, algo que o atacante nunca pensou em deixar de lado.

"A primeira coisa que eu quis saber, depois de conhecer o problema: 'E agora? Vou voltar a jogar?'. Foi a primeira pergunta que fiz aos médicos. 'Não, calma. Vamos pensar primeiro na tua recuperação, depois vai ver o que vai se fazer'. Se criou aquela dúvida".

Em Curitiba, Washington encontrou o cardiologista Constantino Constantine, que lhe disse que havia uma pequena chance de voltar ao futebol. "Aconteça o que acontecer, eu vou atrás dessa chance. Se tem uma, é ela que eu vou aproveitar", disse o jogador na época.

Em conversa com o UOL Esporte, Washington relembrou o drama com o coração, as glórias após a recuperação e sua nova vida: o ex-jogador agora é secretário nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social, dentro do Ministério da Cidadania do governo Bolsonaro.

Jonas Oliveira/Folha Imagem Jonas Oliveira/Folha Imagem

Intervenção familiar

Washington queria voltar ao futebol, e nem mesmo a família conseguia tirar isso da cabeça dele. Preocupados com o bem-estar do atacante, fizeram uma reunião para demovê-lo da ideia. Não durou um minuto.

"Sentaram-se numa mesa, me chamaram para conversar. 'Olha, nós queremos conversar contigo, Washington. Vamos pensar na sua vida. Nós temos aqui a família que você construiu, tem agora sua filha, sua esposa, nós estamos aqui, seus pais, vamos dar apoio'", lembra ele.

"Eu falei na hora: 'para, para, para. Eu vou voltar a jogar. Se a reunião é para poder mudar a minha cabeça, acabou a reunião aqui, agora. Acabou a conversa, agora'. A reunião acabou em 30 segundos", diz, rindo.

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"Fenerbahçe me abandonou"

O problema do coração deixou uma mágoa em Washington. O atacante estava no Fenerbahçe, da Turquia, em 2002, ano em que descobriu a doença. Ele era o artilheiro do campeonato turco e uns dos melhores atacantes da Champions League. Ficou seis meses sem receber salário e voltou ao Brasil em meio a uma disputa contra o clube na Fifa.

"Quem estava no comando do Fenerbahçe na época me abandonou, achou que eu não iria mais voltar. Eu tinha um contrato de três anos e não me pagaram mais. Falaram: 'Tenta ver o que vai acontecer e segue sua vida', me disseram".

Foi o Ahtletico quem abriu as portas para o atacante e acompanhou o processo de recuperação por seis meses. Enquanto cuidava da saúde no Paraná, venceu a disputa com o Fenerbahçe na Fifa e ficou livre para seguir a vida com um novo contrato.

Em 2002, era considerado o melhor centroavante do Brasil, mas acho que influenciou eu estar na Ponte Preta. É um time grande, mas não recebe os mesmos olhares que um Corinthians, São Paulo ou Grêmio

sobre ficar fora da Copa do Mundo de 2002

sobre ficar fora da Copa do Mundo de 2002

Geraldo Bubniak/AGB/Folhapress Geraldo Bubniak/AGB/Folhapress

Petraglia se convenceu em três segundos

Washington precisou convencer Mário Celso Petraglia, então presidente do conselho deliberativo do Athletico, de que poderia voltar ao futebol. Precisava também de uma autorização para treinar nas instalações do clube. Sua tática foi simples: mostrar ao dirigente todas as lesões que sofreu na carreira.

"Precisei só de três segundos para convencê-lo. 'Presidente, quebrei a perna duas vezes e voltei a jogar. Tive diabetes e voltei a jogar. Agora do coração, tu achas que eu não vou voltar?".

O atacante não exagerou no relato das lesões. Na época do Caxias, fraturou o quinto metatarso - a mesma lesão de Neymar - durante uma arrancada em um treino. Depois, foi a vez de fraturar o tornozelo em uma partida. Mais tarde, rompeu os ligamentos do mesmo tornozelo em um jogo contra o São Luiz de Ijuí e precisou ser operado.

"Eu estava com o pé preso no chão e o zagueiro deu uma voadora. Foi o momento mais difícil para mim".

A confiança de Petraglia em Washington foi correspondida dentro de campo. Após seis meses de recuperação e dois stents, o atacante foi artilheiro do Campeonato Brasileiro de 2004, com 34 gols, na campanha que terminou com o vice-campeonato do Athletico.

Fernando Santos/Folha Imagem Fernando Santos/Folha Imagem

A morte de Serginho

O problema no coração de Washington antecedeu duas mortes que ficaram conhecidas no meio do futebol. O camaronês Marc-Vivien Foé sofreu um infarto fulminante durante partida contra a Colômbia, na Copa das Confederações de 2003. Um ano depois, no Brasil, Serginho, do São Caetano, sofreu um ataque cardíaco durante jogo contra o São Paulo e não resistiu.

A morte de Serginho fez com que Washington tivesse que acalmar o volante Alan Bahia, seu companheiro de Athletico. O meia desabou em lágrimas. Sua preocupação era que o mesmo pudesse acontecer com Washington dentro de campo.

"Foi muito marcante para mim. O Alan Bahia entrou no meu quarto, me abraçou e começou a chorar. Ele estava mais emocionado que eu. Eu ficava dizendo: 'Alan, calma, calma. Eu estou bem, estou bem'. Não me esqueço até hoje disso".

Na mesma noite, Washington recebeu o telefonema de seu cardiologista particular. "Ele falou assim: 'Washington, calma, está tudo tranquilo. O seu problema é outro. Você está sendo acompanhado, segue sua carreira".

Eu queria dar uma tranquilidade financeira para a minha família. Não sabia se um ano depois iria acontecer outro problema no coração. Recebi uma proposta irrecusável e acabei seguindo minha vida no Japão.

sobre deixar o Athletico e ir para o Tokyo Verdy

sobre deixar o Athletico e ir para o Tokyo Verdy

AFP PHOTO / ANTONIO SCORZA AFP PHOTO / ANTONIO SCORZA

O Maracanazo do Flu

Washington chegou ao Fluminense em 2008 para atuar em um time de estrelas. Ele, Conca, Dodô e Thiago Neves faziam parte de uma equipe montada com o objetivo de conquistar a Libertadores. O objetivo escapou na decisão de pênaltis contra a LDU, no Maracanã. Washington errou uma das cobranças.

"Foi uma das maiores injustiças que aconteceram no futebol. O time estava jogando o fino da bola. Foi uma tragédia do nível da seleção de 1982".

O Fluminense tirou no segundo jogo uma desvantagem de dois gols a favor dos equatorianos. Mas a equipe chegou sem pernas na disputa de pênaltis. Além de Washington, as estrelas Conca e Thiago Neves perderam suas cobranças.

"O cansaço e o stress bateram. A gente vinha de uma derrota de 4 a 2 lá no Equador. Depois que conseguimos virar, chegamos aos pênaltis muito desgastados. Além disso, os três melhores batedores perderam: eu, Conca e Thiago Neves. Quem que vai explicar isso?".

O jogo mais marcante da campanha tinha acontecido ainda nas quartas de final. Contra o São Paulo, um Maracanã lotado viu Washington marcar o terceiro gol do Fluminense aos 46 minutos do segundo tempo e garantir a classificação para a semifinal.

O cabeceio da vitória

Na minha cabeça, ainda faltavam 10 minutos para terminar o jogo. Não tinha a menor ideia de que estava no final, tanto que forcei um escanteio.

Quando o Thiago Neves foi cobrar, eu estava marcado por três zagueiros do São Paulo. 'Essa bola vai vir em mim. Ela vai ser minha, vai ser minha'.

Única coisa que fiz foi me posicionar para não me desequilibrar e poder saltar tranquilo. E foi bem o que aconteceu: saltei bem e mandei a bola no ângulo. Foi marcante!

Na comemoração, o juiz começou a me pressionar. Quando volto pro meio, vejo os jogadores pedindo para acabar, o Renato [Gaúcho] pedindo para acabar. E eu pensando: 'rapaz, tá terminando mesmo'.

Eu estava tão concentrado que perdi totalmente a noção do tempo.

Adriano Vizoni/Folha Imagem Adriano Vizoni/Folha Imagem

Pressão foi maior no São Paulo

Washington eliminou o São Paulo e no fim daquele ano assinou contrato com o time do Morumbi. A chegada do algoz não caiu bem na torcida são-paulina, e o atacante enfrentou resistência no novo clube.

"Eu cheguei lá mais cobrado que os outros. Mas isso é normal. Às vezes falam que eu não fui bem no São Paulo. Mas, pô, fiz 17 gols no Campeonato Brasileiro de 2009, atrás só do Adriano (Flamengo) e do Tardelli (Atlético-MG), que foram os artilheiros".

Washington chegou ao São Paulo no fim de um período vitorioso do clube. Com três títulos brasileiros seguidos, o time do Morumbi teve um início ruim em 2009, chegou a brigar pelo tetra, mas acabou na terceira colocação.

"O início do Brasileiro foi horrível. Mas depois o time se ajustou e começou a vencer. Foi nessa época que a torcida começou a cantar 'ah, o campeão voltou'. Só que perdemos dois jogos seguidos para Botafogo e Goiás, e o Flamengo nos passou e conquistou o título".

Coração valente, guerreiro tricolor

EFE/Marcos Michael EFE/Marcos Michael

Domou Fred e Sheik no Flu

Washington voltou ao Fluminense em meados de 2010. Com a função de revezar a posição com Fred, que sofria com lesões, o atacante marcou oito gols e viu o clube levar o título brasileiro. Mas o principal trabalho foi fora de campo.

A relação de Emerson Sheik com Fred não era das melhores, e coube a Washington controlar os nervos da dupla durante a campanha vitoriosa.

"Eu era o mais velho do time naquela época e eles me respeitavam muito. Depois, o problema dos dois ficou escancarado, mas quando eu estava lá, consegui unir os dois. Sou muito amigo de ambos, então conversava com eles: 'cara, o Fluminense está acima de tudo aqui, temos uma chance enorme de sermos campeões. Não vamos estragar por vaidade".

A crise entre os jogadores chegou ao ápice durante a campanha da Libertadores de 2011, já com Washington aposentado. Emerson Sheik foi afastado do elenco do Fluminense antes do jogo contra o Argentinos Juniors. Na saída, o atacante afirmou que tinha problemas de relacionamento com Fred, que o acusou de 'jogar uma bomba' nas Laranjeiras com a declaração.

"A situação estourou depois que eu decidi parar. Aí já não é comigo. Mas quando eu estava lá, as coisas aconteceram da melhor maneira".

Buda Mendes/Getty Images Buda Mendes/Getty Images

Governo Bolsonaro

Washington ingressou na política como vereador mais votado de Caxias do Sul em 2012. Após rápida passagem como suplente na Câmara dos Deputados, foi nomeado secretário nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social, uma pasta dentro do Ministério da Cidadania do governo Bolsonaro.

O cargo foi criado após a decisão do presidente de extinguir o Ministério do Esporte. Apoiador das ações de Bolsonaro, Washington admite ter temido um retrocesso na área com o fim da pasta.

"O esporte jamais teria que ter deixado de estar no primeiro patamar. Isso não é uma questão só nacional, não. Isso também está acontecendo nas prefeituras, estão deixando o esporte de lado. O esporte tem que estar em uma linha de frente, é um meio de transformação", diz.

"A gente já está acostumado a fazer muito com pouco no esporte. Isso desde criança. O que a gente tem que fazer? Um trabalho de mostrar que o esporte é importante. Vamos sofrer, mas aos poucos vamos colocar o esporte em seu devido lugar. A gente tem que provar que o esporte faz parte da vida das pessoas e da transformação do cidadão. Daqui a pouco, as pessoas terão a consciência e isso retoma", completa.

Aos 44 anos, Washington ainda não sabe o que fará após seu período como secretário. A única coisa que sabe é que um cargo no Executivo não é uma opção. "É muita loucura. Isso aí é coisa pra doido, maluco", brinca.

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