É tetra!

Como o UOL encontrou a faixa em homenagem a Senna, guardada por 25 anos, e outras histórias da Copa de 1994

Diego Salgado Do UOL, em São Paulo Lutz Bongarts/Bongarts/Getty Images

O Brasil estava em êxtase diante de um título mundial aguardado por 24 anos. Em meio à festa de Taffarel, Romário e companhia, oposta à lamentação de Roberto Baggio e os jogadores italianos, eis que surge uma faixa simples: "Senna... aceleramos juntos, o tetra é nosso".

O piloto brasileiro, que morreu em um acidente 78 dias antes, foi relembrado pelos jogadores brasileiros em pleno gramado do Rose Bowl, em Los Angeles, palco da final da Copa do Mundo de 1994, entre Brasil e Itália. A ideia surgiu na concentração e foi colocada em prática por Américo Faria, ex-supervisor da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

A faixa virá à tona novamente hoje (26), durante a transmissão na íntegra da Rede Globo da partida marcada pelo tetra da seleção. Além da homenagem a Senna, o título do Brasil acabou marcado por outras histórias de bastidores.

O UOL Esporte irá mostrar agora nove causos ligados à campanha do título conquistado pela seleção brasileira há quase 26 anos.

Lutz Bongarts/Bongarts/Getty Images
Acervo pessoal

Como achamos a faixa para o Senna

O Brasil vivia duas fortes expectativas esportivas no começo de 1994. Coincidentemente, ambas ligadas à possibilidade de um tetracampeonato. Nas pistas, Ayrton Senna, recém-contratado pela Williams, tricampeão de Fórmula 1 em 1988, 1990 e 1991. Nos gramados, a seleção brasileira, vencedora das Copas de 1958, 1962 e 1970.

As esperanças brasileiras chegaram até a se juntar no dia 20 de abril daquele ano. Senna visitou o vestiário da seleção brasileira e chegou a dar o pontapé inicial do amistoso contra o Paris Saint-Germain em Paris. A morte do piloto dali a 11 dias causou consternação no elenco brasileiro.

No começo de julho, garantido na final da Copa do Mundo dos Estados Unidos depois de derrotar a Suécia por 1 a 0, líderes do elenco tiveram a ideia de homenagear o piloto brasileiro caso o tetra da seleção virasse realidade. Uma faixa simples começou, então, a ser feita. "Eu fui emendando as folhas, unindo, não me lembro se foi com durex ou fita crepe", contou Américo Faria à reportagem do UOL Esporte.

Nos anos que seguiram ao tetra, ninguém viu a homenagem. No ano passado, ao buscar histórias sobre os 25 anos do título, a reportagem assistiu à comemoração com um pouco mais de calma, para ver quem tinha ficado com a faixa. As imagens da TV mostram Américo Faria com o objeto. Ao ligar para o supervisor, a surpresa: ele a guardou por todo esse tempo em sua casa no Rio de Janeiro, como mostra a foto aí em cima, em que ele segura a faixa ao lado da neta.

Shaun Botterill/Allsport/Getty Images Shaun Botterill/Allsport/Getty Images

Taffarel foi só na intuição

Taffarel não era unanimidade antes da Copa do Mundo de 1994. Suas primeiras convocações rolaram seis anos antes, quando ele foi destaque nas Olimpíadas de Seul, e passaram pela titularidade na Copa de 90. O espaço diminuiu a partir do ano seguinte, porque ele jogava pouco pelo Parma, da Itália. Em 1993, o goleiro teve falhas, ganhou o apelido de "Frangarel", eternizado pelo colunista José Simão, e até perdeu a posição para Zetti.

Foi aí que tudo mudou: o goleiro foi para o modesto Reggiana, que brigava contra o rebaixamento no Campeonato Italiano, e teve boas atuações na campanha de salvação. Voltou a ser titular da seleção. Até que, na decisão por pênaltis da final da Copa do Mundo, entrou para a história ao defender a cobrança de Daniele Massaro e deixar sua marca no tetra após o erro de Roberto Baggio.

Por atuar no futebol italiano, Taffarel não teve um estudo específico de cobranças de pênalti com o preparador de goleiros da seleção, Wendell Lucena Ramalho. Foi na intuição. O goleiro defendia na época, anos antes de se tornar preparador da seleção, que decisão de pênaltis é "uma roleta, sorte pura, não adianta o goleiro treinar muito".

Reprodução/TV Globo

Galvão quase não narrou a Copa de 94

Galvão Bueno já disse que "não teve nada mais ridículo" do que o desafinado grito "É tetra" enquanto abraçava Pelé com o braço esquerdo e era puxado por Arnaldo Cezar Coelho pela direita após a final da Copa do Mundo de 1994. Mas não dá para negar que: é uma das narrações mais famosas da história do futebol brasileiro, eternizada pela internet. Hoje, a relação é direta no imaginário popular entre o título do Brasil e a voz do narrador. É até difícil imaginar que esse grande momento da TV brasileira poderia simplesmente não ter acontecido.

O tetra seria narrado por outra pessoa na Globo caso uma aventura de Galvão Bueno tivesse dado certo: dois anos antes da Copa, ele havia pedido demissão da emissora, onde trabalhava desde 1981, para ser narrador, apresentador e diretor da Rede OM, que era do Paraná e tinha sido criada para desafiar a hegemonia do eixo Rio-São Paulo nas transmissões esportivas.

O novo canal tinha programação exibida em São Paulo pela TV Gazeta e garantiu exclusividade na transmissão de Copa Libertadores e Copa do Brasil em 1992. Um escândalo no começo de 1993, porém, culminou na rescisão de contrato de Galvão. Mesmo depois de dez meses fora da Globo, o locutor retornou como principal voz da Copa do Mundo dos Estados Unidos, com Pelé e Arnaldo Cezar Coelho em sua equipe.

Mark Leech/Offside/Getty Images Mark Leech/Offside/Getty Images

Atletas de Cristo x Turma do Fundão

Uma das características marcantes da seleção do Tetra era a união dos jogadores — ela ficou evidente a partir de agosto de 1993, quando o time subiu ao gramado do Estádio do Arruda, em Recife, de mãos dadas, como a imagem acima. Mas, apesar da imagem, havia microgrupos no elenco brasileiro. O maior deles era composto pela "Turma do Fundão". O segundo, pelos "Atletas de Cristo".

O primeiro grupo incluía jogadores como Romário, Ricardo Rocha, Branco e Dunga. O outro, Müller, Jorginho e Paulo Sérgio, entre outros. O segundo, inclusive, fazia reuniões durante as concentrações da seleção. No ônibus, os integrantes também sentavam próximos uns aos outros. Os membros da comissão técnica ocupavam os primeiros assentos. Em seguida, vinham os Atletas de Cristo. No fundo, o grupo de Romário.

Mas, para decisões importantes, as alas falavam a mesma língua. Juntos, eles decidiram "limpar" a concentração, a fim de evitar a presença de pessoas alheias ao objetivo principal, como acontecera no Mundial de 1990. Até uma caixinha foi criada. O atleta que cometesse alguma indisciplina, como atrasos, teria de pagar uma quantia em dinheiro. O valor arrecadado seria doado a uma instituição de caridade ao fim da Copa. A caixinha, no entanto, ficou vazia, pois não houve qualquer deslize.

Antônio Gaudério/Folhapress

Diz aí, Zagallo, o que cê vai fazer...

O grupo Só Pra Contrariar lançou seu primeiro disco de estúdio em 1993. Foi um sucesso, com quase 1 milhão de cópias vendidas. Alguns dos hits inesquecíveis são "Que se chama amor", "Domingo" e... "A Barata". Este último, um pagode de duplo sentido e com letra que permite ser cantada eternamente, foi um fator importante de união e descontração para os jogadores da seleção. Mais ou menos como foram "A Festa", de Ivete Sangalo, e "Deixa a Vida Me Levar", de Zeca Pagodinho, em 2002. Era o som do ônibus, da concentração e do vestiário.

"Cada um tinha uma batucada. Eles diziam: 'e aí, Zagallo, o que você vai fazer?', e na hora cada um inventava alguma coisa", diverte-se Parreira. Era uma demonstração de bom ambiente da seleção.

Embalada pelo samba da barata, a seleção brasileira ainda eternizou outra música na Copa: "Coração Verde e Amarelo", composta por Tavito e Aldir Blanc. A melodia foi criada em 1991 por Luiz Otávio de Melo Carvalho, o Tavito, para embalar os jogos do Mundial sub-20 disputado em Portugal. Depois é que virou prefixo de transmissões de jogos da seleção brasileira na TV Globo. Já a letra foi composta por Blanc após a classificação para a Copa do Mundo de 94, amplamente divulgada na programação da emissora.

O jingle marcou tanto durante o Mundial que até hoje está presente nas transmissões e ganhou variações ao longo do tempo. Mas o básico todo mundo lembra, né?

"Eu sei que vou
Vou do jeito que eu sei
De gol em gol
Com direito a replay
Eu sei que vou
Com o coração batendo a mil
É taça na raça, Brasil!".

Pisco Del Gaiso/Folha Imagem

Só uma revista era aceita pela seleção

Blindar a delegação e evitar os erros da Copa de 1990 era um dos mandamentos da seleção brasileira durante as semanas em que o grupo esteve nos Estados Unidos antes da Copa do Mundo de 1994. Para colocar a ideia em prática, algumas determinações foram criadas pelos próprios futuros tetracampeões antes da viagem.

Não haveria empresários, representantes de parceiros comerciais na concentração e até familiares. Tampouco jornais brasileiros. E isso criou um dos detalhes mais curiosos da história do Tetracampeonato do Brasil, que completa 25 anos nesta semana. Sabe qual era o único veículo de comunicação permitido entre os atletas? A revista de celebridades Caras.

"A única coisa que entrava lá era isso. Só tinha foto na revista", contou Moraci Sant'Anna, preparador físico do tetracampeonato da seleção, em entrevista ao UOL Esporte.

Folhapress

Voo da muamba

Com o dever cumprido, a seleção brasileira foi às compras em Los Angeles antes de voltar ao Brasil. Houve, digamos, um certo exagero. Para se ter uma ideia, o avião da delegação saiu do Brasil com 3,4 toneladas de bagagem e voltou com 14,4 toneladas, segundo dados oficiais.

Ao pousar no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, atletas, integrantes da comissão técnica e dirigentes conseguiram se livrar da alfândega graças a um pedido pessoal de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF.

O assunto, porém, não morreu ali. Com uma crise instalada, o voo da muamba culminou na demissão do secretário da Receita Federal Osíris Lopes Filho.

Mark Leech/Offside/Getty Images Mark Leech/Offside/Getty Images

O gol "nana nenê"

O duelo com a Holanda, válido pelas quartas de final, passou a ter o Brasil como favorito no começo do segundo tempo, depois de uma primeira etapa disputada. Com Romário, a seleção abriu o placar aos oito minutos. Bebeto, aos 18, fez 2 a 0 e protagonizou uma das comemorações mais famosas do futebol mundial.

Bebeto, ao lado de Mazinho e Romário, embalou o filho Mattheus, que havia nascido dois dias antes no Rio de Janeiro. Foi o que o atacante pôde fazer para celebrar o nascimento do segundo filho. Embora fosse um assunto pessoal, a chegada de Mattheus mexeu com o grupo da seleção. Tanto que o camisa 7 logo ganhou a companhia dos companheiros na comemoração. "Foi um momento especial e marcante. Isso marcou a gente pra caramba", contou Bebeto.

Detalhe: os três da foto tinham filhos pequenos na época. E os três bebês viraram jogadores. Mazinho é pai de Rafinha Alcântara, revelado pelo Barcelona e hoje no Celta de Vigo. Ele tinha um ano e meio no tetra. O filho de Romário, Romarinho, joga no Joinville. Ele tinha dez meses na épóca. E Mattheus, que foi embalado, fez sucesso no futebol português e hoje joga pelo Sporting.

Antônio Gaudério/Folhapress

Como Parreira se rendeu à "hora do Baixinho"

Romário acabou com o jogo contra o Uruguai nas Eliminatórias para a Copa de 1994, no Maracanã, brilhou no Mundial dos Estados Unidos e ajudou a garantir o título ao time de Parreira. O treinador revela: a decisão de ter o Baixinho de volta à seleção foi tomada dentro de um carro, no caminho de Angra dos Reis para o Rio de Janeiro.

"Eu estava em Angra, numa folga da seleção nas Eliminatórias. A bomba [da classificação para a Copa] ficou para Uruguai e Brasil na final. Vim de Angra em um domingo e o jogo era só no outro domingo. Viagem de 2h30, eu na minha cabeça matutando. Falei: 'é a hora do Baixinho'".

O atacante, então no Barcelona, da Espanha, era um dos principais jogadores do país na época, mas tinha tido problemas com o próprio Parreira durante aquelas Eliminatórias. Romário ficou no banco em amistoso diante da Alemanha em Porto Alegre e reclamou. Parreira afirma: "nunca briguei com ele". Mas demorou a chama-lo de volta para a equipe.

"O Baixinho é danado, inteligente. Nenhuma contestação [quando ele reclamou de ficar no banco]. Pensei que ele estava certo. Todos que vieram, vieram para jogar. Ninguém vem para ficar brincando. Agora, cabe ao treinador decidir quem vai começar. Eu fui com Bebeto e Careca. Romário entrou durante partida no segundo tempo, mas se criou um clima insustentável numa coisa que não era praticamente nada", explica Parreira.

Neal Simpson/EMPICS via Getty Images Neal Simpson/EMPICS via Getty Images

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