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Bioeconomia usa saberes indígenas na exploração sustentável da Amazônia

A mestra da medicina tradicional indígena Tati Peppe Macuxi Imagem: Divulgação/Karine Fotografia

Rudja Santos

Colaboração para Ecoa, de Macapá

15/04/2024 04h00

Considerada uma estratégia crucial para a proteção da Amazônia, a bioeconomia indígena é uma forma sustentável de exploração da floresta baseada no conhecimento de comunidades que vivem em equilíbrio com o ambiente há gerações.

Mas, para Tairene Santos, índigena Karipuna da Aldeia do Manga no Amapá, a bioeconomia é mais que um conceito econômico inovador. É um modo de vida que respeita e preserva a natureza, enquanto promove o desenvolvimento sustentável das comunidades locais. Tudo isso redefinindo a relação entre os saberes da floresta e a modernidade.

Para nós, a bioeconomia é o aproveitamento de tudo que a natureza nos oferece de bom. Tairene Santos, índigena Karipuna

Com técnicas ancestrais, as comunidades extraem da natureza o necessário para sua subsistência, protegendo e regenerando a floresta para garantir sua preservação para as futuras gerações.

Tairene Santos, índigena Karipuna Imagem: Arquivo Pessoal

O artesanato indígena é um exemplo poderoso desta atividade, destacando a íntima conexão entre os povos da floresta e seu ambiente. "O artesanato é vital para nossa aldeia, não apenas como fonte de renda, mas como expressão de identidade e transmissão de saberes ancestrais. Desde pimentas e açaí até cerâmicas e pinturas corporais, os produtos indígenas representam uma tradição viva e pulsante, conectando profundamente as comunidades às suas raízes", explica Tairene.

Além de artesã e artista, ela gerencia a loja Empório Uasei, que conta com produtos das etnias Palikur, Galibimaruor, Kali'na e Karipuna da região norte do estado do Amapá.

Essa abordagem emerge como estratégia crucial para impulsionar o desenvolvimento sustentável na Amazônia, beneficiando tanto as pessoas quanto o meio ambiente. O estudo "Bioeconomia indígena: saberes ancestrais e tecnologias sociais", liderado pelos antropólogos indígenas Braulina Baniwa e Francisco Apurinã, destaca a importância do território na visão de mundo dos povos indígenas, enfatizando práticas como a produção e comercialização de café, cogumelos, pimenta e artesanatos tradicionais, que garantem segurança alimentar, geram renda e contribuem para a preservação ambiental.

Reconhecendo a importância dos conhecimentos ancestrais, os pesquisadores defendem maior protagonismo dos povos indígenas na definição de políticas e estratégias relacionadas à bioeconomia.

A bioeconomia representa "a economia da floresta em pé, da sociobiodiversidade amazônica", diz Marcelino Carneiro, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), no Amapá.

Bioeconomia fortalece a conservação

Essa abordagem holística valoriza não apenas os produtos da floresta, mas também as comunidades que dela dependem, priorizando a conservação dos ecossistemas e o bem-estar das populações locais em vez do lucro imediato.

Soluções inovadoras como a plataforma Infobee e o aplicativo Manejatech-açaí, frutos da colaboração entre a Embrapa e pesquisadores, emergem como ferramentas promissoras no contexto da bioeconomia indígena.

O Infobee oferece informações sobre apicultura e meliponicultura, capacitando as comunidades indígenas com orientações técnicas valiosas.

Já o Manejatech-açaí facilita o manejo sustentável dos açaizais nativos, registrando dados sobre produção e comercialização, contribuindo para a preservação dos recursos naturais e fortalecendo a economia local.

Esses aplicativos demonstram como a integração entre inovação tecnológica e práticas ancestrais impulsiona uma bioeconomia sustentável na Amazônia, reconhecendo a importância do conhecimento tradicional para a sustentabilidade regional.

Guardiões da sustentabilidade na Amazônia

A colaboração entre conhecimento científico e tradicional pode ser a chave para garantir o desenvolvimento econômico e social da região, ao mesmo tempo em que se preserva a rica biodiversidade e valoriza as culturas ancestrais.

A mestra da medicina tradicional indígena Tati Peppe Macuxi, da OMIR (Organização das Mulheres Indígenas de Roraima), destaca a profunda conexão entre os elementos naturais e a vida humana, enfatizando que esse conhecimento é uma herança valiosa transmitida de geração em geração. "São experiências vivenciadas e compartilhadas no nosso dia a dia que alimentam a nossa prática de como fazer e conhecer a diversidade e funcionalidade de cada espécie de flora e fauna com a qual convivemos", diz.

Ela explica que, a partir dessas experiências compartilhadas, surgem as necessidades de uso para fortalecer corpo e espírito, levando à criação de produtos fitoterápicos com base em elementos da floresta amazônica. Tati utiliza uma variedade de produtos, incluindo copaíba, jatobá e angico, para criar seus próprios produtos.

Apesar da simplicidade do processo, os indígenas enfrentam dificuldades para acessar políticas públicas devido à burocracia. Carneiro, pesquisador da Embrapa, destaca a importância de políticas participativas e inclusivas que considerem as demandas reais das comunidades indígenas. Ele enfatiza que é necessário criar políticas, programas e projetos mais participativos, desde o planejamento, ouvindo as demandas e experiências das comunidades. "O conhecimento que eles têm do território, dos produtos florestais, das áreas com maior potencial produtivo, de como fazer o manejo e respeitar a floresta para que não haja grandes impactos é essencial para o fortalecimento da bioeconomia inclusiva", diz.

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