O coração que parou 4 vezes

Choco, o jogador de futebol que fez quatro intervenções cirúrgicas para tentar voltar a jogar futebol

Emanuel Colombari e José Edgar de Matos Do UOL, em São Paulo
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Carlos Henrique Barbosa Augusto quer justiça. Aos 30 anos, Choco, como era conhecido quando jogava como volante ou lateral em vários times ao longo da carreira, vive uma longa batalha jurídica contra o CSA. O motivo? Dolos causados por quatro intervenções cirúrgicas no coração, todas realizadas durante o período no qual defendeu o time alagoano. São mais de três anos desde a saída do clube, o último da carreira interrompida.

Choco encontrou o maior adversário no esporte durante a preparação para a temporada de 2016. O diagnóstico de uma arritmia cardíaca, tratado como "coisa simples" pelos médicos, se tornou pesadelo. Foram quatro cardioversões realizadas sob anuência do CSA, que mirava uma recuperação mais rápida para contar com lateral durante a segunda parte do ano, mais especificamente na Série D do Brasileirão.

Os processos cirúrgicos, ao invés de acelerarem a reabilitação, comprometeram Choco, atualmente proibido de atuar em alto rendimento pelos problemas cardíacos. O longo período necessário para uma possível volta aos gramados bastou para o CSA dispensá-lo. Ali, o time que abriu as portas se tornou o grande adversário da carreira.

O jogador diz ter confiado na orientação do clube ao passar pelos procedimentos e busca na Justiça uma compensação financeira pela "sacanagem feita" — palavras do próprio. Choco passou por uma perícia, que constou o agravamento da lesão em virtude da sequência de procedimentos realizados pelo CSA. O exame deveria ser suficiente para o atleta receber as verbas de indenização cobradas contra o clube.

Entretanto, segundo registro em ata de audiência, o juiz responsável pelo julgamento em primeira instância se declarou torcedor do CSA, anulou a perícia levada pela defesa e determinou a realização de um segundo exame, sem a presença do jogador. Desta forma, o CSA ganhou a causa e acabou eximido de qualquer culpa. Choco segue na batalha para anular a decisão e receber o que julga ter direito pelo risco ao qual foi exposto.

"Não tinha ciência do que era a cardioversão, mas como eu achava que era uma coisa muito simples, queria resolver. Estava envolvido ali com o clube, com o grupo. Aí fui", relata o jogador, em conversa com o UOL Esporte, que ouviu advogados, o CSA e o próprio Choco para contar a história dramática de um atleta que teve a carreira interrompida por alterações no próprio coração.

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O que é a cardioversão?

"Cardioversão pode ser feita pelo desfibrilador ou por injeção. Quando o ritmo cardíaco está acelerado ou gravemente alterado, é dado um choque com corrente contínua ou um remédio para reverter o batimento cardíaco. Ela reverte a arritmia cardíaca para o batimento normal. Se o indivíduo tem uma arritmia não letal, pode ser usada a medicação. Se não der efeito, pode se passar para o choque. Este processo é feito rotineiramente no mundo há 25, 30 anos."

Nabil Ghorayeb, especialista em cardiologia e medicina do esporte

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Diagnóstico

Choco chegou ao CSA no fim de 2015, após passagens por Passo Fundo (RS) e Juventus de Seara (SC). Reforço para a disputa do Campeonato Alagoano de 2016, o lateral tinha a promessa de que, "se as coisas dessem certo", teria o contrato renovado para a disputa da Série D do Campeonato Brasileiro.

As coisas começariam a mudar em pouco tempo. Após os exames e os primeiros treinos, o jogador recebeu o diagnóstico de uma arritmia cardíaca. "Os médicos falaram que era uma coisa simples, que não teria que me preocupar nem nada — até porque eu nunca tive nada. Eu sempre joguei em vários clubes, fiz todos os exames em todos os clubes — tanto admissional, quanto demissional — e nunca deu nada. Nesse período que apareceu, o médico falou: 'É coisa tranquila. A gente vai resolver'", diz.

Não foi tranquilo. Embora o departamento médico do clube garantisse os cuidados, Choco começou a sentir fortes tonturas — mesmo em atividades corriqueiras, como dirigindo o seu carro pelas ruas de Maceió. "Eles já tinham me informado que eu teria um problema, só que não informaram a gravidade. Eu não tinha ciência nenhuma", contou. "O médico me tranquilizou: 'Pode ficar tranquilo. Nós vamos cuidar'. Só que aí estava dando tonturas muito fortes."

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A primeira cardioversão

Choco recebeu três opções de tratamento. A primeira seria tomar um "destreino", um remédio com alta concentração de antiarrítmicos, que exigia repouso absoluto após a ingestão. Caso o problema fosse simples, como chegou a ser previsto, o coração voltaria a bater. Não deu certo.

Passados os cinco dias de repouso total, um novo exame apontou que o problema não havia se resolvido. Veio então o "segundo passo": uma cardioversão elétrica, procedimento médico que tenta acertar o ritmo cardíaco por meio de choques. A iniciativa foi acompanhada por Edvaldo Xavier, cardiologista que fazia parte do conselho deliberativo do CSA.

"Ninguém do clube estava comigo no dia. O médico, que era conselheiro do clube, fez essa parte toda de ir a hospital, encaminhou exame, adiantou uma parte que o clube não faria. (...) Tentei falar com alguém do clube e ninguém me respondeu", desabafou Choco, que diz ter acordado atordoado no momento em que decidiu ir embora de táxi.

O jogador chegou ao hospital entre 13h e 14h, tomou anestesia geral, e foi embora sozinho por volta das 19h. A chegada em casa, no entanto, não afastou os problemas — pelo contrário, o caso se tornou mais assustador para Choco e, principalmente, a mulher.

O lateral demorou a chegar em casa. O atordoamento resultado da anestesia e do processo cirúrgico ocasionou uma perda de memória que fez até Choco esquecer o endereço da própria residência. A corrida, estimada em R$ 20, terminou com R$ 70 no taxímetro. O motorista ao testemunhar o estado do jogador cobrou R$ 50.

"Eu cheguei em casa e ela (esposa) não sabia o que estava acontecendo. Cheguei passando mal. Até vomitei, estava suando frio", contou. A mulher de Choco ligou para o médico e relatou o ocorrido. A resposta? "Pode ficar tranquila, é normal".

Foram mais três dias de repouso absoluto. Um novo exame mostrou que não havia mais a arritmia cardíaca. Choco voltou aos treinos, tomando remédios para controlar os batimentos cardíacos ao longo do Campeonato Alagoano. Tudo resolvido?

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A segunda cardioversão

Não, não estava resolvido. Passado o Carnaval de 2016, em fevereiro, Choco voltou a sentir as velhas tonturas e o coração descompassado. A essa altura, já com frequencímetro para monitorar os batimentos cardíacos, o jogador se surpreendia com os números exibidos. De repouso, após treino, variava de 40 a 150 BPM em um espaço de poucos segundos.

Preocupado com a provável volta da arritmia, o jogador desta vez não avisou ao clube. Motivo: no dia 13 de março, pela nona rodada da primeira fase, o CSA teria um clássico regional contra o CRB. A ideia de esconder a informação, todavia, não deu certo. O próprio corpo de Choco respondeu ao problema.

O lateral sentiu-se mal, avisou Orlando Júnior, auxiliar do técnico Oliveira Canindé, e pediu para sair do treino. No dia seguinte, após um "recreativo", encontrou-se em uma sala com a comissão técnica, a diretoria do clube, o presidente Rafael Tenório e o médico Edvaldo Xavier. A proposta? Uma segunda cardioversão, a ser feita antes ou depois do clássico.

Choco topou e foi encaminhado na hora para o hospital, em meio à preparação para o confronto diante do maior rival do estado. Procedimento feito, o jogador recebeu medicação para antecipar o retorno, de forma a poder entrar em campo contra o CRB. E aí vieram novos problemas. Segundo o lateral, os médicos dobraram a dosagem; o jogador "apagou" e chegou dormindo no hotel.

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"Na hora em que eu acordei, eu estava me sentindo muito bem. Falei para o pessoal: 'Estou tranquilo, acho que não vai ter problema nenhum'. Só que chegou na hora do café da noite e eu passei mal. Eu tive uma sensação como se fosse um AVC. Começou a formigar o meu corpo inteiro e eu comecei a me sentir sufocado, porque a dosagem tinha sido muito forte", contou.

À noite, o zagueiro Leandro Souza, companheiro de quarto de Choco, não conseguiu dormir, tamanha a preocupação. "O negão olhava para mim: 'Choco, o que está acontecendo, cara?'. Eu falei: 'Mano, eu não estou conseguindo respirar, chama o pessoal'. Aí, ele foi chamar o pessoal que fica ali no hotel, que dorme com a gente lá, que é o massagista — não fica médico. Ele alegou o que estava acontecendo, o pessoal ficou apavorado".

As tentativas de falar com o médico foram frustradas. Choco começou a ficar apavorado, pois o corpo formigava. "Até que eu consegui vomitar. Aí, eu vomitei o banheiro todo, vomitei o quarto inteiro ali. O Leandro junto no quarto, me ajudando. Ele conseguiu falar com o médico. O médico falou: 'Pode ficar tranquilo que é normal'."

Choco arriscou, jogou e ganhou

Na manhã seguinte, já dia do clássico, Choco acordou se sentindo bem. Examinado por doutor Edvaldo, ouviu dele que a decisão de jogar era pessoal. "Você acha que não tem perigo? Eu corro risco de morte?", perguntava. O pior que poderia acontecer em campo era um desmaio decorrente das tonturas, segundo o médico.

Choco se sentiu mal, mas por causa do calor. Jogou os 90 minutos como titular na lateral direita, encerrando o jogo com uma atuação discreta e um cartão amarelo. No fim, o CSA venceu o clássico por 4 a 1.

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A terceira cardioversão

Suspenso no jogo contra o Santa Rita, em 16 de março, Choco voltou a campo quatro dias depois, quando o CSA venceu o Murici por 3 a 0 pela primeira rodada do hexagonal da segunda fase. Pouco tempo depois, a arritmia também voltou — e, com ela, a terceira cardioversão.

Antes da partida, vitória por 1 a 0 sobre o ASA em 3 de abril, o jogador novamente se sentiu mal. Examinado no hotel, ouviu do médico que aguentaria jogar pelo menos meio tempo. Decidiu, de novo, ir para o jogo; desta vez, não aguentou: Choco saiu aos 42 minutos da etapa inicial.

"Teve um lance, eu fui olhando para a bola como se eu fosse dominar no peito. A bola passou longe. Eu estava no lance junto com o jogador dos caras. Poderia ser um lance que poderia sair um gol. Eu fui para a bola como se eu fosse dominar, com o peito aberto para a dominar, e a bola passou longe e o cara foi embora com a bola. Ali eu falei: 'Nossa, eu não estou legal'. Eu vi a bola aqui, só que estava tudo turvo", relembra.

Bastou este lance para Choco concluir que não estava bem. O colega de time e zagueiro Douglas Marques percebeu e questionou o lateral, recebendo como resposta. "Mano, não estou bem".

Choco mal aguentava ficar em pé. O lateral colocou a mão no joelho, em cena que desesperou o colega, já ciente do histórico recente. Ele acabou medicado ainda no banco de reservas. No dia seguinte, passou pela terceira cardioversão. Foram mais cinco dias de repouso, sem treinos, com medicação.

O jogador ainda voltou para disputar o Alagoano até o fim. O vice-campeonato do CSA, fruto da derrota para o rival CRB na decisão, parecia interromper os problemas do jogador. Apenas parecia.

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A ablação e a dispensa

Em abril, durante as semifinais do Campeonato Alagoano contra o Murici, Choco recebeu do presidente Rafael Tenório a promessa de que seria operado para resolver sua arritmia. De fato, em 11 de maio de 2016, o clube anunciou a renovação de contrato de sete jogadores, com o lateral na lista.

Não foi a única promessa cumprida. Ainda em maio, o jogador passou por uma ablação, intervenção que tenta desabilitar impulsos elétricos responsáveis por desorientar os batimentos cardíacos.

Ao longo das semanas seguintes, viria mais um mês de repouso e a renovação de contrato para a disputa da Série D. Mas "com dez dias, eles começaram a me pressionar para voltar", conta o hoje ex-jogador. Assim, após alguns dias de descanso em São Paulo, Choco voltou a Maceió.

"Com 15 dias, eu voltei a caminhar em volta do campo. Em 15 dias, eu voltei a treinar fazendo caminhada. Na primeira semana, eu fiz caminhada um dia, no segundo dia já fizeram eu dar um trote, já começaram a acelerar o processo", conta. Em 11 de junho, o jogador sentiu o coração novamente descompassado.

Enquanto isso, o CSA estreou na Série D. Em 12 de junho, pela primeira rodada do Grupo A06, o time foi ao Piauí e perdeu para o Parnaíba por 2 a 1. No dia seguinte, após mais um exame, Choco foi submetido a mais uma cardioversão — a quarta.

Dois dias depois, a surpresa: Choco foi dispensado, sob a alegação de que sua recuperação seria muito longa após o procedimento. No entanto, mais surpreso ainda ficou o jogador ao descobrir que seu contrato, na verdade, não havia sido renovado.

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"Você é novo, pode trabalhar com outra coisa"

Ao fim do Campeonato Alagoano, Choco recebeu o contrato, assinou e devolveu ao clube. No entanto, segundo o então lateral, o CSA não deu entrada na CBF para fazer o novo registro. Desta forma, estava sem compromisso desde que o fim do torneio estadual.

Diante do aviso do clube, Choco procurou Gilmar Batista, então gerente de futebol que seria demitido no dia 15 de junho.

A promessa naquele momento era o pagamento pelos dias trabalhados, cerca de duas semanas. Choco então procurou o presidente Rafael Tenório. Seguiu-se então, segundo o relato do jogador, o seguinte diálogo:

"Presidente, o Gilmar está falando aqui que eu estou sendo mandado embora."

"Não é, Choco. Eu acho melhor você cuidar em São Paulo do seu coração."

"Mas cuidar em São Paulo como, presidente? Eu nunca tive esse problema, eu não sei o que fazer. O problema aconteceu aqui. Eu não sei, presidente, o que fazer. Eu não sei se vocês poderiam me afastar pela Caixa, eu não sei se eu poderia aposentar com esse problema, já que a arritmia voltou. Vocês estão alegando que eu não estou servindo mais para nada."

"Não, Choco. Você é novo, você pode trabalhar com outra coisa."

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Sem acordo

Aos 27 anos, Choco havia acabado de se mudar de apartamento em Maceió. Agora, estava sem clube, com três filhos pequenos e um problema cardíaco. O lateral recebeu por 14 dias de trabalho. O clube pagou a multa para romper o contrato do aluguel e ainda bancou o transporte do carro do atleta para o São Paulo.

O jogador diz ter oferecido para continuar no clube em outra função, enquanto cuidava do problema cardíaco. O clube rejeitou, e Choco procurou os próprios direitos, após tentar novo acordo com o CSA.

Em 27 de agosto, Choco esteve em Itu (SP) para assistir a Ituano 1 x 2 CSA, pelas quartas de final da Série D. Mesmo sem vínculo com a equipe, foi festejado pela torcida azulina presente ao estádio Novelli Júnior. No interior de São Paulo, alega ter sido procurado pelo advogado do clube, na tentativa de um acordo.

Uma semana depois, em 31 de outubro, Choco estava de volta a Maceió para realizar uma perícia médica. Segundo o relato do ex-jogador, a perita responsável conseguiu detectar a arritmia com poucos exames. Com o resultado, Choco foi aos tribunais na busca de que o clube reconheça a culpa pelos procedimentos e cobrar as indenizações de estabilidade.

Em audiência, chegou a passar mal. O juiz, que se revelou torcedor azulino, situação devidamente registrada pelo advogado Felipe Rino na defesa do atleta, questionou a perícia.

Um novo exame foi pedido. No entanto, Choco diz que não estava presente na nova perícia. A Justiça deu ganho de causa ao clube. O advogado do atleta entrou com um recurso, negado pelo juiz, o mesmo que se declarou torcedor do CSA.

Eu não tenho auxílio de nada, nem do clube. Do INSS, também não tive

Choco, questionado sobre o que recebe do futebol

Não tinha ciência do que era a cardioversão, mas, como eu achava que era uma coisa muito simples e queria resolver, aceitei. Já estava envolvido ali com o clube, com o grupo

Choco, sobre o motivo que o levou a se submeter aos procedimentos

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A saúde

Choco não tinha clube, mas tinha — e tem — um problema cardíaco com o qual conviver. Inicialmente, tentou se aposentar junto ao INSS. Não conseguiu. De volta a São Paulo, precisou se virar para cuidar do coração.

Primeiro, em agosto de 2016, entrou na fila do Instituto do Coração (Incor), unidade hospitalar que integra o Hospital das Clínicas da USP. A expectativa: pelo menos seis meses de espera por uma cirurgia.

Enquanto esperava, o ex-lateral foi ao São Caetano, clube que o revelou, para resolver "negócio de carteira" para tentar se aposentar. A equipe do ABC Paulista fez mais: intermediou o contato entre Choco e a equipe do cardiologista Nabil Ghorayeb, referência na esfera esportiva. Surgiu então uma data para uma consulta, e a partir dela, um acompanhamento.

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Os exames

A reportagem teve acesso a exames realizados por Choco de janeiro de 2018 a abril de 2019. Os diagnósticos apontaram fibrilação atrial (contração sem sincronia dos átrios) e flutter atrial (uma arritmia mais organizada) do tipo paroxístico (com início e término espontâneos), os dois tipos mais comuns de arritmia.

O relatório médico do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, datado de 4 de abril de 2019, registra: "Dessa forma, encontra-se contraindicada prática de atividade física de moderada-alta demanda pelo risco de descompensação clínica". Feito após nova ablação "sem sucesso", o registro informa que o coração de Choco "mantém episódios de alta resposta ventricular".

O cardiologista Nabil Ghorayeb não quis citar detalhes do caso de Choco, mas afirmou que arritmias em jogadores são comuns e, não raro, se originam justamente do esforço físico além do limite do corpo.

"São situações em que o excesso de treinamento, além do limite fisiológico, determina uma diminuição da imunidade dos atletas. Eles perdem a força para infecções. Ao contrário do que se imagina, o excesso de exercício, ao invés de ficar mais forte, você pode ficar menos forte contra viroses", explicou.

Em geral, arritmias podem ser corrigidas com a implantação de um marca-passo, que permite que a pessoa leve uma vida comum. No caso de atletas de alto rendimento, porém, a intervenção não costuma ser recomendada.

Marca-passo no coração de um atleta é outro departamento. Tem ex-jogadores que usam marca-passo aqui em São Paulo. Mas isso é uma situação muito peculiar. (...) Isso aí é totalmente um absurdo. Existem 472 atletas que praticam esporte com desfibrilador e marca-passo. Mas eles evitam esporte de contato. Uma bolada no peito pode provocar uma fratura no eletrodo e ele morrer

Nabil Ghorayeb, cardiologista que cuida de Choco (mas não entrou em detalhes sobre o caso do jogador)

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Choco Hoje

Hoje, o ex-lateral toma medicação de manhã e à noite para manter controlado o batimento cardíaco, "mas sem nenhum exercício". O contato com o esporte é como cartola: Choco é organizador de campeonatos de futsal. Ele é um dos criadores da Copa DEAAZÊ, que rende, para Choco e seus sócios, cerca de R$ 500,00 por edição — o torneio está em sua quarta edição.

"Estamos começando. Nossa intenção é ser uma copa mais organizada. Queremos dar mídia para atletas que não conseguiram ser profissionais ou pararam de jogar cedo. Pedimos ajuda para empresas da região para, assim, conseguir pagar os custos", conta o ex-jogador.

Enquanto isso, ele segue em busca do seguro, dos lucros cessantes e de todas as indenizações da qual julga ter direito. Fora dos tribunais, segue passando por cirurgias. Procurado, o CSA não respondeu a respeito do caso até a publicação da reportagem.

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