A casa do craque

Vizinhos celebram ajuda de Neymar e temem chegada da Cracolândia à rua onde ele cresceu

Adriano Wilkson Do UOL, em Praia Grande (SP) Marcelo Justo/UOL

Você precisa de R$ 150 mil pra ser vizinho da casa onde Neymar passou boa parte de sua infância. É uma casa espaçosa, de 95 metros quadrados, dois quartos (uma suíte), sala ampla, cozinha, área de serviço, garagem, quintal e piscina. Erguida na ponta de uma ruazinha na periferia de Praia Grande (SP), a casa em que Neymar morou dos oito aos 12 anos não está à venda, mas um apartamento do prédio ao lado está.

Se você comprar esse apartamento e olhar pela janela, vai ver a casa. E se você fechar os olhos e voltar no tempo, dá para imaginar Neymar, correndo no quintal do primeiro imóvel próprio de sua família, depois de anos vivendo de aluguel ou de favor. Era um tempo de alívio, mas também de medo. A humanidade se assombrava com as profecias do fim do mundo na virada do milênio. Neymar, o filho, se assombrava com as ameaças de sua mãe, que prometia furar a bola se o filho não parasse de chutá-la em suas roupas secando no varal. E Neymar, o pai, morria de medo do filho se machucar na rua.

Foi por isso que o pai construiu um campinho de areia entre os muros da casa, para o futuro craque, naquela época com oito ou nove anos, correr, driblar e cair em segurança. Na sala, o armário abrigava a TV e também uma foto. Ela mostrava Neymar, o pai, resgatado de um campo de futebol pelos bombeiros. De helicóptero. A imagem era tão impressionante que sobreviveu por 20 anos na memória de Jonathan, amigo que frequentou a casa.

O imóvel ainda pertence à família, mas hoje está inabitado. Não se sabe se em ruínas ou em reforma.

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Marcelo Justo/UOL Vista aérea da rua em que Neymar morou; a casa dele é a de muro verde, com piscina

Vista aérea da rua em que Neymar morou; a casa dele é a de muro verde, com piscina

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O vizinho Luciano Oliveira cuida da casa em que Neymar morou no Jardim Glória

O Jardim Glória em que Neymar, pai e filho, dona Nadine e a bebê Rafaela chegaram já era uma evolução em relação àquele em que dona Geni morou em 1974, quando ganhou um terreno em um sorteio da rádio Guarujá. Ela foi a primeira a se mudar para dar início à urbanização do bairro. Depois que a família do camisa 10 da seleção saiu de lá, a rua ganhou o nome de Geni Aparecida de Moura em homenagem póstuma à pioneira.

Naquela época, faltava tudo. O marido de dona Geni, Clodoberto, erguia nos quintais da vizinhança latrinas itinerantes aonde os moradores corriam para se aliviar porque não havia saneamento básico. Quando a fossa transbordava, Clodoberto desmontava o banheiro e o erguia em outro lugar. O solo era torto e seu filho, também Clodoberto, aterrava os lotes e abria valas. Nessa época, o Jardim Glória começou a ganhar ruas asfaltadas. Hoje, completamente asfaltado e com rede de água e esgoto, o neto de dona Geni, a terceira geração de Clodobertos, desliza de bicicleta.

De bicicleta, também, o pintor de carros Luciano percorre toda a extensão da rua Geni, parando apenas para alimentar a vira-lata Maloqueira, que vagueia pelas calçadas sem rumo, sonhando com uma mão solidária e talvez um afago.

Antes do asfalto chegar, os vizinhos organizavam mutirões para capinar terrenos e levantar casas. As crianças corriam para se banhar nos canais que rasgavam as ruas e a benzedeira Luzia tirava o quebrante dos recém-nascidos. Ela também consagrava carros, motos e todas as novas aquisições da comunidade. Mas um infarto fulminante levou Luzia há 15 anos, e há 15 anos o Jardim Glória convive com a falta de uma boa curandeira. É por isso que dona Maria, a Pretinha, hoje precisa sair do bairro para se proteger. Ela resmunga e pragueja quando lembra.

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Numa quinta-feira ensolarada ou numa segunda-feira chuvosa, a tranquilidade embala as manhãs na rua que viu o melhor jogador do futebol brasileiro crescer. Bem perto da casa de Neymar, uma árvore morta se mantém de pé, uma fábrica vende gelo em cubos ou triturado, e o som dos socos e chutes de uma academia de muay thai perturba apenas o descanso matutino de uma vizinha sexagenária.

No quarteirão seguinte, uma placa na casa de dona Miriam agradece a Santo Expedido por uma graça alcançada (questionada, ela prefere não revelar o milagre). E na frente dela o músico Allan Buiu, que jogava bola com Neymar, dorme profundamente depois de tocar a noite inteira com sua banda de pagode. Ele avisa que está sem tempo para bater papo porque na noite seguinte, véspera de feriado da Proclamação da República, vai tocar de novo.

As coisas nem sempre foram assim tão calmas. O Jardim Glória era uma região violenta, e os moradores até hoje se lembram dos corpos que costumavam aparecer nos canais depois de fins de semanas agitados. Os vizinhos dizem que a situação começou a mudar com a inauguração do Instituto Neymar Jr, em 2014, a algumas quadras da casa do jogador. O projeto social oferece às crianças, aos adolescentes e aos pais serviços que o Estado renega, como médico, dentista, psicólogo, atividades de esporte e lazer e cursos profissionalizantes.

Seguindo o instituto, outras empresas se instalaram no Jardim Glória. A polícia passou a fazer rondas com mais frequência e a menina Thyanna hoje circula pelo bairro uniformizada e empolgada a caminho das aulas.

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Os pais pedem apenas para as crianças evitarem uma esquina a poucos metros da casa de Neymar, um local que nos últimos anos tem sido moradia de um grupo cada vez maior de pessoas em situação de rua. Algumas recolhem lixo no bairro e vendem o material em um centro de coleta de resíduos. Com o sol a pino, algumas consomem crack.

Quando o sol baixa, algumas fazem sexo ao ar livre, segundo uma comerciante. Os moradores se horrorizam. O vizinho Luciano conta ter visto um homem montar sua barraca na calçada da casa de Neymar. Assistentes sociais dizem visitar o local com frequência. A Prefeitura diz fazer sua parte. As pessoas em situação de rua preferem não dizer nada. E a pequena Cracolândia persiste do lado da casa que um dia abrigou o jogador.

Provavelmente persistirá mesmo durante a Copa, quando o antigo morador do Jardim Glória estará no Qatar comandando a seleção em busca do hexacampeonato. Neymar nasceu em Mogi das Cruzes (SP), morou em Várzea Grande (MT), em São Vicente (SP) e, depois de sair de Praia Grande, em Santos, em Barcelona e em Paris. Em 13 anos de carreira, reuniu uma legião de fãs e outra legião de detratores, espalhados pelos quatro cantos do país e ao redor do mundo.

Em Praia Grande, uma cidade de 336 mil habitantes, continua sendo uma figura admirada, ao menos entre seus vizinhos próximos.

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Pessoas em situação de rua vivem perto da casa de Neymar na Praia Grande

Um senso de gratidão se adivinha entre as palavras. Quando os moradores mais antigos do Jardim Glória fecham os olhos e lembram do menino que correu por aquelas ruas antes de elas serem asfaltadas — antes do esgoto, da segurança, e das manhãs tranquilas, antes das crianças terem médico, dentista e aulas de inglês de graça, antes de a vida ser normal como deveria ser — eles celebram não o jogador que é a principal esperança de título da seleção brasileira na Copa, não a celebridade que frequenta tanto as páginas esportivas quanto as de fofoca, não um dos rostos mais conhecidos e um dos nomes mais comentados no país.

Eles celebram e agradecem ao homem rico que distribuiu um pouco de sua enorme riqueza com o bairro pobre onde cresceu e do qual nunca se esqueceu.

Zô Guimarães/UOL

Casa de campeão

Dentro de todo jogador consagrado existe um menino sonhador. Nesta série o UOL Esporte mostra a origem de alguns dos principais atletas da seleção a partir da história das casas onde eles moraram na infância. O Brasil vai atrás do hexacampeonato na Copa do Qatar a partir do dia 20 de novembro.

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