Caminho aberto

Equipe brasileira favorita nas Olimpíadas aproveita legado deixado pelos veteranos do skate no Brasil

Adriana del Ré e Marcello de Vico Colaboração para o UOL, em São Paulo Ezra Shaw/Getty Images

Na noite de hoje (24), o skate estreia em Jogos Olímpicos e o Brasil é favorito a ganhar medalhas tanto no street quanto no park. Mas os 12 atletas que vão defender as cores verde e amarelo em Tóquio também vão competir para honrar o legado de lendas do esporte.

Essas lendas ajudaram a vencer o preconceito de que o skate é um esporte para desocupados e transformaram a modalidade em um espetáculo, principalmente para a juventude. "O skate já era uma força grande antes de entrar nas Olimpíadas, mas agora tem um megafone", brinca Bob Burnquist, maior medalhista da história do X-Games e apontado como um dos maiores revolucionários do esporte.

A ideia de colocar a modalidade nas Olimpíadas surgiu ainda no início do século. O skate chegou a ficar perto de estrear nos Jogos do Rio-2016, mas ainda restavam detalhes, que, enfim, foram ajustados com o envolvimento dos atletas para o momento histórico que acontece nesta noite, a partir das 20h30 (de Brasília).

"A gente sempre acreditou que seria uma coisa boa se os skatistas tomassem conta do skate nas Olimpíadas, e não que fosse qualquer outro grupo de pessoas que não têm nada a ver com o skate e tenta controlar ou mudar alguma coisa. Com certeza perderia a essência, e, com a gente cuidando, conseguimos manter o skate da forma como ele sempre foi", aponta Sandro Dias, o Mineirinho, outro ícone do esporte no Brasil.

Ezra Shaw/Getty Images

"Taxavam a gente como marginais"

Até os anos 90, as meninas eram super mal-vindas em qualquer espaço de skate. Criança nem pensar. Um pai ia largar uma menina numa pista? De jeito nenhum. Então, as meninas que estavam ali tinham um nível de coragem que, a cada vez que olho pra trás, mais eu entendo e percebo que treino você adquire, mas coragem e personalidade ou você tem ou você não tem.

Karen Jonz, pioneira do skate feminino no Brasil

Buda Mendes/Getty Images

Bom para todo mundo

Esporte já consolidado, o skate deve ganhar ainda mais visibilidade ao fazer sua estreia olímpica em Tóquio e, consequentemente, movimentar o mercado e atrair a atenção de empresas e marcas patrocinadoras. Para o skatista Bob Burnquist, a inclusão do esporte nos Jogos Olímpicos é mais uma conquista do megaevento esportivo do que o contrário.

"Mas vejo como uma oportunidade para o skate crescer. Essa empolgação olímpica faz com que instituições, governos, grandes marcas, parceiros queiram investir numa pista de skate, porque é um esporte olímpico. O esporte vai ganhar muito com isso. Já está ganhando", avalia Bob. "Tem empresas grandes já no skate? Tem. Mas agora, terá mais e mais."

O skatista projeta um boom nesse segmento, com a construção de pistas e a inauguração de lojas do ramo. "É um movimento no mercado que é legal, isso é bom", diz. Além disso, amplia o público. "Antes, o pai falava: 'não, filho, você não vai andar de skate, vai ser médico. Skate, não'. Hoje já é 'skate, sim', porque tem ídolos, tem bons exemplos, é olímpico. Sempre quando cai nisso, acho que é onde alcança o outro lado da ponte."

A gente já tem reconhecimento, não precisa de uma chancela olímpica pra falar: agora é legal. Não, sempre foi legal, vocês que descobriram agora.

Bob Burnquist

Sean M. Haffey/Getty Images

Novo público

O skatista Sandro Dias, o Mineirinho, acredita que as disputas de skate nos Jogos de Tóquio vão surpreender quem não esteja atualizado com as novidades do mundo dos esportes. E de forma positiva. "Para as Olimpíadas, vai ser uma coisa bacana, vai acabar rejuvenescendo o evento. Não desmerecendo nenhum esporte que tem lá dentro, até porque gosto de praticar qualquer esporte. Mas colocar diferentes esportes mais habituais, individuais...", observa.

"Você vai em qualquer lugar na rua e vê um moleque com um skate na mão. Colocar esse tipo de esporte que acaba identificando esse novo público vai ser muito legal."

Para Sérgio Negão, skatista da modalidade vertical com carreira mais extensa no Brasil, a inclusão da modalidade nas Olimpíadas é o que faltava para o skate ser reconhecido mundialmente em alguns lugares que ainda não conhecem a prática. "Para o skate, isso vai ser a cereja do bolo."

Ele também acredita em uma maior projeção do esporte. "Sendo o skate o segundo esporte mais praticado no Brasil, acho que vai levar mais gente a praticar. Quem ainda não conhece o skate vai participar mais de associações, federações... Acho que o plano social é levar cada vez mais uma integração."

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Preocupação com as crianças

A inclusão do skate fez com que as Olimpíadas recebessem muitos atletas que ainda são crianças. Caso da brasileira Rayssa Leal, de 13 anos, que precisou viajar a Tóquio com a mãe. A precocidade preocupa uma das pioneiras do skate no Brasil, Karen Jonz.

"Acho Rayssa Leal e Sky Brown maravilhosas, nível técnico muito alto. Apenas me preocupo com o psicológico delas a longo prazo. Acho pesado esporte com criança e o nível de pressão, responsabilidade e exposição em idade tão nova", diz Karen.

A skatista diz que, há alguns anos, observa um movimento dos pais de crianças-troféu ­—que vão no embalo de algo que está em evidência e pode proporcionar títulos.

"Com certeza, elas são super inspiração, rola essa identificação de ver as meninas mais novas, mas quando você fala em Olimpíada, o maior evento esportivo do mundo, em que está todo mundo de olho e todo mundo querendo que o Brasil traga uma medalha, é uma pressão tão absurda para uma criança. Eu como mãe acho que ficaria desesperada e talvez não concordasse. É difícil. Acho que é um tema para ser debatido para as próximas Olimpíadas", completa.

O que esperar do Brasil em Tóquio

Divulgação Divulgação

O Brasil chega forte para a sua primeira Olimpíada, especialmente na modalidade street, na categoria feminina. Leticia Bufoni, 28 anos, Pâmela Rosa, 22, e Rayssa Leal, de apenas 13, têm a chance de fazer pela primeira vez na história olímpica um pódio 100% brasileiro.

"Se der tudo certo, a gente traz três. Se der tudo errado, a gente traz duas [risos]. É impossível dar errado, errado e errado e não trazer nenhuma", brinca Mineirinho. "Vejo quase como impossível não trazer nenhuma no street feminino. A gente fala que é o mais garantido se você analisar nível técnico, performance... É o que a gente mais tem chances reais", diz.

Bob Burnquist assina embaixo: "Há possibilidade de um pódio triplo, independentemente de quem ocupa cada lugar. A Rayssa é uma garota de 13 anos que vem crescendo, competindo com as mulheres e tendo um skate poderoso e feliz. É nosso orgulho, como skate nacional, estar ali com favoritismo. Nas outras modalidades, também temos chance".

Quem representa o Brasil na Olimpíada

  • Dora Varella

    19 anos

    Imagem: Divulgação
  • Felipe Gustavo

    30 anos

    Imagem: Gaspar Nobrega/COB
  • Giovanni Vianna

    20 anos

    Imagem: Divulgação
  • Isadora Pacheco

    16 anos

    Imagem: Júlio Detefon / Divulgacao
  • Kelvin Hoefler

    28 anos

    Imagem: Divulgação
  • Letícia Bufoni

    28 anos

    Imagem: Ashley Barker/Red Bull Content Pool
  • Luiz Francisco

    21 anos

    Imagem: Alexandre Schneider/Getty Images
  • Pâmela Rosa

    22 anos

    Imagem: divulgação / TNT
  • Pedro Barros

    26 anos

    Imagem: Divulgação/CBS
  • Pedro Quintas

    19 anos

    Imagem: Divulgação
  • Rayssa Leal

    13 anos

    Imagem: Gaspar Nóbrega/COB
  • Yndiara Asp

    23 anops

    Imagem: Reprodução/Instagram
Robert Gauthier/Los Angeles Times via Getty Images Robert Gauthier/Los Angeles Times via Getty Images
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