Contratação bombástica

André Hernan conta por que decidiu deixar a Globo após 18 anos e no auge da carreira

Beatriz Cesarini e Vanderlei Lima Do UOL, em São Paulo Fernando Moraes/UOL

Teve gente que o chamou de louco, e ele mesmo diz que foi um movimento ousado. André Hernan deixou o grupo Globo, seu primeiro e único emprego, após 18 anos, no melhor momento da carreira. Agora, o jornalista de 41 anos começa uma caminhada com vários desafios: ele terá um canal próprio no YouTube.

Brasileiro por acidente, como ele mesmo diz, André Hernan é filho de um casal de chilenos, que fugiu da ditadura de Augusto Pinochet nos anos 70. Segundo o jornalista, a vocação e coragem por grandes mudanças correm nas veias da família. Esse sentimento o motivou a fazer algo diferente.

"Nos últimos dois anos, eu sentia que a minha missão na televisão já estava cumprida. Eu precisava me desafiar. Eu estava entendendo que daqui um ou dois anos eu poderia cair naquilo que eu tinha mais medo na minha profissão, na minha função, que é a zona de conforto, achar que você chegou no topo, no melhor momento e que é hora de estacionar", disse o repórter.

Ao longo de sua carreira, Hernan cultivou leitores e espectadores com sua cobertura do chamado mercado da bola. Com fontes e informações em praticamente todos os clubes do país, ele revelou em primeira mão contratações bombásticas, rescisões e renovações. Agora, os papéis se inverteram: no mercado jornalístico, é ele próprio a contratação da temporada. O repórter firmou uma parceria com a NWB (Network Brasil), uma das maiores redes de canais digitais esportivos do país, responsável por comandar o "Desimpedidos", por exemplo.

Em conversa com o UOL Esporte, Hernan revisitou o passado e detalhou como foi deixar o time que defendeu por 18 anos para atuar em novos campos.

Fernando Moraes/UOL
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Acho que eu cheguei como aquele jogador que vem de uma grande negociação, contratação badalada. Eu estou me sentindo assim, acolhido. Isso só me dá mais força, mais vontade de fazer a coisa virar e tenho certeza que vai virar".

André Hernan

Assista à integra da entrevista

Libertação

Para André Hernan, a virada na carreira traz um componente fundamental: liberdade. O jornalista terá seu próprio espaço para trazer as notícias quentes do mundo do futebol, sua marca registrada, sem a necessidade de seguir um modelo rígido de uma grande rede de televisão. "Estava me sentindo um pouco preso nessa questão de formatos e tempo, no sentido de ter alguém no seu ouvido pedindo para entregar em dez segundos", explica o jornalista.

A libertação vai além da notícia. Ativo nas redes sociais, André recebeu propostas de algumas marcas para a realização de parcerias comerciais, as famosas #publis, mas teve que declinar por causa do regimento interno do grupo Globo, que não permite que jornalistas sejam remunerados para promover qualquer tipo de marca concorrente.

"Lá na Globo, por um regimento interno, cultura da empresa, eu não podia fazer esse tipo de coisa. Essa virada de chave se traduz na questão de ganhos, possibilidades. Agora eu sou uma espécie de empresa. Vou gerir minha carreira, olhando para o canal como uma empresa. Vai ser como se eu fosse meu chefe. Eu vou colocar o limite do meu horário de trabalho, da maneira com que eu vou trazer a notícia, da quantidade de notícias que eu vou trazer por dia. Eu estava me sentindo preso ao modelo de trabalho da TV, eu já não estava mais cabendo", contou André.

"Vou citar um exemplo: eu tenho uma notícia importante de um clube, mas a pauta daquela semana me mandava para outro clube. Então, eu não ia atravessar o colega que estava cobrindo aquele time, mesmo tendo a notícia. Hoje, eu vou me pautar, fazer meu próprio trabalho, meu próprio dia a dia. Essa liberdade, que consequentemente é também financeira, foi o que fez crescer a ideia de mudar", completou.

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Verdade no 1º de abril

André Hernan pediu demissão em 1º de abril, o famoso dia da mentira. Em um primeiro momento, teve gente que não acreditou na decisão do repórter. Alguns colegas de trabalho disseram que ele estava fazendo uma loucura em deixar a emissora com uma carreira tão consolidada, em ano de Copa do Mundo.

Por outro lado, os amigos mais próximos apoiaram bastante a mudança do jornalista. "É engraçado. Fui chamado de louco por alguns, mas quem me conhece, deu força. Quando eu me abria na TV, com quem tenho confiança, e falava algo nesse sentido, diziam: 'Isso é perfeito para você'. Apesar dos 41 anos, tem muita gente jovem que gosta do meu trabalho", comentou.

Fernando Moraes/UOL Fernando Moraes/UOL

"Agora vamos ter que dar crédito ao Hernan"

Quando eu me despedi da TV Globo, no meu último dia, eu recebi a ligação de um diretor lá do Rio de Janeiro, que me falou: "Em vez de assinar a matéria como sua, a gente vai ter que te dar crédito de alguma maneira". E mesmo antes de estrear, não consigo me segurar, eu continuo trabalhando, falando com as fontes e dou as notícias usando as redes sociais.

André Hernan

Lembro que o Carille estava para fechar com o Athletico-PR, eu coloquei a notícia nas redes sociais. A Nadja Mauad, competentíssima repórter da Globo no Paraná, me ligou, perguntando como poderia creditar. Eu falei: 'Deixa só como jornalista André Hernan, o canal ainda está sendo elaborado'. Aí, rolou essa. E um monte de gente da TV começou a mandar: 'Isso vai ser normal, né?'

André Hernan

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Primeiro e único emprego (até então)

André Hernan começou a trabalhar na TV Globo em 2004, após conseguir uma vaga de estagiário do Esporte. Dezoito anos anos se passaram e ainda não se esquecem da alcunha que ele ganhou logo no primeiro dia como funcionário da emissora.

"Cheguei como estagiário na Globo e a primeira pessoa que eu encontrei foi o Mauro Naves. Eu já tinha assistido a uma palestra dele no meu terceiro ano de faculdade. E eu cheguei falando com ele na intimidade. Um garoto de faculdade que viu uma palestra, vê o cara e vai conversar. O Mauro falou assim: 'Você vai trabalhar aqui com a gente e eu dei uma palestra para você ano passado? Estou ficando velho'. E me abraçou e entrou comigo na redação. Pronto, fiquei conhecido como o cara que chegou na Globo abraçado com o Mauro Naves", contou.

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Equilíbrio entre o humor e a acidez

Como todo bom estagiário, André foi conquistando espaço e crescendo na empresa até virar efetivado. Então, passou por diversas áreas: produção, edição, controle das transmissões de futebol... O jornalista conta que foi uma verdadeira escola, inclusive quando o assunto é aprender com erros.

"Quando eu tive a chance de ser repórter, comecei a fazer esporte radical: surfe, skate. Tinha um programa chamado 'Zona de Impacto' no SporTV. E o surfe e skate é diferente do futebol, não tem aquela coisa da notícia do dia a dia, tem uma pegada mais leve, mais tranquila. Com isso, eu estava quase virando um repórter engraçadinho, vamos dizer. E eu levava muita bronca do pessoal na redação", relembrou Hernan.

"Eles sabiam que eu tinha essa vontade. Como produtor eu mostrava essa coisa de notícia, de ir atrás do convidado. Trabalhei muito tempo para o Cléber Machado no 'Arena SporTV', eu trazia os convidados, puxava os caras nos jogos pela unha. Eles sabiam que eu tinha essa veia. Então, quando perceberam que eu estava indo para esse lado (engraçado), que era a oportunidade que eu estava tendo, me puxavam a orelha: 'Você fez uma matéria e está muito engraçado. Você é jornalista, é da informação'. Quando o André Rizek foi nosso chefe de reportagem, ele me deu a oportunidade de cobrir a Série B. Quando eu mergulhei no futebol, nesse mundo, foi aí que eu consegui me moldar", completou.

Foi do oito ao oitenta. André lembra que acabou com seu estilo engraçadinho e passou a ser incisivo, com perguntas que deixavam jogadores e técnicos irritados ou desconfortáveis. A bronca veio outra vez. Figurões como André Rizek, Cleber Machado, Lédio Carmona e Maurício Noriega alertaram o jornalista: "Você sabe perguntar, mas está muito raivoso. Vai ficar marcado e não vão querer falar com você".

"Eu sabia o caminho para onde queria chegar, mas não estava fazendo por estar ansioso, ser muito jovem. Gostava de ser aquele repórter espetador, mas aquilo não era saudável, não era legal. Não queria me tornar o chato. Então, fui me moldando um cara nem tão bonzinho nem tão malvado", ponderou André.

André x Valdivia

A entrevista do Valdivia é a que mais marcou nesse sentido. Eu errei ali. O Valdivia faz dois gols e dá uma assistência e a primeira pergunta que eu faço para ele: 'Terceiro cartão amarelo. Vai descansar agora para jogar na seleção chilena?'. Ele tinha forçado o cartão. Só que e se eu tivesse falado dos gols, da assistência, da torcida primeiro? E aí, veio a resposta: 'Você pensou muito nessa pergunta? O que você quer com essa pergunta?'

André Hernan

E aí veio todo mundo com o microfone. Ficou aquele duelo e todo mundo acompanhando. Outras emissoras ao vivo. Pegou fogo nas redes sociais, a torcida do Palmeiras me odiou durante muito tempo. Errei. Poderia ter esperado, feito uma ou duas perguntas antes de abordar a questão do cartão para ver o que ele falava. Ficou marcado e tirei uma grande lição. Por um tempo, até o Valdívia ficou "bicudo" comigo. Acho que hoje está tudo bem.

André Hernan

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'Casamento' com as fontes

Enquanto buscava o equilíbrio como repórter durante as entrevistas, André corria paralelamente na construção da relação com fontes e acabou virando referência em notícias de bastidores e furos. A receita desse sucesso, segundo ele, está em não tratar os contatos apenas como objetos de informações.

"Eu costumo comparar a um casamento. É como se fosse você com seu marido, mulher, no dia a dia, no agrado, no trato, na maneira de se comunicar com o carinho. Às vezes, eu ligo para uma fonte para perguntar se está tudo bem. Vejo que ele postou uma foto em família e pergunto como foi o passeio. Essa aproximação, não só pela notícia e pelo trabalho, é um diferencial. Perguntar se está bem, tomar um café e falar sobre temas fora do futebol, até para conhecer a pessoa fora da armadura de dirigente, de jogador, empresário, familiar de jogador", explicou André.

"Isso serve para entender alguns movimentos que as pessoas fazem. Eu sempre olhei para o lado de recursos humanos que, às vezes, o jornalista esquece. Às vezes, o jornalista quer notícia, apuração e esquece o lado humano. Eu sempre olhei para minhas fontes muito por esse lado humano, das relações públicas. Aí, fica mais fácil. Quando tem um assunto quente acontecendo e o cara olha o celular e vê meu nome, gera uma dúvida: 'Ele vai querer informação ou saber como eu estou?'. Então, ele atende. Eu sempre cuidei das minhas fontes como eu cuidei dos relacionamentos. E olha que estou casado há muito tempo", acrescentou

Assim que Hernan anunciou a saída da Globo, muitas dessas fontes fizeram questão de telefonar para o jornalista e desejar sucesso, além de reforçar que a relação seguirá a mesma independentemente de onde ele estiver.

Brasileiro por acidente

André costuma brincar que é "brasileiro por acidente". Seus pais Marcelo Alarcon e Sara Elvira Inostroza nasceram no Chile e se mudaram para o Brasil em 1978, após enfrentarem dificuldades financeiras durante a ditadura de Augusto Pinochet. O jornalista nasceu em São Paulo, três anos depois.

"Tinha uma irmã da minha mãe que já estava morando no Brasil e aí veio o convite. Meus pais, então, saíram praticamente sem nada, só com uma mala e vieram para o Brasil com os filhos. Entraram como turistas, depois se legalizaram com um documento permanente. Meu pai, que era ourives (artesão que trabalha com metais preciosos), começou a trabalhar na Praça da Sé", contou

"Ele começou a bater na porta de ateliês se oferecendo para trabalhar. Pegou um bico, outro, até que ele fez um trabalho para um ateliê que contratou ele. Viram o talento do meu pai para fazer joias e ele se consolidou. Fazia joias até para artistas. Eu me lembro de uma vez que ele chegou em casa e ele não conhecia direito as figuras do Brasil. E ele fez um anel para o [Luís Carlos] Miele.

Era muito famoso na época. Pouco depois, ele ficou doente e a gente perdeu meu pai. Eu era criança, meu irmão, dois anos mais velho, também era pequeno. Também tenho uma irmã, a Marcela, que é 16 anos mais velha. Aí, eu fui criado por mulheres: minha mãe e minha irmã", relembrou Hernan.

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Emprego no xerox da Cásper Líbero e bolsa na Universidade São Judas

Dona Sara e sua filha precisaram juntar os cacos para assumirem, também, o papel do senhor Marcelo na reconstrução da família em um novo país. Elas se tornaram a grande referência de André quando o assunto é resiliência, força e coragem para enfrentar os obstáculos mais difíceis.

Hernan conseguiu um emprego de office boy na Faculdade Cásper Líbero. Ele, que sonhava em ser repórter desde os 12 anos de idade, entendeu que esse seria um bom caminho para cursar jornalismo na instituição e, então, trabalhar na Gazeta, que pertence à Fundação Cásper Líbero.

O plano parecia perfeito, mas André levou um balde de água fria quando descobriu que precisava escolher entre o emprego na fotocópia da faculdade ou se tornar aluno. A rota foi recalculada e o destino final foi melhor do que ele esperava.

"Minha mãe e minha família estavam orgulhosos pelo primeiro trabalho com carteira assinada, e eu acabei optando por não me inscrever na faculdade. Eu fiquei muito frustrado. Lembro que eu chorei bastante. Eu queria muito estudar na Cásper. Eu via os comerciais e uma das propagandas era exatamente essa: era possível fazer um estágio na Gazeta Esportiva, que é no mesmo prédio. Tinha até aluno que participava dos comerciais. Eu fiquei muito chateado. Um dia, no trabalho, chateado, uma pessoa no RH perguntou se estava tudo bem. Eu expliquei o motivo que eu estava triste, e ela me disse que tinha uma novidade: Estavam fechando uma parceria com a São Judas e os funcionários da Fundação Cásper Líbero poderiam estudar lá, com bolsa de estudos. Eu vi que tinha Jornalismo e acabei indo", contou.

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"Valeu a pena me esperar na janela, né, mãe?"

André e a família moravam no bairro Jardim Helga, extremo da zona sul da cidade de São Paulo, e o campus da Universidade São Judas ficava na Mooca, zona leste. A distância entre os dois pontos é de cerca de 25 quilômetros e Hernan estudava no período noturno. Chegava em casa de madrugada, e Dona Sara, encostada na janela, se angustiava.

"Minha mãe, um dia, chegou muito séria e pediu para eu trancar a faculdade. Estava no primeiro ano. Ela disse que eu poderia construir minha carreira depois, que eu poderia até escolher outro curso: 'Você está chegando tarde, a gente fica nervoso, não sabe se você vai chegar'. Isso era 2000, 2001, não tinha Whatsapp, a comunicação não era como é hoje. Eu refleti e, no dia seguinte, no café da manhã, eu disse: 'Mãe, agradeço sua preocupação, sua vontade de me proteger, mas eu quero continuar'", relembrou.

"Minha primeira decisão profissional, ainda sem ser jornalista, foi a de continuar a faculdade. Então, antes mesmo de terminar a faculdade, já estava na TV Globo. Essa conversa virou uma brincadeira na família: 'Valeu a pena me esperar na janela, né, mãe?'. Eu olho para trás e vejo que minha primeira grande decisão foi acertada. Agora, eu tomo outra grande decisão para minha carreira ao ir para a NWB e abrir meu canal no YouTube. Espero que seja acertada", encerrou Hernan.

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