Festa e futebol

André Santos lembra as farras da vida boleira, o deslumbramento com o Fla e as lições que aprendeu no gramado

Felipe Pereira e Leandro Miranda Do UOL, em Florianópolis (SC) e São Paulo
Caio Cezar/UOL

Se tem alguém com história para contar, esse é André Santos. O ex-lateral esquerdo recebeu o UOL Esporte para um papo em Florianópolis e repassou a carreira, sem fugir de assuntos polêmicos. Teve farra com Ronaldo no Corinthians, perseguição pela polícia de Londres e prisão por dirigir a mais de 200km/h e notícias de orgia na Turquia - essa última ele garante que era "fake news".

O início no Figueirense, o treinador que mudou sua carreira, as escolhas erradas no Flamengo, a missão de tirar o time do coração da Série B, as aventuras na Europa e a decepção de ter ficado fora de uma Copa do Mundo.

"O estádio cheio, um grande jogo, aquele arrepio antes do apito inicial. Isso me faz falta. Todos os dias. Até porque eu jogo futebol há 22 anos, é mais da metade da minha vida", diz ele, que deixou o elenco do Figueirense e atualmente vive "uma transição".

André Santos pode até ter saudade do futebol, mas com o que já viveu, pode se dizer realizado.

Assista à íntegra da entrevista no canal do UOL Esporte no YouTube.

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Boleiro, jovem e rico

Depois de uma grande temporada pelo Figueirense em 2004, André Santos entrou no radar dos grandes do futebol brasileiro. Aos 21 anos, a então jovem promessa escolheu ir para o Flamengo. E, hoje admite, poderia ter aproveitado melhor a oportunidade.

O motivo? O mesmo que atrapalha tantos jovens quando chegam ao primeiro time grande da carreira: deslumbramento.

"Você começa a fazer amizade com atriz, ator, modelo, atleta, TV, Globo... Aí, você esquece até o futebol. Você prefere ir para a praia. Você fala: 'Putz, tem treino hoje? prefiro ir para a praia'".

"Na verdade, eu deslumbrei. Sabe quando você é um garoto de 20 anos e começa a receber R$ 60 mil, e antes ganhava R$ 2,5 mil e não tinha nem carro? Isso é um 'plus' na vida do atleta que você tem que tomar muito cuidado. Essa dinâmica acontece do dia para a noite na sua vida. Nem todos têm estrutura de aguentar isso".

Lição com Mário Sérgio linha dura

Quando voltou para o Figueirense em 2007, depois da passagem sem brilho pelo Fla, André Santos encontrou um novo técnico, sem paciência para indisciplina ou deslumbre. Mário Sérgio incorporou o perfil "linha dura" e, na marra, recolocou o jogador na linha.

"Sabe como ele fez? 'Pode mandar embora esse garoto André Santos. Ele está acima do peso. Ou deixa separado, que eu não vou usar ele'. Não me deixou nem apresentar. Eu falei: 'Como? Eu saí do Flamengo, eu arrebentei no Figueirense, fui pra lá, eu volto e o cara vai me mandar embora? Você é maluco?".

A diretoria brigou com o treinador para manter André no grupo, mas não teve jeito. Ele acabou mesmo treinando separado e jogando no time B. A situação fez com que o jogador se dedicasse como nunca no dia a dia. Quando voltou, foi para jogar como nunca.

Para André Santos, a postura de Mário Sérgio foi fundamental para que sua carreira voltasse ao rumo e ele tivesse a chance de jogar no Corinthians, na Europa e na seleção.A morte do ex-treinador no desastre de avião com a delegação da Chapecoense, em 2016, bateu em André como um último ensinamento.

"Foi a lição final, para que você possa dar valor para cada detalhe da sua vida, cada suor que você conquistou, cada treinamento a que fui, cada corrida na neve, cada ônibus que pegava para treinar quando comecei, embaixo de chuva".

Missão de torcedor pelo Corinthians

Nascido em Interlagos, zona sul de São Paulo, e corintiano desde pequeno, André Santos encarou sua contratação pelo Timão em 2008 como uma missão pessoal. Quando chegou, o clube estava na Série B, e o vestiário no centro de treinamento era um contêiner.

O chamado rendeu frutos. Ele foi campeão paulista invicto, ganhou a Copa do Brasil e ainda chegou à seleção. André pode acompanhar a transformação do clube do coração.

"Eu tenho isso comigo, sabia? Eu acho que tinha essa missão. Como era sempre o meu sonho de jogar no Corinthians e vestir essa camisa, eu tinha a obrigação de mostrar para mim o quanto eu queria chegar naquele lugar. Tinha obrigação de jogar não para o torcedor ou não para chegar à seleção. Eu tinha primeiro de jogar para mim".

"[A estreia] foi emocionante. Foi no Morumbi, um jogo em que, inclusive, fiz gol. O Everton (Ribeiro), que hoje joga no Flamengo, era da base do Corinthians. Ele tocou pra mim, e fiz um gol de bico. Ali, eu comecei a ver que, realmente, como jogar no Corinthians era diferente."

Ronaldo não sabe brincar

Quando Ronaldo chegou ao Corinthians em 2009, André ficou até com medo de falar com uma lenda viva do futebol. Mas, aos poucos, quebrou o gelo e acabou amigo do Fenômeno. E até presenciou o dia em que o atacante pegou pesado em uma brincadeira com os garotos Dentinho e Lulinha, que gostavam de esconder os pertences dos outros jogadores.

"A gente descia pro café, eles [Dentinho e Lulinha] pegavam a chave do nosso quarto, bagunçavam, levantavam nossa cama. Quando a gente ia voltar, depois do lanche, você quer dar aquela deitada, aquela relaxada depois da janta, chegava no quarto e estava tudo bagunçado, lençol, cama virada. Quem foi? Foram os dois moleques".

Um belo dia, Ronaldo se encheu. Juntou André, Elias, Cristian e Douglas para dar uma lição na dupla. Ligou para um de seus seguranças e pediu: "'Traz as algemas que nós vamos prender os meninos na concentração hoje."

"A gente fala que o Ronaldo não sabe brincar", comentou André.

Pegamos eles, levamos pro nosso quarto. Colocamos duas cadeiras, amarramos eles, prendemos com as algemas e batia, batia. Até na época daquele filme, Tropa de Elite, na época, o Ronaldo: 'Cala a boca'. E 'pá', batia na cara. 'Dentinho, cala a boca. Não chora'. A gente pegou aqueles pegadores de macarrão, ele sem camisa pegava o biquinho do peito dele, puxava assim. Isso era uma das diversas coisas que a gente fazia. Era uma bagunça".

Nas folgas, a gente ia pra casa do Ronaldo, virava madrugada, bebia pra caramba, curtia, fazia churrasco, fazia festa, saía para a balada. Até porque um atleta de futebol tem que ter o seu momento para tudo. Nunca deixei de fazer nada porque eu jogava futebol.

André Santos, sobre a vida ao lado de Ronaldo no Corinthians

Orgia na Turquia? Fake news!

As resenhas e farras com outros boleiros renderam uma história inusitada. Quando jogava no Fenerbahçe, em 2009, foi acusado pelo presidente e pelo técnico do clube de ter participado de uma orgia antes de um clássico e, por isso, não ter rendido em campo. Ele garante que a história é falsa, mas até hoje não sabe se o episódio contribuiu para ele ficar fora da Copa do Mundo no ano seguinte.

"Era a semana de aniversário do Lugano e a gente ia fazer uma festa, só que duas semanas antes do clássico com o Galatasaray. Nós fizemos uma festa. Saímos para beber, alugamos um lugar pra fazer uma festa e fizemos, com vários convidados. Porém eu cheguei em casa à 1h30. Fui embora com o Roberto Carlos".

"O presidente do Fenerbahce manda na cidade, manda nos lugares todos. Os caras do hotel pegaram as imagens da gente saindo do elevador, entrando, as pessoas subindo, saindo, muitos convidados, mulheres, homens, e mandaram pro presidente. O presidente falou que a gente tinha feito orgia no hotel. Ele falou: 'Se vocês não ganharem o clássico, eu vou falar na imprensa'".

Não deu outra. Galatasaray 1 x 0 Fenerbahçe. E a história da orgia saiu estampada em todos os jornais turcos.

Mano "boca suja"

André Santos é só elogios a outro técnico: Mano Menezes, com quem trabalhou no Corinthians em 2008 e 2009. Mas além de exaltar o conhecimento tático e a seriedade no trabalho, o lateral dá ênfase a outra faceta do hoje técnico do Palmeiras: os xingamentos.

"Era filho da p* pra baixo. Os piores palavrões da vida. Pra mim era o pior, porque eu jogava do lado do Mano. Só faltava ele segurar na minha camisa e me bater. "Filho da p*, volta pra tua posição". E xingava, xingava. Mas era bom, porque ele sempre falava para mim: 'Enquanto eu estiver te xingando, enquanto eu estiver pegando no teu pé é porque eu estou querendo o teu bem. A hora que eu não falar mais teu nome...'".

A preocupação do treinador acabou se traduzindo em conselhos importantes dentro de campo e uma relação de amizade.

"Nós éramos amigos e conversávamos muito. Ele me ensinou muitas coisas. Sempre fui muito ofensivo, e o Mano falava sempre: 'André, você é um lateral que não precisa ir 30 vezes na linha de fundo no jogo. Lá na frente, já tem pessoal que decide. Você é um lateral esquerdo. Estou te falando isso para você aprender quando for jogar na linha de trás, na Europa. Vai se preparando para isso. Você quer ser jogador de seleção? Se prepara para jogar na seleção'."

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Campeão, mas fora da Copa

A lateral esquerda foi uma das posições mais instáveis no ciclo da Copa de 2010, com Dunga testando vários jogadores na função. Por André Santos ter terminado a Copa das Confederações em 2009 como titular e campeão, parecia que ele estava com a vaga garantida no Mundial.

Engano. Na convocação para o torneio na África do Sul, Dunga preferiu Michel Bastos, que jogava como ponta no Lyon, e Gilberto, então na meia do Cruzeiro.

"Os dois estavam jogando de meia. Eu estava no Fenerbahçe essa época, jogando muito. O Cristian, que jogou comigo no Corinthians, estava vendo a convocação e saiu da sala chorando. 'Não pode, não pode'. Eu falei: 'Não, irmão, relaxa. Isso acontece'. Nem eu entendi".

Apesar da frustração, André garante que não guarda mágoa do tetracampeão. "Eu não sei até hoje, na verdade, o porquê. Não tive a oportunidade de perguntar pro Dunga. Ficar bravo, chateado, é uma coisa. Mágoa, não tenho. Talvez a gente tenha a oportunidade, quem sabe daqui para frente tomando uma cerveja, tomando um vinho. Falar: 'E aí, Dunga? Por que você não me levou para a Copa? Fala pra mim. Deixa eu saber para que eu possa explicar isso pras pessoas'".

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Prisão por dirigir Maserati a 209km/h ouvindo Belo

O maior apuro que André passou nos tempos de Arsenal foi ser preso por dirigir sua Maserati a 209 km/h, em 2012. Segundo o jogador, ele nem percebeu que estava acima do limite e que policiais o seguiam, já que estava com o som no último volume, ouvindo músicas recém-lançadas do cantor Belo.

"Eu estava indo para o treino. Eram 8h30, pré-estreia da Premier League, eu ia jogar de titular esse dia. Eu tinha três carros: um Range Rover, um Maserati e um Smart. Só que a polícia sempre me parava quando eu estava com a Maserati. O carro fazia aquele ronco, e a polícia me parava."

"Esse dia, eu estava ouvindo som do Belo muito alto no carro. Passei num cruzamento e tinha uma polícia, só que não falou nada. A estrada era 80 milhas por hora, e eu estava a 130 [209km/h]. E a polícia me seguindo, só que eu não tô olhando para trás. Quando chego para entrar no CT, vem dois carros na contramão, me param, e o carro que estava me seguindo chega logo em seguida. 'Go out, go out, go out'. Eu infringi a lei em sete artigos. Ultrapassagem, velocidade, coloquei em risco a vida das pessoas, fugi da polícia, estava na contramão..."

O caso foi capa do tabloide "The Sun", um dos mais conhecidos da Inglaterra.

"Fui pra delegacia, os caras me levaram no carro da polícia. Parecia bandido, dois policiais aqui dentro do carro, dois dirigindo na frente. Fiquei preso das 9h até as 18h na delegacia. Só uma cela, um negocinho de cimento, um banheirinho do lado. Fiquei lá deitado e chorava, e chorava, e chorava. Gastei 28 mil libras com advogado, tinha risco de ser preso por três anos. Acabei não sendo preso, mas fiquei sem poder dirigir por um ano."

Os "causos" no Arsenal

AP Photo/Kirsty Wigglesworth AP Photo/Kirsty Wigglesworth

Lateral camisa 11

"Sempre joguei com a 27, tenho uma tatuagem com o número 27. Foi sempre um número da sorte. Só que quando eu cheguei no Arsenal, já tinha o Gervinho com essa camisa. Ele falou: 'Poxa, não vou conseguir te dar porque é a data do aniversário da minha mãe'. Aí, eu lembro que tinha data pro meu filho nascer. O Arthur nasceu na Inglaterra no dia 11 de novembro de 2011. Eu até fiz uma tatuagem com o número 11/11/11.?

Christopher Lee /Getty Images Christopher Lee /Getty Images

Sem gana de vencer

?Não consegui ganhar título, mas fui muito feliz no Arsenal. Morando muito bem, treinando, mas no Arsenal eu não via ambição de vencer. Quando estou em um clube, eu quero levantar título, mas eu via que o Arsenal não tinha essa ambição. Eles jogavam parece que por jogar. Perdiam e estavam rindo no ônibus já. Parecia que estavam indo para o escritório. Ia ali, fazia o trabalho e voltava para casa. Não tinha aquela gana de ganhar.?

KERIM OKTEN/EFE KERIM OKTEN/EFE

O Van Parça

Robin van Persie enfureceu os torcedores do Arsenal ao sair para o Manchester United em 2012. E André Santos fez o mesmo ao trocar camisas com o ex-companheiro no intervalo de um clássico em que o Arsenal estava perdendo. "Eu não me arrependo, porque eu nunca deixei de ser amigo dele. A minha cultura é diferente da cultura dos ingleses. Não sou obrigado a estar na mesma cultura que eles".

Reprodução/Instagram Reprodução/Instagram

Embaixador de Florianópolis

As amizades que cultivou por cada clube em que passou e o espírito festeiro transformaram André Santos em um ponto de referência em Floripa, conhecida pelo circuito de boates e festas exclusivas.

Quase todo boleiro que vai passear pede dicas para o lateral. Onde alugar casa? Qual cara é "o" churrasqueiro? Onde tem peixe bom? André até brinca que deveria receber um salário da secretaria de turismo: "Seria ótimo, ainda mais depois que você para de jogar, tá sem salário..."

"Eu só vou te dar um exemplo: todo mundo é uma ilha. Ilha Florianópolis, a ilha da magia... Então, não tem como não fazer essa aproximação. As pessoas vêm para cá e acabam me procurando, o amigo do amigo dá o número do meu telefone, sempre precisa daquela resenha, aquele cara pra assar carne, onde que eu vou comprar isso, onde que eu vou comprar aquilo, em que casa eu vou ficar, em que praia eu devo ir, qual restaurante eu devo comer, onde tem um bom peixe... A gente tem esses contatos".

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